Meio Sol Amarelo
Capítulo 30
Richard afastou-se tanto quanto conseguiu dos dois jornalistas americanos que estavam no carro e encolheu-se contra a porta do Peugeot. Na verdade, devia ter sentado na frente e pedido ao ordenança que sentasse atrás com eles. Mas não podia imaginar que cheirariam tão mal, o gordo Charles, usando um chapéu todo amassado, e o ruivo Charles, com o queixo coberto de pêlos vermelhos.
“Um jornalista do Meio-Oeste e outro de Nova York vêm a Biafra e os dois se chamam Charles. Quais as chances de uma coisa dessas acontecer?”, perguntou o gorducho, rindo, depois que se apresentaram. “E nossas mães nos chamam de Chuck, as duas!”
Richard não sabia quanto tempo haviam esperado em Lisboa para tomar o avião até São Tomé, mas em São Tomé a espera por um vôo de ajuda com suprimentos para Biafra fora de mais de dezessete horas. Eles precisavam de um banho. Quando o gordo, que estava sentado ao lado de Richard, começou a falar sobre sua primeira visita a Biafra, no início da guerra, Richard achou que ele precisava de um anti-séptico bucal também.
“Vim num avião de verdade e aterrissamos no aeroporto de Port Harcourt”, disse ele. “Dessa vez, porém, voei sentado no chão de um avião que não tinha nem uma luz sequer, ao lado de vinte toneladas de leite em pó. Estávamos tão baixo que eu olhava para fora e via as explosões laranja do fogo antiaéreo nigeriano. Me deu um medo filho-da-mãe.” Riu, com seu rosto largo, fofo e agradável.
O ruivo não riu. “Nós não sabemos ao certo se aquilo era fogo nigeriano. Podia ser dos biafrenses.”
“Que história é essa!” O gordo deu uma olhada para Richard, que manteve a fisionomia impassível. “Claro que era fogo nigeriano.”
“Seja como for, os biafrenses estão misturando comida e armas nos aviões que voam para cá”, disse o ruivo. Virando-se para Richard, perguntou: “Não estão?”.
Richard não gostou dele. Não gostou daqueles olhos verdes desmaiados e do rosto sardento. Quando foi encontrá-los no aeroporto para entregar os passes, dizer-lhes que prestaria serviço como guia e que o governo de Biafra lhes dava as boas-vindas, não gostou da expressão zombeteira do ruivo. Era como se ele estivesse dizendo: Você, falando em nome dos biafrenses? “Nossos aviões de ajuda carregam apenas alimentos”, disse Richard. “Claro”, concordou o ruivo. “Apenas alimentos.”
O gordo debruçou-se por cima de Richard para olhar pela janela. “Não acredito nessa gente toda dirigindo e andando pela rua. Nem parece que tem uma guerra acontecendo.”
“Até vir um ataque aéreo”, disse Richard. Ele afastara o rosto e estava segurando a respiração.
“Será que podíamos ir ver o lugar onde os soldados biafrenses mataram um italiano que trabalhava na prospecção de petróleo?”, perguntou o ruivo. “A gente fez uma matéria sobre isso, no Tribune, mas eu gostaria de fazer um artigo maior.”
“Não, não vai dar”, disse Richard, rispidamente.
O ruivo continuava olhando para ele. “Certo. Mas será que teria alguma novidade sobre o assunto?”
Richard expirou. Era como se alguém estivesse borrifando pimenta numa ferida — milhares de biafrenses mortos e esse homem querendo saber se havia novidades sobre a morte de um branco. Iria escrever sobre isso, sobre a regra do jornalismo ocidental: cem negros mortos equivalem a um branco morto. “Não há nenhuma novidade”, disse ele. “A área agora está ocupada.”
Na barreira, Richard falou em ibo com o defensor civil. Ela examinou os passes, deu um sorriso sugestivo e Richard sorriu de volta; alta, quase sem peito, lembrava Kainene.
“A moça me pareceu bem interessada”, disse o gorducho. “Soube que tem muito sexo livre por aqui. Mas será que as moças não têm nenhuma doença sexualmente transmissível? A doença de Bonny? Vocês precisam tomar muito cuidado para não levar nada de volta para casa.”
A impertinência dele irritou Richard. “O centro de refugiados que nós vamos ver é administrado pela minha mulher.”
“É mesmo? E ela está aqui faz tempo?”
“Ela é biafrense.”
O ruivo olhava pela janela; ao ouvir isso, virou-se para Richard. “Eu tive um amigo inglês, na faculdade, que gostava muito de moças de cor.”
O gorducho parecia constrangido. E interveio rápido. “Você fala bem o ibo?”
“Falo”, disse Richard. Teve vontade de mostrar-lhes as fotos de Kainene e do vaso com cordas, mas mudou de idéia.
“Eu gostaria muito de conhecê-la”, disse o gordo.
“Ela não está, hoje. Foi ver se consegue arranjar mais suprimentos para o centro de refugiados.”
Richard foi o primeiro a sair do carro e ver os dois intérpretes esperando. A presença deles o incomodava. Verdade que os idiomas, as nuanças e os dialetos quase sempre lhe escapavam, em ibo, mas o diretório estava sempre muito ansioso para enviar seus intérpretes. A maior parte dos refugiados sentados na porta observou a entrada deles com uma vaga curiosidade. Um homem emaciado andava de um lado a outro, com um punhal preso na cintura, falando sozinho. Cheiros de podridão pesavam no ar. Um grupo de crianças assava dois ratos numa fogueira.
“Ai, meu Deus.” O gordo tirou o chapéu e olhou fixo para aquilo.
“Preto nunca é enjoado para comer”, resmungou o ruivo.
“O que disse?”, perguntou Richard.
Mas o ruivo fingiu não ter escutado e foi em frente, apressado, junto com um dos intérpretes, para falar com um grupo de homens jogando dama.
O gordo disse: “Você sabia que há montes de comida empilhada em São Tomé, tudo coberto de barata porque não tem quem traga os alimentos até aqui?”.
“Eu sei.” Richard ficou um tempo calado. “Será que você não se importaria de levar algumas cartas? São para os pais da minha mulher, em Londres.”
“Claro, eu ponho no correio assim que sair daqui.” O gordo tirou uma barra grande de chocolate da mochila, desembrulhou e pegou dois pedaços. “Escute, eu bem que gostaria de fazer mais.”
Foi até onde estavam as crianças, distribuiu algumas balas, tirou fotos e elas se aglomeraram em volta, pedindo mais. Uma única vez, comentou: “Que sorriso lindo!”. Depois que largou delas, as crianças voltaram para seus ratos assados.
O ruivo andava rápido, com a máquina pendurada no pescoço, balançando enquanto caminhava. “Eu quero ver biafrenses de verdade”, disse ele.
“Biafrenses de verdade?”, perguntou Richard.
“Quer dizer, dê só uma olhada para eles. Deve fazer uns dois anos que não comem uma refeição. Não vejo como ainda podem defender a causa, Biafra e Ojukwu.”
“Você sempre decide em quais respostas vai acreditar antes de fazer uma entrevista?”, perguntou Richard, com voz suave.
“Quero ir a outro centro de refugiados.”
“Mas claro, vou levá-lo a outro.”
O segundo, mais dentro da cidade, era menor, cheirava melhor e, antes, era a prefeitura. Uma mulher, com um braço só, sentada na escada, contava uma história a um grupo de pessoas. Richard pegou o fim — “Porém o espírito do homem voltou e falou com os vândalos em hauçá e eles deixaram a casa dele sossegada” — e invejou a crença dela nos espíritos.
O ruivo abaixou-se no degrau ao lado dela e começou a falar por meio do intérprete.
Está com fome? Claro, estamos todos com fome.
A senhora entende o porquê da guerra? Entendo, os vândalos hauçás queriam nos matar a todos, porém Deus não estava dormindo.
A senhora quer que a guerra termine? Sim, Biafra vai vencer logo mais.
E se Biafra não vencer?
A mulher cuspiu no chão e olhou primeiro para o intérprete, depois para o ruivo, um longo olhar de pena. Levantou-se e entrou.
“Inacreditável”, disse o ruivo. “A máquina de propaganda de Biafra é fantástica.”
Richard conhecia o tipo. Era igualzinho ao pessoal que integrava as comissões enviadas pelo primeiro-ministro Wilson, ou os comitês investigativos do presidente Nixon, que chegavam com pílulas de proteína e conclusões inabaláveis: que a Nigéria não estava bombardeando civis, que a fome estava sendo exagerada e que ia tudo tão bem quanto poderia estar indo numa guerra.
“Não há nenhuma máquina de propaganda”, disse Richard. “Quanto mais civis se bombardeia, mais cresce a resistência.”
“Isso veio da Rádio Biafra?”, perguntou o ruivo. “Parece coisa de rádio.”
Richard não respondeu.
“Eles estão comendo tudo”, disse o gordo, balançando a cabeça. “Qualquer raio de folha verde virou legume.”
“Se Ojukwu quisesse impedir a fome, ele poderia simplesmente concordar com o corredor de alimentos. E essas crianças não precisariam estar comendo roedores”, disse o ruivo.
O gordo estava tirando fotos. “Só que as coisas não são tão simples assim”, disse ele. “O general precisa pensar na questão da segurança também. Afinal, ele está travando uma droga de uma guerra.”
“Ojukwu vai ter de se render. Essa é a investida final da Nigéria, e não há como Biafra recuperar o território perdido”, disse o ruivo.
O gordo tornou a tirar a barra de chocolate do bolso.
“E o que Biafra está fazendo a respeito do petróleo, agora que perdeu o porto?”, perguntou o ruivo.
“Continuamos extraindo petróleo de alguns campos em que ainda temos controle, em Egbema”, disse Richard, sem se dar ao trabalho de explicar onde ficava Egbema. “Levamos o óleo cru para as nossas refinarias durante a noite, em caminhões sem farol, para evitar os aviões bombardeiros.”
“Você não pára de dizer nós”, disse o ruivo.
“Exato, eu não paro de dizer nós.” Richard deu uma olhada para ele. “Já esteve na África, antes?”
“Não, é a primeira vez. Por quê?”
“Só queria saber.”
“E por isso devo me sentir inexperiente na selva? Eu cobri a Ásia durante três anos”, disse o ruivo, sorrindo.
O gordo remexeu na mochila e tirou uma garrafa de conhaque. Deu para Richard. “Comprei em São Tomé. Mas não tomei. É coisa boa.” Richard pegou a garrafa.
Antes de voltarem para Uli, para pegar o avião de volta, pararam numa pensão e jantaram um ensopado de arroz com galinha; Richard odiava pensar que o governo de Biafra pagara pela refeição do ruivo. Alguns carros chegavam e partiam do prédio do terminal; mais adiante, a pista era um breu. O administrador do aeroporto, em seu terno cáqui muito justo, apareceu para apertar a mão dos jornalistas e disse: “O avião deve chegar a qualquer minuto, agora”.
“É ridículo que ainda sigam todos os protocolos nesse cu do mundo”, disse o ruivo. “Carimbaram meu passaporte quando cheguei e perguntaram se eu tinha algo a declarar.”
Uma explosão chacoalhou o ar. O administrador do aeroporto gritou: “Por aqui!”, e correram todos atrás dele, até o prédio inacabado. Deitaram-se no chão e lá ficaram. As vidraças das janelas tremeram e tilintaram. O chão estremeceu. As explosões pararam e veio então um tiroteio esparso; o administrador do aeroporto se levantou e escovou as roupas com a mão. “Sem problemas. Vamos.”
“Está louco?”, gritou o ruivo.
“Eles só começam a atirar quando acabam as bombas, não tem nada com que se preocupar agora”, disse o administrador, com certo desinteresse, já saindo do prédio.
Lá fora, um caminhão fazia reparos nas crateras de bomba recém-abertas na pista, enchendo tudo de pedregulho. As luzes da pista piscaram uma vez e depois a escuridão foi completa, absoluta; naquele negrume azulado, Richard sentiu a cabeça flutuar. As luzes se acenderam alguns instantes mais, depois apagaram. Voltaram a acender e a apagar. Havia um avião descendo; veio o ruído do bordo de fuga atingindo o asfalto.
“Ele pousou?”, perguntou o gordo.
“Pousou”, disse Richard.
As luzes acenderam e apagaram. Três aviões tinham descido e Richard se espantou com a rapidez com que alguns caminhões, de farol desligado, já se aproximavam deles. Os homens tiravam sacos dos aviões. As luzes acendiam e apagavam. Os pilotos gritavam. “Depressa, seus preguiçosos! Tirem tudo rápido! Nós não vamos ser bombardeados aqui! Mais rápido, pessoal! Mais rápido, droga!” Havia um com sotaque americano, outro africânder e um terceiro irlandês.
“Os desgraçados podiam ser um pouco mais bem-educados”, disse o gorducho. “Eles recebem milhares de dólares para trazer a ajuda até aqui, droga.”
“A vida deles está em risco”, disse o ruivo.
“Assim como a droga da vida dos homens que estão descarregando os aviões.”
Alguém acendeu um lampião e Richard se perguntou se o bombardeiro nigeriano lá no alto podia ver a luz, e quantos bombardeiros voavam por ali.
“Alguns dos nossos homens colidiram com as hélices dos aviões, no escuro”, disse Richard, com toda a calma. Não sabia ao certo por que tinha dito isso, talvez para ver se abalava a superioridade indiferente do ruivo.
“E o que houve com eles?”, perguntou o gorducho.
“O que você acha que houve com eles?”
Passou um carro de farol apagado, bem devagar. Estacionou ali perto, as portas se abriram e fecharam e logo cinco crianças macilentas e uma freira de hábito azul e branco foram se juntar a eles. Richard a cumprimentou. “Boa noite. Kee ka I me?”
Ela sorriu. “Ah, então é você o onye ocha que fala ibo? Você é o que escreve coisas maravilhosas sobre a nossa causa. Muito bom.”
“A senhora está indo para o Gabão?”
“Estou.” Ela mandou as crianças sentarem nos bancos de madeira. Richard se aproximou para olhá-las. Na pouca luz que havia, viu que a espuma leitosa nos olhos delas era densa. A freira tinha a menorzinha nos braços, uma boneca enrugada com pernas de palito e barriga de grávida. Richard não sabia dizer se era menino ou menina e, de repente, sentiu tanta raiva, tanta raiva que, quando o ruivo lhe perguntou: “Como a gente sabe a hora de entrar no avião?”, não lhe deu atenção.
Uma das crianças fez menção de se levantar. Dobrou-se ao meio, caiu de cara no asfalto e ficou imóvel. A freira colocou a menorzinha no chão e apanhou a criança caída. “Fiquem sentados aqui. Se alguém tentar sair, vai apanhar”, disse ela aos outros, antes de sair correndo.
O jornalista gorducho perguntou: “O garoto dormiu, não é?
Richard ignorou também essa pergunta.
Por fim, o gorducho resmungou: “Essa maldita política americana.”
“Não há nada de errado com a nossa política”, disse o ruivo.
“O poder vem com responsabilidade. Seu governo sabe que essa gente está morrendo!”, disse Richard, com a voz alterada.
“Claro que meu governo sabe que tem gente morrendo”, disse o ruivo. “Tem gente morrendo no Sudão, na Palestina e no Vietnã. Tem gente morrendo por toda parte.” Sentou-se no chão. “Eles trouxeram o corpo do meu irmão caçula faz um mês, do Vietnã, tenha a santa paciência.”
Nem Richard nem o gorducho disseram nada. No longo silêncio que veio depois, até mesmo a voz dos pilotos e os ruídos de descarregar diminuíram. Mais tarde, quando ambos já tinham sido levados às pressas até a pista, corrido até os aviões, e os aviões decolado na luz que acendia e apagava, Richard descobriu o título do livro: “O mundo estava calado quando nós morremos”. Escreveria esse livro depois da guerra, uma narrativa da difícil vitória de Biafra, uma acusação para o mundo. De volta a Orlu, contou a Kainene sobre os jornalistas, a raiva e o dó que sentira do ruivo, a solidão inacreditável que sentira na presença deles e de como o título do livro viera de supetão.
Ela arqueou as sobrancelhas. “Nós? O mundo estava calado quando nós morremos?”
“Vou fazer questão de anotar que as bombas nigerianas evitaram com o maior cuidado qualquer um com passaporte britânico.”
Kainene riu. Andava rindo bastante, nos últimos tempos. Ela riu ao lhe contar sobre um bebê sem mãe que continuou se agarrando à vida, sobre a jovem por quem Inatimi estava se apaixonando, sobre as mulheres que cantavam à noite. Também riu na manhã em que Richard e Olanna finalmente se encontraram. Olanna falou primeiro. “Olá, Richard.” E ele disse: “Olanna, olá”. Kainene riu e falou: “Richard não conseguiu inventar mais nenhuma viagem”.
Olhando o rosto de Kainene com o maior cuidado, Richard buscava algum tipo de recuo psicológico, de raiva, de algo. Mas não viu nada disso; a risada suavizava os ângulos do queixo. E a tensão que ele esperava, o peso da lembrança e do remorso que viriam quando visse Olanna de novo, na presença de Kainene, não se apresentaram.
7. O Livro: O Mundo Estava Calado Quando Nós Morremos
Para o epílogo, escreve um poema, nos mesmos moldes dos de Okeoma. Com o seguinte título:
“VOCÊ SE CALOU QUANDO NÓS MORREMOS?”
Você viu as fotos em 68
De crianças com o cabelo ficando ferrugem?
Chumaços doentes aninhados nas cabecinhas,
Caindo feito folha podre na terra poeirenta?
Imagine crianças com braços feito palitos.
A pele estirada, uma bola de futebol na barriga.
É o kwashiorkor —palavrinha difícil,
Mas não feia o bastante, uma pena.
Mas não precisa imaginar. Houve fotos
Expostas nas páginas em papel cuchê
Da sua Life. Você viu? Sentiu um dó rápido
E depois se virou para abraçar mulher ou amante?
A pele deles ficou castanha como chá fraco,
Mostrava uma teia de veias, osso quebradiço;
Crianças nuas brincando, como se o homem não fosse
Fotografá-las e depois partir só, sem rebuliço.