Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 12 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 11

 

Olanna estava sentada na varanda de Mohammed, tomando leite de arroz gelado, rindo do fiozinho delicioso e gelado que escorria por sua garganta, da sensação grudenta nos lábios, quando o homem que cuidava dos portões apareceu e pediu para falar com Mohammed.

Mohammed saiu e voltou alguns momentos depois, segurando o que parecia ser um panfleto. “Eles estão se rebelando”, falou.

“São os estudantes, não são?”, perguntou Olanna.

“Eu acho que é questão de religião. Você precisa ir embora já.” Os olhos dele evitaram os dela.

“Mohammed, calma.”

“Sule disse que eles estão bloqueando as estradas em busca de infiéis. Vamos, vamos.” Ele já estava entrando em casa. Olanna foi atrás. Ele se preocupava demais com tudo, Mohammed. Afinal, os estudantes muçulmanos estavam sempre protestando contra isso ou aquilo, e pegando no pé de pessoas vestidas como ocidentais, mas em geral se dispersavam bem rápido.

Mohammed entrou num quarto e saiu de lá com um longo lenço. “Use isso, assim pode passar despercebida.”

Olanna colocou o lenço na cabeça e enrolou-o no pescoço. “Estou igualzinha a uma muçulmana”, brincou.

Porém Mohammed não sorriu. “Vamos. Conheço um atalho até a estação de trem.”

“Estação de trem? Arize e eu só partimos amanhã, Mohammed”, disse Olanna. Estava quase correndo para acompanhá-lo. “Eu vou voltar para a casa do meu tio em Sabon Gari.”

“Olanna.” Mohammed havia ligado o carro; o veículo sacolejou, ao partir. “Sabon Gari não é um lugar seguro.”

“Como assim?” Ela deu um puxão no lenço; os bordados nas pontas pareciam grosseiros e era incômodo usá-lo junto à pele do pescoço.

“Sule disse que eles estão bem organizados.”

Olanna olhou para o amigo, de repente assustada pela forma como ele parecia assustado. “Mohammed?”

A voz dele saiu baixa. “Ele disse que há corpos ibos largados na avenida do Aeroporto.”

Olanna percebeu então que essa não era mais uma passeata de estudantes religiosos. O medo ressecou sua garganta. Ela juntou as mãos. “Por favor, vamos apanhar meu pessoal, antes”, disse ela. “Por favor.”

Mohammed tomou a direção de Sabon Gari. Um ônibus passou por eles, empoeirado e amarelo; parecia um daqueles ônibus de campanha que os políticos usavam para rodar por áreas rurais, dando arroz e dinheiro vivo aos habitantes dos povoados. Um homem estava pendurado na porta do ônibus, com um alto-falante grudado na boca, fazendo ressoar suas lentas palavras em hauçá. “Os ibos têm de ir embora. Os infiéis têm de ir. Os ibos têm de ir embora.” Mohammed estendeu a mão, apertou a de Olanna e manteve essa postura enquanto cruzavam com um bando de jovens na beira da calçada, entoando “Araba, araba!”. Ele reduziu a marcha e buzinou algumas vezes, em sinal de solidariedade; eles acenaram de volta e ele acelerou o carro.

Em Sabon Gari, a primeira rua estava vazia. Olanna viu a fumaça subindo feito uma grande sombra cinzenta antes mesmo de sentir o cheiro de queimado.

“Fique aqui”, disse Mohammed, ao parar o carro na frente do compound de tio Mbaezi. Ela o viu correr. A rua parecia estranha, desconhecida; o portão estava quebrado, o metal, amassado no chão. Depois ela reparou no quiosque de tia Ifeka, ou o que restara dele: lascas de madeira, pacotes de amendoim largados na terra. Abriu a porta do carro e saiu. Parou alguns instantes por causa da luminosidade ofuscante e do calor que fazia, as chamas subindo pelo telhado, areia e cinzas flutuando no ar, antes de sair correndo rumo à casa. Parou ao ver os corpos. Tio Mbaezi estava de bruços, com o corpo retorcido, as pernas esparramadas. Alguma coisa branco-cremosa escorria do rasgo enorme aberto atrás da cabeça. Tia Ifeka estava na varanda. Os cortes em seu corpo nu eram menores, pontilhando braços e pernas como lábios vermelhos meio abertos.

Olanna sentiu uma tontura aquosa em seus intestinos, antes que um entorpecimento tomasse conta do corpo e fosse parar nos pés. Estava sendo arrastada por Mohammed, e a mão dele feria seu braço. Mas não poderia sair sem Arize. Arize iria chegar a qualquer momento. Arize precisava ficar perto de um médico.

“Arize”, disse ela. “Arize está na rua.”

A fumaça estava ficando mais densa a sua volta, de modo que não tinha certeza se aqueles homens todos andando pelo quintal eram de verdade ou apenas nuvens de fumaça, até ver as lâminas metálicas brilhantes das machadinhas e machetes, os caftãs ensanguentados flutuando em volta das pernas.

Mohammed empurrou-a para dentro do carro, deu a volta e entrou também. “Mantenha o rosto baixo”, disse ele.

“Acabamos com a família inteira. Foi a vontade de Alá!”, gritou um dos homens, em hauçá. O homem era conhecido. Era Abdulmalik. Cutucou um corpo caído no chão com o pé e Olanna então reparou quantos corpos estavam largados ali, feito bonecas de pano.

“Quem é você?”, perguntou um outro, parado diante do carro.

Mohammed abriu a porta, com o carro ainda ligado, e falou em hauçá, rápido e persuasivo. O homem se afastou. Olanna virou-se, para olhar mais de perto e ver se era de fato Abdulmalik.

“Não levante a cabeça!”, disse Mohammed. Quase bateu na kuka; uma das imensas vagens da árvore caiu e Olanna escutou o som de algo sendo esmagado quando o carro passou por cima. Ela baixou a cabeça. Era Abdulmalik. Ele tinha chutado um outro corpo, um corpo de mulher sem a cabeça, e pisado em cima, posto uma perna, depois a outra em cima dela, embora houvesse espaço do lado para ele andar.

“Alá não permite isso”, disse Mohammed. Estava tremendo; o corpo inteiro tremia. “Alá não vai se esquecer deles. Alá não vai se esquecer dos que levaram essa gente a fazer isso. Alá nunca vai perdoar isso.”

Rodaram num silêncio nervoso, passaram por policiais em fardas ensanguentadas, passaram por urubus empoleirados nas cercas, passaram por rapazes levando rádios roubados, até que ele parou na estação e empurrou-a para dentro de um trem lotado.

 

Olanna sentou-se no chão do trem, com os joelhos encolhidos até o peito e a pressão morna e suarenta de outros corpos em volta. Havia gente que ia do lado de fora dos vagões, amarrada ao trem, e alguns iam nos degraus, segurando no corrimão. Olanna escutou gritos abafados quando um homem caiu. O trem era uma massa de metais frouxamente ligados, o trajeto, instável como se os trilhos fossem cruzados por lombadas, e, toda vez que a composição chacoalhava, ela era atirada contra a mulher a seu lado, e contra algo no colo dela, uma tigela grande, uma cabaça. Os panos que ela usava estavam salpicados de manchas borradas que pareciam de sangue, mas Olanna não tinha certeza. Seus olhos ardiam. Sentia como se houvesse uma mistura de pimenta e areia dentro deles, pinicando e fazendo arder as pálpebras. Era uma agonia piscar, uma agonia mantê-los fechados, uma agonia deixá-los abertos. A vontade era arrancar os olhos. Molhou a ponta dos dedos com saliva e esfregou na vista. Às vezes fazia isso com Baby, quando ela se arranhava. “Mami Ola!”, gemia ela, erguendo o braço ou a perna ferida, e Olanna então enfiava o dedo na boca e, depois, passava no machucado. Só que a saliva só fez o ardor piorar.

Um jovem a sua frente gritou e pôs as mãos na cabeça. O trem deu uma guinada e Olanna foi atirada de novo contra a cabaça; ela gostava da sensação firme da madeira. Estendeu a mão até conseguir acariciar delicadamente os traços entalhados que se entrecruzavam na casca. Fechou os olhos, porque ardiam menos quando fechados, e os manteve assim por horas, a mão junto à cabaça, até alguém gritar, em ibo, “Anyi agafeela! Nós cruzamos o rio Níger! Chegamos em casa!”.

Um líquido — urina — se espalhava pelo chão do trem. Olanna sentiu o frio ir encharcando o vestido. A mulher com a cabaça lhe deu uma cotovelada de leve e chamou outras pessoas para que se aproximassem. “Bianu, vem ver”, disse ela. “Vem dar uma olhada.”

Abriu a cabaça.

“Dêem uma olhada”, disse de novo.

Olanna olhou dentro. Viu a cabeça de uma menina, a pele baça e cinzenta, o cabelo todo trançado, os olhos revirados para trás e a boca aberta. Continuou olhando por um tempo, antes de desviar a vista. Alguém gritou.

A mulher fechou a cabaça. “E sabe que eu levei um bom tempo”, disse ela, “para trançar o cabelo dela? Ela tinha um cabelo tão grosso.”

O trem havia parado com um guincho enferrujado. Olanna saltou e parou, em meio à multidão que se empurrava. Uma mulher desmaiou. Motoqueiros batiam nas laterais dos caminhões, entoando: “Owerri! Enugu! Nsukka!”. Ela se lembrou da cabeça de tranças dentro da cabaça. Imaginou a mãe fazendo as tranças, os dedos besuntando o cabelo de óleo, antes de dividi-lo em partes, com um pente de madeira.