Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

Conclusões

O antissemitismo tem sido uma das principais obsessões dos estudos judaicos do século XX, porém pouco tem sido feito para compreender contextos em que o antissemitismo é limitado ou quase inexistente. Esse tipo de estudo pode contribuir bastante para o esforço da erradicação do preconceito racial. Até mesmo para aqueles preocupados com a continuidade do judaísmo no Brasil, o esforço de entender e reconhecer a existência de contextos não antissemitas é uma das condições para superar um discurso que valoriza traumas e experiências não vividas pelas novas gerações.

A luta contra o antissemitismo nos Estados Unidos afirma a importância das estruturas democráticas como barreira para a intolerância e como principal contraponto ao discurso racista. A experiência brasileira, sem negar ou desmerecer a importância da democracia, mostra que a luta contra o preconceito racial ou étnico pode se sustentar também nas estruturas culturais e mitológicas da sociedade. A propósito, uma das contradições de muitos países democráticos avançados reside na sustentação de uma educação cívica que ainda valoriza mitos nacionais geradores de ideologias xenófobas e racistas.

Toda identidade é incompleta sem uma imagem da alteridade. Os mitos de origem nacional na tradição europeia foram formados na contraposição, e por vezes na negação, do outro. A cultura brasileira precisa do outro para constituir-se a si mesma. Em lugar da degeneração, o estranho traz o progresso. Essa mitologia nacional acarretou o preço altíssimo da desvalorização do negro. Contudo, considerando o passado brasileiro, essa construção não era a única saída possível. A originalidade da cultura nacional brasileira foi ter produzido uma sociabilidade que em muitos aspectos possui dimensões idílicas, pelo menos se vista da perspectiva das culturas individualistas e disciplinadas da Europa, onde o contato social e a convivência são fonte de angústia, o prazer é problemático e o presente inacessível. A cultura brasileira, por sua vez, dilui a alteridade, limitando a afirmação de identidades e da reflexividade discursiva, valorizando as relações primárias com descaso pela coletividade mais abstrata.

Por mais tolerante que seja, uma cultura nacional, no mundo moderno, não substitui a democracia como principal baluarte contra a intolerância, a violência arbitrária do Estado e o mecanismo de resolução pacífica de conflitos. A cordialidade e a informalidade da sociedade brasileira, num contexto de desigualdade social e ausência de direitos dos cidadãos, podem funcionar como um mecanismo de dominação, amenizando o confronto reivindicativo e evitando o conflito social. O grande desafio do Brasil está em transformar a sociedade sem destruir os aspectos positivos de sua sociabilidade. A sociedade brasileira deve lutar por superar o racismo sem pretender usar tecnologias de regulação social associadas a culturas que reprimem a espontaneidade, que se sustentam na afirmação da individualidade fundada na disciplina e na limitação das dimensões lúdicas da convivência.

O perigo é construir padrões sociais, através do sistema jurídico e de políticas públicas, que destruam os aspectos positivos da sociabilidade brasileira e que correm o risco de terem baixa eficácia na prática. No Brasil, parece haver um conflito entre os valores de sua sociabilidade e os valores democráticos. A proteção dos amigos e a insensibilidade frente ao bem público, o papel do clientelismo sobrepondo-se quase sempre a critérios universalistas, adquirem, no contexto de uma sociedade que finca suas raízes no escravagismo e na miséria, uma dimensão de insensibilidade frente à desigualdade social e de incentivo à impunidade.

Conflitos entre valores não individualistas (hierárquicos, coletivos) e a construção de uma sociedade democrática perpassam grande parte das sociedades (do Japão a Israel). Em sociedades com fortes componentes comunitários – nacionalistas ou religiosos fundamentalistas –, o desafio está na tolerância frente à diferença e na criação de um espaço público aberto ao reconhecimento do indivíduo como fonte última de escolha moral. A sociedade brasileira deve construir ainda a noção abstrata de cidadania e de um bem público comum, o que supõe uma solidariedade abrangente.

Os mitos de origem e a cultura nacional não oferecem garantias absolutas para o futuro. Da mesma forma que as democracias correm risco, as culturas nacionais, embora sejam fenômenos de longa duração, são, também elas, um produto da história e mudam sob o impacto de novos contextos societários. Como mostra Poliakov, a Suécia nos séculos XVI e XVII sustentou um mito de origem nacional que justificava o imperialismo e o expansionismo territorial. Com as mudanças demográficas e políticas posteriores, os suecos refizeram seus mitos nacionais para adequá-los às novas circunstâncias. O mito de origem dominante no Brasil também poderá vir a mudar. O impacto da globalização, da individualização na vida urbana moderna, da pobreza, e das expectativas e esperanças frustradas, poderá desgastar as crenças dominantes e abrir espaços a serem explorados por novos movimentos políticos e líderes carismáticos. O futuro do “país do futuro” é um livro aberto com novas páginas a serem escritas. No momento atual está longe de ser decidido em que direção os mitos e valores nacionais evoluirão.

 

1 Este artigo é uma versão modificada e corrigida de um trabalho publicado em Bila Sorj, Identidades judaicas no Brasil contemporâneo.

2 Consultar Bernardo Sorj, A nova sociedade brasileira.

3 Em relação à valorização da natureza pelos brasileiros, cf. J. M. Carvalho, “Visões do Brasil e dos brasileiros”.

4 Com a importante exceção do integralismo a década de 30, que desenvolveu uma ideologia que valorizava inclusive as “raízes” indígenas. Cf. H. Trindade, La tentation fasciste au Brésil dans lês anneés trente.

5 A experiência contemporânea de absorção e “branqueamento do judaísmo americano” (cf. Biale, 1998) indica que, além de oposições, existem também continuidades e semelhanças entre a cultura brasileira e a americana.

6 Inclusive as nuances que diferenciam o judaísmo paulista do carioca estão associadas a diferentes níveis de dominância dos mitos nacionais brasileiros. O Rio de Janeiro, capital do Brasil nos dois últimos séculos (até 1960), é a cidade que mais encarnou a mitologia nacional brasileira. São Paulo, que recebeu grande parte de seu contingente populacional no século XX, mantém identidades étnicas mais demarcadas.

7 A outra vertente que aproxima Bonder da sociedade brasileira é esse forte componente de literatura de autoajuda em seus livros: no Brasil, como nos Estados Unidos, os livros de não ficção mais vendidos são predominantemente deste tipo.