Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 20 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 19

 

Ugwu sentou-se nos degraus que davam no quintal. As gotas de chuva deslizavam pelas folhas, o ar cheirava a terra molhada e ele e Harrison conversavam sobre a próxima viagem de Mister Richard.

“Tufia, Deus não permita! Sei lá por que meu patrão quer ver aquela festa diabólica lá na sua aldeia”, disse Harrison. Ele estava alguns degraus abaixo; Ugwu via a rodela calva no topo de sua cabeça.

“Vai ver Mister Richard quer escrever sobre o diabo”, disse Ugwu. Claro que o ori-okpa não era uma festa diabólica, mas não queria discordar. Precisava que Harrison continuasse de bom humor para poder lhe perguntar sobre gás lacrimogêneo. Ficaram ambos em silêncio por alguns instantes, vendo os urubus planando no alto; os vizinhos tinham matado uma galinha.

“Olha lá, os limões estão amadurecendo.” Harrison fez um gesto para a árvore. “Uso mais fresco e faço merengue”, acrescentou, em inglês.

“O que é esse me-rangue?”, perguntou Ugwu. Harrison iria gostar da pergunta.

“Você não sabe?” Harrison riu. “É comida de americano. Vou fazer para o meu patrão servir quando a sua madame voltar de Londres. Sei que ela vai gostar.” Harrison virou-se para olhar para Ugwu. Tinha posto um jornal no chão, antes de sentar no degrau, e o papel fez barulho quando se mexeu. “Até você vai gostar.”

“Vou”, disse Ugwu, embora tivesse jurado nunca mais comer a comida de Harrison, depois do dia em que passara pela casa de Mister Richard e vira Harrison pondo casca de laranja numa tigela de molho. Teria ficado menos alarmado se pegasse Harrison cozinhando com a própria laranja, mas cozinhar com a casca era como escolher a pele peluda de uma cabra, em vez da carne.

“Eu uso limão para fazer bolos; limão é muito bom para o corpo”, disse Harrison. “A comida dos brancos faz a gente saudável, não tem nada a ver com essas besteiras que nosso povo come.”

“Pois é, é verdade.” Ugwu limpou a garganta. Teria de perguntar a Harrison sobre gás lacrimogêneo agora, mas, em vez disso, falou: “Deixa eu lhe mostrar meu quarto no Alojamento dos Criados”.

“Certo.” Harrison se levantou.

Quando entraram no quarto, Ugwu apontou para o teto, pintado em branco e preto. “Eu mesmo é que fiz.” Tinha segurado uma vela suspensa durante muitas e muitas horas, passando a chama por todo o aposento; precisou parar muitas vezes para mudar de lugar a mesa onde estava trepado.

“O maka, ficou bem bonito.” Harrison olhou para a cama estreita de molas, num canto, para a mesa e a cadeira, para as camisas penduradas em pregos presos à parede, para os dois pares de sapato dispostos cuidadosamente no chão. “Esses aí são novos?”

“Minha patroa comprou para mim na Bata.”

Harrison tocou na pilha de periódicos sobre a mesa. “Você lê isso tudo?”, perguntou em inglês.

“Leio.” Ugwu tinha tirado as publicações do cesto de lixo do escritório; os Anais matemáticos eram incompreensíveis, mas ao menos conseguira ler, ainda que sem compreender, algumas páginas do Revista Socialista.

Começara a chover de novo. As pancadas no telhado de zinco eram fortes e ficaram ainda mais fortes depois que os dois foram para baixo do toldo, vendo a água escorrer do telhado em linhas paralelas.

Ugwu deu uma pancadinha no braço de Harrison — gostava do ar fresco, mas não dos mosquitos voando em volta. Por fim, fez a pergunta. “Você sabe onde eu posso encontrar gás lacrimogêneo?”

“Gás lacrimogêneo? Por que está me perguntando isso?”

“Li no jornal do patrão e queria ver como é.” Ele não quis contar a Harrison que, na verdade, tinha ficado sabendo do gás lacrimogêneo no dia em que o Patrão se queixara dos membros da Assembléia Ocidental, que se esmurraram e se chutaram até que a polícia apareceu e jogou gás lacrimogêneo neles, e todos desmaiaram, deixando aos assistentes a tarefa de carregá-los, amolecidos, até o carro. Gás lacrimogêneo exercia fascínio sobre Ugwu. Se fazia as pessoas desmaiarem, ele queria experimentar. Queria usar em Nnesinachi, quando fosse para casa, com Mister Richard, para a festa de oriokpa. Levaria Nnesinachi até o bosque à beira do regato e diria a ela que o gás lacrimogêneo era um borrifo mágico que a manteria com saúde. Ela acreditaria nele. Ficaria tão impressionada de vê-lo chegar no carro de um branco que acreditaria em qualquer coisa que dissesse.

“E muito difícil conseguir gás lacrimogêneo”, disse Harrison.

“Por quê?”

“Você ainda é muito jovem para saber por quê.” Harrison meneou a cabeça, misteriosamente. “Quando você for adulto, eu lhe conto.”

Ugwu ficou meio embatucado, de início, até perceber que Harrison também não sabia o que era gás lacrimogêneo, só que jamais admitiria o fato. Ficou desapontado. Teria de perguntar a Jomo.

Jomo sabia o que era e riu muito, por bastante tempo, quando Ugwu lhe contou como pretendia usá-lo. Jomo bateu palmas e soltou uma gargalhada. “Você é uma ovelha, aturu”, disse ele, por fim. “Por que você quer usar gás lacrimogêneo numa moça? Olha só, vá para sua aldeia e, se a hora estiver certa e a jovem gostar de você, ela o seguirá. Você não precisa de gás lacrimogêneo.”

Ugwu ainda estava com as palavras de Jomo na cabeça quando saiu com Mister Richard para ir até seu povoado, na manhã seguinte. Anulika veio correndo pela trilha quando os viu, e, muito ousada, apertou a mão de Mister Richard. Abraçou Ugwu e, enquanto andavam até a casa, contou-lhe que os pais estavam na fazenda, que uma prima deles tinha dado à luz um dia antes, que Nnesinachi fora embora para o Norte na semana anterior...

Ugwu parou e olhou para a irmã.

“Aconteceu alguma coisa?”, perguntou Mister Richard. “A festa não foi cancelada, foi?”

Bem que Ugwu gostaria que tivesse sido. “Não, sah.”

Levou o convidado até a praça da aldeia, já se enchendo de homens, mulheres e crianças, e sentou-se debaixo de uma oji com ele. Foram imediatamente rodeados de crianças entoando “Onye ocha, homem branco”, estendendo a mão para tocar no cabelo de Mister Richard. Ele disse: “Kedu? Olá, como é que você chama?”, e as crianças o olharam espantadas, rindo e dando cutucões umas nas outras. Ugwu encostou-se na árvore e lamentou o tempo que havia gasto pensando que iria ver Nnesinachi. Agora ela se fora e algum comerciante no Norte acabaria ganhando o prêmio que era dele. Mal reparou nos mmuo: figuras masculinas cobertas de capim, máscaras de madeira fazendo careta, longos chicotes pendurados nas mãos. Mister Richard tirava fotos, escrevia no caderno e fazia perguntas, uma atrás da outra — como é que chamavam aquilo, o que eles diziam, quem eram os homens afastando os mmuo com uma corda e o que queria dizer aquilo outro — até Ugwu se sentir irritado com o calor, com as perguntas, com o barulho e com a enorme decepção de não ver Nnesinachi.

Calou-se na viagem de volta e ficou olhando pela janela.

“Você já está com saudade de casa, não está?”, perguntou Mister Richard.

“Estou, sah.” Ele queria que Mister Richard fechasse a boca. Queria ficar sozinho. Esperava que o Patrão ainda estivesse no clube, assim poderia pegar o Renaissance na sala para ler no Alojamento dos Criados, enroscado na cama. Ou então poderia ver a nova televisão. Se estivesse com sorte, estariam passando um filme indiano. A beleza das mulheres de olhos grandes, as músicas, as flores, as cores brilhantes e a choradeira eram tudo de que ele precisava agora.

Quando entrou pela porta dos fundos, ficou chocado de ver a mãe do Patrão perto do fogão. Amala estava perto da porta. Nem o próprio Patrão sabia que elas apareceriam, caso contrário teria pedido para limpar o quarto de hóspedes.

“Ah”, disse Ugwu. “Bem-vinda, Mama. Bem-vinda, tia Amala.” A última visita ainda estava fresca na sua lembrança. Mama perseguindo Olanna, chamando-a de bruxa, enxotando, e, pior, ameaçando consultar o dibia do povoado.

“Como vai você, Ugwu?” Mama ajustou seus panos, antes de lhe dar um tapinha nas costas. “Meu filho me disse que você foi mostrar os espíritos da sua aldeia ao homem branco.”

“Fui, Mama.”

Estava ouvindo a voz do Patrão aumentando de volume, na sala. Talvez tivesse chegado alguma visita e ele decidira não ir ao clube.

“Você pode ir descansar, i nugo”, disse Mama. “Estou preparando o jantar do meu filho.”

A última coisa que ele queria era que Mama ocupasse sua cozinha, ou usasse a panela predileta de Olanna para fazer a sua sopa de cheiro forte. O que ele desejava mesmo é que ela se fosse. “Eu fico, para o caso de precisar de ajuda, Mama”, disse ele.

Ela encolheu os ombros e voltou a tirar as sementes de pimenta preta de uma fava. “Você sabe fazer ofe nsala bem?”

“Eu nunca fiz.”

“Por quê? Meu filho gosta.”

“Minha patroa nunca me pediu para cozinhar isso.”

“Ela não é sua patroa, meu filho. Ela é apenas uma mulher que vive com um homem que não pagou o preço da noiva.”

“Sei, Mama.”

Ela sorriu, como se estivesse satisfeita em tê-lo feito finalmente entender algo importante, e gesticulou na direção de duas vasilhas pequenas de barro, no canto. “Eu trouxe vinho de palma fresco para o meu filho. Nosso melhor apanhador levou hoje de manhã até minha casa.”

Ela retirou as folhas verdes enfiadas na boca de uma das vasilhas e o vinho saiu borbulhando, branco, fresco e cheirando a doce. Mama serviu um pouco num copo e deu para Ugwu.

“Experimente.”

Era forte na língua, o tipo de vinho de palma concentrado que se fazia na estação da seca e que deixava os homens de sua aldeia cambaleando logo cedo. “Obrigado, Mama. É muito bom.”

“A sua gente faz vinho bom também?”

“Faz, Mama.”

“Mas não tão bom quanto o nosso. Em Abba, nós temos os melhores apanhadores de palma de toda a terra dos ibos. Não é verdade, Amala?”

“É sim, Mama.”

“Lave essa vasilha para mim.”

“Pois não, Mama.” Amala começou a lavar a vasilha. Os ombros e os braços sacudiam enquanto ela esfregava. Ugwu ainda não tinha olhado muito bem para ela, e dessa vez reparou em como eram finos e escuros, os braços, e no brilho molhado do rosto, como se tivesse tomado banho em óleo de amendoim.

A voz do Patrão, alta e firme, vinha da sala. “Nosso governo idiota deveria cortar relações também com a Grã-Bretanha. Precisamos mostrar pulso firme! Por que os ingleses não estão fazendo mais pela Rodésia? Que maldita diferença vão fazer umas poucas e frouxas sanções econômicas?”

Ugwu aproximou-se da porta para escutar; tinha fascínio pela Rodésia, pelo que estava ocorrendo no sul da África. Não conseguia entender que gente parecida com Mister Richard quisesse ficar com tudo o que pertencia a gente como ele, Ugwu, e sem motivo nenhum.

“Me traz uma bandeja, Ugwu”, disse Mama.

Ugwu pegou uma bandeja no armário e fez menção de querer ajudá-la a servir a comida do Patrão, mas ela o espantou com a mão. “Estou aqui, de modo que você pode descansar um pouco, meu pobre menino. Aquela mulher vai afogar você em serviço assim que voltar do exterior, como se você não fosse filho de alguém.” Ela desembrulhou um pequeno pacote e salpicou alguma coisa no caldeirão de sopa. O suficiente para despertar a suspeita de Ugwu; lembrou-se do gato preto que tinha aparecido no quintal depois da última visita dela. E o pacote era negro também, feito o gato.

“O que é isso, Mama? Essa coisa que a senhora pôs na comida do Patrão?”

“É um tempero muito especial do povo de Abba.” Ela se virou para dar um rápido sorriso. “É muito bom.”

“Sim, Mama.” Talvez ele estivesse enganado em pensar que ela estava pondo remédio do dibia na comida do patrão. Talvez Olanna tivesse razão e o gato preto não era nada, apenas o gato de algum vizinho, embora ele não soubesse de nenhum vizinho com um gato como aquele, com olhos faiscantes, amarelo-avermelhados.

Ugwu não pensou mais no tempero estranho, nem no gato, porque, enquanto o Patrão jantava, pegou mais um copinho de vinho de palma da vasilha, e depois outro, já que era tão doce, e, depois disso, era como se o interior da cabeça estivesse forrado de lã macia. Mal conseguia andar. Da sala, escutou o Patrão dizer, numa voz vacilante: “Ao futuro da grande África! Aos nossos irmãos independentes de Gâmbia e aos nossos irmãos de Zâmbia, que deixaram a Rodésia!”, seguido de altos acessos de riso insano. O vinho de palma tinha subido à cabeça do Patrão. Ugwu também deu risada, embora sozinho na cozinha e sem a menor idéia de qual era a graça. Por fim, adormeceu sobre o banco, com a cabeça sobre a mesa que cheirava a peixe seco.

Acordou com as juntas rígidas. A boca tinha um gosto amargo, a cabeça doía, ele teria preferido que o sol não estivesse tão opressivamente brilhante e que o Patrão não falasse tão alto, por cima dos jornais, no café-da-manhã. Como é possível que haja mais políticos reeleitos do que eleitos agora? Absurdo total! Isso é tramóia da pior espécie! Cada sílaba pulsava dentro da cabeça de Ugwu.

Depois que o Patrão saiu para o trabalho, Mama perguntou: “Você não vai à escola hoje, gbo, Ugwu?”.

“Estamos de férias, Mama.”

“Ah.” Ela parecia desapontada.

Mais tarde, ele a viu esfregando algo nas costas de Amala, ambas diante da porta do banheiro. Suas suspeitas voltaram. Havia qualquer coisa de errado no jeito como as mãos de Mama se moviam em movimentos circulares, lentos, como se em consonância com algum ritual, e o jeito como Amala ficou calada, com as costas retas, os panos baixados até a cintura e o contorno de seus seios pequenos visível, de lado. Talvez Mama estivesse esfregando uma poção em Amala. Mas não fazia sentido, porque se Mama tivesse ido de fato ao dibia, o remédio seria para Olanna e não para Amala. Porém podia ser que o remédio só funcionasse nas mulheres, e Mama tinha de proteger a si e a Amala, e garantir que apenas Olanna morresse, ou se tornasse estéril, ou enlouquecesse. Talvez Mama estivesse executando as proteções preliminares, agora que Olanna estava em Londres, quem sabe iria enterrar o remédio no quintal para mantê-lo eficaz até Olanna voltar.

Ugwu estremeceu. Uma sombra pairava sobre a casa. Preocupava-o a alegria de Mama, seu cantarolar pouco melódico, sua determinação em servir todas as refeições ao Patrão, as frequentes palavras abafadas que trocava com Amala. Ele a vigiava de perto, toda vez que saía, para ver se iria enterrar alguma coisa, porque assim poderia desenterrar fosse o que fosse tão logo ela entrasse. Mas ela nunca enterrava nada. Quando disse a Jomo que suspeitava que Mama tinha ido ver o dibia para encontrar um jeito de matar Olanna, Jomo falou: “A coitada da velha está apenas contente de ter o filho dela só para ela, é por isso que cozinha e canta o dia todo. Você sabe o quanto minha mãe fica contente quando eu vou visitá-la sem minha mulher?”.

“Mas eu vi um gato preto da última vez que ela veio”, disse Ugwu.

“A empregada do professor Ozumba, que mora mais para baixo, na rua, é bruxa. Ela voa até o topo da mangueira, à noite, para se encontrar com as companheiras bruxas, porque eu sempre tenho que recolher as folhas que elas derrubam. É ela que o gato preto estava procurando.”

Ugwu tentou acreditar em Jomo e no fato de que estava lendo significados indevidos nas atitudes de Mama, enquanto tirava o mato da horta, até que viu uma maçaroca de moscas pipocando na pia da cozinha. A janela estava quase totalmente fechada. Não entendia como tantas moscas, mais de cem gordas moscas verdes, podiam ter entrado por aquela fresta para zumbir em uníssono num magote denso e turbulento. Elas significavam algo terrível. Ugwu correu até o escritório para chamar o Patrão.

“Muito estranho”, disse o Patrão, tirando os óculos e voltando a colocá-los. “Tenho certeza de que o professor Ezeka será capaz de explicar isso, algum tipo de comportamento migratório. Não feche a janela para não prendê-las aqui dentro.”

“Mas, sah”, disse Ugwu, bem na hora em que Mama entrou na cozinha.

“As moscas às vezes fazem isso”, disse ela. “É normal. Elas irão embora pelo mesmo lugar por onde entraram.” Estava encostada na porta e seu tom era agourentamente vitorioso.

“Pois é, pois é.” O Patrão virou-se para voltar ao escritório. “Chá, meu bom homem.”

“Pois não, sah.” Ugwu não entendia como é que o Patrão podia continuar tão calmo, como é que ele não via que as moscas não eram normais. Ao levar o chá até o escritório, falou: “Sah, aquelas moscas estão nos dizendo alguma coisa”.

O Patrão fez um gesto para a mesa. “Não precisa servir. Deixa no bule.”

“Aquelas moscas na cozinha, sah, elas são sinal de algum remédio ruim que o dibia deu. Alguém fez remédio ruim.” Ugwu queria acrescentar que sabia muito bem quem era esse alguém, mas não tinha certeza de como o Patrão iria receber a informação.

“O quê?” Os olhos do Patrão se estreitaram por trás dos óculos.

“As moscas, sah. Elas querem dizer que alguém fez remédio ruim contra esta casa.”

“Feche a porta e me deixe trabalhar, meu bom homem.”

“Pois não, sah.”

Quando Ugwu voltou para a cozinha, as moscas tinham sumido. A janela continuava como estava, só uma fresta aberta, e o sol se pondo acendia faíscas na lâmina de um facão sobre a mesa. Relutou em tocar nos utensílios; o mistério a sua volta manchara panelas e vasilhas. Uma vez na vida, ficou contente de deixar Mama cozinhar, mas não comeu o ugba e o peixe frito que ela fez para o jantar, não tomou nem um único gole do vinho de palma restante que serviu ao Patrão e seus convidados, e não dormiu bem aquela noite. A todo momento acordava, com os olhos coçando e lacrimejantes, querendo conversar com alguém que pudesse entender: Jomo, sua tia, Anulika. Por fim, levantou-se e foi até a casa para tirar o pó dos móveis, uma tarefa suave e estúpida que o manteria ocupado. O cinza-arroxeado da madrugada enchia a cozinha de sombras. Ligou o interruptor com medo, esperando encontrar algo. Escorpiões, quem sabe; uma pessoa invejosa uma vez mandara alguns para a cabana do tio e, por uns tempos, o tio acordava toda manhã com um escorpião raivoso e negro circulando perto dos seus filhos gêmeos recém-nascidos. Um dos bebês acabou picado e quase morreu.

Ugwu limpou primeiro as prateleiras de livro. Tinha tirado os papéis da mesa central e estava curvado, limpando, quando a porta do quarto do Patrão se abriu. Olhou para o corredor, surpreso que o Patrão estivesse de pé tão cedo. Mas foi Amala que saiu do quarto. O corredor estava na penumbra e seus olhos assustados cruzaram com os de Ugwu, mais assustados ainda, e ela parou alguns instantes, antes de ir depressa para o quarto de hóspedes. Seus panos estavam meio soltos em volta do peito. Ela segurava os panos com uma das mãos, e tropeçou na porta do quarto de hóspedes, empurrando, como se tivesse esquecido como abri-la, antes de entrar. Amala, a calada, comum e feiosa Amala, tinha dormido no quarto do Patrão! Ugwu ficou imóvel, tentando ver se a cabeça que girava como uma ventoinha parava para ele poder pensar. O remédio da Mama tinha feito isso, ele tinha certeza, mas sua preocupação não era com o que tinha acontecido entre o Patrão e Amala. Sua preocupação era com o que iria acontecer se Olanna descobrisse.