Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

A sociedade pós-moderna e a difícil passagem para o pós-Holocausto

A nova cultura judaica israelense mostrou-se limitada tanto em termos da incapacidade de aceitar e integrar a vivência dos judeus da diáspora, como em sua difusão entre os habitantes de Israel. A chegada constante de ondas de imigrantes, com sua cultura própria, enfraqueceu o esforço de secularização, normatização e normalização da ideologia sionista das primeiras gerações de pioneiros. Junto com a chegada de novos imigrantes, a sociedade israelense foi adquirindo um caráter mais urbano e capitalista, corroendo assim o sentido agropastoril e trabalhista que a cultura colonizadora procurou dar às festividades e valores judaicos.

Paradoxalmente, o conflito com o mundo árabe e a necessidade de apoio do judaísmo da diáspora inviabilizaram a possibilidade do desenvolvimento de uma cultura israelense “separatista” e mesmo oposta ao judaísmo “galútico” (diaspórico). O reforço dos laços com o judaísmo da diáspora e a ênfase no Holocausto – revivido e reelaborado através da luta contra o mundo árabe – e o fracasso do judaísmo secular recolocam hoje perante a sociedade israelense temas como a essência da cultura judaica, o papel da religião, quem é judeu, o que é uma educação judaica e que relações devem ser estabelecidas entre religião e Estado numa sociedade democrática.

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A criação do Estado de Israel se deu num momento em que a lealdade aos Estados nacionais e a cidadania como fundamento da identidade começaram a entrar em crise sob o impacto da globalização dos meios de comunicação, a homogeneização dos padrões de consumo e o colapso das ideologias políticas prometeicas e totalizantes, levando à perda de confiança na ideia de progresso.

A globalização e a homogeneização cultural – orientadas para o consumo e a ascensão individual, o esvaziamento da vida pública e da confiança na política como meio para atingir fins coletivos, o questionamento de valores universais e da razão sintetizadora, a valorização da diferença, da indeterminação e da multiplicidade de significados – passaram a ser o novo substrato sociocultural no qual o judaísmo contemporâneo germina: um contexto em que os grandes agrupamentos ideológicos e políticos de ação coletiva deixaram de ser o principal estruturador das identidades individuais.

O mundo pós-moderno, cada vez mais global e unificado pela mass media e o consumo, apresenta um caráter simultaneamente fragmentado e caótico, no qual todos se sentem desenraizados, participando esporadicamente de subculturas “tribais” em constante mutação, seja de grupos místicos ou de afinidades esportivas. Paradoxalmente, isso implica o redescobrimento de sentimentos nacionalistas, regionalistas ou movimentos religiosos fundamentalistas, capazes de dar segurança, sentido e dignidade a indivíduos ou grupos que não conseguem conviver com a incerteza, a perda de sentido coletivo e a decomposição dos laços primários característicos do mundo contemporâneo.

Do ponto de vista histórico, o judeu, nos últimos dois mil anos, conviveu com certos traços da pós-modernidade: desenraizado, tinha o mundo como referência espacial e a incerteza como parâmetro. Nesse sentido, judaísmo e pós-modernidade apresentam elementos convergentes. Porém, se a pós-modernidade por um lado favorece o retorno dos judeus à riqueza da tradição judaica, no sentido de desvinculá-los de ideologias totalizantes e excludentes, por outro sua tendência individualista e consumista e sua perda de visão histórica implodem qualquer esforço de unificação da experiência judaica.

No mundo pós-moderno, o judaísmo não só deixou de ser uma presença constante na vida cotidiana da maioria dos judeus, como o era no período rabínico, mas também perdeu a vontade racionalizadora, doutrinária e discursiva do judaísmo moderno. O judeu pós-moderno funda sua identidade numa dupla dialética: de um lado sua identidade é devida a seus progenitores e ao sentimento de comunidade de destino que o Holocausto e o Estado de Israel geram quase que independentemente da vontade individual; de outro, em sua vivência cotidiana e sua autopercepção, ele compartilha as características básicas do individualismo, de alguém livre para realizar suas escolhas de acordo com sua consciência pessoal.

Na prática, o judeu pós-moderno lembra de seu judaísmo em contextos particulares – nascimentos e mortes, casamentos e Bar/Bat-Mitzvot – e em momentos especiais da trajetória pessoal – doenças, crises existenciais etc. O judaísmo passou a ser, desse ponto de vista, um supermercado cultural-existencial, no qual se entra e do qual se sai segundo necessidades circunstanciais, escolhendo, da vasta prateleira de produtos, aqueles mais adequados ao momento. Assim, o judaísmo apresenta um caráter modular, construindo-se como um mix de acordo com o gosto individual, geralmente com componentes soft, isto é, lembrando a tradição, mas de forma não muito exigente. Ser judeu passou a significar direito de passe livre ao consumo de uma tradição específica, o judaísmo.

O judaísmo aparece assim como mais um dos possíveis caminhos para diferenciar-se num mundo cada vez mais homogêneo, do qual as pessoas se utilizam de acordo com estados de ânimo circunstanciais. Paradoxalmente foi uma corrente ortodoxa, a Lubavitch, que melhor aceitou e captou as características desse judaísmo part-time, oferecendo um judaísmo ortodoxo, mas no qual o consumidor é o rei.

Se na pós-modernidade o judaísmo por um lado se constitui num espaço passageiro, a partir de experiências circunstanciais e levando a uma certa perda de densidade, por outro ele expande o mercado de consumo de bens judaicos, pois, na medida em que o lar e o cotidiano deixam de ser fonte geradora de cultura judaica, a demanda de produtos “elaborados” tende a aumentar. Igualmente, na medida em os judeus deixam de viver seu judaísmo em grupos estanques (religiosos e seculares, sionistas e não sionistas) todos eles se transformam em “clientes” potenciais ad hoc da diversidade de produtos disponíveis.

No seio do judaísmo continuam surgindo movimentos que procuram adequá-lo às ideologias em voga – feminismo, ecologia –, embora já não represente tanto um esforço de tradução do judaísmo nos termos das ideologias universais, e sim de diálogo com a tradição. No mundo pós-moderno, os antigos judaísmos modernos tendem a se recompor, particularmente aqueles que mais enfatizaram a identificação dos valores judeus com os valores universais. Afinal, o que mais oferece a cultura moderna é a homogeneidade, de forma que a atração do judaísmo passa a ser o seu potencial como diferenciador e gerador de uma identidade própria. Assim, por exemplo, o movimento reformista que avançou na direção de identificar o judaísmo a uma ética universal retornou a formas tradicionais de expressão ritual, com uso maior do hebraico e o sentido de comunidade de destino diferenciada.

O judaísmo secular fundava o sentimento de comunidade sobretudo na história coletiva. A invenção do judaísmo moderno foi um esforço dos historiadores do século XIX e início do século XX, que criaram uma identidade nacional secular pela identificação com um passado que delimitava uma comunidade de destino. Assim, a história judaica passou a ser tanto uma disciplina acadêmica como o fundamento das diversas ideologias judaicas modernas. Era de história que o sionismo se nutria, procurando, a partir dela, reconstruir o destino do povo judeu. Mas a história enquanto ideologia que constrói um sentimento de comunidade perdeu sua eficácia. O individualismo da sociedade pós-moderna – valorizador do presente e do investimento em estratégias pessoais de sobrevivência num mercado de trabalho em constante mutação e sem garantias de futuro – tende a desvalorizar passados que não o próprio e as “comunidades coletivas de destino”.

Nesse contexto o fundamentalismo religioso passa a ter um apelo importante, ainda que para um público limitado, por ser capaz de oferecer um “pacote significativo” completo para as angústias da vida pós-moderna. Em lugar de incertezas, ele oferece certezas; em lugar do individualismo, o sentimento de comunidade; em lugar da vida como escolha, a vida como obediência; em lugar da liberdade, a submissão às hierarquias; em lugar de satisfações mundanas, o sentimento de transcendência; em lugar de dúvidas, os textos sagrados. Essa opção seria tão aceitável e bem-vinda como qualquer outra se não fosse pela associação entre a maioria dos grupos religiosos ortodoxos e o nacionalismo israelense extremista. Neste último, o projeto secular sionista foi transformado em parte do desígnio divino de aproximação dos tempos messiânicos, e os valores humanistas e democráticos deram lugar a um sonho de Estado teocrático e xenófobo, onde o rabinato ortodoxo procura recuperar a hegemonia perdida – já não nas condições de vida em diáspora mas nas de um Estado nacional moderno, onde existe um potencial totalitário, de exclusão e opressão, indo ao encontro, e ao confronto mortal, das tendências similares no mundo islâmico.

Dada sua crescente fragmentação, a crise do judaísmo pós-moderno deverá aprofundar-se. Enquanto o judaísmo moderno, ainda que dividido, mantinha uma certa capacidade prescritiva no interior de cada corrente, no judaísmo pós-moderno, o caráter difuso, ad hoc, da vida judaica limita os processos de cristalização de novas normas, orientações e tradições. Em particular, o judaísmo continua incapaz de equacionar uma questão central do judaísmo moderno e pós-moderno, a absorção do casamento misto como dimensão normal da vida judaica e do judaísmo.

O novo contexto do mundo pós-moderno gerou as condições para o resgate da variedade de conteúdos da cultura judaica, mas numa situação em que se esvaneceram as ideologias coletivas da modernidade e o contexto institucional e comunitário do mundo pré-moderno. Assim, no mundo pós-moderno o judaísmo não pode reproduzir nem o mundo isolado do judaísmo rabínico, nem o discurso ideológico doutrinário do judaísmo moderno, transformando-se numa experiência fragmentada, vivida de forma individual, com mais ou menos intensidade segundo situações e momentos existenciais particulares.