Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 32 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 31

 

 

Olanna viu os quatro soldados esfarrapados levando um cadáver nos ombros. Um pânico desordenado a deixou zonza. Parou, certa de que era o corpo de Ugwu, até os soldados a ultrapassarem, rápidos, em silêncio, e ela perceber que o morto era alto demais para ser Ugwu. Seus pés estavam rachados e cobertos de barro seco; havia lutado descalço. Olanna ficou olhando para os soldados que se afastavam e tentou acalmar a sensação de enjoo, desvencilhar-se dos maus presságios que fazia dias vinham lhe enevoando a mente.

Mais tarde, contou a Kainene o medo que sentia pela sorte de Ugwu, como se estivesse sempre prestes a virar uma esquina e ser esmagada pela tragédia. Kainene punha um braço em volta da irmã e dizia para ela não se preocupar. Madu enviara recado a todos os comandantes de batalhão, pedindo para que procurassem Ugwu; eles descobririam onde Ugwu estava. Porém, quando Baby perguntava se “é hoje que Ugwu vai voltar para casa, Mami Ola?”, Olanna imaginava que Baby estivesse tendo uma premonição. Quando voltou para Umuahia e Mama Oji lhe deu um pacote entregue por alguém, ela se perguntou imediatamente se seria um recado de Ugwu. Suas mãos tremiam, ao pegar a caixinha embrulhada em papel pardo muito amassado, de tanto ser mexido. Depois notou que era a letra de Mohammed, longos arabescos elegantes endereçados a ela, aos cuidados da Universidade de Biafra. Dentro, encontrou lenços, roupa branca impecável, alguns sabonetes Lux e chocolate, e espantou-se de ver que tinham chegado até ela intactos, mesmo que houvessem sido enviados através da Cruz Vermelha. A carta já tinha três meses, mas ainda cheirava vagamente a almíscar adocicado. Frases esparsas grudaram em sua cabeça.

Já mandei tantas cartas e não tenho certeza qual delas você recebeu. Minha irmã, Hadiza,

casou-se em junho. Penso sem parar em você. Meu jogo de pólo melhorou. Estou bem e sei

que você e Odenigbo também estão. Veja se tenta mandar notícias de volta.

Ela revirou a barra de chocolate na mão, olhou o FEITO NA SUÍÇA, brincou com o invólucro de papel-alumínio. Depois jogou o chocolate longe. A carta de Mohammed a deixara furiosa; era um insulto a sua realidade. Porém ele não poderia saber que Olanna não tinha sal, que Odenigbo bebia kai-kai todos os dias, que Ugwu fora recrutado e que tivera de vender a peruca. Ele não tinha como saber. No entanto, sentia raiva porque os padrões da velha vida de Mohammed continuavam intactos, tão inquestionavelmente intactos que podia escrever a ela contando dos seus jogos de pólo.

Mama Oji bateu; Olanna deu uma respirada bem funda, antes de abrir a porta e lhe dar um sabonete.

“Obrigada.” Mama Oji segurou o sabonete com as duas mãos, levou-o ao nariz e cheirou. “Mas aquele pacote era grande. É só isso que vai me dar? Não veio nenhuma comida em lata? Ou vai dar tudo para a sua amiga Alice, a sabotadora?”

“Ngwa, me devolve o sabonete”, disse Olanna. “Mama Adanna vai apreciar muito mais.”

Mama Oji não perdeu tempo para erguer a blusa e enfiar o sabonete no sutiã esfiapado. “Você sabe que sou muito grata.”

Vozes alteradas vieram da rua e as duas saíram para ver. Um grupo de integrantes da milícia, de facão em punho, empurrava duas mulheres. Elas gritavam e tropeçavam; seus panos estavam rasgados e os olhos avermelhados. “O que foi que nós fizemos? Nós não somos sabotadoras! Somos refugiadas de Ndoni! Nós não fizemos nada!”

O pastor Ambrose também saiu e começou a rezar. “Deus Pai, destrói os sabotadores que estão mostrando o caminho ao inimigo! Fogo do Espírito Santo!”

Alguns vizinhos saíram apressados para cuspir, atirar pedras e zombar pelas costas. “Sabô! Que Deus castigue vocês! Sabotadoras!”

“Eles deviam jogar um pneu no pescoço delas e botar fogo”, disse Mama Oji. “Eles deviam queimar todos os sabotadores, cada um deles.”

Olanna dobrou a carta de Mohammed, pensou nas barrigas flácidas semi-expostas das mulheres e não disse nada.

“Se eu fosse você, teria mais cuidado com aquela tal de Alice”, disse Mama Oji.

“Deixa Alice sossegada. Ela não é sabotadora.”

“Mas é do tipo que rouba o marido de qualquer mulher.”

“O quê?”

“Toda vez que você vai para Orlu, ela sai e fica aí sentada com o seu marido.”

Olanna encarou Mama Oji com ar de espanto porque essa era a última coisa que esperava escutar e porque Odenigbo nunca mencionara o fato de Alice lhe fazer companhia quando ela estava fora. Nunca na vida os vira falando um com o outro.

Mama Oji observava sua reação. “Só estou dizendo que você devia ter cuidado com ela. Mesmo que não seja uma sabotadora, ela não é uma boa mulher.”

Olanna não conseguiu pensar numa resposta. Sabia que Odenigbo jamais tocaria em outra mulher, tinha se convencido discretamente disso, e também sabia que Mama Oji nutria um profundo ressentimento contra Alice. No entanto, o inesperado das palavras dela a incomodaram.

“Eu vou tomar cuidado”, disse por fim, com um sorriso.

Mama Oji parecia querer dizer mais alguma coisa, mas mudou de idéia e virou-se para o filho. “Sai já daí! Você é burro ou o quê? Ewu awusa! Então não sabe que vai começar a tossir de novo?”

Mais tarde, Olanna pegou um sabonete, foi até a porta de Alice e bateu três vezes, em rápida sucessão, para que ela soubesse quem estava batendo. Os olhos dela pareciam sonolentos, mais sombreados que o normal. “Você voltou”, disse ela. “Como vai sua irmã?”

“Muito bem.”

“Viu aquelas pobres mulheres sendo atormentadas e chamadas de sabotadoras?”, perguntou ela, e, antes que Olanna pudesse responder, continuou: “Ontem foi um homem de Ogoja. Isso é um absurdo. Não podemos continuar a espancar as pessoas só porque a Nigéria está nos dando uma surra. Eu, por exemplo, não como uma comida de verdade faz dois anos. Nunca mais pus nada doce na boca. Nunca mais bebi uma água gelada. Onde é que eu vou arranjar energia para ajudar o inimigo?” Alice fez um gesto com as mãos minúsculas e aquilo que Olanna tinha considerado uma fragilidade elegante de repente se transformou em presunção ensimesmada, em egoísmo lascivo; Alice falava como se só ela sofresse com a guerra.

Olanna lhe deu o sabonete. “Alguém me mandou alguns.”

“Ah! Quer dizer que eu vou fazer parte dos que usam Lux em Biafra. Obrigada.” O sorriso de Alice transformou seu rosto, animou seus olhos, e Olanna se perguntou se Odenigbo a achava bonita. Olhou para a pele amarelada do rosto, para a cintura fina, e percebeu que o que antes admirava agora a ameaçava.

“Ngwanu, agora preciso ir fazer o almoço de Baby”, disse ela, virando-se para ir embora.

Nessa noite, fez uma visita à professora Muokelu e levou-lhe um sabonete.

“É você mesmo? Anya gi! Já faz tanto tempo!”, disse ela. Um buraco dividia em dois o rosto de Sua Excelência na manga do bubu.

“Você está com bom aspecto”, mentiu Olanna. A professora Muokelu estava descarnada; seu corpo fora feito para ser forte e agora, com tanta perda de peso, estava vergada, como se não conseguisse mais ficar com as costas retas. Até mesmo os pêlos nos braços estavam caídos.

“Você, sempre bonita”, disse a professora, dando mais um abraço em Olanna.

Olanna lhe deu o sabonete e, como sabia que ela não poria a mão em nada enviado da Nigéria por um nigeriano, disse: “Minha mãe mandou da Inglaterra”.

“Deus abençoe você”, disse a professora. “Seu marido e Baby, kwanu?”

“Estão bem.”

“E Ugwu?”

“Foi recrutado.”

“Depois daquela primeira vez?”

“É.”

A professora Muokelu calou-se e mexeu no meio sol amarelo de plástico em volta do pescoço. “Vai dar tudo certo. Ele vai voltar. Alguém tem de lutar pela nossa causa.”

Elas se viam muito pouco, agora que Muokelu começara seu negócio. Olanna sentou-se e ouviu as histórias que ela contou — sobre a visão que teve de que o sabotador responsável pela queda de Port Harcourt era um general do Exército de Biafra; sobre uma outra visão em que o dibia de Okija deu a Sua Excelência um remédio poderoso capaz de recapturar todas as cidades vencidas.

“Já começaram os rumores de que Umuahia está ameaçada, okwa ya?”, perguntou ela, olhando bem nos olhos de Olanna.

“Já.”

“Mas Umuahia não vai se entregar. Não há necessidade de todo mundo entrar em pânico e começar a fazer as malas.”

Olanna deu de ombros; perguntava-se por que Muokelu olhava para ela tão intensamente.

“Disseram que os que têm carro já começaram a procurar gasolina.” Seu olhar não vacilou. “E eles têm que tomar muito cuidado, muito cuidado mesmo, para que não apareça alguém perguntando como é que ficaram sabendo que Umuahia iria cair, se eles não são sabotadores.”

Olanna deu-se conta, então, de que a professora estava tentando avisá-la para ficar preparada.

“É, eles vão ter de tomar muito cuidado”, disse.

A professora esfregou as mãos. Algo havia mudado; ela permitira que a fé escorregasse por entre os dedos. Biafra venceria, Olanna sabia, porque Biafra tinha de vencer, mas o fato incompreensível de a professora acreditar que a queda da capital era iminente a deixou meio murcha. Quando abraçou a professora Muokelu na saída, foi com uma sensação oca de que nunca mais a veria. Pela primeira vez, pensou a sério na possibilidade da queda de Umuahia, enquanto voltava para casa. O que significava uma vitória postergada, mais uma redução no território de Biafra, mas também significava que iriam morar na casa de Kainene, em Orlu, até o final da guerra.

Parou num posto de gasolina perto do hospital e não se surpreendeu de ver o aviso, escrito a giz: NÃO TEMOS GASOLINA. Eles tinham parado de vender gasolina feita em Biafra assim que começaram os rumores de que Umuahia iria cair, para ninguém entrar em pânico. Nessa noite, Olanna disse a Odenigbo: “Precisamos encontrar gasolina no mercado negro; não temos o suficiente, caso aconteça alguma coisa”. Ele acenou vagamente que sim e resmungou alguma coisa sobre Special Julius. Tinha acabado de voltar do Bar Tanzânia e estava deitado na cama, com o rádio ligado baixinho. Do outro lado da cortina, Baby dormia num colchão.

“O que você disse?”, perguntou ela.

“Não temos condição de pagar o preço da gasolina, agora. Está custando mais de uma libra o galão.”

“Você recebeu na semana passada. Temos de garantir que o carro vai estar abastecido.”

“Pedi a Special Julius para fazer uma troca de cheque. Ele não trouxe o dinheiro.”

Olanna percebeu imediatamente que era mentira. Eles faziam troca de cheques com Special Julius o tempo todo; nunca levava mais que um dia para Special Julius dar a Odenigbo dinheiro vivo em troca do cheque.

“E como é que nós vamos comprar gasolina agora?”, perguntou ela.

Ele não disse nada.

Olanna passou por ele e foi para fora. A lua estava atrás de uma nuvem e, mesmo sentada na escuridão do quintal, sentia o vapor pesado do gim local. O cheiro barato o acompanhava sempre, escurecendo os caminhos por onde andava. A bebida consumida em Nsukka — seu conhaque acaju, cuidadosamente refinado —, aguçava a mente, destilava as idéias e a própria confiança, tanto assim que ele sentava na sala e falava, e falava, e todos escutavam. Ali, a bebida o silenciava. Fazia-o escapar para dentro de si mesmo e olhar o mundo com olhos congestionados, cansados. Além de deixar Olanna furiosa.

* * *

Olanna trocou o que restara de suas libras esterlinas e comprou gasolina de um homem que a levou até um armazém úmido e frio, cheio de vermes cor de areia rastejando pelo chão. Ele despejou cuidadosamente de sua lata para a dela. Ela levou a lata de volta embrulhada num saco que já contivera maisena, e tinha acabado de colocá-la no porta-malas do Opel quando um jipe aberto do EXÉRCITO DE BIAFRA estacionou em frente. Kainene saltou, seguida de um soldado de capacete. E Olanna percebeu, com a sensação imediata e profunda de um lamento, que a irmã trazia notícias de Ugwu. O sol brilhava forte e tudo começou a girar em sua cabeça; olhou em volta, procurando Baby, mas não conseguiu achá-la. Kainene entrou, segurou a irmã bem firme pelos ombros e disse: “Ejima m, prepare seu coração, seja forte. Ugwu morreu”, mas não foi a notícia e sim a pressão forte das mãos ossudas de Kainene que Olanna reconheceu.

“Não”, disse ela, calmamente. O ar estava carregado de irrealidade, como se fosse acordar dali a um minuto. “Não”, repetiu, abanando a cabeça.

“Madu enviou seu batedor com o recado. Ugwu estava com os engenheiros de campo e eles sofreram baixas maciças numa operação que fizeram na semana passada. Apenas uns poucos voltaram, e Ugwu não estava entre eles. Não acharam o corpo dele, assim como também não acharam o corpo de vários outros soldados.” Kainene fez um silêncio, antes de continuar. “Não havia muita coisa inteira para achar.”

Olanna continuou balançando a cabeça, esperando a hora de acordar. “Venha comigo. Traga Chiamaka. Venha e fique em Orlu.” Kainene a segurava, Baby estava dizendo alguma coisa e uma perplexidade escurecia tudo, até que olhou para cima e viu o céu. Azul e limpo. Isso tornou o presente real, o céu, porque nunca vira o céu em seus sonhos. Virou-se e andou até o Bar Tanzânia. Ultrapassou a cortina imunda da porta e empurrou o copo de Odenigbo da mesa; um líquido pálido se espalhou no chão de cimento.

“Já bebeu o suficiente por hoje?”, perguntou em voz baixa para ele. “Ugwu anwugo. Ouviu bem o que eu disse? Ugwu está morto.”

Odenigbo levantou-se e olhou para ela. As pálpebras dos olhos estavam inchadas.

“Vai, continua bebendo”, disse Olanna. “Beba, beba e não pare de beber. Ugwu morreu.”

A mulher dona do bar veio até ela e disse: “Ah! Sinto muito, ndo”, e fez menção de abraçá-la, mas Olanna a afastou. “Me deixe”, disse. “Me deixe!” Foi só então que percebeu que Kainene tinha ido junto e a segurava em silêncio, enquanto ela berrava “Me deixe! Me deixe!” para a dona do bar, que havia recuado.

Nos dias que se seguiram, dias cheios de fendas escuras no tempo, Odenigbo não foi ao Bar Tanzânia. Dava banho em Baby, fazia o garri para ela, voltava cedo do trabalho. Uma vez, tentou segurar Olanna, beijá-la, mas o simples toque dele causou-lhe arrepios; ela se virou e foi dormir lá fora, numa esteira na varanda, onde Ugwu de vez em quando dormia. Não chorou. Só chorou quando passou pela casa de Eberechi para lhe dizer que Ugwu tinha morrido, e Eberechi gritou e chamou-a de mentirosa; à noite, aqueles gritos ressoavam na cabeça de Olanna. Odenigbo mandou recado para os parentes de Ugwu através de três diferentes mulheres que atravessavam as linhas inimigas para negociar. E organizou uma cerimônia em memória de Ugwu, com músicas, no quintal. Alguns vizinhos ajudaram Alice a levar o piano e colocá-lo perto das bananeiras. “Eu toco enquanto vocês cantam”, disse Alice para um grupo de mulheres. Mas sempre que alguém começava uma música, Mama Oji batia palmas sem parar, e alto, acompanhando a melodia, até que todas as vizinhas se punham a bater palmas também. Alice não conseguiu tocar. Ficou sentada ao piano, sem saber o que fazer, com Baby no colo.

As primeiras músicas foram cheias de vigor, até que a voz de Mama Adanna se alçou no ar, rouca e elegíaca.

Naba na ndokwa,

Ugwu, naba na ndokwa.

O ga-adili gi mma,

Naba na ndokwa.

Antes que terminassem a música, Odenigbo saiu trôpego do quintal, com uma incredulidade furiosa no olhar, como se não acreditasse nas palavras da música: Vá em paz, tudo vai ficar bem com você. Olanna viu quando ele se foi. Aliás, não entendia direito por que sentia tanta mágoa dele. Não havia nada que Odenigbo pudesse ter feito para evitar a morte de Ugwu, mas o fato de beber, beber em excesso, o tinha tornado de alguma maneira cúmplice. Ela não queria falar com ele, não queria dormir a seu lado. Dormia numa esteira na varanda, e até mesmo a rotina de ser picada por insetos se tornou um conforto. Conversava pouco com ele. Falavam apenas das necessidades, o que Baby iria comer, o que fariam quando Umuahia caísse.

“Ficaremos na casa de Kainene apenas enquanto não pudermos achar um lugar”, dizia ele, como se fossem muitas as opções, como se tivesse esquecido que antes costumava dizer que Umuahia não cairia; ela não respondia nada.

Olanna contou a Baby que Ugwu tinha ido para o céu.

“Mas ele vai voltar logo, Mami Ola?”, perguntou a menina.

E Olanna disse que sim. Não é que quisesse consolar Baby; é que, dia após dia, achava mais fácil rejeitar a morte de Ugwu. Dizia a si mesma que ele não estava morto; talvez estivesse beirando a morte, mas não estava morto. Torcia para que lhe chegasse algum recado do paradeiro de Ugwu. Agora tomava banho do lado de fora — o banheiro estava imundo de bolor e urina, de modo que ela acordava bem cedo, pegava um balde de água e levava para os fundos do prédio —, e uma manhã viu um movimento com o canto do olho e enxergou o pastor Ambrose espiando. “Pastor Ambrose!”, chamou ela, e ele saiu em disparada. “Não tem vergonha, não, pastor? Se ao menos o senhor gastasse seu tempo rezando para alguém voltar, e me dissesse o que houve com Ugwu, em vez de ficar espiando uma mulher casada tomando banho.”

Fez uma visita à professora Muokelu, na expectativa de ouvir alguma história de visões que dissessem que Ugwu se achava seguro, mas um vizinho lhe disse que toda a família partira. Tinham ido embora sem contar a ninguém. Olanna passou a escutar os noticiários da Rádio Biafra com mais cuidado, como se pudesse haver alguma dica sobre Ugwu na voz esfuziante que narrava a expulsão dos vândalos e os sucessos dos bravos soldados biafrenses. Num sábado à tarde, um homem usando um caftã branco muito encardido entrou e Olanna correu para ele, certa de que trazia notícias de Ugwu.

“Me conte”, disse ela. “Me conte onde está Ugwu.”

O homem pareceu confuso. “Dalu. Estou procurando Alice Njokamma, de Asaba.”

“Alice?” Olanna encarou o homem, como se para lhe dar uma chance de se retratar e perguntar por ela, Olanna. “Alice?”

“Isso, Alice, de Asaba. Sou parente dela. O compound da minha família é pegado ao dela.”

Olanna apontou para a porta de Alice. Ele foi até lá e bateu algumas vezes.

“Será que ela está?”, perguntou.

Olanna fez que sim, ressentida por ele não ter notícias de Ugwu.

O homem bateu de novo e gritou: “Sou da família Isioma, de Asaba.”

Alice abriu a porta e ele entrou. Momentos depois, Alice saiu correndo do quarto e atirou-se no chão, rolando de um lado e de outro; sob o crepúsculo, sua pele manchada de areia parecia tingida de ouro.

“O gini mwewi? O que aconteceu?”, perguntaram os vizinhos, amontoando-se em volta de Alice.

“Eu sou de Asaba e recebi recado hoje de manhã sobre o que houve na minha cidade natal”, disse o homem. Seu sotaque era bem mais forte que o de Alice, e Olanna só compreendia o ibo falado por ele depois de ouvir toda a frase. “Os vândalos tomaram a cidade faz algumas semanas e anunciaram que todo mundo dali que saísse de casa e dissesse ‘Uma só Nigéria’ receberia arroz. De modo que todo mundo saiu do esconderijo e disse ‘Uma só Nigéria’ e os vândalos mataram todos eles a tiros, homens, mulheres e crianças. Todos.” O homem parou de falar uns instantes. “Não sobrou ninguém da família Njokamma. Não sobrou ninguém.”

Alice estava deitada de costas, esfregando freneticamente a cabeça no chão, gemendo. Havia torrões de areia em seu cabelo. Ela saltou e correu para a rua, mas o pastor Ambrose correu atrás e arrastou-a de volta. Ela se livrou dele e atirou-se no chão de novo, os lábios retesados, os dentes à mostra. “O que eu estou fazendo que ainda não morri? Eles deviam vir me matar agora! Eu disse que eles deviam vir me matar agora!”

Estava mais forte, mais animada com a loucura de sua dor e lutou com todos que tentaram segurá-la. Rolava pelo chão com tamanha força que as pedras abriram minúsculos cortes avermelhados em sua pele. Os vizinhos diziam ó e abanavam a cabeça. Odenigbo saiu do quarto nessa hora, foi até o quintal, apanhou Alice no colo e segurou-a; ela ficou quieta e começou a chorar, a cabeça descansando em seu ombro. Olanna observou os dois. Havia uma impressão de familiaridade na curva dos braços de Odenigbo em volta de Alice. Ele a segurava com a facilidade de quem já a tinha segurado antes.

 

Por fim, Alice sentou-se no banco, sem expressão nenhuma, em choque. De vez em quando, gritava “Hei!”, levantava do banco e punha as mãos na cabeça. Odenigbo ficou do lado, dizendo para ela tomar água. Ele e o homem de Asaba falaram em voz baixa, como se só eles fossem responsáveis por ela, e, depois disso, Odenigbo foi falar com Olanna, sentada na varanda.

“Será que pode pôr algumas coisas dela na mala, nkem?”, perguntou. “Ele diz que está alojando umas pessoas de Asaba em seu compound, e que vai levá-la para ficar uns tempos com ele.”

Olanna olhou para Odenigbo sem expressão nenhuma. “Não”, disse ela. “Não?”

“Não”, disse ela de novo, dessa vez bem alto. “Não.” Levantou-se e entrou no quarto. Não iria fazer as malas de ninguém. Não ficou sabendo quem arrumou as roupas de Alice, quem sabe o próprio Odenigbo, mas escutou o “Ije orna, boa viagem” de vários vizinhos, quando Alice e o homem partiram, de tardezinha. Olanna dormiu na varanda e sonhou com Alice e Odenigbo na cama, em Nsukka, com o suor deles em seus lençóis recém-lavados; acordou com uma suspeita furiosa no coração e barulho de bombas no ouvido.

“Os vândalos estão chegando!”, gritou o pastor Ambrose, o primeiro a sair correndo do compound, com uma maleta cheia na mão.

Todos os quartos começaram a se movimentar, gritos, gente empacotando coisas, partindo. O tiroteio, feito um acesso atrás do outro de uma tosse torpe e altíssima, não parou. O carro não pegava. Odenigbo tentou várias vezes, já com a rua lotada de refugiados e as explosões dos morteiros próximas da avenida São João. Mama Oji berrava com o marido. Mama Adanna implorava a Olanna para levá-la no carro, junto com alguns de seus filhos, e Olanna disse: “Não, pegue as crianças e vá”.

Odenigbo tinha conseguido fazer o motor pegar, mas logo em seguida ele gemeu e morreu. O compound já estava quase vazio. Uma mulher que puxava uma cabra teimosa acabou deixando o animal para trás e seguiu adiante, apressada. Odenigbo girou a chave e, de novo, o motor não pegou. Olanna sentia o chão em volta vibrar com cada explosão.

Odenigbo girava a chave sem parar. O carro não queria pegar.

“Comece a andar com Baby”, disse ele. O suor escorria de sua testa.

“O quê?”

“Eu apanho vocês quando o carro pegar.”

“Se vamos andar, vamos andar todos juntos.”

Odenigbo tentou ligar o carro de novo. Olanna virou-se, surpresa de ver como Baby estava quieta, sentada no banco de trás, ao lado do colchão deles, enrolado. Baby observava o pai com cuidado, como se incentivando os dois, ele e o carro, com os olhos.

Odenigbo saiu do carro, abriu o capô, e Olanna saltou também, deixando Baby no carro, se perguntando o que pegaria do porta-malas e o que deixaria para trás. O compound estava vazio e apenas uma ou duas pessoas passavam pela rua. O matraquear dos tiros estava bem perto. Ela estava com medo. As mãos tremiam.

“Vamos a pé mesmo”, disse Olanna. “Não tem mais ninguém em Umuahia!”

Odenigbo entrou no carro de novo, respirou fundo e girou a chave. O carro pegou. Ele dirigia rápido e, nos arredores de Umuahia, Olanna perguntou: “Você teve alguma coisa com Alice?”

Odenigbo não respondeu, olhando sempre adiante.

“Eu lhe fiz uma pergunta, Odenigbo.”

“Mba, eu não tive nada com Alice.” Deu uma olhada em Olanna e voltou a se concentrar na estrada.

Não disseram mais nada um ao outro até chegarem a Orlu; Kainene e Harrison saíram para recebê-los. Harrison começou a tirar as coisas do carro.

Kainene abraçou Olanna, apanhou Baby no colo e depois se virou para Odenigbo. “Que barba mais interessante”, disse ela. “Estamos tentando imitar Sua Excelência, é?”

“Eu nunca imito ninguém.”

“Mas é claro. Eu tinha esquecido da sua originalidade.”

A voz de Kainene estava grossa com a tensão que rodeava todos eles. Olanna podia senti-la pesada e úmida, pairando por toda a sala, quando Richard apareceu e apertou rigidamente a mão de Odenigbo e, mais tarde, quando sentaram para comer as fatias de cará que Harrison serviu em pratos esmaltados.

“Ficamos aqui até conseguir alugar alguma coisa”, disse Odenigbo, olhando para Kainene.

Kainene encarou-o de volta, ergueu as sobrancelhas e disse: “Harrison! Traga um pouco de óleo de dendê para Chiamaka”.

Harrison entrou e pôs uma tigela de óleo na frente de Baby. Depois que ele saiu, Kainene disse: “Ele assou uma preá fantástica para nós, na semana passada. Mas qualquer um pensaria que eram costeletas de carneiro, do jeito como ele ficou falando no assunto”.

Olanna riu. A risada de Richard foi hesitante. Baby também deu risada, como se tivesse entendido. E Odenigbo se concentrou, sem nem um sorriso, em seu prato. No rádio, estavam repetindo a declaração de Ahiara, na voz comedida e decidida de Sua Excelência.

Biafra não vai trair os negros. Não obstante os percalços, vamos continuar lutando com

todas as nossas forças até que todos os negros possam apontar com orgulho para sua

República, dignos e desafiadores, um exemplo do nacionalismo africano...

Richard pediu licença, voltou logo em seguida com uma garrafa de conhaque e fez um sinal para Odenigbo. “Um jornalista americano me deu.” Odenigbo fitou a garrafa.

“É conhaque”, disse Richard, estendendo a bebida como se ele não soubesse o que era. Desde o dia em que Odenigbo fora até a casa de Richard, anos antes, nunca mais tinham se encontrado. E, mesmo depois de apertadas as mãos, não tinham trocado uma palavra.

Porém Odenigbo não fez o menor gesto para pegar a garrafa.

“Você pode tomar xerez de Biafra, se preferir”, disse Kainene. “Possivelmente mais adequado para seu rude fígado revolucionário.”

Odenigbo olhou para ela e, em seu rosto, havia um pequeno sorriso zombeteiro, como se estivesse ao mesmo tempo sentindo irritação e achando graça. “Eu não quero conhaque, obrigado. Melhor ir dormir. Tenho uma bela caminhada amanhã, agora que o Efetivos se mudou para o meio do mato.”

Olanna ficou vendo o marido entrar. Não olhou para Richard.

“Hora de dormir, Baby”, disse.

“Não”, respondeu Baby, fingindo estar concentrada no prato vazio.

“Vamos e é já”, disse Olanna, e Baby se levantou.

No quarto, Odenigbo estava amarrando seus panos em volta da cintura. “Eu ia justamente pegar Baby para pô-la na cama”, disse ele. Olanna o ignorou.

“Durma bem, Baby, ka chi fo”, disse ele.

“Boa noite, papai.”

Olanna colocou Baby num colchão, cobriu-a com seus panos, beijou-a na testa e sentiu uma súbita vontade de chorar, ao se lembrar de Ugwu. Ele teria dormido numa esteira, na sala.

Odenigbo aproximou-se e ela quis recuar, insegura sobre o que ele estava tentando fazer. Ele tocou em sua clavícula. “Olha só como você está pele e osso.”

Ela baixou os olhos, irritada com o toque de Odenigbo e surpresa de ver as saboneteiras tão fundas; não sabia que tinha perdido tanto peso. Mas não respondeu e voltou para a sala. Richard havia se retirado.

Kainene continuava à mesa. “Quer dizer que você e Odenigbo resolveram procurar um lugar para morar?”, perguntou ela. “Minha humilde casa não é boa o bastante?”

“E você dá ouvidos para ele? Nós ainda não decidimos nada. Se ele quer achar um lugar para morar, que vá na frente e alugue sozinho”, disse Olanna.

Kainene olhou para ela. “O que houve?”

Olanna abanou a cabeça.

Kainene mergulhou um dedo no óleo de dendê e levou-o até a boca. “Ejima m, o que houve?”, perguntou de novo.

“No fundo, nada. Não há nada que eu possa apontar como causa”, disse Olanna, olhando para a garrafa de conhaque sobre a mesa. “Eu quero que essa guerra acabe para que ele possa voltar. Ele se tornou outra pessoa.”

“Estamos todos nessa guerra e cabe a nós decidir se vamos nos tornar outra pessoa ou não”, disse Kainene.

“Ele passa o tempo todo bebendo kai-kai barato. Nas poucas vezes em que recebe o salário, o dinheiro acaba rápido. Acho que ele dormiu com Alice, aquela moça de Asaba, que morava com a gente. Eu não suporto ficar perto dele. Não suporto que ele se aproxime de mim.”

“Ótimo”, disse Kainene.

“Ótimo?”

“Isso mesmo, ótimo. Havia qualquer coisa de muito preguiçoso no jeito como você o amou cegamente por tanto tempo, sem jamais criticá-lo. Você nunca nem sequer aceitou o fato de que o homem é feio”, disse Kainene. Havia um pequeno sorriso em seu rosto e, dali a pouco, estava rindo; Olanna também não pôde deixar de rir, porque não era isso que esperava ouvir e porque ouvi-lo a tinha feito se sentir melhor.

 

Pela manhã, Kainene mostrou a Olanna um pequeno frasco em forma de pera contendo creme para o rosto. “Olha só isso. Alguém viajou para fora e me trouxe. Meus cremes de rosto terminaram faz meses e eu estava usando aquele creme pavoroso de óleo, feito aqui em Biafra.”

Olanna examinou o frasco rosa. Elas se revezaram passando o creme lentamente, sensualmente, no rosto, antes de saírem para o centro de refugiados. Iam todas as manhãs até lá. O harmatão que soprava forte enchia tudo de poeira, e Baby se juntava às crianças que corriam em volta, de barriga nua entrelaçada de marrom. Muitas colecionavam estilhaços, brincavam com eles, negociavam com eles. Quando Baby voltou com dois pedaços de metal pontudo, Olanna gritou com ela, puxou-lhe a orelha e jogou fora os estilhaços. Detestava pensar em Baby brincando com restos de coisas que matavam. Porém Kainene pediu que ela devolvesse os estilhaços a Baby. E deu-lhe uma lata para guardá-los. Também pediu à menina que se juntasse às crianças mais velhas, que faziam armadilha para os lagartos, que aprendesse a trançar folhas de palmeira e pusesse casulos cheios de formigas iddo lá dentro. Kainene deixou Baby segurar o facão de um homem emaciado que desfilava pelo compound resmungando: “Ngwa, que venham os vândalos, que eles venham todos”. Kainene deixou Baby comer uma perna de lagarto.

“Chiamaka tem de ver a vida como ela é, ejima m”, disse Kainene, enquanto punham creme no rosto. “Você a protege muito da vida.”

“Só quero manter minha filha em segurança”, disse Olanna. Pegou uma pontinha de creme e começou a esfregá-lo no rosto com a ponta dos dedos.

“Eles nos protegeram demais”, disse Kainene.

“Papai e mamãe?”, perguntou Olanna, embora soubesse de quem a irmã falava.

“Exato.” Kainene passava o creme no rosto com a palma da mão. “Ainda bem que ela foi embora. Já imaginou mamãe vivendo sem coisas como esta? Ou usando óleo de palmiste?”

Olanna riu. Mas desejou, lá no íntimo, que Kainene não pegasse tanto creme, para que ele durasse o máximo possível.

“Por que você está sempre tão disposta a agradar os dois?”, perguntou Kainene.

Olanna manteve as mãos no rosto, calada por alguns instantes. “Eu não sei. Acho que porque tenho dó deles.”

“Você sempre teve dó de gente que não precisa de dó de ninguém.”

Olanna não respondeu por que não sabia o que dizer. Esse era o tipo de coisa que ela teria debatido com Odenigbo — a primeira vez que Kainene ventilara algum ressentimento contra os pais e contra ela —, mas o casal mal se falava. Odenigbo encontrara um bar nas vizinhanças; não fazia nem uma semana que o dono tinha ido até a casa de Kainene para perguntar por ele, porque a conta não fora paga. Olanna nem lhe contou, depois que o dono do bar foi embora. Não tinha mais certeza de quando ele ia ao Diretório dos Efetivos e quando simplesmente ficava no bar. Recusava-se a se importar com Odenigbo.

Preocupava-se com outras coisas: que sua menstruação estava rareando e não era mais vermelha e sim de um marrom enlameado, que o cabelo de Baby estava caindo, que a fome roubava a lembrança das crianças. E estava resolvida a mantê-las alertas; as crianças eram o futuro de Biafra, afinal de contas. De modo que todos os dias dava aula para elas debaixo de um tulipeiro-da-áfrica, bem longe dos cheiros horrendos que saíam dos fundos do prédio. Ela os fazia aprender de cor um verso de algum poema e, no dia seguinte, eles já tinham esquecido. Eles perseguiam os lagartos. Comiam garri e água uma vez por dia, em vez de duas, porque os fornecedores de Kainene não podiam mais cruzar até Mbosi para comprar garri; todas as estradas estavam ocupadas. Kainene lançou um plano, chamado Vamos Plantar Nossa Própria Comida, e quando se juntava aos homens, mulheres e crianças para cavar a terra, Olanna se perguntava onde é que a irmã aprendera a manejar uma enxada. O chão, entretanto, estava esturricado. O harmatão rachava os lábios e os pés. Três crianças morreram num único dia. O padre Mareei rezava a missa sem a Santa Comunhão. A barriga de uma mocinha chamada Urenwa começou a crescer e Kainene não tinha certeza se era kwashiorkor ou gravidez, até o dia em que a mãe lhe deu um tapa e perguntou: “Quem foi? Quem fez isso com você? Quando é que você viu o homem que fez isso com você?”. O médico não aparecia mais porque não havia gasolina e porque eram muitos os soldados moribundos que precisavam de tratamento. O poço secou. Kainene foi várias vezes até o Diretório de Ahiara para obter um caminhão-tanque, e sempre voltava trazendo vagas promessas do responsável. Os cheiros densos e horrendos de corpos sem banho e de carne apodrecendo nas covas rasas atrás dos prédios ficaram mais fortes. As moscas revoavam em torno das feridas das crianças. Os percevejos e kwalikwata rastejavam por toda parte; as mulheres desatavam seus panos para revelar uma feia erupção de mordidas avermelhadas em torno da cintura, como se fossem colméias mergulhadas em sangue. Era época de laranjas, e Kainene pedia a elas que comessem as laranjas das árvores, embora isso lhes desse diarréia, e, depois, que espremessem a casca contra a pele, porque o cheiro cítrico mascarava o cheiro de sujeira.

À noite, Olanna e Kainene voltavam juntas para casa, a pé. Falavam sobre os refugiados do centro, sobre os tempos de escola, em Heathgrove, sobre os pais, sobre Odenigbo.

“Você já perguntou a ele de novo sobre aquela mulher de Asaba?”, falou Kainene.

“Ainda não.”

“Antes de lhe perguntar qualquer coisa, chegue perto e esbofeteie a cara dele. Se ele ousar bater em você de volta, eu avanço para cima dele com o facão que Harrison usa na cozinha. Mas o tabefe vai arrancar a verdade.”

Olanna riu e reparou que ambas andavam num passo sossegado e que os passos estavam em harmonia, as sandálias cobertas de poeira marrom.

“O vovô costumava dizer que tudo piora e aí melhora. O dikata njo, o dikwa mma”, disse Kainene.

“Eu me lembro.”

“O mundo vai mudar de opinião logo, logo, e a Nigéria vai parar com isso”, disse Kainene, em voz baixa. “Nós vamos ganhar.”

“Vamos.” Olanna acreditava mais na vitória porque Kainene havia dito que venceriam.

Havia noites em que Kainene ficava distante, imersa em si mesma. Uma vez, ela disse: “Nunca prestei atenção em Ikejide”, e Olanna pôs o braço no ombro da irmã e não disse nada. Na maior parte do tempo, porém, Kainene estava de ótimo humor e elas sentavam lado a lado, conversando, ouvindo rádio ou vendo o vôo dos morcegos em torno dos cajueiros. Às vezes, Richard vinha sentar com elas. Odenigbo nunca apareceu.

Um belo dia, choveu, uma chuva de rajadas acinzentadas, uma chuva estranha durante o período da seca, e talvez por isso Odenigbo não tenha ido ao bar. Essa foi a noite em que finalmente aceitou o conhaque de Richard, segurou o copo bem junto ao nariz e aspirou, antes de beber, se bem que as palavras tenham sido poucas entre eles. Foi também nessa noite que o dr. Nwala apareceu para dizer que Okeoma estava morto. Relampejava, os trovões ribombavam e Kainene disse, rindo: “Está parecendo um bombardeio”.

“Estou preocupada porque faz tempo que eles não atacam”, disse Olanna. “O que será que estão planejando?”

“Quem sabe uma bomba atômica”, disse Kainene.

Escutaram um carro entrando e Kainene se levantou. “Quem viria nos visitar debaixo de chuva e à noite?”

Abriu a porta e lá estava o dr. Nwala, com água pingando pelo rosto. Olanna lembrou que, no dia de seu casamento, ele estendera a mão para ajudá-la a se levantar, depois do reide aéreo, e dissera que o vestido corria o risco de sujar — como se já não estivesse imundo. Estava mais magro e mais desengonçado que da última vez, e a impressão era a de que poderia se partir em dois, se sentasse de repente. E ele não sentou. Não perdeu tempo com os cumprimentos de praxe. Tinha erguido a camisa folgada para longe do corpo e ainda a sacudia para tirar a água quando falou: “Okeoma se foi, o jebego. Estavam numa missão para conquistar Umuahia de novo quando aconteceu. Eu o vi no mês passado e ele me contou que andava escrevendo poesia outra vez, que sua musa era Olanna, e que, se alguma coisa acontecesse com ele, que eu entregasse todos os poemas para ela. Só que não consegui achar nada. O pessoal que trouxe o recado para mim disse que nunca viu Okeoma escrevendo. De modo que achei melhor vir aqui lhe dizer que ele se foi, mas que eu não encontrei os poemas.”

Olanna balançava a cabeça sem entender por completo o que o dr. Nwala dizia porque ele falava palavras demais, rápido demais. Depois se calou. Estava querendo dizer que Okeoma morrera. Chovia na época do harmatão e Okeoma morrera.

“Okeoma?”, disse Odenigbo, com um sussurro falho. “Onye? Você está falando sobre Okeoma?”

Olanna agarrou o braço de Odenigbo e se pôs a gritar, berros agudos, cortantes, porque algo em sua cabeça fora estirado para além dos limites. Porque se sentia atacada, implacavelmente castigada pela perda. Não soltou do braço dele até o dr. Nwala sair meio trôpego na chuva, até os dois deitarem em silêncio no colchão estendido no chão. Quando ele a penetrou, Olanna pensou em como ele parecia diferente, mais leve e mais estreito, por cima. Ele estava imóvel, tão imóvel que ela se remexeu e puxou pelos quadris. Porém ele não se moveu. Depois começou a se mexer e o prazer dela se multiplicou, como se afiado na pedra, para que cada minúscula fagulha se tornasse um prazer em si mesmo. Ouviu-se soluçando, os soluços cada vez mais altos, até que Baby se mexeu e ele pôs a palma da mão sobre sua boca. Ele também chorava; sentiu as lágrimas dele caindo por seu corpo, antes de ver seu rosto.

Mais tarde, apoiado no cotovelo, ele a olhou. “Você é tão forte, nkem.”

Essas eram palavras que ela nunca tinha ouvido dele. Odenigbo parecia velho; havia uma umidade em seus olhos, uma derrota amarfanhada no rosto que o fazia parecer mais velho. Queria perguntar por que ele havia dito isso, mas não o fez, e não saberia dizer quem fechou os olhos primeiro. Na manhã seguinte, Olanna acordou bem cedo, sentindo o cheiro do próprio mau hálito e uma triste e incômoda paz.