Meio Sol Amarelo
Capítulo 8
Olanna adiou a viagem para Kano por causa do golpe. Esperou até os aeroportos reabrirem, os Correios e Telégrafos retomarem as atividades, e os governadores militares serem nomeados nas respectivas regiões. Esperou até ter certeza de que havia ordem. Mas o golpe estava no ar. Todos falavam sobre o assunto, até mesmo o motorista de táxi de boné branco e caftã que levou as duas, Olanna e Baby, do aeroporto até o compound de Arize.
“Mas o Sardauna não foi assassinado, madame”, sussurrou ele. “Ele escapou, com a ajuda de Alá, e agora está em Meca.” Olanna sorriu delicadamente e não disse nada, porque sabia que ele, com suas contas de orar penduradas no espelho retrovisor, precisava acreditar nisso. O Sardauna, afinal de contas, não fora só o premiê do Norte, fora também o líder espiritual dele e de tantos outros muçulmanos como ele.
Ela contou a Arize o que o taxista dissera, e Arize, sacudindo os ombros, disse: “Eles dizem de tudo, de tudo”. Os panos de Arize tinham sido empurrados lá para baixo, abaixo da cintura, e a blusa era folgada, para acomodar a barriga grande. Estavam sentadas na sala, vendo as fotos do casamento de Arize e Nnakwanze na parede pintada com tinta a óleo, enquanto Baby brincava com as crianças do compound. Olanna não queria sua filha tocando naquelas crianças de roupas rasgadas, muco leitoso escorrendo do nariz, mas não dizia nada; sentia vergonha de pensar dessa maneira.
“Nós pegamos o primeiro vôo para Lagos, amanhã, Ari, para você descansar, antes de começarmos a fazer compras. Não quero fazer nada que seja difícil para você.”
“Que difícil que nada! Eu só estou grávida, irmã, não estou doente, não. Não são mulheres como eu que trabalham na roça até a hora em que o bebê resolve sair? E não sou eu que estou costurando esse vestido?” Arize apontou para um canto, onde sua máquina Singer fora posta sobre uma mesa, entre uma pilha de roupas.
“Minha preocupação é com o meu afilhado aí dentro, não com você”, disse Olanna. Ela ergueu a blusa de Arize e pôs o rosto sobre a redondez firme da barriga de Arize, sobre a pele retesada até o limite, num ritual delicado que vinha seguindo desde que Arize engravidara; se ela fizesse isso vezes suficientes, dizia Arize, a criança absorveria suas feições e ficaria parecida com ela.
“Não estou preocupada com o lado externo”, dizia Arize. “Mas ela precisa parecer com você pelo lado de dentro. Ela tem que ter o seu cérebro e ser instruída.”
“Ou ele.”
“Não, esta aqui vai ser mulher, você vai ver. Nnakwanze diz que vai ser menino e muito parecido com ele, mas eu já disse que Deus não vai permitir que uma criança tenha aquele rosto achatado.”
Olanna deu risada. Arize levantou-se, abriu uma caixinha esmaltada e tirou algum dinheiro de lá. “Veja o que irmã Kainene me mandou na semana passada. Disse que eu devia usar para comprar coisas para o bebê.”
“Que gentileza, a dela.” Olanna sabia que o comentário saíra forçado e que Arize estava de olho.
“Você e irmã Kainene deviam conversar. O que aconteceu no passado é passado.”
“Você só pode conversar com alguém que queira conversar com você”, disse Olanna. O que ela queria era mudar de assunto. Sempre queria mudar de assunto quando Kainene vinha à baila. “Acho melhor levar Baby para cumprimentar tia Ifeka.” E saiu às pressas atrás de Baby, antes que Arize pudesse acrescentar mais alguma coisa.
Lavou um pouco da areia que grudara no rosto e nas mãos de Baby antes de sair do compound e descer a rua. Tio Mbaezi ainda não voltara do mercado e as duas ficaram sentadas com tia Ifeka num banco, em frente ao quiosque, Baby no colo de Olanna. O quintal estava se enchendo com as conversas dos vizinhos e os gritos de crianças correndo debaixo da sombra da kuka. Alguém tocava música em volume muito alto, num gramofone; não demorou para que um bando de homens do compound começasse a rir e a se empurrar, imitando a canção. Tia Ifeka riu também, e bateu palmas. “Qual é a graça?”
“Essa música do Rex Lawson”, disse tia Ifeka.
“O que tem de engraçado nela?”
“Nossa gente diz que o coro parece estar dizendo mée-mée-mée, balindo feito bode.” Tia Ifeka soltou um risinho. “Dizem que o Sardauna fez esse barulho quando implorou para não ser morto. Quando os soldados dispararam morteiros contra a casa dele, ele se agachou atrás das mulheres dele e baliu: ‘Mée-mée-mée, por favor, não me matem, mée-mée-mée!’.”
Tia Ifeka riu outra vez, e Baby também, como se tivesse entendido. “Ah.” Olanna se lembrou do chefe Okonji e perguntou-se se também ele teria balido feito um bode, antes de morrer. Olhou em frente, para o outro lado da rua, onde crianças brincavam com pneus, correndo umas atrás das outras e fazendo girar as rodas. Uma pequena tempestade de areia se formava ao longe, e a poeira subia e descia em nuvens branco-acinzentadas.
“O Sardauna era um homem mau, ajo mmadu”, disse tia Ifeka. “Ele nos odiava. Odiava todos os que não tiravam os sapatos e se curvavam para ele. Foi ele que não deixou nossas crianças irem para a escola.”
“Mas não deviam tê-lo matado”, disse Olanna, baixinho. “Deviam tê-lo trancafiado numa prisão.”
Tia Ifeka bufou. “Pôr em qual prisão? Nessa Nigéria onde ele controlava tudo?” Levantou-se e começou a fechar o quiosque. “Venha, vamos entrar, que eu preciso achar alguma coisa para Baby comer.”
A música de Rex Lawson estava tocando em volume muito alto no compound de Arize quando Olanna voltou. Nnakwanze também achava muito engraçado. Ele tinha dois imensos dentes na frente, e, quando ria, era como se uma quantidade imensa de dentes tivesse sido enfiada dolorosamente em sua boca pequena. Mée-mée-mée, um bode implorando para não ser morto: mée-mée-mée.
“Não tem graça nenhuma”, disse Olanna.
“Mas irmã, é muito engraçada, essa música”, disse Arize. “Porque você tem instrução demais, não sabe mais rir.”
Nnakwanze estava sentado no chão, aos pés de Arize, esfregando sua barriga com movimentos circulares bem leves. Nnakwanze ficara bem menos preocupado que Arize quando ela não engravidou no primeiro, no segundo e no terceiro ano de casamento; quando a mãe dele começou a visitá-los com muita freqüência, cutucando a barriga de Arize e instando para que ela confessasse o número de abortos que fizera antes do casamento, ele pediu a ela para não ir mais visitá-los. Pediu também para ela parar de levar chás de cheiro revoltante que Arize bebia em goles amargos. Agora que Arize estava grávida, ele fazia mais horas extras na ferrovia e pedira a ela que reduzisse os trabalhos de costura.
Ele ainda entoava a música e ria. Um bode implorando para não morrer: mée-mée-mée.
Olanna levantou-se. A brisa noturna estava desagradavelmente fria. “Ari, você devia ir dormir, para estar bem descansada amanhã, para a viagem até Lagos.”
Nnakwanze fez um gesto para ajudá-la a se levantar, mas ela o afastou. “Eu já disse a vocês que não estou doente. Só estou grávida.”
Olanna ficou contente de a casa de Lagos estar vazia. O pai ligara para dizer que iriam viajar para o exterior. Ela sabia que eles queriam ficar longe até as coisas se acalmarem, afinal estavam com um pé atrás por causa dos dez por cento, das festas luxuosas, dos relacionamentos vistosos, mas nenhum dos dois tocou no assunto. Disseram que a viagem seria umas férias. Era política do casal deixar as coisas por dizer, da mesma forma que fingiam não perceber que ela e Kainene não se falavam mais e que Olanna só ia visitá-los quando tinha certeza de que Kainene não estava.
Enquanto rodavam no táxi, Arize ensinou a Baby uma canção e Olanna viu Lagos passar: o trânsito tumultuado, os ônibus enferrujados e as massas exaustas que esperavam por eles nos pontos, os aliciadores, os mendigos deslizando em carrinhos de madeira, os vendedores mambembes que enfiavam suas mercadorias na frente de quem não podia ou não queria comprá-las.
O motorista parou diante do compound murado de seus pais, em Ikoyi. Ele espiou o muro alto e perguntou: “O ministro que eles mataram vivia por aqui, abi, tia?”. Olanna fingiu não ter escutado e, virando-se, disse para Baby: “Olha só o que você fez no vestido! Vamos entrar bem depressa para lavar isso!”.
Mais tarde, o motorista da mãe, Ibekie, levou-as ao Kingsway. O supermercado cheirava a tinta fresca. Arize andou de corredor em corredor, murmurando feliz da vida, tocando nas embalagens plásticas, escolhendo roupas de bebê, um carrinho cor-de-rosa, uma boneca de plástico de olhos azuis.
“Tudo é tão brilhante num supermercado, irmã”, disse Arize, rindo. “Não tem poeira!”
Olanna ergueu um vestido branco enfeitado com renda rosa. “O maka. Que lindo.”
“É muito caro”, disse Arize.
“Ninguém perguntou a você.”
Baby puxou uma boneca de uma prateleira baixa, virou-a de cabeça para baixo e ela soltou um som de choro.
“Não, Baby.” Olanna pegou a boneca e colocou de volta no lugar.
Compraram mais algumas coisas e depois partiram em direção ao mercado Yaba, onde Arize poderia comprar tecidos para continuar com suas costuras. A avenida Tejuosho era muito movimentada, com famílias aglomeradas em volta de panelas fervilhantes, mulheres assando milho e banana-da-terra em bacias cheias de carvão em brasa, homens de peito nu carregando sacos em caminhões com frases de pára-choque do tipo: NENHUMA SITUAÇÃO É PARA SEMPRE. DEUS SABE MAIS . Ibekie parou perto de um jornaleiro. Olanna olhou rapidamente para as pessoas paradas, lendo as manchetes do Daily Times, e seus pés ficaram mais leves de orgulho. Estavam lendo o artigo de Odenigbo, tinha certeza; era de longe o melhor do jornal. Ela mesmo editara, e amenizara a retórica dele, de tal forma que seu argumento — de que apenas um governo unitário poderia remover as divisões do regionalismo — aparecia com clareza.
Pegou na mão de Baby e levou-a pela calcada cheia de ambulantes que, sentados debaixo de guarda-sóis, vendiam pilhas, cadeados e cigarros cuidadosamente dispostos em bandejas esmaltadas. A entrada principal do mercado estava estranhamente vazia. Depois Olanna viu a multidão à sua frente. Um homem, de camiseta amarela, estava no centro, sendo estapeado por dois homens que lhe davam, um depois do outro, metódicos tapas que faziam um ruído surdo de couro. “Por que agora? Por que negar?” O homem os fitava sem expressao nenhuma no olhar, curvando de leve o pescoço depois de cada tapa. Arize parou.
Alguém no meio da multidão bradou: “Nós estamos contando os ibos. Oya, venha e identifique-se. Você é ibo?”.
Arize resmungou entre dentes: “I kwuna okwu”, como se Olanna estivesse pensando em dizer alguma coisa, depois sacudiu a cabeca e começou a falar em ioruba fluente, enquanto ia fazendo a volta para poderem retornar pelo mesmo caminho pelo qual tinham vindo. A multidão perdeu interesse nelas. Outro homem, num terno safári, estava sendo estapeado na nuca. “Voce é um ibo! Não negue! Simplesmente identifique-se!”
Baby começou a chorar. “Mami Ola! Mami Ola!”
Olanna pôs Baby no colo. Ela e Arize não trocaram uma palavra até voltarem para o carro. Ibekie já tinha feito a volta e não parava de olhar pelo espelho retrovisor. “Eu vi gente correndo”, disse.
“O que está havendo?”, perguntou Olanna.
Arize deu de ombros. “Já ouvimos dizer que eles estão fazendo isso em Kaduna e Zaria, desde o golpe; eles vão para as ruas e começam a infernizar os ibos — dizem que o golpe foi um golpe ibo.”
“Ezi okwu? É mesmo?”
“É sim, tia.” Ibekie foi rápido na resposta, como se esperasse uma oportunidade de falar. “Meu tio em Ebutte Metta diz que não dorme mais na casa, desde o golpe. Todos os vizinhos são iorubas e disseram que tem uns homens procurando por ele. Ele dorme cada noite numa casa diferente, mas continua cuidando do negócio. E mandou os filhos de volta para casa.”
“Ezi okwu? É mesmo?”, repetiu Olanna. Sentia-se oca. Não sabia que as coisas tinham chegado a esse ponto; em Nsukka, a vida era insular e as notícias irreais funcionavam apenas como combustível para as conversas da noite, para a retórica de Odenigbo e seus artigos apaixonados.
“As coisas vão se acalmar”, disse Arize, tocando no braço de Olanna. “Não se preocupe.”
Olanna fez que sim com a cabeça e olhou para fora, para as palavras escritas no pára-choque de um caminhão ali perto: SEM LIGAÇÃO PARA O CÉU. Não podia acreditar como fora fácil negar o que eram, afastar o fato de serem ibos.
“Ela vai usar o vestido branco no batismo, irmã.”
“O que você disse, Ari?”
Arize apontou para a barriga. “Sua afilhada vai usar o vestido branco para o batismo. Muito obrigada, irmã.”
A luz nos olhos de Arize fez Olanna sorrir; as coisas iriam se acalmar, claro. Fez cócegas em Baby, porém Baby não deu risada. Olhou de volta para a mãe com olhos assustados, ainda úmidos de lágrimas.