Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
Sobre segurança
Toda revelação é mágica e frustrante ao mesmo tempo. Enquanto abre possibilidades, também ameaça o mistério. Sempre achei que o projeto genoma não apenas mapearia o corpo humano como inauguraria a discussão científica sobre a “alma”. Sobre princípios que regem e governam o “barro”; que interagem com o “barro”, mas que não são o barro. Princípios que não nos fazem em nada mais importantes cosmicamente do que o rato ou a bactéria, mas que respondem pelo fato de a bactéria e o rato não conhecerem seu genoma face a face. Pelo fato de que não podem enxergar e compreender sequer as costas da Criação (e quando passar minha glória.., e verás minhas costas, mas o meu rosto não será visto).
O mapeamento do genoma humano é uma conquista biológica semelhante à conquista física de Newton. A “relatividade” que irá surgir nos próximos tempos, como sempre, nos fará sair das descobertas com mais mistério, e não menos. Obviamente que ficamos mais poderosos e que muitas “conquistas” serão empreendidas com esses avanços. Afinal, “conquistar” o jardim e tornar-se responsável por sua manutenção é uma proposta do Gênesis.
Acredito que quanto mais o “barro” humano se parecer ao “barro” de qualquer outra espécie, mais se fortalece a proposta bíblica. Quanto menos pudermos explicar, por conta das estruturas, as diferenças; quanto mais existirem princípios e interações que regem as diferenças, mais próximos estaremos da concepção bíblica. A ponto de, quem sabe, um dia descobrirmos que o que nos faz humano e não um rato não é o corpo, mas a capacidade não só de obedecer a desígnios de nossa natureza, mas, principalmente, de transgredi-los. Foi este livre-arbítrio que inaugurou Eva e Adão como matrizes do que somos e que nos pôs em diálogo com a Criação e o Criador. Diferença essa que nos faz ler os livros – seja os do genoma ou os da Bíblia.
Sobre segurança A questão da segurança é uma preocupação crescente nas grandes cidades em nosso país. Isso levou as elites brasileiras a vasculhar o mundo em busca de soluções eficazes e criativas. A contribuição “judaica” tem ficado por conta das engenhocas produzidas pela indústria israelense e dos serviços oferecidos por egressos do Mossad. Estes últimos adaptaram sua expertise à verdadeira guerrilha urbana que travamos nas ruas e no cotidiano de nossas vidas.
Esquecemos, no entanto, que existem dois modelos judaicos que abordam a questão da segurança e que falam legitimamente pela tradição. Refiro-me às duas estruturas de coberturas existentes na tradição judaica – a suká e a chupá. Uma fala metafórica e metafisicamente da relação do ser humano com D’us (ben-adam la-makom); a segunda da relação entre seres humanos (ben-adam lechaveró).
A suká é uma estrutura que deve ter paredes definidas mas cuja cobertura deve ser frágil e permitir que através dela se vejam as estrelas do céu e os raios do sol. A chupá, por sua vez, não pode ter paredes definidas mas sua cobertura é compacta.
A suká representa a relação com o Criador e a percepção de que a sobrevivência não advém de estruturas rígidas, mas de uma flexibilidade que nada tem de frágil. Como se numa história às avessas dos “Três porquinhos”, a casa que cai com o sopro do lobo é justamente a que é rígida. A suká permite a passagem do sopro; tomba para um lado e para outro e se apruma novamente. A mensagem metafísica de sua cobertura só agora começa a ser compreendida com os novos avanços científicos. Sobre nós se estende uma enorme suká de ar, uma atmosfera que é cobertura e é permeável ao mesmo tempo. O Criador faz com que sobre nossas cabeças coletivamente haja um filtro e que suas qualidades de conter e permear sejam apropriadas – caso permeie demais, essa suká (sem ozônio, por exemplo) não é kasher; caso retenha demais, essa suká (efeito estufa, por exemplo) não é kasher.
A mensagem é clara: a segurança advém do equilíbrio que aparenta ser frágil mas que é, na verdade, fértil e viril. O bunker, por mais profundo que seja, não protege. Sua cobertura rígida não é simbólica de proteção, mas de desequilíbrio e precariedade. A segurança advém da maneira pela qual definimos nossas paredes. Se nossas paredes não incluem todos os que devem incluir, então a suká da qual falamos não possui o tamanho mínimo para ser kasher. Definir as paredes e o que estas incluem tem relação direta com a capacidade da cobertura representar um equilíbrio apropriado.
A chupá, por sua vez, depende de um teto rígido. Ela simboliza uma intimidade que, na esfera do indivíduo, necessita de uma certa densidade para poder definir e caracterizar. Não há relação humana que suporte a não presença ou a indiferença do amante, do amigo ou do concidadão. É preciso um teto para representar os compromissos produzidos pelo encontro de um “eu” com um “tu”. No entanto, a segurança do amor ou da amizade definida por essa cobertura só é possível sem paredes. Na liberdade e na possibilidade de crescimento do outro, no livre acesso para além dessa cobertura, é que há segurança em termos humanos. Mesmo a paz entre dois indivíduos não se faz de um teto, de um acordo. É fundamental que as paredes sejam abertas. Quanto mais paredes, mais inveja e mais desconfiança. Na verdade, só existe um teto rígido e compacto sobre a cabeça quando é possível a inexistência de paredes. O teto se faz sólido por aquilo que ele não exclui.
A lição é clara: a segurança é uma relação. O que nos preserva na natureza é uma relação entre as graças que permitem a vida e a diversidade daqueles que incluímos como parceiros para delas compartilhar. O ecossistema e sua diversidade mínima representam o perímetro para que o teto da suká possa nos suprir a segurança necessária. O que nos preserva em sociedade, por outro lado, é uma relação de chupá entre os nossos compromissos e as nossas liberdades. O vazio das paredes laterais é o requisito mínimo para que a cobertura tenha uma solidez que represente segurança.