Judaísmo para o século XXI: o rabino e o sociólogo
TOLERÂNCIA E O OUTRO Nilton Bonder
Tolerância e o outro
Nilton Bonder
O outro é o mesmo
Distinções para o diálogo
Este artigo foi inspirado num pequeno incidente. Fui procurado por uma pessoa que viajara aos Estados Unidos e me trazia um folheto de uma sinagoga que visitara. A pessoa em questão achara o folheto interessante e um bom modelo para a divulgação de uma sinagoga. Quando tive oportunidade de ler com mais atenção o tal folheto, vi que não se tratava de um informativo de uma sinagoga, mas de um templo do grupo que se autodenomina “judaísmo messiânico”: Tal grupo, que já conta com instituições no Rio e em São Paulo, se apresenta como uma corrente judaica que vê em Jesus o Messias e no Novo Testamento uma fonte canonizada.
Motivado pelo crescimento de grupos desse tipo e pela dificuldade da pessoa que me entregara o folheto de identificar que tipo de “sinagoga” havia visitado, escrevo o que se segue...
O intolerável é sempre uma medida muito interessante. Representa a transgressão de uma fronteira que na verdade só se define claramente ao ser cruzada. Infeliz do tolerante que não conhece a experiência de limites.
A modernidade nos trouxe uma insuportável capacidade de confundir tolerância com alienação. Mudar de tom no meio de uma melodia é algo desagradável aos ouvidos, embora não queira dizer que um tom seja melhor do que outro. O que é intolerável não é a diferença, mas a indiferença – a capacidade de se esquecer do compromisso com a melodia. A tolerância não é uma medida absoluta e exigir-lhe tal natureza é estar de fora, externo e indiferente. O que é intolerável deveria ser entendido à luz de uma ordem de tolerância inaceitável, e não por meio de uma discórdia ou um horror à diferença. O outro que é diferente pode chegar até mesmo a ser apreciado: um mesmo que é diferente estará sempre na dimensão do tolerável.
Os movimentos religiosos que existem hoje dentro do judaísmo são exemplos de um mesmo que é diferente. Suas patologias podem se expressar pela alienação dos mais tolerantes frente àquilo que não deveria ser tolerado ou pela intolerância dos menos tolerantes em relação àquilo que deveria ser tolerado. Liberais portanto podem ter sido condescendentes e pluralistas com o intolerável e ortodoxos implacáveis, com o tolerável. Alcançar esse discernimento só é possível através de alguma definição de fronteira. Sem fronteiras que definam o que é um mesmo ou o que é um outro, não existe qualquer possibilidade de tolerância nem de apreciação.
Quando duas ou mais tradições encontram-se em espaços ecumênicos, seu tratamento mútuo não consegue ultrapassar a dimensão da tolerância. São tradições tratadas com uma mesma deferência, são partes de um mesmo e, como diferentes partes de um mesmo, só podem se tolerar. Se, no entanto, esse encontro se dá na dimensão do outro, na linguagem ou no espaço do outro onde não se tem qualquer dúvida de que o outro é o outro, então há espaço para a apreciação.
Ou, como a máxima chassídica diz: “Se eu sou eu porque você é você e você é você porque eu sou eu – nem eu sou eu e nem você é você; mas se eu sou eu porque eu sou eu e você é você porque você é você, então eu sou eu e você é você e nós podemos conversar”. Se eu sou eu porque você é você e vice-versa, então o que mais podemos almejar é a tolerância. Se eu sou eu porque eu sou eu e vice-versa, então é possível apreciar-nos e enriquecer-nos com nossa conversa. No ecumenismo são facilmente discerníveis os espaços onde se pratica a diplomacia e onde se pratica o enriquecimento no diálogo.
Surge hoje nas grandes capitais, onde há presença judaica, o cada vez mais visível “judaísmo messiânico”. Este grupo se assume como parte da fé judaica que reconhece Jesus enquanto Messias e pratica o judaísmo em sua forma cultural e tradicional. Tem corpo de judeu – propõe-se as mitzvot, circuncisão, kashrut, Shabat, tefilá, chama seu mentor espiritual de rabino e sua casa de orações de sinagoga – e alma cristã – fala de Ioshua, o salvador que trouxe nova luz, e faz uso de livros que não fazem parte do cânone judaico. Há sem dúvida um canto de sereia no ar e um desafio em particular para aqueles que toleram.
Rejeitar esses grupos levanta uma questão importante: não significaria legitimar a atitude dos grupos mais tradicionalistas e radicais que não toleram qualquer outra prática além de sua ortodoxia? Não seria legitimar ideologias que se arvoram como as únicas herdeiras fidedignas do judaísmo?
Acredito que não. Esse grupo não é um mesmo diferente, é um outro. Poderia, se assumisse isto, estabelecer-se até uma relação de apreciação – poderia haver muita conversa se fosse um outro. Sua improbidade é querer passar-se como parte de um grupo minoritário como são os judeus, com um longo passado de submissão a catequeses e ao proselitismo violento, em um momento em que passa por profunda transformação de sua identidade. É hora dos tolerantes serem profundamente coerentes com sua essência e exercerem sua intolerância. É um momento profundo de expressar-se não como um alienado ou um indiferente. É um momento de resistir às tentações da indiferença que se dissimulam na tolerância e que não reconhecem que o judaísmo é uma melodia. Não acredito que tenha que ser a única melodia – sem possibilidades de conversas –, mas é uma melodia própria. O judaísmo suporta qualquer jazz mas não o desafinar.
Triste a história deste grupo que, em vez de fazer jazz a partir da tradição cristã, vem desafinar o judaísmo. É suspeita tal necessidade de fazer-se um mesmo sendo-se outro. Essa falta de transparência parece atender a um mercado das confusões mais do que abrir novas perspectivas melódicas para este mundo tão necessitado delas.