Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
Judeus x judaísmo
Reb Bunem colocou profeticamente os desafios de nosso tempo:
A universalidade (rabinos sem Torá/Torá sem judeus); o pragmatismo selvagem que faz do chassid um marqueteiro; a globalização e sua perversa concentração de renda (ricos/não ricos); o meio ambiente degradado provocado pelas mudanças climáticas e suas consequências catadísmicas; e a onipotência científica cuja conquista maior é produzir um grão que não é grão. Esta última conquista destitui o Criador, que é substituído por nossa própria imagem.
Este é o aviltamento ontológico do judaísmo: não só produzir uma imagem, mas que ela seja a nossa imagem.
Tempos difíceis... Tempos messiânicos... Tempos de reinicio ou de fim.
Tempos que, se ultrapassados, farão o cantar de am Israel chai ainda mais significativo do que é hoje.
Judeus x judaísmo
She-lo Echad bil-vad amad aleinu lê-chalotenu...
“Pois não foi apenas um que se levantou para nos destruir,
senão que,
a cada geração, se levantam para nos destruir e o Eterno
nos salva de suas mãos”. (Hagada)
Por mais de três mil anos esta frase condensa a experiência dos judeus. Ela é a mais pura verdade destilada da experiência e, ao mesmo tempo, a maior patologia e desafio. Patologia – no sentido de anomalia, derivação da palavra “pathos”, “paixão” ou “sofrimento” – contém em si tanto a vitalidade como o desequilíbrio; o heroico e o mártir, mas também o inseguro e o arrogante.
Ser judeu se transformou num ato de resistência – palavra que sob opressão significa pluralidade e liberdade, significando em condições de normalidade “renitente”, “teimoso” e até “reacionário”.
O judaísmo, por sua vez, é a história do desenvolvimento de um sistema de pensamento revolucionário. Sua proposta era um compromisso social baseado na ética derivada da revelação de um D’us que tinha como plataforma maior à ideia de que a História não é cíclica, mas uma espiral. Seu nome-título apresentado a Moisés era “Serei o que Serei”, Aquele que concebia o futuro não como uma determinação, um destino, mas como a possibilidade a ser moldada e aperfeiçoada, podendo, em teoria, culminar em tempos de plenitude messiânica. Sua proposta etimológica era de um Israel em transformação, brigando com homens e com D’us, entre si e consigo mesmo, para se forjar a fogo e frio, num novo ser humano. Para tal, o instrumento utilizado foi a prescrição de um regime disciplinar de comandos. Ou melhor, o instrumento foi o comentário e a interpretação dessas prescrições disciplinares como ponto de partida para a criação do homem e da nova ordem do futuro. Transparecia aqui a parceria entre ser humano e D’us em uma nova Criação.
Para além das diferentes leituras feitas através dos tempos do significado de judaísmo e de ser judeu, a realidade é que, qualquer que tenha sido a definição, nem sempre um se identificava ou coincidia com o outro. Esse processo exigiu mudanças, releituras e interpretações para aproximar o judaísmo do judeu, bem como a tentativa (vide os profetas) de mudar o judeu para se aproximar do judaísmo. Cada um dentro de seus próprios limites buscou mediar esta tensão. A anedota iídiche retratava isso através do anjo que ficava à porta do Paraíso e que ora questionava “Judeu... onde está a sua barba?”, ora “Barba... onde está o seu judeu?”.
O judeu sem a barba era o judeu sem o judaísmo, a barba sem o judeu era o judaísmo sem o judeu. No século XX, isto significava que o primeiro era fiel às demandas do futuro assimilando transformações do tempo e as acomodando, enquanto era infiel com o compromisso passado de preservar uma única linguagem. O segundo, fiel ao compromisso com o passado de preservação da linguagem e dos costumes, e infiel com a história futura, com seu processo e evolução.
O século XXI complica ainda mais a situação porque modifica esses dois estereótipos. Diríamos hoje que o judeu que “esquece” o futuro ao privilegiar o passado é aquele que não tem barba. Para ele o passado é uma história constante de perceber a força que promove mudanças “Serei o que Serei”. Este é o compromisso máximo. O que será do futuro, isto cabe a D’us. Assim sendo, seremos judeus mesmo que o judaísmo acabe. Por outro lado, a barba sem o judeu está escravizada ao futuro, a um futuro que tem que acontecer. Não importa se houver judaísmo sem judeu. O fundamental é preservar nossa saga e cumprir nosso pacto. Para a barba sem judeu não importa o processo, e sua obsessão por futuro lhe faz obliterar o D’us que é a força que promove mudanças “Serei o que Serei” em nome da força do “Sou o que Sou”.
E esta é a grande confusão que as últimas décadas trouxeram com a polarização entre o assimilacionista e o fimdamentalista. A questão se tornou ainda mais complexa ao fazer certos grupos de judeus se pensarem apenas judeus sem judaísmo e alguns se entenderem como filiados ao judaísmo sem ser judeus.
Os exemplos mais clássicos são os dos judeus socialistas na Europa Oriental e dos judeus ortodoxos. Os primeiros viram em ideais políticos de sua época a mais fiel tradução da proposta judaica revolucionária e profética; ao passo que os segundos, os judeus observantes, se mostraram “resistentes” a vários processos, inclusive o de criação do Estado de Israel. Os judeus observantes dos comandos do judaísmo estavam sendo “judeus”. E os judeus não observantes dos comandos do judaísmo o estavam praticando instintivamente.
Em resumo, nosso século nos coloca a inusitada situação de judeus com barba sendo judeus – para sobreviver como judeus – e os judeus sem barba praticando o judaísmo – para sobreviver a um ideal de transformação e tikun (de acerto). Por mais que esta apresentação pareça caricata e genérica, ela nos coloca diante da complexidade atual na luta milenar por aproximar judeu e judaísmo. A barba voltou para o judeu, mas com uma perturbadora dúvida: será que isto é judaísmo? E o judaísmo voltou para o sem barba, mas será que isso é um judeu?
Um judeu visualmente perfeito é a atração que exerce a ortodoxia principalmente para aqueles que não são ortodoxos. Mas a incoerência de apostar e acreditar numa opção que não serve para si é demonstração da inadequação deste “judeu perfeito” às próprias expectativas dos judeus.
Os desafios são muitos e profundos. Frases de efeito absoluto e referências incontestáveis do judaísmo do século passado, tal como nós somos as “vítimas” e eles os “carrascos”, estão se provando mais uma vocação do judeu do que seu destino. Essa transformação coloca boa parte de nossa percepção coletiva em xeque.
Do momento em que David feriu mortalmente a Golias, quando o indivíduo mais fraco se impôs ao mais forte, simbolizando a nação mais fraca impondo-se à mais forte, construímos uma experiência histórica judaica que muitas vezes foi confundida com a noção ética dos salmos. A visão de mundo atribuída ao próprio David através dos salmos fala de um D’us que ama os justos e que é protetor do estrangeiro, da viúva e do órfão. Um D’us que está do lado dos fracos era uma novidade para um mundo onde ser forte era prova irrefutável de se estar do lado de D’us.
No entanto há grande diferença entre a experiência histórica de David e sua teologia. A experiência histórica foi capaz de moldar um superlativo ao inverso. Se o mais fraco se impõe ao mais forte, o forte se faz fraco e é ele que representa “o estrangeiro, a viúva e o órfão”. Acredito sermos hoje “vítimas” desta inversão de superioridades e nos tornamos “algozes”.
Como ser judeu sem passar por esta matriz de “superioridade invertida”? Como reconhecer que a visão de privilégio do oprimido é ética, sem buscar gerar para si uma autoimagem flagelada para usufruir deste privilégio? Como reunificar a experiência histórica e os princípios fundamentais da busca judaica? Como ser um judeu sem barba como se a tivesse e como ter barba sem que para isto se abandonem aspectos matriciais do judaísmo – são questões inadiáveis.
Talvez uma forma de sonhar com o futuro esteja presente na prece que encerra nossas orações: “Aleinu”. Nela se diz “neste dia haverá apenas um único D’us e seu nome será Um”. De forma mais caseira, mais local, diria: “Neste dia (também) judeu e judaísmo serão uma única coisa” distante da incompatibilidade de nossos dias.