Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

Genoma e Cabala

Com o anúncio do primeiro rascunho do genoma humano, tanto os cientistas como os líderes políticos vêm evocando uma metáfora bastante mais antiga do que talvez percebam. Se estivermos descobrindo as letras com que D’us forjou a vida, se estivermos no início de montar palavras e descobrir a Realidade como composta de um texto, então estamos lidando não apenas com mistérios do futuro, mas também do passado. Há alguns milênios a tradição mística dos hebreus, mais conhecida como a Cabala, preconizou ter sido o Universo criado a partir de letras. A combinação dessas letras criou tudo o que é diferenciado em nosso Universo até os dias de hoje.

A metáfora de um livro, um manual, que contivesse em si as plantas do projeto da Criação foi a moldura sob a qual o texto bíblico foi reverenciado. Estudar as frases e seus significados passou a ser um trabalho constante dos comentaristas, tal como hoje a metáfora fala da ciência recolhendo as frases da natureza como suas manifestações e afirmações. Os comentaristas tentavam compreender os diversos ângulos pelos quais as frases poderiam ser entendidas. Tal como nossa ciência precisou analisar dados sob várias óticas, seja da sociologia, da antropologia ou da psicologia, antes de atestar significados “biológicos”, os comentaristas buscaram entre as alusões e as metáforas uma forma mais aproximada de uma leitura verdadeira do que simplesmente através do literal. Mas coube aos “cabalistas” o estudo não tanto das frases, mas das palavras e das letras.

Como um geneticista do texto, o cabalista se dedicava a entender a montagem das palavras percebendo a especificidade das letras que as construíram. A tentativa de montar um “genoma” do texto bíblico, mapeando todas as letras e oferecendo à humanidade este código decifrado, permitiria progressos humanos incalculáveis. Os tempos messiânicos se fariam possíveis através dessa “chave” que destrancaria a porta que separa Criador e criatura colocando-os frente a frente. Mas, como diz o ditado em iídiche, “o homem pensa e D’us ri”. Os cabalistas acabaram fazendo uma descoberta impressionante e que talvez valesse a pena chegar até os nossos cientistas.

Uma vez feito o “mapa”, chega-se a uma profunda compreensão de caráter frustrante. O texto não está escrito apenas com as letras.

Os cabalistas chamaram isso de “fogo branco” e “fogo negro”. O fogo negro teria sido o fogo que escreveu o texto feito de letras em tinta no pergaminho. No entanto, o fogo branco escreveu todo o entorno de cada letra em branco. Sem o branco que circunda as letras em negro, elas não seriam perceptíveis, nem sequer se prestariam a uma leitura. Em outras palavras, o mapa não é apenas constituído do que está escrito, mas, também e principalmente, do que não está escrito.

O momento é, sem dúvida alguma, para grande celebração e regozijo. Muito se fará com o “mapa” que se desenha em nossa geração. No entanto, vamos aguardar os avanços que estão por vir porque serão tão reveladores de segredos quanto da oportunidade de reencontro com uma humildade que às vezes nos escapa. Por que cada palavra terá sido composta da forma que foi? Porque todas as outras infinitas possibilidades foram preteridas por esta que se fez manifesta, criada. Esse princípio ordenador do que é, diante de tudo mais que poderia ter sido, não é matéria superficial. É a própria “razão” de as palavras serem lidas da forma que se leem e das frases serem manifestas da maneira que se manifestam.

Podemos ler um texto sem conhecer seu autor. Mas pense no seu autor favorito, no seu mestre da escrita. Perceba que podemos todos usufruir da obra e por ela sermos impactados. Mas quando se trata de analisar tal obra, pergunte-se a que nível de profundidade se pode chegar sem conhecer a história do autor, o seu mundo, e a razão de ter escrito o que escreveu entre tudo que poderia ter escrito.