Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
O fantasma da assimilação, ou por um judaísmo sem medos
O conhecimento e a prática do judaísmo de Theodor Hertzl eram, como sabemos, quase inexistentes. Porém, sem ele, provavelmente não haveria o Estado de Israel. Na mesma situação encontravam-se Albert Einstein, Sigmund Freud e praticamente todos os judeus do século XX dos quais, hoje, tanto nos orgulhamos. Do ponto de vista do judaísmo ortodoxo, a quase totalidade dos líderes sionistas (assim como o autor deste texto e a maioria de seus leitores) seriam definidos como judeus assimilados.
O judaísmo sobreviveu, desde os tempos bíblicos até hoje, por sua capacidade de assimilar as mais diversas culturas. Como mostra Martin Buber, em Moisés, o judeu é um povo nômade, isto é, um povo que viaja entre as culturas e que não tem medo de interagir e que descobriu há milhares de anos o que hoje, graças aos processos de globalização, está sendo reconhecido como a condição de convivência da humanidade: que todas as identidades são híbridas, que nenhuma cultura é pura, que as raízes entrelaçadas de todos os povos se nutrem da mesma herança comum.
Então, por que falar de assimilação? Quem pode definir quem é um judeu assimilado? O judaísmo é, na verdade, diverso e pluralista. Pode-se ser judeu religioso ou ateu; se religioso, conservador, reformista ou ortodoxo; se ortodoxo, chassídico ou não chassídico; se chassídico, escolher entre as diversas seitas – que mal se falam entre si – ou ainda, ser sionista ou não sionista; se sionista, religioso ou não religioso, de direita ou de esquerda, e assim por diante.
Mas então por que falar de assimilação? O único momento da história judaica em que o conceito de assimilação pode ser aplicado, no sentido estrito de uma atitude consciente de negar e abandonar o judaísmo, ocorreu na Europa Central, particularmente na Alemanha, no século XIX e nas primeiras décadas do século XX, quando a conversão ao cristianismo era uma estratégia de ascensão social num contexto em que as posições na esfera pública estavam vedadas – legalmente ou de fato – aos judeus. Mas hoje tal situação não existe em praticamente nenhum lugar do mundo e, portanto, o problema não se coloca.
Os judeus do século XX usaram e abusaram do conceito de assimilação, basicamente como uma estratégia para desqualificar e demonizar outras tendências das quais discordavam. Assim, eram definidos como assimilados os judeus não religiosos pelos religiosos, os conservadores e reformistas pelos ortodoxos, ou os não sionistas pelos sionistas, para dar alguns exemplos. Hoje a perspectiva histórica nos ensina que todos estavam errados, no sentido de que nenhuma forma de judaísmo esgota todas as suas possibilidades, e que cada inovação – como por exemplo o sionismo em sua época – representa uma contribuição que fortalece o judaísmo.
Nos tempos atuais, o fantasma da assimilação ainda é utilizado pelas lideranças comunitárias para assustar a si mesmas e aos membros da coletividade, funcionando como mecanismo de mobilização de medos e recursos. É uma estratégia, mas uma estratégia pobre, uma vez que distante da experiência das novas gerações e de tudo o que a história judaica ensina. A sobrevivência do judaísmo no Brasil depende de sua capacidade de ser cada vez mais “assimilado”, de integrar a escola de samba no Purim, de mostrar as inter-relações entre a história do Brasil e a dos judeus, de fazer tzedaka (“fazer justiça”/ caridade) junto às populações carentes, de absorver os casamentos mistos reconhecendo neles um caminho de enriquecimento da comunidade e do judaísmo.
Para entender a realidade social, precisamos de conceitos que nos permitam localizar onde estamos e para onde vamos, que nos permitam medir o mundo. A assimilação é um desses conceitos. Mas é um falso conceito e uma má medida. Dá-nos a ilusão de que nos distanciamos de um mundo ideal ao qual devemos retornar, retirando o principal instrumento capaz de assegurar a reprodução de uma comunidade: sua renovação através da participação e absorção criativa da cultura local. A questão, portanto, não é quão assimilados são os judeus do Brasil, já que ninguém está em posição de ser juiz de seu próximo, mas qual é a riqueza do judaísmo brasileiro, quanto conseguiu produzir e inovar para se transformar em referência criativa para cada um de nós.