Meio Sol Amarelo
Capítulo 7
Deitado numa esteira, na cabana da mãe, Ugwu olhava fixo para a aranha esmagada na parede; seus fluidos tinham manchado o barro com um tom mais vermelho ainda. Anulika estava medindo as xícaras de ukwa, e o aroma das sementes assadas de fruta-pão enchia o aposento. Ela falava. Já fazia um bom tempo que não parava de falar e a cabeça de Ugwu doía. A visita que fazia à família de repente lhe pareceu durar muito mais que uma semana, talvez por causa dos roncos gasosos que seu estômago dava, por ter comido apenas frutas e sementes. A comida da mãe era intragável. Ela cozinhava demais os legumes, o angu encaroçava, a sopa era muito aguada e as fatias de cará pareciam grosseiras porque não tinham sido cozidas com uma pelota de manteiga. Não via a hora de voltar para Nsukka e comer finalmente uma refeição de verdade.
“Eu quero ter um menino primeiro, porque assim eu assento bem os pés na casa de Onyeka”, dizia Anulika. Ela foi pegar um saco pendurado na viga e, de novo, Ugwu reparou na redondez suspeita do corpo da irmã: os seios que enchiam a blusa, o traseiro que gingava a cada passo. Onyeka devia ter dormido com ela. Ugwu não podia nem pensar naquele corpo horroroso fazendo sexo com a irmã. Tudo tinha acontecido rápido demais; escutara rumores de pretendentes, na última vez em que viera visitá-los, mas Anulika falara de Onyeka com tamanha indiferença que não achou que ela fosse aceitar seu pedido tão rápido. Agora, até mesmo os pais se apressavam em falar de Onyeka, do seu bom emprego de mecânico na cidade, de sua bicicleta, de seu bom comportamento, como se ele já fosse da família. Ninguém nunca mencionou a estatura mirrada, muito menos os dentes pontudos que pareciam mais dentes de um rato-do-mato.
“Você sabia que Onunna, do compound de Ezeugwu, teve uma menina primeiro, e os pais do marido dela foram ver um dibia para saber por quê! Claro que os pais de Onyeka não vão fazer isso comigo, eles não ousariam, mas eu queria ter um menino primeiro, de qualquer forma”, disse Anulika.
Ugwu endireitou o corpo. “Estou cansado dessas histórias sobre Onyeka. Mas uma coisa eu notei, quando ele passou por aqui, ontem. Uns banhos de vez em quando não seriam uma má idéia; Onyeka estava com cheiro de feijão-gordura podre.”
“E você, tem cheiro do quê?” Anulika despejou o ukwa no saco e amarrou bem. “Terminei. Acho melhor você ir, antes que fique muito tarde.”
Ugwu saiu para o quintal. A mãe triturava alguma coisa num pilão e o pai estava agachado perto dela, afiando uma faca numa pedra. O metal raspando na pedra produzia minúsculas faíscas que cintilavam alguns instantes no ar, antes de sumir.
“A Anulika embrulhou bem o ukwa?”, perguntou a mãe.
“Embrulhou.” Ugwu ergueu o saco, para mostrar a ela.
“Cumprimente seu patrão e sua patroa por nós”, disse a mãe. “Agradeça a eles por tudo que mandaram para nós.”
“Pode deixar, mãe.” E deu-lhe um abraço. “Fique bem. E cumprimente Chioke, quando ela voltar.”
O pai endireitou o corpo e limpou a lâmina da faca na mão, antes de estendê-la ao filho. “Que o caminho seja bom, ije orna. Nós mandamos avisar quando o pessoal de Onieka vier nos dizer que estão prontos para trazer o vinho de palma. Vai ser daqui a alguns meses.”
“Certo, pai.” Ugwu ficou por ali, enquanto os primos e irmãos, os mais jovens nus e os mais velhos em camisas muito maiores que eles, davam adeus e faziam a lista de tudo que queriam que ele trouxesse na próxima visita. Compra pão para nós! Compra carne! Compra peixe frito! Compra amendoim!
Anulika foi com ele até a estrada. Ugwu viu uma figura familiar à sombra de algumas ubes e, embora não tivesse encontrado com ela desde sua partida para Kano, onde fora aprender um ofício, quatro anos antes, soube de imediato que era Nnesinachi.
“Anulika! Ugwu! É você mesmo?” A voz continuava tão rouca quanto a lembrança que Ugwu guardava dela, porém Nnesinachi estava mais alta, e a pele, mais escura, graças ao sol inclemente do Norte.
Quando se abraçaram, sentiu o peito dela empurrar o seu.
“Quase não te reconheci, você mudou muito no Norte”, disse ele, perguntando-se se ela teria, de fato, apertado os seios contra ele.
“Voltei ontem com os meus primos.” Ela sorria para ele. Nunca sorrira assim com tanto carinho para ele, no passado. Suas sobrancelhas tinham sido raspadas e pintadas a lápis, uma mais grossa que a outra. Ela se virou para Anulika. “Anuli, estava indo ver você. Fiquei sabendo que vai casar!”
“Pois é, minha irmã, foi o que eu ouvi dizer também”, disse Anulika, e ambas riram.
“Você está indo para Nsukka?”, perguntou ela a Ugwu.
“Estou. Mas vou voltar logo, para a cerimônia do vinho de palma de Anulika.”
“Boa viagem.” Os olhos de Nnesinachi cruzaram ousadamente com os de Ugwu por alguns momentos, antes que ela continuasse seu trajeto, e ele então soube que não havia imaginado nada; ela de fato se apertara contra ele quando se abraçaram. Sentiu uma súbita fraqueza nas pernas. Teve de se segurar para não olhar para trás, só para o caso de ela também resolver se virar, e, por uns instantes, esqueceu as reviravoltas incômodas no estômago.
“Os olhos dela devem ter se aberto no Norte. Você não pode se casar com ela, de modo que acho melhor pegar o que está em oferta, antes que ela se case”, disse Anulika.
“Você reparou?”
“Como poderia não ter reparado? Por acaso pareço uma ovelha?”
Ugwu estreitou os olhos para olhar para ela. “Você e o Onyeka dormiram juntos?”
“Claro que sim.”
Ugwu reduziu o passo. Sabia que a irmã devia ter dormido com Onyeka, no entanto não gostou de ela ter-lhe confirmado. Quando Chinyere, a empregada do dr. Okeke, começou a pular a cerca e entrar no Alojamento dos Criados para fazer um sexo apressado, no escuro, ele contara à irmã, numa visita, e os dois discutiram bastante a respeito. Mas nunca falaram nada dela, Anulika; Ugwu sempre se obrigara a presumir que não havia nada a falar. Ela ia na frente, indiferente à lerdeza sombria do irmão, e ele se apressou para alcançá-la, calado, os passos leves na relva onde os dois, quando crianças, tinham caçado gafanhotos.
“Estou com tanta fome”, disse ele, por fim.
“Você não comeu nem mesmo o cará que Mama cozinhou.”
“A gente cozinha o nosso na manteiga.”
“Nós fervemos nosso inhame com mã-teii-ga. Olha só pra você. Quando eles mandarem você de volta pra cá, o que vai fazer? Onde é que vai achar mã-teii-ga para cozinhar seu inhame?”
“Eles não vão me mandar de volta.”
Ela o espiou de cima a baixo com o canto do olho. “Você se esqueceu de onde você é, e agora ficou tão besta que acha que é um bambambã.”
O Patrão estava na sala quando Ugwu entrou e o cumprimentou. “Como vai o seu pessoal?”, perguntou.
“Estão todos bem, sah. Eles mandaram saudações.”
“Muito bem.”
“Minha irmã Anulika vai se casar em breve.”
“Entendo.” O Patrão estava concentrado, tentando ligar o rádio.
Ugwu ouviu Olanna e Baby cantando no banheiro.
A London Bridge está caindo, está caindo, está caindo,
A London Bridge está caindo, minha bela senhora.
O London de Baby, em sua vozinha minúscula e malformada, soava como bombom. A porta do banheiro estava aberta.
“Boa tarde, mah”, disse Ugwu.
“Ah, Ugwu. Não escutei você chegando!”, disse Olanna. Ela estava debruçada sobre a banheira, dando banho em Baby. “Bem-vindo, nno. Seus parentes estão bem?”
“Estão sim, mah. E mandam saudações. Minha mãe diz que não sabe como agradecer a senhora pelos panos.”
“Como vai a perna dela?”
“Não dói mais. Ela me deu ukwa para trazer para a senhora.”
“Então deve saber o que estou com vontade de comer, agora.” Virou-se para olhá-lo, as mãos cobertas de espuma. “Você parece muito bem. Veja as suas bochechas gordas.”
“Pois é, mah”, concordou Ugwu, embora fosse mentira. Ele sempre perdia peso quando ia visitar a família.
“Ugwu!”, chamou Baby. “Ugwu, venha ver!” Ela apertava um pato de plástico na mão, que grasnava o tempo todo.
“Baby, você pode cumprimentar Ugwu depois do banho”, disse Olanna. “A Anulika vai se casar em breve, mah. Meu pai disse que eu devia avisar a senhora e o Patrão. Ainda não têm uma data, mas ficariam muito felizes se vocês fossem.”
“Anulika? Mas ela é tão nova, ainda. Deve ter o quê, uns dezesseis, dezessete anos?”
“As amigas dela já começaram a se casar.”
Olanna voltou as atenções para a banheira. “Claro que nós vamos.”
“Ugwu!”, repetiu Baby.
“Quer que eu aqueça o mingau dela, mah?”
“Quero. E, por favor, faça o leite dela também.”
“Pois não, mah.” Ele se demoraria um pouco mais, e, depois, perguntaria a ela se tinha corrido tudo bem, na semana em que ficara fora, e ela lhe diria quais amigos tinham aparecido para visitá-los, quem trouxera o quê, se tinham acabado com o cozido que ele deixara guardado no freezer.
“Seu patrão e eu decidimos que a Arize deve vir para cá, para ter o bebê em setembro”, disse Olanna.
“Isso é muito bom, mah”, disse Ugwu. “Espero que o bebê saia parecido com tia Arize e não com tio Nnakwanze.”
Olanna riu. “Eu também. E vamos começar a limpar o quarto, quando chegar mais próximo da data. Quero que esteja tudo impecável para ela.”
“Vai ficar tudo impecável, mah, não se preocupe.” Ugwu gostava de tia Arize. Lembrava-se da cerimônia de levar-o-vinho, em Umunnachi, já fazia uns três anos, de como ela estava gorducha e esfuziante, e de como ele tomara tanto vinho de palma que quase deixara Baby cair no chão, ainda bebezinha.
“Eu vou até Kano, na segunda-feira, para pegar Arize e levá-la até Lagos, fazer umas compras”, disse Olanna. “Vou levar Baby junto. Vamos pôr na mala aquele vestido azul que Arize fez para ela.”
“O rosa é melhor, mah. O azul já está muito apertado.”
“É verdade.” Olanna apanhou um pato de plástico, atirou na banheira e Baby exultou, mergulhando o brinquedo na água.
“Nkem!”, chamou o Patrão. “O mego! Aconteceu!”
Olanna saiu correndo em direção à sala, com Ugwu bem atrás.
O Patrão tinha parado na frente do rádio. A televisão estava ligada, mas sem volume, de modo que as pessoas que dançavam na tela pareciam estar oscilando, bêbadas. “Houve um golpe”, disse o Patrão, e fez um gesto para o rádio. “O major Nzeogwu está falando de Kaduna.”
A voz no rádio era jovem, animada, confiante.
A Constituição foi suspensa, e os governos regionais e as assembléias eleitas foram
dissolvidos. Meus queridos compatriotas, o objetivo do Conselho Revolucionário é
estabelecer uma nação livre de corrupção e de lutas internas. Nossos inimigos são os
aproveitadores políticos, os vigaristas, aqueles que ocupam tanto altos postos quanto cargos
de segundo escalão e que exigem suborno de dez por cento, são os que procuram manter o
país permanentemente dividido para continuar lucrando, são os tribalistas, os nepotistas,
aqueles que fazem nosso país parecer bom para coisa nenhuma nos círculos internacionais,
aqueles que corromperam a nossa sociedade.
Olanna correu para o telefone. “O que está havendo em Lagos? Eles disseram o que está havendo em Lagos?”
“Seus pais estão bem, nkem. Os civis estão a salvo.”
Olanna discou. “Telefonista? Telefonista?” Pôs o fone no gancho e ergueu-o de novo. “Não estou conseguindo falar.”
Com suavidade, o Patrão tirou o telefone da mão dela. “Tenho certeza de que eles estão bem. Daqui a pouco o telefone volta a funcionar. É só por segurança.”
No rádio, a voz tinha ficado mais firme.
Garanto a todos os estrangeiros que seus direitos continuarão a ser respeitados.
Prometemos a todos aqueles que cumprem as leis que estarão livres de todas as formas de
opressão, livres da ineficiência geral, e livres para viver e lutar em todos os campos do
empenho humano. Nós prometemos que você nunca mais terá vergonha de dizer que é
nigeriano.
“Mami Ola!”, gritou Baby, do banheiro. “Mami Ola!”
Ugwu voltou para o banheiro, secou Baby com uma toalha, depois a abraçou; soprou em seu pescoço. Ela tinha um cheiro delicioso de sabonete Pears para bebês.
“Baby é um franguinho”, disse ele, fazendo cócegas na menina. Suas tranças estavam molhadas, as pontas presas em um nó enroscado; Ugwu alisou-as e espantou-se, uma vez mais, de como ela se parecia com o pai; seu povo diria que era a cara de um, focinho do outro.
“Mais cosquinha!”, disse Baby, rindo. Seu rosto rechonchudo estava molhado e liso.
“A Baby é um bebê franguinho”, murmurou Ugwu, naquele seu jeito cantado que sempre a divertia.
A menina riu e, vindo da sala, Ugwu escutou Olanna dizer: “Ai, meu Deus, o que foi que ele disse? O que foi que ele disse?”
Estava dando o mingau para Baby quando o vice-presidente falou muito rapidamente no rádio, a voz comedida, como se fosse exauri-lo a façanha de dizer: “O governo está entregando o poder aos militares”.
Houve outras declarações, mais tarde — ninguém sabia onde estava o primeiro-ministro, a Nigéria era agora um governo federal militar, os premiês do Norte e do Oeste tinham sumido —, só que Ugwu não tinha certeza de quem estava falando, nem de que estação era, porque o Patrão, sentado ao lado do rádio, virava o dial muito rápido, parava, escutava, virava, parava. Sem os óculos, parecia mais vulnerável, com os olhos afundados na face. Não voltou a colocá-los até os convidados chegarem. Havia mais do que o número normal, e Ugwu teve de levar cadeiras da sala de jantar para a sala, para todos poderem sentar. As vozes eram de urgência, animadas, todo mundo ansioso, mal podendo esperar para dar a sua opinião.
“Isso vai ser o fim da corrupção! Isso é o que estávamos precisando que acontecesse desde a greve geral”, disse um dos convidados. Ugwu não se lembrava do nome, mas ele tinha o hábito de comer todo o chin-chin logo depois de servido, de modo que Ugwu se acostumara a colocar a bandeja o mais longe possível dele. O homem tinha mãos enormes; alguns punhados generosos de biscoitos e estava tudo perdido.
“Esses majores são verdadeiros heróis!”, disse Okeoma, levantando o braço.
Havia animação nas vozes, mesmo quando falavam de gente que fora morta.
“Disseram que o Sardauna se escondeu atrás das esposas.”
“Disseram que o ministro das Finanças se cagou todo, antes de ser fuzilado.”
Alguns convidados soltavam risadinhas, assim como Ugwu, até que ele ouviu Olanna dizer: “Eu conhecia Okonji. Era amigo do meu pai”. Ela parecia meio amortecida.
“A BBC está dizendo que foi um golpe dos ibos”, disse o convidado que adorava chin-chin. “E eles têm uma certa razão. Foi quase só gente do Norte que morreu.”
“Pois se no governo tinha quase só gente do Norte”, sussurrou o professor Ezeka, as sobrancelhas arqueadas, como se não acreditasse que tinha de dizer algo tão óbvio.
“A BBC devia perguntar ao povo deles, afinal foram eles que puseram o povo do Norte no governo, para dominar todo mundo!”, disse o Patrão.
Ugwu surpreendeu-se que o Patrão e o professor Ezeka estivessem de acordo. Ficou ainda mais espantado quando a srta. Adebayo disse: “Esses africanos do Norte são malucos de dizer que isso é uma questão de infiéis contra o que é certo”, e o Patrão riu — não aquela sua risada zombeteira, antes de se pôr na beirada da poltrona para desafiá-la; foi uma risada de aprovação. Ele concordava com ela.
“Se tivéssemos mais homens como o major Nzeogwu, no país, não estaríamos na posição em que estamos hoje”, disse o Patrão. “Ele na verdade teve uma visão!”
“Ele não é comunista?” A pergunta fora feita pelo professor Lehman, o que tinha olhos verdes. “Ele visitou a Tchecoslováquia quando estava em Sandhurst.”
“Vocês americanos não se cansam de espiar embaixo da cama de todo mundo, em busca de comunistas. Então você acha que temos tempo para nos preocupar com isso?”, perguntou o Patrão. “O que importa é aquilo que puder fazer nosso povo ir para a frente. Vamos presumir que uma democracia capitalista seja algo bom, em princípio, mas se é democracia do tipo que temos por aqui, em que alguém lhe dá uma roupa dizendo que é idêntica à dele, mas só que não serve em você, os botões caíram, então é preciso descartar essa roupa e vestir uma que sirva. Você simplesmente tem de fazer isso!”
“Retórica demais, Odenigbo”, disse a srta. Adebayo. “Você não pode montar um caso teórico para os militares.”
Ugwu sentiu-se melhor; essa era uma das escaramuças a que estava habituado.
“Claro que posso. Com um homem como o major Nzeogwu, posso sim”, disse o Patrão. “Ugwu! Mais gelo!”
“O sujeito é um comunista”, insistiu o professor Lehman. Sua voz nasal irritava Ugwu, ou talvez fosse o simples fato de ele ter o mesmo cabelo loiro de Mister Richard, mas nada da dignidade silenciosa do outro. Bem que gostaria que Mister Richard ainda continuasse com as visitas. Lembrava-se muito bem da última, meses antes de Baby nascer, mas outras recordações daquelas semanas problemáticas estavam desbotadas, incompletas; tivera tanto medo que o Patrão e Olanna nunca mais reatassem e que seu mundo fosse por água abaixo que nem ficou escutando muita coisa atrás das portas. Nem teria sabido que Mister Richard estava envolvido na briga se Harrison não tivesse lhe contado.
“Obrigado, meu bom homem.” O Patrão pegou o balde de gelo e colocou algumas pedras no seu copo.
“Pois não, sah”, disse Ugwu, vigiando Olanna. A cabeça dela estava apoiada nas mãos. Até gostaria de sentir dó de verdade, pelo amigo político dela que fora morto, mas os políticos não eram como as outras pessoas normais, eles eram políticos. Lia a respeito deles no Renaissance e no Daily Times — eles pagavam bandidos para surrar os oponentes, compravam terras e casas com dinheiro do governo, importavam frotas de longos carros americanos, pagavam as mulheres para rechear as blusas com votos falsos e se fingir de grávidas. Sempre que escorria os restos de uma panela na pia, pensava na gordura da superfície como política.
Nessa noite, deitado em seu quarto, no Alojamento dos Criados, tentou se concentrar no livro O prefeito de Casterbridge, mas estava difícil. Torcia para que Chinyere pulasse a cerca e viesse até seu quarto; eles nunca planejavam nada, ela apenas aparecia, num determinado dia, e sumia em outros. Ele ansiava para que ela aparecesse nesse dia emocionante do golpe que mudara a ordem das coisas e pulsava cheio de possibilidades, de coisas novas. Quando ouviu as batidas na janela, ofereceu um agradecimento embasbacado aos deuses.
“Chinyere”, disse ele.
“Ugwu.”
Ela cheirava a cebola velha. A luz estava apagada e, na pouca luz que vinha da lâmpada de segurança do lado de fora, ele viu a elevação em forma de cone de seus seios, quando tirou a blusa, desamarrou os panos da cintura e deitou-se de costas. Havia qualquer coisa de úmido na escuridão, nos corpos tão próximos, e ele imaginou que ela era Nnesinachi, que as pernas firmes que o abraçavam eram de Nnesinachi. Calada de início, depois que os quadris entraram em movimento, com as mãos agarradas nas costas de Ugwu, ela disse a mesma coisa de todas as outras vezes. Parecia um nome — Abonyi, Abonyi —, mas ele não tinha certeza. Talvez também fingisse que Ugwu era outra pessoa, alguém de sua própria aldeia.
Ela se levantou e saiu, no mesmo silêncio em que chegara. Quando a viu no dia seguinte, do outro lado da cerca, pendurando roupas no varal, ela disse “Ugwu” e mais nada; não sorriu.