Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

Kashrut – prática ou controle

Nunca, como nesta virada para o século XXI, encontramos compromisso e discernimento tão polarizados. O fundamentalismo e o laicismo são inegavelmente as duas forças mais pujantes de nossos tempos. A ausência de síntese não nos leva a ser dois povos, dois grupos, mas a ser nenhum.

 

Kashrut – prática ou controle

Há algum tempo inauguramos uma feira de produtos sem agrotóxicos como forma de afirmar nossa crença numa observância viva das leis dietéticas judaicas. É claro que kashrut continua sendo a coletânea de leis cuja função além de ritual indica também, em algum momento, uma preocupação com a saúde. Sabemos disso não pelo exemplo que comumente vemos utilizado para demonstrar tal ideia: a “carne de porco”. Embora esse tipo de carne transmita doenças, ela não é privilegiada como uma proibição na Israel antiga. Ela é sem dúvida uma das carnes proibidas pela kashrut, mas sua fama só surgiu por ser uma fonte primária de alimentação na Europa. Foi esse aspecto de segregação entre os judeus e a população em geral que lhe conferiu sua fama.

Sabemos, no entanto, da preocupação com a saúde na kashrut por conta de alguns detalhes, tal como o desejo de se evitar a ingestão de sangue animal. A crença de que o sangue continha a alma e a personalidade do animal fazia temer-se que por sua ingestão um indivíduo adquirisse suas características. Havia uma preocupação, por assim dizer, que não era ritualística somente, mas visava preservar a integridade do corpo-espírito, ou seja, da saúde.

Essa preocupação parece ter-se perdido com o tempo. Os rabinos buscaram atualizá-la, mas seu conhecimento “científico” diferia muito pouco daquele disponível em tempos bíblicos e as adaptações foram relativamente pequenas. Porém a evolução nos últimos séculos foi impressionante. E a pergunta vale: não deveríamos estar atualizando a kashrut?

Acredito que sim. Há um importante movimento nos Estados Unidos, conhecido como Eco-kashrut, que se propõe a ampliar as leis dietéticas judaicas de sorte a proibir, por exemplo, a ingestão de substâncias cancerígenas, híbridos transgênicos e agrotóxicos.

Mas não acho que essa atualização deva parar por aí. A kashrut tem se tornado cada vez mais um elemento deliberado de controle e segregação. Comer diferenciado tem “permitido” ao judeu observante não se misturar com outros povos. Esta talvez tenha sido uma estratégia vitoriosa quando a nação judaica se achava ameaçada pelas culturas vizinhas no passado. Hoje, no entanto, essa estratégia é arcaica diante da cidadania e da base universalizante da cultura ocidental. Para as comunidades fora de Israel, é necessária uma tradição dietética que preserve nossa identidade, mas que não seja um mecanismo para a segregação. A identidade terá que se preservar sem lançar mão desse “recurso”.

Segregar significa ter que se privar de comer na casa de amigos judeus ou não judeus. Significa não comer em restaurantes e viver uma vida distanciada da sociedade da qual se faz parte. Acredito que preservar a tradição e não consumir qualquer produto proibido, mantendo as leis de não se misturar leite e carne, são fundamentais para essa identidade. Mas a própria identidade se enfraquece quando usada para um comportamento defendido e inseguro. Se a kashrut serve para este fim, então ela carrega algo de anacrônico. Um anacronismo que é culpa nossa – desta e de algumas gerações do passado.

Observemos alguns aspectos desse descuido que são perceptíveis a olho nu. Os açougues são muitas vezes malcuidados e insalubres. Os produtos que tentam imitar produtos de leite ou os que tentam imitar carne (os equivalentes a “elevadores” de Shabat da kashrut) são extremamente artificiais e nocivos à saúde, mas possuem selos de supervisão rabínica. Corantes, substâncias com taxas de colesterol absurdas e cancerígenos recebem aprovação rabínica para deleite de antissemitas. Isto sem falar das questões morais relativas a preços e ganhos. Enfim, não há qualquer olhar de discernimento além do compromisso da mitzvá e me pergunto se a observamos corretamente. Estamos à espera de restaurantes e lojas de produtos kasher que, além de seguir a bula das recomendações rabínicas, zelem pela saúde e limpeza de seus produtos. Infelizmente, os rabinos de hoje não têm a mesma preocupação como os do passado para que os alimentos kasher representem o mais cuidadoso processo disponível para ofertar alimentos próprios ao consumo. Há algo não muito kasher no cuidado com a kashrut e com a exploração econômica que dela se faz.

Outra pergunta importante é se estamos fazendo uso da kashrut como instrumento para ampliar “controle”. Há o perigo de idolatrarmos a forma, perdendo contato com seu conteúdo. Onde estão os profetas do passado que não denunciam esse risco? Para muitos, a kashrut se tornou um vício de eleição. Vejo às vezes em aviões um certo orgulho no olhar daqueles que se servem de refeições kasher. São diferentes não só porque o são, mas se alimentam desta diferença com um prazer que não parece em si muito kasher. Já ouvi falar de pessoas nos Estados Unidos que praticam um “Treif Day”, um dia em que se propõem desrespeitar as leis dietéticas propositalmente como uma prática para não se sentirem tão orgulhosas e virtuosas. Não devemos transformar nossos hábitos em formas hipócritas para nos sentirmos mais puros do que os outros.

Um dos maiores méritos do judaísmo é ter sempre um elemento subversivo plantado no seio de tudo o que pareça absoluto e dogmático. As leis de proibições de trabalho do Shabat, dizem os sábios, se sustentam por um fio de cabelo; a figura do Messias possui um pedigree familiar bastante irregular; e mesmo nossa noção de “eleição” tem que se sustentar a partir de uma origem comum com os outros povos, através de Adão e Eva.

A kashrut, no entanto, traz em si uma santa subversão. Nossas cozinhas separadas para leite e carne, nossos talheres separados e nossas regras para o intervalo de comer produtos de carne e leite – tudo isso se baseia no mandamento de “não cozinharás o cabrito (be-chalav imo) no leite de sua mãe” (Êxodo 23:19 e 34:26). Porém esta vocalização de ch-l-v como sendo chalav já foi posta em dúvida por importantes estudiosos. É que a Torá não é vocalizada e faria até mais sentido ler-se be-chelev imo, ou seja, na gordura de sua mãe. Não é claro que as pessoas usassem o leite para cozer da mesma forma que usavam gordura animal para fazê-lo.

Que os compromissos se sustentem por fios de cabelo não é problema, talvez seja esta a fonte de beleza desse incrível telefone-sem-fio que é a linguagem. Mas o discernimento inerente no compromisso, este não pode existir seguro por fios de cabelo.

Preservar a linguagem junto com as ideias é uma arte difícil em nossos tempos. Hoje as linguagens criam suas próprias ideias e as ideias suas próprias linguagens. Talvez não seja por acaso que o verbo que melhor expresse o cumprir das mitzvot seja “observar”. Há algo de contemplativo na missão de juntar compromissos e discernimentos.