Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
Além do Estado de Israel
excludentes. 4 Isso sem mencionar que as políticas de ação afirmativa (affirmative action) foram prejudiciais aos judeus, com
exceção talvez das mulheres. 5 Outra limitação é a tendência dos estudos judaicos a reproduzir uma visão secularizada (renovada e fortalecida pelo Holocausto) da visão de povo judeu como povo escolhido portador de características excepcionais. Como indica Biale, existe uma dificuldade dos estudiosos do judaísmo em abrir mão da autoimagem dos judeus como minoria excepcional e vítimas
por excelência. 6
Tratar os judeus como um caso de uma área mais ampla de estudo comparativo das diásporas é um passo difícil a ser dado pelos
centros de estudos e de ensino judaicos.7 Mais doloroso ainda se uma das diásporas a ser incluída no novo espaço intelectual é a diáspora palestina, gerada na interação com a colonização sionista, e para a qual os judeus ocupam o lugar que eles próprios reservavam para os romanos. Apesar dessas dificuldades, o debate sobre diásporas representa uma oportunidade única para analisar as estruturas do povo judeu, especialmente em relação às diásporas periféricas, assim como para repensar as estruturas sociais, culturais e políticas do Estado de Israel.
Além do Estado de Israel
Israel representa um caso típico do esforço sistemático que os Estados nacionais desenvolveram para destruir a diversidade cultural de sua população. Sem dúvida foi um esforço que contou, pelo menos até 1948, com a colaboração ativa e consciente da sociedade. Ainda assim não deixou de ser um esforço concentrado e sistemático de homogeneização cultural, de engenharia social para eliminar a diversidade e riqueza cultural do judaísmo elaborado
no longo percurso diaspórico. A imposição de uma língua única, 8 o esforço, em boa medida fracassado, de criar uma cultura judaica secular “naturalista” e o desapreço pela diáspora como fonte de valores e de vivência criativa foram elementos constitutivos do esforço normalizador, normatizador e disciplinador da ideologia e do sistema educacional que se implantou em Israel. Hoje esse esforço mostra sinais de esgotamento, e o grande desafio político passou a ser a convivência entre democracia e a diversidade étnica e cultural.
Os conflitos entre ashkenazim e sefaraditas, além da tendência a manter fortes laços entre os emigrantes e suas origens locais, permitem recolocar a questão (já não contaminada pelas ideologias que negavam o direito à existência nacional aos judeus) da unidade e diversidade da diáspora e também da essência do povo judeu. O caso de Israel ilumina uma nova categoria, a da condição multidiaspórica, onde mesmo o retorno ao homeland pode significar tanto uma “normalização” enquanto judeus como a criação de uma
nova diáspora ligada ao país de origem. 9
Assim, o Museu da Diáspora, localizado em Tel Aviv, cedo ou tarde deverá ser reorganizado e, em lugar de mostrar um percurso que leva todas as diásporas a desembocarem em Israel, deverá mostrar um caminho mais diversificado e aberto, pelo qual a diáspora (constituída até por muitos israelenses que decidem deixar o país) continua a ser uma constante na história judaica. Afinal, não é difícil demonstrar que um povo pequeno só pode sobreviver ao longo do tempo caso consiga dissociar seu destino de um espaço físico único.
A revalorização de identidades transnacionais, a globalização, o sucesso social da diáspora judaica no mundo, atualmente ao abrigo de perseguições coletivas, recolocam o Estado de Israel e a diáspora dentro de uma perspectiva renovada. O sonho que orientou o sionismo, de normalização do povo judeu, parece realizar-se no mundo pós-moderno pela via inversa, com a condição diaspórica passando a ser a norma e o nacionalismo um pesadelo, pois embora vigente é um marco institucional em crise. Mas o relativo fracasso (à luz do século XXI) não foi somente do sionismo, mas sim de todas as ideologias que renovaram o judaísmo na modernidade, pois o mundo se judaíza e o judaísmo se normaliza por caminhos que ninguém previu.