Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
MEDITAÇÕES POLÍTICO-EXISTENCIAIS 1 Bernardo Sorj
Meditações político-existenciais 1
Bernardo Sorj
Judaísmo e religião
Judaísmo secular
Como é possível ser agnóstico ou ateu e judeu ao mesmo tempo? Esta pergunta, que ouço repetidamente, supõe que o judaísmo se reduz a uma religião. Explico então que o judaísmo inclui uma tradição religiosa com uma diversidade de correntes, mas que a partir do início dos tempos modernos ele se diversificou, criando versões seculares ou mesmo militantemente ateias que o transformaram em algo que certos autores designaram como uma tradição cultural nacional e, outros, como uma civilização.
Esta resposta, sem dúvida correta, me permitia encobrir um problema de fundo que só hoje, no ocaso das ideologias que sustentaram meu judaísmo secular, começa a me parecer óbvio: o ateísmo é sempre parte de uma tradição. Para minha geração o ateísmo parecia representar o universalismo frente ao particularismo e provincianismo da visão religiosa. Continuo acreditando que o ateísmo – tanto do judeu como do cristão ou do muçulmano – significou, pelo menos para várias gerações, uma busca de horizontes mais vastos de solidariedade e identidade com o conjunto da humanidade, mas também passei a enxergar que era também parte de um diálogo com e dentro de uma tradição.
O ateísmo só pode surgir em culturas nas quais exista uma visão de mundo teísta. Ele não tem sentido em tradições religiosas não teístas (como em parte das tradições orientais), pois procura confrontar um certo tipo de construção de mundo em que uma figura divina ocupa um lugar central. O ateísmo portanto surge, enfrenta, discute e se coloca como alternativa a um sistema determinado de crenças e valores referidos a um deus e, ainda que procure romper com elas, se constrói graças à preexistência de uma tradição religiosa e aos problemas por ela colocados.