Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
JUDAÍSMO PÓS-MODERNO E DIÁSPORA Bernardo Sorj
Judaísmo pós-moderno e diáspora
Bernardo Sorj
O judaísmo moderno em perspectiva histórica
Do judaísmo rabínico ao judaísmo moderno1
O judaísmo moderno corresponde aos diversos esforços de traduzir a tradição judaica rabínica em conceitos e valores da modernidade. Esta tradução não foi somente intelectual, mas fundamentalmente prática. Significou o abandono da auto-organização comunal e da autonomia cultural e judiciária dos judeus, que o rolo compressor do Estado moderno não podia suportar. Na visão dos defensores da causa judaica na Revolução Francesa, a emancipação política dos judeus passava antes pela emancipação destes do judaísmo. Os “vícios” judaicos – que incluíam hábitos alimentares repulsivos e misantropia – eram generosamente explicados como efeito do isolamento a que foram condenados. A integração na sociedade
permitiria uma rápida “regeneração” do povo judeu.2
Embora a emancipação tenha gerado conflitos no seio da comunidade judaica entre defensores da tradição e da mudança, a rapidez e a disposição com que a maioria dos judeus se dispôs a aceitar a modernidade se explicam pelos séculos de opressão e
humilhação que precederam o Iluminismo.3 Não é casual que muitos judeus tenham associado a Revolução Francesa à chegada do Messias.
Traduzir o judaísmo rabínico para a prática da vida moderna implicou a separação entre o domínio público e privado (para o qual era relegada a vida judaica) e na lealdade ao Estado nacional e suas instituições. Essa identificação era especialmente penosa para os judeus, pois, embora a modernidade europeia tenha sido fortemente secularizante, mantinha elos de continuidade com o mundo cristão: o dia de descanso continuou sendo o domingo, assim como as datas da maioria dos feriados e o próprio calendário (não é casual que o esforço de descristianização da Revolução Francesa tenha culminado na criação de um calendário próprio, assim como a festa popular mais lembrada pelos judeus seja o ano-novo, que sinaliza a vontade de autopreservação pela afirmação de um tempo próprio).
Existencialmente, os tempos modernos significaram um conflito constante entre valores tradicionais e novos, entre particularismo e universalismo, entre lealdade à coletividade étnica e lealdade ao Estado nacional – ou à humanidade. Intelectualmente, o esforço de traduzir a tradição judaica nos termos discursivos da modernidade deu-se em duas grandes direções, ambas redutoras e simplificadoras da riqueza do judaísmo. A primeira consistiu em
transformar o judaísmo numa religião,4 eliminando os conteúdos nacionais e místicos da tradição rabínica para integrá-la de forma não conflitiva ao discurso liberal e à cidadania nacional. A outra tendência foi transformar os judeus numa nação e o judaísmo num nacionalismo. Para os sionistas, a “normalização” do povo judeu se daria através da criação de um Estado nacional que reuniria os judeus dispersos num território próprio, e para os idichistas (geralmente associados ao Bund) pelo reconhecimento de direitos de autonomia cultural – baseada na língua iídiche para as minorias
nacionais nos respectivos países onde morassem.5
O judaísmo moderno – incluindo, como veremos, os religiosos ortodoxos – afastou-se da tradição rabínica, que organizou a vida judaica durante dois mil anos. Esta síntese percebia o judaísmo como um bricolage composto de diversas partes que se agregavam não em função de uma coerência lógica ou de um plano preconcebido, mas como um conjunto de soluções geradas em circunstâncias determinadas e acumuladas na memória do povo e
reelaboradas constantemente pelos rabinos. 6
Esse conjunto não coerente de criatividade armazenada, reinterpretada pelas sucessivas gerações – que realçam certos elementos em detrimento de outros, dando novos sentidos a conteúdos desgastados ou abandonados –, foi transformado pelo judaísmo moderno em “teorias”, filosofias ou ideologias do que seria a “essência” do judaísmo; e pela ortodoxia religiosa num sistema rígido de normas formais, numa muralha que isola em lugar de filtrar as influências do meio ambiente, destruindo sua capacidade de adaptação e criatividade.
Toda cultura é produto de um duplo bricolage, no sentido em que, por um lado, acumula e sedimenta as múltiplas expressões “internas” de um povo, e, por outro, integra, absorve e redimensiona as experiências de outras culturas. Não seria exagero afirmar que o judaísmo consiste, em boa medida, como qualquer outra cultura, na reelaboração e adaptação criativa de invenções culturais realizadas
por outros povos.7
A tradição rabínica manteve o caráter bricoleur da cultura judaica ao aceitar em seu bojo a convivência de interpretações diversas e sustentar-se num tripé instável de esperança messiânica, obediência aos mandamentos definidos pelos textos sagrados tal como reinterpretados pelos rabinos e a auto-organização comunal, ou seja, ela nunca pretendeu nem desejou ser reduzida a um conjunto de dogmas ou a uma doutrina racional. O judaísmo rabínico era autorreferente, não procurando uma coerência lógica e discursiva – a coerência de suas interpretações e práticas era dada pela procura de manter e reproduzir o judaísmo.
Em contrapartida, o judaísmo moderno – tanto o secular como o religioso – quis ser sistemático e coerente, centrado no outro e não em si mesmo, isto é, autojustificatório. Foi impulsionado por uma forte tendência a querer legitimar sua existência pela “contribuição do judaísmo à cultura universal”– como se o direito de existir dependesse da produção de prêmios Nobel forçando a convergência e mesmo a identidade entre os valores judaicos e os valores modernos definidos pelo Estado nacional. A vontade racionalista do judaísmo moderno procurou encobrir o dilaceramento existencial e prático da vida judaica, que desejava e deseja ser ao mesmo tempo universal e particular, igual e diferente, manter múltiplas lealdades, transitar por vários mundos, estar no centro e nas bordas de cada sociedade, inclusive, como veremos, na sociedade israelense.