Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 2 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 1

 

O Patrão era meio tantã; havia passado anos demais lendo livros no exterior, falava sozinho no escritório, nem sempre respondia às saudações e tinha excesso de pêlo. A tia de Ugwu disse isso tudo em voz baixa, enquanto seguiam caminho. “Mas é um bom homem”, acrescentou. “E, desde que você trabalhe direito, vai comer bem. Vai comer carne todo dia, imagine só.” Ela parou para cuspir; a saliva saiu com um som sugado da boca e aterrissou no capim.

Ugwu não acreditava que houvesse alguém, nem mesmo esse patrão com quem iria viver, que comesse carne todo dia. Não contradisse a tia, porém, porque estava emocionado demais com a perspectiva, ocupado demais imaginando sua nova vida fora do povoado. Tinham descido do caminhão já fazia algum tempo, no terminal de veículos públicos, e o sol começava a queimar sua nuca. Mas Ugwu não se importava. Estava disposto a andar muitas horas mais, debaixo de um sol mais quente ainda. Nunca tinha visto nada igual às ruas que surgiram depois que cruzaram os portões da universidade, ruas asfaltadas, tão lisas que a vontade dele era encostar o rosto nelas. Nunca seria capaz de descrever para a irmã Anulika as casas pintadas da cor do céu que ficavam uma ao lado da outra, feito homens educados e bem-vestidos, muito menos a perfeição com que as sebes entre uma e outra eram aparadas — tão retas no topo que mais pareciam mesas embrulhadas em folhas.

A tia apertou o passo, e o som das sandálias fazendo chape-chape ecoou pela rua silenciosa. Ugwu se perguntou se, através das solas finas, ela também estaria sentindo o asfalto cada vez mais quente. Passaram por uma placa, ODIM STREET, e Ugwu repetiu a palavra street, como fazia sempre que via uma palavra em inglês que não fosse muito comprida. Sentiu um cheiro doce, inebriante, ao entrar no compound, e teve certeza de que vinha dos maços de flores brancas que desabrochavam nos arbustos. Haviam dado a forma de colinas esguias a essas moitas. A grama brilhava. As borboletas voavam em volta.

“Eu disse ao Patrão que você aprende tudo muito rápido, osiso-osiso”, disse a tia. Ugwu meneou a cabeça, concordando educadamente, embora ela já lhe tivesse dito a mesma coisa várias outras vezes, quase com a mesma frequência com que lhe contava como acontecera aquele golpe de sorte. Quando varria o corredor no departamento de matemática, uma semana antes, escutara o Patrão dizer que precisava de um criado, e imediatamente se ofereceu para trazer o sobrinho, antes que a datilógrafa ou o mensageiro tivessem a oportunidade de oferecer o mesmo serviço.

“Eu aprendo rápido, tia”, disse Ugwu. Estava admirando o carro na garagem; uma tira de metal corria em volta dele todo, como se fosse um colar.

“Não esqueça que, quando ele chamar, você sempre vai responder ‘Pois não, sah’.”

“Pois não, sah!”, repetiu Ugwu.

Estavam diante de uma porta de vidro. Ugwu segurou-se para não pôr a mão na parede de cimento — tinha vontade de ver se era muito diferente das paredes da casa da mãe, que ainda guardavam o contorno indistinto dos dedos que haviam amassado o barro. Por alguns instantes, desejou estar lá, de volta à cabana dela, sob o frescor escuro do sapê; ou então na casa da tia, a única do povoado com um telhado de zinco.

A tia bateu no vidro. Ugwu podia ver cortinas brancas por trás da porta. Uma voz disse, em inglês: “Sim? Entre”.

Eles tiraram as sandálias antes de entrar. Ugwu nunca tinha visto um aposento tão grande. Apesar dos sofás marrons dispostos em semicírculo, das mesas laterais entre eles, das estantes recheadas de livros e da mesa de centro, enfeitada por um vaso de flores vermelhas e brancas de plástico, ainda assim parecia haver espaço de sobra na sala. Sentado numa poltrona, o Patrão vestia camiseta e short. Não estava ereto na poltrona, e sim meio deitado, com um livro sobre o rosto, como se já tivesse esquecido que acabara de convidá-los a entrar.

“Boa tarde, sah! Aqui está o menino”, disse a tia de Ugwu.

O Patrão ergueu os olhos. Tinha a pele bem preta, feito casca velha de árvore, e os pêlos que cobriam seu peito e pernas eram lustrosos e de um tom mais escuro ainda. Ele tirou os óculos. “O menino?”

“O criado, sah.”

“Ah, claro, você trouxe o criado. I kpotago ya.” O ibo do Patrão parecia vaporoso aos ouvidos de Ugwu. Era um ibo tingido pelos sons escorregadios do inglês, o ibo de alguém que falava inglês com frequência.

“Ele vai trabalhar duro”, disse a tia. “Ele é um menino muito bom. É só dizer para ele o que deve fazer. Muito obrigada, sah!”

O Patrão grunhiu uma resposta, olhando Ugwu e a tia com uma expressão ligeiramente distraída, como se a presença deles dificultasse a lembrança de algo importante. A tia de Ugwu deu um tapinha no ombro do sobrinho, cochichou que daria tudo certo e virou-se em direção à porta. Depois que ela saiu, o Patrão repôs os óculos e concentrou-se no livro, relaxando ainda mais na poltrona, as pernas estiradas. Mesmo quando virava a página, não tirava os olhos do que estava lendo.

Ugwu ficou ali na porta, esperando. A luz do sol entrava pelas janelas da sala e, de vez em quando, uma brisa suave agitava as cortinas. Estava tudo silencioso, a não ser pelo farfalhar das páginas sendo viradas. Ele continuou ali um tempo, depois foi se aproximando cada vez mais da estante de livros, como se quisesse se esconder dentro dela, e, após alguns minutos, arriou no chão, agarrado a sua sacola de ráfia entre os joelhos. Olhou para o teto, tão alto, tão penetrantemente branco. Fechou os olhos e tentou refazer aquela sala espaçosa, com sua mobília desconhecida, mas não conseguiu. Abriu de novo os olhos, dominado por um novo espanto, e olhou em volta, para saber se era tudo verdade. Pensar que iria se sentar nesses sofás, que iria encerar o assoalho liso-escorregadio, que iria lavar essas cortinas vaporosas.

“Kedu afa gi? Como é que você chama?”, perguntou o Patrão, dando-lhe um susto.

Ugwu se levantou.

“Como você se chama mesmo?”, perguntou de novo, endireitando o corpo na poltrona, com sua vasta cabeleira grossa e farta, seus braços musculosos, seus ombros largos; Ugwu tinha imaginado um homem mais velho, alguém frágil, e agora sentia um súbito receio de que talvez não caísse no agrado desse patrão que parecia tão jovem e tão capaz, que não parecia precisar de nada.

“Ugwu, sah.”

“Ugwu. E você é de Obukpa?”

“De Opi, sah.”

“Você pode ter de doze a trinta anos.” O Patrão franziu a vista. “Provavelmente treze.” Ele disse thirteen em inglês.

“Pois não, sah.”

O Patrão voltou para o livro. Ugwu ficou parado. O Patrão virou algumas páginas, antes de erguer a vista de novo. “Ngwa, vá para a cozinha; deve haver alguma coisa para você comer na geladeira.”

“Pois não, sah.”

Ugwu entrou na cozinha com toda a cautela, pondo um pé atrás do outro lentamente. Quando viu a coisa branca, quase tão alta quanto ele, entendeu que era a geladeira. A tia já tinha lhe contado a respeito. Uma despensa gelada, explicara ela, que evitava que a comida estragasse. Abriu e, boquiaberto, sentiu o ar frio correndo pelo rosto. Laranjas, pão, cerveja, refrigerantes: várias coisas em pacotes e latas tinham sido postas em diferentes prateleiras e, na de cima, havia um luzente frango assado inteirinho, fora uma perna já comida. Ugwu esticou a mão e tocou no frango. A geladeira respirava pesado em suas orelhas. Tocou no frango de novo e lambeu o dedo, antes de arrancar a outra perna, que comeu até não sobrar quase nada na mão, a não ser uns fragmentos do osso. Em seguida, pegou um pedaço de pão, um naco que dividiria satisfeito com os irmãos, se por acaso algum parente viesse visitá-lo trazendo o pão como presente. Comeu bem rápido, antes que o Patrão pudesse aparecer e mudar de idéia. Tinha terminado e estava em frente à pia, tentando lembrar o que a tia dissera sobre abrir a torneira para ter um jato de água jorrando como se fosse uma fonte, quando o Patrão entrou. Estava de camisa estampada e calça comprida. Os dedos do pé, à mostra na ponta da sandália de couro, pareciam femininos, talvez por estarem tão limpos; pertenciam a pés que andavam sempre calçados.

“O que foi?”, perguntou o Patrão.

“Sah?” Ugwu fez um gesto para a pia.

O Patrão aproximou-se e girou a torneira de metal. “Dê uma espiada na casa e ponha sua sacola no primeiro quarto do corredor. Vou dar uma volta para espairecer a cabeça, i nugo?”

“Pois não, sah.” Ugwu o viu sair pela porta traseira. Não era um homem alto. Tinha um andar rápido, vigoroso, e lembrava Ezeagu, que detinha o título de campeão de luta livre no povoado de Ugwu.

Ugwu fechou a torneira, abriu de novo, depois fechou outra vez. Abriu e fechou, abriu e fechou, até que começou a rir com a mágica da água correndo e do frango e pão reconfortantes na barriga. Passou pela sala e entrou num corredor. Havia livros amontoados nas prateleiras e mesas dos três aposentos, na pia e nos armários do banheiro, empilhados do chão ao teto no escritório e, na despensa, eram pilhas e pilhas de jornais antigos ao lado de caixas de Coca e de cerveja Premier. Alguns livros estavam abertos, com o dorso para cima, como se o Patrão, sem ter terminado de ler um, tivesse passado rapidamente para outro. Ugwu tentou ler os títulos, mas eram quase todos muito longos, muito difíceis. “Métodos não paramétricos.” “Uma pesquisa sobre a África.” “A grande corrente do ser.” “O impacto normando sobre a Inglaterra.” Ele foi na ponta dos pés de aposento em aposento, afinal estava com os pés sujos, e, enquanto fazia sua visita de reconhecimento, ficava cada vez mais decidido a agradar o Patrão e a permanecer nesta casa onde havia carne e chão fresco. Estava inspecionando a toalete, passando a mão por cima do assento preto de plástico, quando escutou a voz do Patrão.

“Cadê você, meu bom homem?” Ele disse my good man* em inglês.

Ugwu foi voando até a sala. “Aqui, sah!”

“Como é que você se chama mesmo?”

“Ugwu, sah.”

“Isso, Ugwu. Olha aqui, nee anya, você sabe o que é isto?” O Patrão apontou e Ugwu olhou para uma caixa de metal crivada de botões de aspecto perigoso.

“Não, sah”, disse ele.

“É um toca-discos. É novo e muito bom. Não é como aqueles velhos gramofones que a gente tinha que ficar dando corda o tempo todo. E você precisa tomar o maior cuidado quando passar por ele, muito cuidado mesmo. E não pode deixar água entrar dentro dele.”

“Pois não, sah.”

“Vou sair para jogar tênis e depois vou dar uma passada no clube dos professores e funcionários.” O Patrão apanhou alguns livros da mesa. “Talvez volte tarde. De modo que se acomode e descanse.”

“Pois não, sah.”

Depois de ver o Patrão sair com o carro, Ugwu foi até o toca-discos para olhá-lo com mais cuidado, mas sem mexer em nada. Em seguida deu voltas pela casa de um lado a outro, passando a mão em livros, cortinas, móveis e pratos, e, quando escureceu, acendeu a luz e se maravilhou com o brilho da lâmpada pendurada no teto, com o fato de ela não lançar longas sombras na parede, como acontecia com as lamparinas a óleo de palmiste de sua casa. A mãe estaria preparando o jantar, socando akpu, o pilão agarrado nas duas mãos. Chioke, a esposa mais nova, estaria cuidando do caldeirão de sopa aguada, equilibrado em três pedras sobre o fogo. As crianças teriam voltado do riacho e estariam correndo umas atrás das outras, gritando, debaixo da árvore de fruta-pão. Talvez Anulika estivesse de olho nelas. Tinha se tornado a mais velha da família, agora, e, quando todos se sentassem em volta do fogo, para comer, caberia a ela interromper as brigas dos mais novos, que às vezes lutavam para ver quem ia ficar com as tiras de peixe seco da sopa. Esperaria até todo o akpu ser comido, e só então dividiria o peixe, de tal forma que cada criança ficasse com um pedaço e ela com o maior de todos, como Ugwu sempre fizera.

Ele abriu a geladeira e comeu um pouco mais de pão e de frango assado, enchendo rapidamente a boca de comida, enquanto o coração batia como se estivesse participando de uma corrida; depois arrancou alguns nacos extras de carne e as asas. Enfiou os pedaços nos bolsos do short, antes de ir para o quarto. Guardaria aquilo tudo até a tia vir visitá-lo, e pediria a ela que entregasse para Anulika. Talvez pudesse pedir para ela dar um pouco para Nnesinachi também. Assim quem sabe ela finalmente reparasse nele. Nunca soubera com precisão que parentesco havia entre Nnesinachi e ele, mas sabia que eram ambos da mesma umunna e que, portanto, jamais poderiam se casar. No entanto, bem que gostaria que a mãe parasse de se referir a Nnesinachi como irmã, dizendo coisas como: “Por favor, leve esse óleo de palmiste para Mama Nnesinachi, e, se ela não estiver, deixe com sua irmã”.

Nnesinachi sempre falava com ele numa voz vaga, o olhar desfocado, como se sua presença não fizesse a menor diferença, de um jeito ou de outro. As vezes ela o chamava de Chiejina, o nome de um primo que não parecia nem um pouco com ele, e quando ele dizia “Sou eu”, ela respondia “Perdão, Ugwu, meu irmão”, com uma formalidade distante que significava que não queria conversa com ele. Mas Ugwu gostava de ir até a casa dela, qualquer que fosse o pretexto. Eram oportunidades de vê-la debruçada, abanando o fogo ou picando folhas de ugu para a sopa que a mãe iria fazer, ou então apenas sentada na porta de casa, olhando os irmãos, os panos enrolados com displicência no corpo, mostrando a parte de cima dos seios. Desde o momento em que aqueles dois seios pontudos começaram a surgir ele se perguntava se seriam moles feito polpa ou duros feito a fruta verde da ube. Muitas vezes desejou que Anulika não fosse tão magricela — perguntava-se por que a irmã estaria demorando tanto, uma vez que ela e Nnesinachi tinham quase a mesma idade —, para poder sentir seus peitos. Anulika sem dúvida nenhuma lhe daria um tapa na mão, e quem sabe até lhe desse uma bofetada, mas ele seria bem rápido — era apertar e correr —, e dessa maneira teria ao menos uma idéia e saberia o que esperar quando finalmente tocasse nos seios de Nnesinachi.

No entanto, às vezes se preocupava com a possibilidade de nunca vir a tocá-los, sobretudo agora que o tio dela ia levá-la para Kano, para aprender um ofício. Nnesinachi iria para o Norte lá pelo final do ano, quando o irmão caçula que ela carregava no colo já estivesse andando. Ugwu queria se sentir tão contente e agradecido como o resto de sua família. Afinal, no Norte se ganhava um dinheirão; conhecia gente que tinha ido para lá negociar e que, ao voltar, punha abaixo o barraco e construía casa com telhado de zinco. Temia, no entanto, que um desses comerciantes barrigudos lá do Norte desse uma única olhada nela e pronto — com certeza o barrigudo iria aparecer trazendo vinho de palma para o pai dela, e ele, Ugwu, nunca mais tocaria naqueles seios. Eles — os seios de Nnesinachi — eram as imagens que ele guardava para lembrar por último, nas muitas noites em que se masturbava, primeiro devagar e, depois, vigorosamente, até que um gemido abafado lhe escapava da garganta. Sempre começava com o rosto dela, com as bochechas redondas e os dentes cor de marfim, depois imaginava os dois abraçados, o corpo dela moldado ao seu. Por fim, deixava que os seios fossem surgindo; às vezes eram duros e se sentia tentado a mordê-los, e, em outras, eram tão macios que tinha medo que seus toques imaginários pudessem lhe causar dor.

Por alguns instantes, lhe ocorreu que podia pensar nela. Mas decidiu que não. Não em sua primeira noite na casa do Patrão, numa cama que não tinha nada a ver com sua esteira de ráfia tecida à mão. Primeiro, pressionou as mãos na maciez elástica do colchão. Depois examinou as camadas de pano por cima dele, sem saber ao certo se devia dormir em cima ou se deveria tirar aquilo tudo e guardar, antes de dormir. Por fim, subiu na cama e deitou-se por cima das camadas de pano, o corpo enroscado num nó apertado.

Sonhou que o Patrão o chamava — Cadê você, meu bom homem! — e, ao acordar, o Patrão estava parado na porta, olhando para ele. Talvez não tivesse sido um sonho. Saiu da cama e olhou para as janelas com as cortinas fechadas, confuso. Seria tarde? Aquela cama macia o teria enganado e feito com que dormisse mais do que o necessário? Em geral acordava com os primeiros cantos do galo.

“Bom dia, sah!”

“Estou sentindo um cheiro forte de frango assado, por aqui.”

“Desculpe, sah.”

“Cadê o frango?”

Ugwu remexeu nos bolsos do short e tirou os pedaços de frango.

“O seu povo por acaso come enquanto dorme?”, perguntou o Patrão. Estava usando algo que parecia um casaco de mulher e distraidamente girava o cordão amarrado na cintura.

“Sah?”

“Você queria comer o frango deitado na cama?”

“Não, sah.”

“A comida tem que ficar na sala de jantar e na cozinha.”

“Pois não, sah.”

“E a cozinha e o banheiro têm que ser limpos, hoje.”

“Pois não, sah.”

O Patrão virou-se e foi embora. Ugwu ficou trêmulo, no meio do quarto, ainda segurando os pedaços de frango com a mão estendida. Bem que gostaria de não ter de passar pela sala de jantar para chegar à cozinha. Por fim, guardou os pedaços de frango de volta nos bolsos, respirou fundo e saiu do quarto. O Patrão estava na mesa de jantar, a xícara de chá colocada sobre uma pilha de livros.

“Você sabe quem na verdade matou Lumumba?”, disse o Patrão, erguendo os olhos de uma revista. “Foram os americanos e os belgas. Não teve nada a ver com Katanga.”

“Pois não, sah”, disse Ugwu. Queria que o Patrão continuasse falando, para poder escutar sua voz sonora, a mistura musical de palavras inglesas nas frases que dizia em ibo.

“Você é meu criado. Se eu lhe der ordem para sair na rua e surrar uma mulher que passa, apoiada num cajado, e você então a fere na perna, quem é responsável pela ferida sangrenta, você ou eu?”

Ugwu fitava o Patrão, sacudindo a cabeça, se perguntando se por acaso ele estava se referindo por linhas tortas ao frango assado.

“Lumumba era primeiro-ministro do Congo. Você sabe onde fica o Congo?”, perguntou o Patrão.

“Não, sah.”

Ele se levantou na hora e foi até o escritório. O receio confuso de Ugwu fez com que suas pálpebras tremessem. Será que o Patrão iria mandá-lo embora porque não falava inglês direito, guardava frango assado no bolso durante a noite, e não conhecia os lugares estranhos que ele mencionava? O Patrão voltou com uma folha grande de papel que desdobrou e pôs sobre a mesa de jantar, empurrando para um lado os livros e as revistas. Apontou com a caneta. “Este aqui é o mundo, se bem que as pessoas que desenharam o mapa resolveram pôr a terra deles em cima e a nossa, embaixo. Mas não existe um em cima e um embaixo, entende?” Ele pegou o papel e dobrou-o de tal forma que uma ponta tocava na outra, deixando um oco entre as metades. “Nosso mundo é redondo, e nunca termina. Nee anya, isto aqui é tudo água, os mares e oceanos, aqui é a Europa e, aqui, o nosso continente, a África, e o Congo fica no meio. Um pouco mais para cima é a Nigéria, e Nsukka é aqui, no Sudeste; é aqui que nós estamos.” Deu uma batida com a caneta no mapa.

“Pois não, sah.”

“Você frequentou a escola?”

“Até o segundo ano, sah. Mas eu aprendo tudo muito rápido.”

“Segundo ano? Isso faz quanto tempo?”

“Já faz muito tempo, sah. Mas eu aprendo tudo muito rápido.”

“Por que você parou de ir à escola?”

“A colheita do meu pai não vingou, sah.”

O Patrão acenou lentamente com a cabeça. “E por que seu pai não procurou alguém que pudesse lhe emprestar o dinheiro das mensalidades da escola?”

“Sah?”

“Seu pai devia ter pedido dinheiro emprestado!”, retrucou o Patrão, de mau humor, e, em seguida, já em inglês: “A educação é uma prioridade! Como é que podemos resistir à exploração se não temos as ferramentas para entender o que é exploração?”.

“Claro, sah!” E Ugwu meneou a cabeça vigorosamente, concordando. Estava resolvido a parecer tão alerta quanto lhe fosse possível, por causa do brilho rebelde que aparecera nos olhos do Patrão.

“Vou matricular você na escola primária dos filhos dos funcionários”, disse ele, ainda batendo na folha do mapa com a caneta.

A tia de Ugwu lhe havia dito que se fosse um bom criado, por alguns anos, o Patrão o mandaria para uma escola comercial, onde aprenderia datilografia e taquigrafia. Ela havia feito menção à escola primária dos funcionários da faculdade, mas apenas para lhe dizer que era só para os filhos dos professores, e que eles usavam uniforme azul e meias brancas com um trabalho tão intrincado de renda que a gente ficava imaginando por que alguém iria gastar tanto tempo apenas com meias.

“Pois não, sah”, disse ele. “Obrigado, sah.”

“Imagino que vai ser o mais velho da classe, se tem de começar no terceiro ano”, disse o Patrão. “E a única forma de obter o respeito dos outros é ser o melhor. Você entendeu?”

“Entendi, sah!”

“Sente-se, meu bom homem.”

Ugwu escolheu a cadeira mais distante e juntou os pés desajeitadamente. Preferia ficar em pé.

“Existem duas respostas para as coisas que eles vão lhe ensinar sobre a nossa terra: a resposta verdadeira e a resposta que você dá na escola para passar de ano. Você tem que ler livros e aprender as duas versões. Eu vou lhe dar livros, livros excelentes.” O Patrão interrompeu o que dizia para tomar um gole de chá. “Eles vão lhe ensinar que um homem branco chamado Mungo Park descobriu o rio Níger. Isso é besteira. Nosso povo pescava no Níger muito antes que o avô de Mungo Park tivesse nascido. Mas, no seu exame, escreva que foi Mungo Park.”

“Pois não, sah.” Ugwu desejou que esse Mungo Park não tivesse ofendido o Patrão tanto assim.

“Você não sabe dizer outra coisa, não?”

“Sah?”

“Me cante uma música.”

“Sah?”

“Me cante uma música. Que músicas você conhece? Cante!” O Patrão tirou os óculos. Franziu a testa sério. Ugwu começou a cantar uma velha música que tinha aprendido na fazenda do pai. Seu coração batia dolorido no peito. “Nzogho nzoghu enymba, enyi...”.

De início cantou bem baixinho, mas o Patrão bateu com a caneta na mesa e disse “Mais alto!”, de modo que ele aumentou a voz, mas o Patrão continuava dizendo “Mais alto!”, até que se viu berrando. Depois de cantar a mesma música algumas vezes, o Patrão lhe disse que podia parar. “Ótimo, ótimo”, disse ele. “Sabe fazer chá?”

“Não, sah. Mas aprendo rápido”, disse Ugwu. A cantoria abrira alguma coisa dentro dele, estava respirando com mais facilidade, o coração não batia mais com tanta força. E ele se convencera de que o Patrão era louco.

“Eu como quase sempre no clube dos professores. Imagino que agora, com você aqui, terei de trazer mais comida para casa.”

“Sah, eu sei cozinhar.”

“Você cozinha?”

Ugwu balançou a cabeça. Passara muitas noites vendo a mãe cozinhar. Fazia fogo para ela e abanava as cinzas quando as brasas ameaçavam morrer. Descascava e triturava mandioca e cará, soprava a casca do arroz, tirava o gorgulho do feijão, descascava cebola e moía a pimenta. Muitas vezes, quando a mãe adoecia, com acessos de tosse, teria gostado de ficar encarregado da cozinha, em vez de Anulika. Mas nunca contara para ninguém, nem mesmo para a irmã; ela já tinha dito que ele passava muito tempo em volta das mulheres na cozinha e que, se continuasse assim, talvez nunca criasse barba.

“Bem, então pode fazer sua própria comida”, disse o Patrão. “Escreva uma lista do que vai precisar.”

“Pois não, sah.”

“Você não saberia como chegar ao mercado, verdade? Eu vou pedir para o Jomo mostrar.”

“Jomo, sah?”

“Jomo toma conta do jardim. Ele vem três vezes por semana. Um sujeito engraçado, já o vi falando com os crótons.” O Patrão calou-se por alguns momentos. “De qualquer forma, ele vem amanhã.”

Mais tarde, Ugwu escreveu uma lista e entregou para ele.

O Patrão olhou para aquilo por um tempo. “Mistura notável”, disse ele, em inglês. “Imagino que eles vão ensinar você a usar mais vogais na escola.” Ugwu não gostou do ar gozador na cara do Patrão. “Nós precisamos de madeira, sah”, falou.

“Madeira?”

“Para os seus livros, sah. Para que eu possa arrumá-los.”

“Ah, sim, prateleiras. Imagino que dê para instalar mais algumas, em algum lugar, quem sabe no corredor. Eu falo com alguém do departamento de manutenção.”

“Pois não, sah.”

“Odenigbo. Me chame de Odenigbo.”

Ugwu olhou para ele com ar de dúvida. “Sah?”

“O meu nome não é Sah. Me chame de Odenigbo.”

“Pois não, sah.”

“Odenigbo será sempre o meu nome. Sir é acidental. Você pode vir a ser o sir amanhã.”

“Pois não, sah — Odenigbo.”

Ugwu na verdade preferia dizer sah, preferia o poder cristalino por trás dessa palavra, e quando apareceram os dois homens do departamento de manutenção, para instalar as prateleiras no corredor, ele disse que os dois precisariam esperar até Sah voltar para casa; ele não podia assinar a folha branca com palavras datilografadas. Ele disse Sah com orgulho.

“Ele é um daqueles criados que vêm do interior”, disse um dos homens, fazendo pouco de Ugwu, que olhou para ele e resmungou uma praga envolvendo diarréia aguda para o resto da vida do sujeito e de seus filhos. Enquanto arrumava os livros do Patrão, prometeu a si mesmo, e teve de fazer força para não dizer isso em voz alta, que iria aprender a assinar papéis.

Nas semanas seguintes, as semanas em que examinou cada canto da casa, em que descobriu que havia uma colméia instalada no cajueiro e que as borboletas convergiam para o jardim da casa quando o sol ficava mais forte, teve também o cuidado de aprender os ritmos da vida do Patrão. Todas as manhãs, apanhava o Daily Times e o Renaissance que o entregador deixava na porta e dobrava os jornais sobre a mesa, ao lado do chá e do pão do Patrão. Já estava com o Opel lavado, antes de ele ter terminado de tomar o café da manhã, e quando o Patrão voltava do trabalho, e fazia a sesta, ele tirava o pó do carro outra vez, antes que saísse para ir jogar tênis. Circulava em silêncio pela casa nos dias em que o Patrão se fechava durante horas a fio em seu escritório. Quando o Patrão se punha a andar pelo corredor, falando em voz alta, ele se certificava de que havia água quente pronta para o chá. Esfregava o chão todos os dias. Limpava as persianas até elas reluzirem sob o sol de final de tarde, prestava a maior atenção nas minúsculas fendas da banheira e polia os pires que usava para servir noz-de-cola aos amigos do Patrão. Havia no mínimo duas visitas por dia naquela sala, com a vitrola tocando suavemente estranhas músicas com flauta, num volume baixo o suficiente para que os sons da conversa, das risadas e o tilintar de copos chegassem até a cozinha ou ao corredor, enquanto Ugwu passava as roupas do Patrão.

Mais que isso, Ugwu queria dar ao Patrão todos os motivos do mundo para continuar a empregá-lo, e, por isso, uma manhã resolveu passar suas meias. Elas não pareciam amassadas, aquelas meias pretas caneladas, mas ele achou que ficariam ainda melhores passadas. O ferro quente silvou e, quando o ergueu, viu que metade da meia estava grudada nele. Ficou paralisado. O Patrão estava na mesa, terminando de tomar o café, e entraria a qualquer instante para calçar as meias e os sapatos e pegar a pasta para ir trabalhar. Ugwu quis esconder a meia sob a poltrona e correr para pegar um novo par, mas suas pernas não se mexeram. Ficou parado no mesmo lugar, com a meia queimada, sabendo que o Patrão iria encontrá-lo daquele mesmo jeito.

“Você passou minhas meias, não foi?”, perguntou o Patrão. “Seu energúmeno.” Energúmeno saiu de sua boca feito música.

“Desculpe, sah! Desculpe, sah!”

“Eu já lhe disse para não me chamar de sir.” O Patrão apanhou uma pasta da prateleira. “Estou atrasado.”

“Sah? Quer que eu pegue um outro par?”, perguntou Ugwu. Porém o Patrão já tinha calçado os sapatos, sem meias, e saído. Ugwu ouviu-o bater a porta do carro e sair. Seu peito estava pesado; não sabia por que tinha resolvido passar as meias, por que não se limitara a passar o traje safári. Maus espíritos, essa tinha sido a razão. Os maus espíritos o fizeram querer passar a meia. Afinal, eles espreitavam por toda parte. Sempre que ele ficava doente, com febre, e uma vez que caiu de uma árvore, a mãe esfregava okwuma em seu corpo, enquanto sussurrava: “A gente vai derrotá-los, eles não vão ganhar”.

Saiu pela porta da frente, passando por pedras dispostas lado a lado em volta do gramado impecável. Os maus espíritos não iriam vencer. Ele não deixaria que vencessem. Havia um trecho redondo sem grama, no meio do jardim, como se fosse uma ilha num mar verde, onde crescia uma delgada palmeirinha. Ugwu nunca tinha visto uma palmeira tão baixa, ou cujas folhas se abrissem com tamanha perfeição. Não parecia forte o suficiente para dar frutos, não parecia ter a menor utilidade, como a maior parte das plantas ali. Pegou uma pedra e atirou-a longe. Tanto espaço desperdiçado. No seu povoado, as pessoas plantavam qualquer pedacinho de terra com legumes e ervas. A avó dele não tinha precisado plantar sua erva predileta, arigbe, porque ela dava em toda parte. Ela costumava dizer que o arigbe amolecia o coração dos homens. Ela era a segunda de três esposas e não tinha a posição especial atribuída à primeira ou à última, de modo que, antes de pedir qualquer coisa ao marido, contava ela para Ugwu, fazia para ele um purê apimentado de cará com arigbe. Sempre funcionara. Talvez funcionasse com o Patrão.

Ugwu saiu à procura de uma planta de arigbe. Olhou entre as flores cor-de-rosa, debaixo do cajueiro, onde a colméia porosa se instalara, debaixo do limoeiro com fileiras de formigas subindo e descendo pelo tronco, e dos mamoeiros, com mamões maduros pontilhados de gordos buracos feitos pelos passarinhos. No entanto, o chão estava limpo, sem nenhuma erva; a limpeza que Jomo fazia no terreno era completa e cuidadosa e nada do que não se queria ali tinha permissão de crescer.

Na primeira vez em que se cruzaram, Ugwu cumprimentara Jomo, e Jomo, com um aceno de cabeça, continuara a trabalhar, sem dizer nada. Era um sujeito baixinho, com um corpo rígido e enrugado que, para Ugwu, precisava mais de água do que as plantas que ele molhava com seu regador de metal. Por fim, Jomo erguera os olhos até Ugwu. “Afa m bu Jomo”, declarou, como se Ugwu não soubesse seu nome. “Tem gente que me chama de Kenyatta, como o grande homem do Quênia. Sou caçador.”

Ugwu não sabia o que responder, porque Jomo o encarava como se esperasse ouvir algo extraordinário de sua parte.

“Que tipo de bicho você mata?” Jomo abriu um sorriso largo, como se essa fosse precisamente a pergunta que queria ouvir, e começou a falar sobre suas caçadas. Ugwu, sentado nos degraus que levavam ao quintal, ouvia. Desde o primeiro dia, nunca acreditou nas histórias de Jomo — de ter lutado com um leopardo só com as mãos, de ter matado dois babuínos com um único tiro —, mas gostava de ouvi-las e adiava a lavagem das roupas do Patrão para os dias em que Jomo aparecia, de modo a poder sentar-se do lado de fora enquanto o outro trabalhava. Jomo se mexia com um vagar premeditado. Tirava as ervas daninhas, aguava e plantava como alguém cheio de sabedoria solene. Erguia os olhos de uma sebe que estivesse aparando e dizia: “Isso é carne boa”, e em seguida ia até o saco de pele de cabra amarrado atrás de sua bicicleta e pegava um estilingue. Um dia, derrubou um pombo do mato do cajueiro com uma pedra pequena, embrulhou o pássaro em folhas e pôs no saco.

“Não chegue perto daquele saco, a menos que eu esteja por perto”, disse a Ugwu. “Você pode encontrar uma cabeça de homem lá dentro.”

Ugwu riu, mas não desacreditou por completo das palavras de Jomo. Queria tanto que ele tivesse ido trabalhar nesse dia. Jomo teria sido a melhor pessoa para ele perguntar sobre arigbe — na verdade, para pedir conselhos sobre como acalmar o Patrão.

Saiu do jardim, foi até a rua e olhou as plantas que nasciam nas beiradas, até ver as folhas retorcidas perto da raiz de um pinheiro. Jamais tinha sentido um cheiro que chegasse aos pés da sutileza apimentada do arigbe naquela comida sem graça que o Patrão trazia do clube; ele faria um ensopado com arigbe, e ofereceria um pouco ao Patrão, com arroz, e só depois faria seu apelo. Por favor, não me mande de volta para casa, sah. Eu trabalho mais tempo para pagar pela meia queimada. Eu vou ganhar o dinheiro para comprar outra meia. Ele não sabia exatamente o que poderia fazer para ganhar o dinheiro da meia, mas de todo modo planejava dizer isso ao Patrão.

Se o arigbe amaciasse o coração dele, talvez pudesse plantá-lo no quintal, junto com algumas outras ervas. Argumentaria que, assim, teria o que fazer antes de começar a estudar, já que a diretora da escola dissera que ele não poderia começar no meio do ano. Mas talvez estivesse com esperanças demais. De que adiantava pensar em plantar ervas aromáticas se o Patrão lhe pedisse para ir embora, e não o perdoasse pela meia queimada? Entrou apressado na cozinha, pôs o arigbe na bancada e mediu um pouco de arroz.

Horas depois, sentiu um aperto no estômago ao ouvir o carro do Patrão: um rangido no cascalho e o zumbido do motor, antes de parar na garagem. Ao lado da panela, Ugwu mexia o ensopado, segurando a concha com a mesma intensidade do aperto que sentia no estômago. Será que o Patrão iria despedi-lo antes que tivesse a chance de lhe oferecer um pouco de comida? O que diria a sua gente?

“Boa tarde, sah — Odenigbo”, disse ele, antes mesmo de o Patrão ter entrado na cozinha.

“Boa tarde”, respondeu o Patrão. Segurava os livros junto ao peito com uma das mãos e tinha a pasta na outra. Ugwu apressou-se em ir ajudá-lo com os livros. “Sah? O senhor vai comer?”, perguntou em inglês.

“Comer o quê?”

O estômago de Ugwu parecia ainda mais tenso. Temia que arrebentasse só de se abaixar para pôr os livros sobre a mesa de jantar. “Ensopado, sah.”

“Ensopado?”

“É, sah. Um ensopado muito gostoso, sah.”

“Então eu vou experimentar.”

“Pois não, sah.”

“Me chame de Odenigbo!”, retrucou o Patrão, antes de entrar no banheiro para tomar o banho da tarde.

Depois de servir a comida, Ugwu ficou na porta da cozinha, vendo o Patrão comer o primeiro bocado de arroz com o ensopado, e mais outro, e mais outro, e depois dizer: “Excelente, meu bom homem”.

Ugwu apareceu por trás da porta. “Sah? Eu podia plantar umas ervas, no quintal. Para fazer mais ensopados como este.”

“No quintal?” Ele parou para tomar um gole de água e virar a página do jornal. “Não, não, não. Lá fora é território do Jomo, e aqui é o seu. Divisão de trabalho, meu bom homem. Se precisarmos de ervas, pedimos ao Jomo que providencie.” Ugwu amou o som de Divisão de trabalho, meu bom homem, falado em inglês.

“Certo, sah”, disse ele, ainda que já estivesse pensando no melhor lugar para as ervas: perto do Alojamento dos Criados, aonde o Patrão nunca ia. Não poderia confiar em Jomo para plantar as ervas aromáticas e cuidaria delas ele mesmo, quando o Patrão estivesse fora, e, dessa forma, seu arigbe, sua erva do perdão, jamais faltaria. Foi só mais tarde, já de noitinha, que ele percebeu que o Patrão devia ter esquecido completamente a meia queimada muito antes de voltar para casa.

Ugwu também se deu conta de outras coisas. Ele não era um criado normal; o criado do dr. Okelce, na casa ao lado, não dormia numa cama, nem num quarto, dormia no chão da cozinha. O criado que trabalhava no final da rua, com quem Ugwu ia ao mercado, nunca decidia o que cozinhar; fazia o que o mandavam fazer. E não tinham patrões ou patroas que lhes dessem livros, dizendo: “Este aqui é excelente, simplesmente excelente”.

Ugwu não entendia a maioria das frases nos livros, mas fazia questão de fingir que estava lendo. Também não entendia direito as conversas do Patrão com seus amigos, mas assim mesmo escutava que o mundo tinha que fazer mais a respeito dos negros mortos em Sharpeville, que era bem-feito para os americanos os russos terem derrubado o avião espião mandado para lá, que De Gaulle estava enfiando os pés pelas mãos na Argélia, que as Nações Unidas nunca se livrariam de Tshombe, em Katanga. De vez em quando, o Patrão se levantava, erguia a taça e a voz — “Um brinde àquele corajoso americano negro que entrou para a Universidade do Mississipi!” “Ao Ceilão e à primeira vez que temos uma primeira-ministra!” “A Cuba, por derrotar os Estados Unidos naquilo em que eles mais se destacam!”—, e Ugwu gostava do tilintar de garrafas de cerveja nos copos, do retinir de copos contra copos, de garrafas contra garrafas.

Nos fins de semana apareciam ainda mais amigos e, quando Ugwu entrava para servir as bebidas, o Patrão às vezes o apresentava, em inglês, é claro. “Ugwu me ajuda a cuidar da casa. Um garoto muito esperto.” Ugwu continuava abrindo garrafas de cerveja e de Coca em silêncio, ao mesmo tempo que, cheio de orgulho, sentia o rubor vir subindo lá da ponta dos pés. Gostava sobretudo quando o Patrão o apresentava a estrangeiros, como por exemplo a Mister Johnson, que era do Caribe e gaguejava quando falava, ou então ao professor Lehman, o sujeito de voz nasal que viera dos Estados Unidos e que tinha olhos tão verdes quanto os de uma folha nova. Ugwu ficou com um pouco de medo a primeira vez que o viu, porque imaginava que só os maus espíritos tinham olhos cor de capim.

Logo Ugwu se familiarizou com as visitas e passou a levar as bebidas antes mesmo de o Patrão pedir. Havia o dr. Patel, um indiano que tomava cerveja Golden Guinea misturada com Coca. O Patrão o chamava de Doc. Sempre que Ugwu levava as nozes-de-cola, o Patrão dizia: “Doc, você sabe que noz-de-cola não entende inglês”, antes de abençoar a semente em ibo. O dr. Patel ria todas as vezes, com grande prazer, escarrapachado no sofá, as pernas curtas atiradas para o alto, como se fosse a primeira vez que escutava a piada. Depois que o Patrão quebrava sua noz-de-cola e passava o pratinho adiante, o dr. Patel pegava uma metade e punha no bolso da camisa; Ugwu nunca o viu comer uma só semente.

Havia o professor Ezeka, muito alto e magro, com uma voz tão rouca que parecia cochichar o tempo inteiro. Sempre que era servido, pegava e segurava o copo contra a luz, para ter certeza de que fora bem lavado. Às vezes, levava a sua própria garrafa de gim. Em outras, pedia chá e depois se punha a examinar o açucareiro e o leite, resmungando: “As bactérias têm um poder extraordinário”.

E tinha também Okeoma, que aparecia mais vezes e ficava mais tempo. Dava a impressão de ser mais jovem que os outros, estava sempre de short e tinha uma vasta cabeleira, mais alta ainda que a do Patrão, repartida de lado. O cabelo parecia áspero e embaraçado, ao contrário do cabelo do Patrão, como se Okeoma não gostasse de penteá-lo. Okeoma bebia Fanta. Em algumas tardes, lia suas poesias em voz alta, segurando as folhas na mão, e Ugwu, da porta da cozinha, dava uma olhada e via todos os convidados escutando como se estivessem meio paralisados, como se não ousassem respirar. Depois, o Patrão batia palmas e dizia, no seu vozeirão: “A voz da nossa geração!”. E as palmas continuavam até Okeoma dizer, meio azedo: “Já basta!”.

E havia também a srta. Adebayo, que bebia conhaque como o Patrão e não era nada do que Ugwu esperava de uma professora universitária. A tia havia lhe contado um pouco sobre as mulheres que ensinavam na universidade. Ela devia saber, afinal trabalhava de faxineira na faculdade de ciências durante o dia e como garçonete do clube, à noite; além disso, às vezes os professores pagavam para ela ir limpar suas casas. E a tia dissera que as mulheres mantinham fotos de seus dias de estudante em Ibadã, na Grã-Bretanha ou nos Estados Unidos nas estantes. No café-da-manhã, comiam ovos que não estavam totalmente cozidos, tanto assim que a gema ficava dançando de lá para cá, usavam perucas de cabelos lisos e soltos e usavam vestidões que ficavam raspando nos tornozelos. Certo dia, contou a história de um casal, numa festinha do clube, que saltou de um belo Peugeot 404, ele num elegante temo cor-de-creme, ela num vestido verde. Todos se viraram para olhá-los, andando de mãos dadas, e aí o vento arrancou a peruca da mulher. Ela era careca. As mulheres usavam pentes muito quentes para alisar o cabelo, a tia havia dito, porque queriam ficar iguais às brancas, embora os pentes acabassem queimando o cabelo delas.

Ugwu tentara imaginar a mulher careca: bela, com um nariz levantado, não aquele nariz achatado com o qual estava acostumado. Imaginou quietude, delicadeza, o tipo de mulher cujos espirros, cuja risada e cuja fala seriam tão macios como as penugens que ficam bem junto à pele da galinha. Porém as mulheres que visitavam a casa do Patrão, as que ele via no supermercado e nas ruas eram diferentes. A maioria usava peruca (algumas tinham tranças ou o cabelo entrelaçado com cordões), mas nenhuma era um talo delicado de capim. Eram todas espalhafatosas. E a campeã era a srta. Adebayo. Ela não era ibo; Ugwu sabia só pelo nome, mesmo que até então não tivesse cruzado com ela e sua criada no mercado e escutado sua conversa num ioruba rápido e incompreensível. No dia em que a encontrou, ela lhe disse para esperar que lhe daria uma carona de volta ao campus, mas ele agradeceu e disse que ainda tinha um monte de coisas para comprar e que tomaria um táxi, embora já tivesse terminado as compras. Não queria entrar no mesmo carro que ela, não gostava da maneira como sua voz se erguia acima da voz do Patrão, desafiadora, argumentativa. Muitas vezes, tinha de se controlar para não mandá-la calar a boca, sobretudo quando ela chamava o Patrão de sofista. Ele não sabia o que significava sofista, mas não gostava de ouvi-la chamar o Patrão desse nome. Assim como também não gostava do jeito como ela olhava para o Patrão. Mesmo quando havia outra pessoa falando, e ela devia estar concentrada nessa pessoa, seus olhos não desgrudavam dele. Num sábado à noite, Okeoma deixou cair um copo e Ugwu entrou para varrer os cacos do chão. E levou um tempão para fazer a limpeza. A conversa ficava mais clara, ouvida da sala, e era mais fácil decifrar o que o professor Ezeka dizia. Da cozinha, era quase impossível escutar o homem.

“Nós devíamos organizar uma grande reação pan-africana ao que está acontecendo no Sul dos Estados Unidos...”, disse o professor Ezeka.

O Patrão cortou-o na hora. “Você bem sabe que o pan-africanismo é fundamentalmente um conceito europeu.”

“Você está tergiversando”, retrucou o professor Ezeka, balançando a cabeça com a superioridade de sempre.

“Talvez seja uma noção européia”, disse a srta. Adebayo, “mas, de uma perspectiva global, somos todos uma única raça.”

“Que perspectiva global?”, perguntou o Patrão. “A perspectiva global do homem branco! Será que você não percebe que nós não somos todos iguais, exceto na visão de quem é branco?” A voz do Patrão se alterava com facilidade, Ugwu já notara isso, e, lá pela terceira dose de conhaque, ele começava a gesticular com o copo, debruçado para a frente até ficar sentado quase na beirada da poltrona. Tarde da noite, quando o Patrão já estava na cama, Ugwu sentava na mesma poltrona e se imaginava falando em inglês fluente, conversando com convidados imaginários, todos fascinados, usando palavras como descolonização e pan-africanismo, moldando sua voz conforme a do Patrão, e mexendo e remexendo o corpo até também ficar na beiradinha da poltrona.

“Claro que nós somos todos iguais, todos temos a opressão branca em comum”, disse a srta. Adebayo, secamente. “O pan-africanismo é simplesmente a resposta sensata.”

“Claro, claro, mas o que eu digo é que a única identidade autêntica para um africano é sua tribo”, disse o Patrão. “Eu sou nigeriano porque um branco criou a Nigéria e me deu essa identidade. Sou negro porque o branco fez o negro ser o mais diferente possível do branco. Mas eu era ibo antes que o branco aparecesse.”

O professor Ezeka bufou e balançou a cabeça, com as pernas finas cruzadas. “Mas você só tomou consciência de que era ibo por causa do homem branco. A idéia do pan-ibo só surgiu por causa da dominação dos brancos. Você tem que entender que tribo, hoje em dia, é um produto tão colonialista quanto nação e raça.” O professor Ezeka tornou a cruzar as pernas.

“A idéia do pan-ibo já existia muito antes da chegada do branco!”, gritou o Patrão. “Vá perguntar aos mais velhos em sua aldeia sobre a história.”

“O problema é que Odenigbo é um tribalista irremediável e temos que mantê-lo calmo”, disse a srta. Adebayo.

E então fez algo que assustou Ugwu: levantou-se, rindo, foi até o Patrão e prendeu os lábios dele nos dedos. Ficou ali pelo que pareceu um bom tempo, com a mão na boca do Patrão. Ugwu imaginou a saliva diluída em conhaque tocando nos dedos dela. Enrijeceu o corpo todo, recolhendo os cacos. Como gostaria que o Patrão não ficasse ali sentado, balançando a cabeça, como se a coisa toda fosse muito engraçada.

A srta. Adebayo tornou-se uma ameaça, depois disso. Começou a se parecer mais e mais com um morcego, com seu rosto ressequido, sua pele nublada e seus vestidos estampados que se agitavam em volta do corpo feito asas. Ugwu a servia por último e gastava longos minutos secando as mãos num pano de prato antes de abrir a porta para ela. Tinha medo que acabasse se casando com o Patrão e trouxesse aquela criada ioruba para dentro de casa e destruísse seu jardim de ervas aromáticas e começasse a lhe dizer o que podia e o que não podia cozinhar. Até que ouviu o Patrão e Okeoma conversando.

“Ela não parecia estar com muita vontade de ir para casa, hoje”, disse Okeoma. “Nwoke m, você tem certeza de que não está planejando fazer alguma coisa com ela?”

“Não fale besteira.”

“Se estiver, ninguém em Londres vai ficar sabendo.”

“Olha aqui...”

“Eu sei que você não está interessado nela, nesse aspecto, mas o que me intriga é o que essas mulheres todas vêem em você.”

Okeoma riu e Ugwu ficou aliviado. Não queria que a srta. Adebayo — ou qualquer outra — viesse se intrometer e atrapalhar a vida deles. Algumas noites, quando as visitas saíam mais cedo, sentava no chão da sala para ouvir o Patrão falar. Quase tudo que ele dizia era incompreensível, como se o conhaque o tivesse feito esquecer que Ugwu não era um de seus amigos. Mas não tinha importância, isso. Tudo de que Ugwu precisava era da voz grave, da melodia da língua ibo falada com inflexões do inglês, do brilho nas lentes grossas.

 

Ele estava trabalhando havia quatro meses quando o Patrão lhe disse: “Esse fim de semana vou receber uma mulher muito especial. Muito especial. Providencie para que a casa esteja um brinco. Eu vou pedir a comida no clube”.

“Mas, sah, eu sei cozinhar”, disse Ugwu, com um pressentimento ruim.

“Ela acabou de voltar de Londres, meu bom homem, e gosta do arroz feito de certa maneira. Arroz frito, acho eu. Não estou certo de que você saberia fazer algo adequado.” O Patrão se virou para ir embora.

“Eu sei fazer isso, sah”, disse Ugwu, mais que depressa, embora não fizesse a menor idéia do que era arroz frito. “Deixa eu fazer o arroz e o senhor pega o frango no restaurante do clube.”

“Negociação engenhosa”, disse ele, em inglês. “Então estamos combinados. Você faz o arroz.”

“Pois não, sah”, disse Ugwu. Mais tarde, limpou os quartos e esfregou a privada com todo o cuidado, como sempre fazia, porém o Patrão olhou, disse que não estavam limpos o suficiente, saiu para comprar um Vim e perguntou, com voz azeda, por que Ugwu não limpava os espaços entre os ladrilhos. Ugwu limpou tudo de novo. Esfregou até o suor começar a escorrer pelos lados do rosto, até o braço doer. E, no sábado, estava uma fera enquanto cozinhava. Até então o Patrão nunca se queixara de seu trabalho. Era culpa dessa mulher, essa mulher que o Patrão considerava especial demais até mesmo para comer a comida de Ugwu. Recém-chegada de Londres, ainda por cima.

Quando a campainha tocou, ele resmungou em voz baixa uma praga sobre barriga inchada de tanto comer fezes. Escutou a voz do Patrão, num tom mais alto, animada e infantil, seguida de um longo silêncio, e imaginou o abraço entre os dois, o corpo feio dela apertado contra o do Patrão. Depois ouviu sua voz. Parou onde estava. Sempre achara que o inglês do Patrão não podia ser comparado ao de ninguém, nem ao do professor Ezeka, cujo inglês mal se podia escutar, ou o de Okeoma, que falava inglês como se estivesse falando ibo, com as mesmas cadências e pausas, ou o de Patel, cujo inglês era uma melodia murcha. Nem mesmo o homem branco, o professor Lehman, com suas palavras espremidas pelo nariz, soava tão digno quanto o Patrão. O inglês do Patrão era música, mas o que Ugwu ouvia agora, dessa mulher, era magia pura. Ali estava uma língua superior, uma língua luminosa, o tipo de inglês que ele escutava no rádio do Patrão, saindo com uma precisão cortante. Fazia lembrar um cará sendo fatiado com uma faca nova bem afiada, a perfeição tranquila de cada fatia.

“Ugwu!”, chamou o Patrão. “Traz uma Coca!”

Ugwu entrou na sala de estar. Ela cheirava a coco. Ele a cumprimentou com um “Boa tarde” que foi um resmungo, os olhos postos no chão.

“Kedu?”, perguntou ela.

“Eu estou bem, mah.” Ainda assim, não olhou para ela. Abriu a garrafa e ela riu com alguma coisa que o Patrão disse. Ugwu estava prestes a servir o refrigerante quando ela tocou na sua mão e disse: “Rapuba, não se preocupe”.

A mão dela estava ligeiramente úmida. “Pois não, mah.”

“Seu patrão me contou que você toma conta dele muito bem, Ugwu”, disse ela. Suas palavras em ibo eram mais suaves que as palavras em inglês, e ele ficou decepcionado ao ver como saíam fáceis. Ele queria que ela tropeçasse no ibo; não esperava que um inglês tão perfeito sentasse lado a lado com um ibo igualmente perfeito.

“Tomo sim, mah”, resmungou, com os olhos ainda pregados no chão.

“O que foi que você cozinhou para nós, meu bom homem?”, perguntou o Patrão, como se já não soubesse. Ele parecia irritantemente serelepe.

“Eu sirvo agora, sah”, disse Ugwu, em inglês, e logo em seguida pensou que teria sido melhor dizer Eu vou servir agora, porque soava melhor, porque teria causado uma impressão mais bonita. Enquanto punha a mesa, evitou olhar para a sala de estar, embora pudesse ouvir a risada dela e a voz do Patrão, com aquele novo timbre irritante.

Finalmente olhou, enquanto os dois se sentavam à mesa. O rosto oval era liso como um ovo e tinha aquele tom suculento de terra encharcada de chuva, os olhos eram grandes e amendoados; ela não parecia ser alguém que pudesse estar andando e falando, como os demais: ela devia estar num estojo de vidro, como o que havia no escritório do Patrão, num lugar onde as pessoas pudessem admirar seu corpo carnudo e curvilíneo e onde pudesse ser preservada sem máculas. Seu cabelo era comprido; cada uma das tranças que desciam até o pescoço terminava numa felpa macia. Ela sorria com facilidade; seus dentes tinham o mesmo branco brilhante dos olhos. Não sabia quanto tempo tinha ficado parado, olhando, até que o Patrão falou: “Ugwu em geral se sai bem melhor que isso. Ele faz um ensopado fantástico”.

“Não tem muito gosto, o que é melhor que ter um gosto ruim, claro”, disse ela, e sorriu para o Patrão, antes de se virar para Ugwu. “Eu lhe mostro como se faz arroz, Ugwu, sem usar tanto óleo.”

“Pois não, mah”, respondeu Ugwu. Ele tinha inventado o que supunha ser arroz frito, fritando o arroz em óleo de amendoim, meio que torcendo para que isso levasse os dois correndo para o banheiro. Agora, porém, queria cozinhar uma refeição perfeita, um arroz jollof ou então seu ensopado especial, com arigbe, para mostrar a ela como cozinhava bem. Retardou a lavagem da louça para que a água da torneira não abafasse sua voz. Quando foi servir o chá, levou um bom tempo rearrumando os biscoitos no pratinho para poder ficar um pouco mais e ouvir a voz dela, até que o Patrão falou: “Está tudo ótimo, meu bom homem”. O nome dela era Olanna. Porém o Patrão só a chamou assim uma vez; o resto do tempo, ele a chamou de nkem — só minha. Conversaram sobre a briga entre Sardauna e o ministro-chefe da Região Ocidental, e em seguida o Patrão falou qualquer coisa sobre esperar até ela se mudar para Nsukka, e de como isso estava perto, finalmente. Ugwu conteve a respiração para poder ouvir com clareza. O Patrão agora ria, dizendo: “Mas nós vamos morar aqui, os dois juntos, nkem, e você pode manter o apartamento na avenida Elias também”.

Ela se mudaria para Nsukka. Ela viria morar nesta casa. Ugwu afastou-se da porta e ficou encarando a panela no fogão. A vida dele iria mudar. Aprenderia a fazer arroz frito, teria de usar menos óleo e receberia ordens dela. Sentiu-se triste, mas era uma tristeza incompleta; havia também uma expectativa, uma emoção que não compreendia totalmente.

Nessa noite, lavando as roupas do Patrão no quintal, perto do limoeiro, Ugwu ergueu os olhos da água ensaboada e viu Olanna parada na porta dos fundos, olhando para ele. De início, teve certeza de que era imaginação sua, porque as pessoas em quem mais pensava apareciam para ele em visões. Mantinha conversas imaginárias com Anulika o tempo todo e, logo depois de se masturbar, à noite, Nnesinachi aparecia rapidamente, com um sorriso misterioso no rosto. Porém Olanna estava de fato na porta. E caminhava na direção dele. Estava vestida só com os panos em volta do peito e, quando andou, Ugwu a imaginou um caju amarelo, formoso e maduro.

“Mah? A senhora quer alguma coisa?”, perguntou. Sabia que, se estendesse a mão e tocasse em seu rosto, seria como tocar em manteiga, do tipo que o Patrão tirava de um pacote de papel e espalhava no pão.

“Deixa que eu ajudo você com isso.” E apontou para o lençol que ele estava enxaguando; devagar, ele tirou o lençol molhado do tanque. Ela segurou numa ponta e recuou alguns passos. “Vire a sua ponta para lá”, disse.

Ele torceu sua ponta do lençol para a direita, enquanto ela torcia a dela também para a direita, e eles viram a água sendo espremida. O lençol estava escorregadio.

“Obrigado, mah”, disse ele.

Ela sorriu. O sorriso dela o fez sentir-se mais alto. “Olha, aqueles mamões estão quase maduros. Lotekwa, não se esqueça de apanhá-los.”

Havia algo de refinado na voz, nela toda; Olanna era como uma pedra que fica ao lado da fonte, sendo lustrada por anos e anos de água límpida, e olhar para ela era como achar essa pedra, sabendo que existem muito poucas iguais. Ela voltou para dentro.

Ugwu não queria dividir a tarefa de cuidar do Patrão com mais ninguém, não queria desequilibrar a vida que levava com ele, no entanto de repente ficou insuportável pensar em não vê-la nunca mais. Depois do jantar, foi pé ante pé até o quarto do Patrão e encostou o ouvido na porta. Ela gemia alto, sons que pareciam tão diferentes do que ela era, tão incontroláveis, excitantes, roucos. Ugwu ficou parado na porta um bom tempo, até os gemidos pararem, e só então foi para o quarto.

* My good man é uma forma de tratamento que tanto pode ser cortês como ironicamente polida. (N.T.)