Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo

Racismo e judeus no Brasil

Este artigo procura desenvolver três temas, em forma de hipóteses preliminares. Em primeiro lugar, trataremos de compreender o fenômeno particular do limitado impacto do antissemitismo no Brasil contemporâneo. A historiografia e a sociologia judaicas do século XX têm sido especialmente sensíveis aos fenômenos antissemitas nas diferentes sociedades onde radicam-se judeus. Porém, têm se preocupado muito pouco em compreender por que em certas sociedades o antissemitismo é reduzido ou quase inexistente. Nossa hipótese é que a cultura, a identidade e o mito de origem brasileiros favorecem a identificação com o novo e a mudança, que permitirá realizar suas potencialidades como país do futuro. Em segundo lugar, procuraremos indicar algumas características do judaísmo brasileiro geradas pela integração na cultura e sociedade locais. Finalmente apontaremos certos padrões dominantes nos escassos estudos sobre o judaísmo brasileiro contemporâneo, numa perspectiva comparada com o caso argentino.

É importante lembrar que nenhuma cultura se reduz ou se explica por seu mito de origem. Enfatizamos esta dimensão porque constatamos que possui uma grande capacidade explicativa no que se refere ao tratamento que a sociedade brasileira dá ao estrangeiro. Compreender a sociedade brasileira em seu conjunto exigiria nos referirmos a outros fatores culturais, além de aos aspectos sociopolíticos e econômicos, entre eles a capacidade de

convivência com fortíssimas desigualdades sociais.2

 

Racismo e judeus no Brasil

O Brasil é uma sociedade com limitada presença de discursos ou práticas antissemitas. Essa avaliação tem como base a informação cotidiana divulgada pelos meios de comunicação, relatos de imigrantes, a experiência empírica do autor e relatórios de organismos especializados. O Anti-Semitism World Report ressalta: “Não há indicação de um antissemitismo patrocinado pelo Estado desde o final do regime Vargas” (p.10-11). “No Brasil há pouco antissemitismo popular” (p.13) (The Institute of Jewish Affairs and the American Jewish Committee, 1995). Nos dois grandes centros onde se concentra a grande maioria dos judeus, São Paulo e Rio de Janeiro, práticas ou discursos antissemitas que afetem a qualidade de vida e a convivência social, ou que influenciem as chances efetivas de mobilidade social, são bastante excepcionais. Nesse sentido, e voltaremos adiante a este ponto, o judaísmo no Brasil encontra-se numa situação diferente do restante da América Latina.

A explicação básica para a ausência de antissemitismo no Brasil pode ser procurada na particular ideologia brasileira do branqueamento, segundo Skidmore. Nessa ideologia, o branco é o ideal a ser alcançado, de forma que as outras raças, particularmente a negra, poderão “melhorar”, via miscigenação, até alcançar o branqueamento. Assim, na medida em que os judeus são aceitos como parte da raça branca – ideia que só foi questionada por alguns intelectuais brasileiros associados à ideologia fascista nas décadas de 20 e 30 – eles passam a ser parte da solução, e não um problema. Portanto, embora a sociedade brasileira seja racista, antinegra, esse racismo não atingiria outras etnias, como os judeus.

Esta hipótese parece cobrir parte essencial da explicação de por que o Brasil não seria uma sociedade antissemita, mas ela é insuficiente ou parcial. Além da dimensão negativa, devemos compreender as formas específicas de integração do emigrante na sociedade brasileira, assim como elaborar com mais apuro o debate em torno da ideologia do branqueamento e suas implicações sobre as diferentes formas de racismo, inclusive o antinegro.

As interpretações da formação sociocultural do Brasil no século XX dividem-se em duas grandes linhas de força. De um lado estão aqueles, associados à obra de Gilberto Freyre, que enfatizam o caráter integrador da miscigenação, a cordialidade da psicologia coletiva, o sincretismo cultural, a porosidade social, ou seja, uma sociedade aberta e tolerante cujas origens remontariam à particularidade da colonização lusitana, com predomínio de intenso intercâmbio sexual com as populações negras e nativas. De outro lado, temos as versões que enfatizam as características racistas da estrutura social brasileira, na qual o negro não só faz parte dos estratos mais pobres como sofre discriminação racial, tendo diminuídas suas chances de mobilidade social.

O racismo específico do brasileiro seria a ideologia do branqueamento, pela qual o negro, através da mistura racial, passa a ser parte do mundo branco. Essa ideologia, dominante no Brasil, se expressaria na valorização dos filhos “mais brancos” de famílias com origem africana, e seria um desenvolvimento específico do moderno racismo europeu do final do século passado. Como mostra Skidmore, as elites brasileiras influenciadas pelas ideologias racistas deram uma interpretação particular a estas. Enquanto os racistas europeus acreditavam que a miscigenação de raças no Brasil levaria à deterioração e degeneração racial do conjunto da sociedade, a ideologia brasileira do branqueamento supõe que a mistura racial, em lugar de ser uma perda de virtudes para os brancos, seria um ganho de qualidades para os negros, que passariam a integrar o plantel da raça virtuosa pela perda das características da raça viciada.

A obra de Roberto DaMatta é uma das que com mais criatividade sustenta a tese de que no Brasil – por trás de uma ideologia de cooptação universal, afabilidade, sincretismo e estrutura jurídica liberal – subjaz uma estrutura de poder hierárquica, profundamente desigual e racista. O argumento de DaMatta é de que no Brasil predomina a fábula que apresenta brancos, negros e índios como componentes equivalentes, na qual as três raças constituem o fundamento que gerou um Brasil miscigenado e predisposto ao cruzamento e à tolerância racial.

DaMatta procura mostrar que a sociedade portuguesa, cujas estruturas sociais foram transferidas para o Brasil, era uma sociedade com hierarquias fortemente marcadas, católica, dominada pelo formalismo jurídico, mercantil, e com laços de dependências entre as diferentes camadas dominantes. A fábula das três raças formadoras do Brasil teria a função de integrar idealmente a população, depois da Abolição, num marco comum, e que, através do branqueamento, atingiria, algum dia, a homogeneidade e a harmonia. A ideologia da integração das raças, seja no plano sexual, da música, da mulher, do carnaval, mascararia a realidade das profundas diferenças de poder. Além disso, o próprio pressuposto da integração pelo branqueamento é profundamente racista e negador de uma identidade negra.

DaMatta contrapõe a ideologia da democracia racial e o aparelho jurídico de igualdade entre os cidadãos a uma prática social em que predominam profundas desigualdades e em que a hierarquia do “você sabe com quem está falando?” substitui a ideia de cidadãos com direitos iguais.

Assim, segundo DaMatta, a sociedade brasileira é profundamente hierárquica, sustentada na desigualdade entre as pessoas. Nela, os laços de dependência, pelas posições diferentes ocupadas na hierarquia social, ao mesmo tempo que permitiriam uma sociabilidade fundada na intimidade, confiança e consideração, desconheceriam os valores individualistas e igualitários. Do mesmo modo, nela não haveria necessidade de segregação porque as hierarquias asseguram a superioridade do branco e a identificação do dominado com o dominador. O racismo anglo-saxão moderno, em contrapartida, seria, num contexto de valores igualitários e individualistas, uma forma de assimilar a diferença, uma vez que, a princípio, a crença efetiva de que somos todos iguais é dominante. A segregação moderna pelo menos reconhece a alteridade do outro, enquanto no sistema hierárquico todo mundo é parte de um conjunto com um lugar desigual específico, as diferenças sendo relativas à posição ocupada por cada um. Este sistema permite todo tipo de gradação, por exemplo vários níveis de “negritude”, em lugar de oposições polares entre brancos e negros.

Sociedades hierárquicas como a brasileira, ao mesmo tempo que assimilam a todos, mantêm a desigualdade, enquanto no sistema igualitário e individualista a diferença só é suportável via segregação. Uma sociedade hierárquica é uma sociedade de mestiços na qual, em lugar de raças opostas, existem as mais variadas cores de pele. É o domínio do fenótipo e não do gene originador, das gradações de pele e não da pureza do sangue. A sociedade hierárquica brasileira, embora desigual, permite a conciliação e a cooptação das diferentes camadas que conseguem caminhar no sentido do branqueamento. A divisão da sociedade em infinitas camadas de nuances de pele permite fugir ao confronto, pois neutraliza a formação de identidades nítidas. O Brasil seria, portanto, uma sociedade de um racismo moldado na hierarquia e não no individualismo.

O argumento de DaMatta não será discutido em detalhes, porém interessa indicar o que ele tem, além de esclarecedor, de problemático para a compreensão da dinâmica interétnica no Brasil. Interessa-nos em particular questionar aqueles aspectos em que DaMatta opõe, ao modelo hierárquico brasileiro, o modelo individualista e igualitário anglo-saxão, sua tendência a cristalizar padrões culturais perdendo de vista as mudanças sociais ligadas particularmente aos processos históricos de modernização e desconhecendo o caráter efetivamente contraditório da mitologia cultural brasileira, na qual convivem componentes anti-igualitários com uma visão comum de futuro, assim como efetivas práticas sincréticas e ecumênicas.

A apresentação de DaMatta do mundo “anglo-saxão” como uma sociedade coerente organizada em torno de um único princípio individualista, tampouco se sustenta. Na verdade, a diversidade e as contradições entre valores e práticas socioculturais são uma característica típica de todas as sociedades modernas. É suficiente mencionar os estudos que mostram como as sociedades liberais ocidentais se sustentam em valores tradicionais com forte orientação coletiva que lhe antecedem, e que têm como obra precursora os estudos de Weber sobre o protestantismo nas origens do capitalismo moderno (Bell, 1979).

Em lugar de se ver na contradição entre a ideologia político-jurídico liberal brasileira e as práticas socioculturais hierárquicas um simples processo de mistificação no qual o primeiro plano encobre a realidade do segundo, é muito mais frutífera a análise da interação destes dois planos, tendo ambos efeitos reais no processo social. Ainda mais hoje, numa sociedade movida por uma ideologia consumista em que o preconceito racial passa a ser cada vez mais subordinado à capacidade aquisitiva do agente social. A definição do que seja branco cada vez mais se correlaciona com a posição econômica do indivíduo. As transformações sociais no Brasil contemporâneo geram uma sociedade com altos índices de mobilidade social e renovam a composição social das elites econômicas e políticas. Novos processos sociais, por sua vez, como o empobrecimento econômico e cultural das populações excluídas dos novos centros dinâmicos de crescimento econômico (com forte predominância de negros e nordestinos) e a violência urbana geram novos focos de racismo.

DaMatta está errado em afirmar que a sociedade brasileira é cordial porque é hierárquica. A segunda característica não pressupõe a primeira. As sociedades hierárquicas em geral desconsideram, e mesmo repudiam, os estratos inferiores, com os quais têm pouca ou nenhuma comunicação. A sociedade brasileira é simultaneamente hierárquica e aberta, profundamente desigual e promotora da mobilidade social e da cooptação. As sociedades hierárquicas tradicionais sempre tiveram um forte componente de fatalismo e fortes crenças na inevitabilidade e eternidade das diferenças. No Brasil, pelo contrário, as hierarquias se sustentam na expectativa da mobilidade social e de um futuro diferente. O próprio padrão de sociabilidade brasileira, gregário, lúdico, pouco individualizado, assim como seu sincretismo religioso e artístico, é uma expressão de efetiva abertura e absorção de elementos da cultura africana e indígena.

Porém, o que nos parece mais importante nesse contexto é que o relato da mitologia nacional brasileira aparece incompleto na apresentação de DaMatta. Se por um lado ela supõe um claro componente racista na ideia do embranquecimento, ao mesmo tempo inclui uma expectativa de homogeneização no futuro, o que é alheio a uma sociedade hierárquica. Em outras palavras, convivem no interior do mito nacional brasileiro uma ideia de pecado original – a composição negra, índia e marginal lusitana da população colonial –, e a esperança de que o tempo, graças à riqueza infinita e à beleza edênica de sua natureza, permitirá apagar essas manchas

com a recriação de uma sociedade integrada e homogênea. 3 Essa visão do futuro limita e qualifica os componentes racistas da cultura brasileira.

O decisivo, porém, é que a visão de uma sociedade que se apoia na possibilidade de um futuro comum ideal, e não no passado, é uma revolução copernicana em relação a toda a mitologia moderna dos Estados nacionais. Essa visão explica a quase inexistência de antissemitismo, ou a fragilidade de ideologias anti-imperialistas, que diferencia o Brasil do restante da América Latina.

Uma sociedade orientada para o futuro é uma sociedade que valoriza o novo e que não tem medo da inovação. O mito de origem do Brasil – que vê a origem dos problemas do país no passado, na escravidão e na colonização lusitana e que acredita que o paraíso não foi perdido mas que se encontra no futuro – produz uma visão totalmente diferente dos valores da mudança e do estrangeiro. Na medida em que todos os mitos de origem nacional supõem uma fase áurea num passado remoto que nutre e sustenta os valores nacionais, eles criam uma relação problemática com o novo, identificado, quase sempre, com influências externas e o estrangeiro. O “nacional mais puro” é aquele que se encontra ligado mais profundamente às raízes e ao passado. Quanto menos raízes, mais longe se está dos “valores nacionais”. No mito de origem brasileiro, pelo contrário, o passado é desvalorizado e sua proximidade com este implica uma identificação negativa. Não é à toa que no Brasil predominam as piadas sobre negros e portugueses como expressão do passado a ser rejeitado. Num contexto em que o novo, a mudança e o futuro são valorizados, o estrangeiro, no lugar de ser portador de valores estranhos à nacionalidade, passa a ser seu principal construtor.

Enquanto nos mitos de origem nacional fundados no passado o inimigo é sempre externo e personificado nas “influências estrangeiras”, no mito de origem brasileiro, do “país do futuro”, o inimigo é interno, o próprio passado, personificado nos agrupamentos humanos associados a ele. É o passado que se trata de erradicar para que a nação encontre seu potencial. Assim, se por um lado as ideologias anti-imperialistas e terceiro-mundistas se propunham superar e negar os aspectos do passado associados ao estrangeiro – agressivo e explorador – para que o povo realizasse o seu potencial reprimido pela história, no caso brasileiro foi sempre dominante a visão do passado percebido como a fonte de todos os vícios. Isso deve ser superado para que possam ser realizadas as virtualidades do país, proporcionadas por suas riquezas naturais, à espera de serem exploradas sob forma racional em seu potencial de gerar prosperidade e riqueza para todos.

Toda cultura e mitologia nacional baseia-se em experiências históricas e processos políticos e sociais que as reforçam ou transformam. A fragilidade de movimentos românticos e saudosistas no Brasil está associada à abertura, à permeabilidade e à tendência à conciliação no interior das elites, o que não permitiu cristalizar setores ressentidos e frustrados com as transformações sociais e desejosas de retornar a um passado idealizado.

A classe dominante brasileira, no século XX, não fez questão de associar suas origens à potência colonizadora para distinguir-se do resto da população nativa ou imigrante. A relação negativa com o passado limitou a formação de uma elite cujo prestígio se basearia

em suas raízes “profundas” e que encarnaria a nacionalidade. 4 Igualmente o papel econômico de São Paulo, liderado por grupos de migrantes, o cosmopolitismo do Rio de Janeiro, a inexistência de guerras ou inimigos externos relevantes, as altas taxas de crescimento econômico e a mobilidade social e espacial da população – tudo isso colaborou para eliminar ou enfraquecer tendências xenófobas e românticas.

A ideologia “Brasil, país do futuro” foi atualizada nos anos 50 com o desenvolvimento de novas classes médias, geradas pelo processo de industrialização e modernização. As novas camadas que emergiram nesse período se beneficiaram de um processo de crescimento econômico com taxas poucas vezes atingidas por outros países. Confiantes na capacidade da indústria, da ciência e da tecnologia de assegurar progresso social, essas camadas não só se afastaram da ideologia racial como valorizaram e absorveram, nas artes, expressões populares ligadas em grande parte à população negra. As novas ideologias emergentes procuraram explicar os males do Brasil com referência exclusiva a processos econômicos e políticos, com total exclusão do tema racial. Se a prática da valorização do branqueamento se manteve, seu discurso de sustentação ideológica deixou de ser legítimo.

Somente nos anos 80 e 90, com os períodos de estagnação econômica, desemprego crônico e aumentos dos índices de criminalidade, começaram a surgir, ainda que marginalmente, expressões de discursos racistas, antinordestinos e antinegros.

O Brasil, como os brasileiros constantemente lembram, é um país sem memória. Aliás, esta é a única lembrança cultivada. Um país que alimenta a impunidade – nem a lei nem a memória condenam atos passados –, que aparentemente joga toda experiência coletiva no esquecimento, parece ser um povo sem memória. Mas a “falta de memória” não expressa a falta de um mecanismo que deveria existir: é um produto histórico, construído socialmente, um mecanismo ativo, positivo, de uma sociedade que rejeita o passado como algo a se lamentar. A desvalorização do passado tem claros efeitos perversos: não é possível construir um futuro sem o aprendizado do passado. Parece quase uma inversão da situação em que sociedades presas ao passado não conseguem enfrentar a mudança, o novo, obtendo em ambos os casos resultados similares.

Enquanto os mitos de origem que se sustentam na idealização do passado geraram ideologias românticas, antimodernas e antimercantis (o mercado é sempre visto como introdutor do novo, além de corruptor das tradições), a valorização do futuro faz do Brasil um país pouco permeável a esse tipo de ideologias, tendo elas baixíssima expressão e sendo quase inexistentes no Brasil contemporâneo. Dessa forma, o estrangeiro no Brasil, em vez de simbolizar o perigo, representa o progresso, as novas ideias e práticas que poderão ajudar a sociedade a realizar seu destino de país do futuro.