Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
(Re)viver a diáspora, (re)inventar o judaísmo
O principal desafio institucional do judaísmo pós-moderno, caso não venha a sofrer um novo trauma histórico, será tornar-se capaz de valorizar a positividade do exílio como fonte de riqueza e especificidade; manter a memória do Holocausto sem que ela se sustente na paranoia e na psicologia do sobrevivente; renovar e aprofundar a tradição rabínica sem sucumbir a seus aspectos retrógrados; justificar a vontade de ser diferente na afirmação de suas tradições próprias e não no fantasma do antissemitismo; enfim, conjugar destino e liberdade, renovação e tradição.
(Re)viver a diáspora, (re)inventar o judaísmo 1
O judaísmo moderno acabou, mas não sabemos como enterrá-lo. O que aconteceu? Por que não sabemos o que fazer com o judaísmo moderno? Por que os únicos aparentes beneficiários da conjuntura atual parecem ser os grupos religiosos ortodoxos? Para onde vamos?
O fim do judaísmo moderno
O judaísmo moderno foi um esforço colossal de traduzir e adaptar a tradição religiosa medieval às ideologias dominantes na Europa nos séculos XIX e XX, isto é, aos valores do Iluminismo, centrados no respeito à liberdade de consciência e à autonomia moral de cada indivíduo. Nesse sentido, ele foi fundamentalmente um fenômeno associado ao judaísmo ashkenazi, já que boa parte do judaísmo sefaradita só se integrou à modernidade tardiamente.
Que judaísmo foi este que dominou a cena do século XX? Em primeiro lugar, um judaísmo dividido, organizado em grupos relativamente coesos identificados com ideologias que eram projetos de (re)organização política e econômica da sociedade. Nacionalismo, socialismo e liberalismo foram as grandes linhas divisórias que transformaram o judaísmo nos últimos dois séculos, dando lugar ao sionismo em suas diversas orientações; ao socialismo do Bund centrado na visão de uma cultura judaica secular fundada na língua iídiche; ao judaísmo conservador; ao judaísmo reformista; e, em geral, à participação ativa na vida política das nações.
Em segundo lugar o judaísmo moderno foi um judaísmo secular e universalista, inclusive quando assumia formas religiosas, como no caso do judaísmo conservador e reformista, ou mesmo quando se apresentava como um nacionalismo, como foi o caso do sionismo. O que significa isso? Que eram aceitos os valores básicos da modernidade, que o espaço público é independente das crenças religiosas, que o livre exercício da liberdade de consciência deve ser respeitado e que as crenças não podem ser usadas para desprezar a humanidade do outro. O sucesso do judaísmo secular foi formidável: nele incluem-se praticamente todos os líderes sionistas, de Ben Gurion a Jabotinsky e os grandes vultos do judaísmo contemporâneo, de Freud a Einstein, de Kafka a Benjamin.
Em terceiro lugar, foi um judaísmo “normalizador”, isto é enfatizou aquelas dimensões que a tradição judaica compartilhava com a humanidade tal como definida pela tradição europeia iluminista, abandonando ou reduzindo os fortes componentes xenófobos presentes na tradição religiosa e que a vivência histórica reforçou.
Em quarto lugar, o judaísmo moderno procurou negar/esquecer/ diminuir a diáspora, que foi demonizada como responsável pelos séculos de perseguições e vista como uma instituição em conflito com o Estado nacional ou uma relíquia do passado a ser abandonada pelo cosmopolitismo e o internacionalismo.
O sionismo foi sem dúvida o movimento que mais fustigou a diáspora, propondo inclusive o seu fim. Mas as outras tendências não fizeram muito melhor. O Bund, ao centrar sua identidade na cultura iídiche, desconhecia os laços que uniam os judeus do mundo, excluindo aqueles que só falavam ladino, árabe ou outra língua local; já o judaísmo reformista, em particular na primeira fase, procurou diluir a ideia de diáspora e os laços de solidariedade com as outras comunidades judias fora das fronteiras nacionais para serem reconhecidos como “bons cidadãos”. Foi o judaísmo conservador que manteve a relação mais equilibrada entre o passado e o presente, além de propor maior abertura para as diversas tendências no seio do judaísmo. A obra de Mordechai Kaplan nesse sentido foi exemplar ao fazer uma síntese entre judaísmo e pragmatismo e apoiar o sionismo, ao mesmo tempo que afirmava a relevância e permanência da diáspora e, como rabino, nunca deixasse de enfatizar a importância do judaísmo secular.