Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 4 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 3

 

Richard falava muito pouco nas festas a que ia com Susan. Era sempre apresentado como escritor e queria que todos pensassem que seus modos reservados eram idênticos aos de qualquer outro na mesma profissão, embora receasse ser descoberto pelo que de fato era: um peixe fora d’água. Ainda assim, eram todos muito agradáveis — como não poderia deixar de ser com qualquer um que estivesse fazendo companhia a Susan, desde que ela continuasse a entretê-los com seu humor, suas risadas e seus faiscantes olhos verdes num rosto corado por várias taças de vinho.

Ele não se importava de ficar num canto, esperando até Susan resolver ir embora, não se importava que os amigos dela não fizessem o menor esforço para introduzi-lo na roda, não se importava nem mesmo quando uma mulher bêbada de rosto pálido se referia a ele como o bonitão da Susan. Porém não gostava das festas de expatriados, nem da insistência de Susan para que “ficasse com os homens” enquanto ela se reunia com as mulheres e trocava impressões sobre a vida na Nigéria. Sentia-se incomodado no meio daqueles homens. Eram quase todos ingleses, ex-administradores da ex-colônia, empresários da John Holt, Kingsway, GB Ollivant, Shell-BP e United Africa Company. Uma gente vermelha de álcool e de sol. Soltavam risadas e comentavam que a política nigeriana ainda era muito tribal, que talvez eles ainda não estivessem prontos para se autogovernar. Discutiam críquete, fazendas que tinham ou planejavam ter, o tempo ideal em Jos, oportunidades de negócio em Kaduna. Quando Richard mencionava seu interesse pela arte de Igbo-Ukwu, diziam que ainda não havia mercado para ela, de modo que ele não se dava mais ao trabalho de explicar que não era dinheiro que o interessava, e sim a questão estética. E quando dizia que tinha acabado de chegar a Lagos e queria escrever um livro sobre a Nigéria, recebia sempre um sorriso breve e um conselho: o povo é todo de pedintes, esteja preparado para muito cecê e para o jeito como eles param e ficam encarando você na rua, nunca acredite nas histórias de azar e nunca mostre fraqueza para um empregado doméstico. Havia piadas para ilustrar cada traço dos africanos. A do africano presunçoso era uma das que Richard lembrava: um africano passeava com seu cachorro e um inglês perguntou: “O que você está fazendo com esse macaco?”. E o africano respondeu: “Isto não é um macaco, é um cachorro” — como se o inglês estivesse falando com ele!

Richard ria das piadas. Tentava, também, não se perder nos próprios pensamentos durante as conversas, não mostrar como se sentia constrangido. Preferia conversar com as mulheres, embora tivesse aprendido a não ficar muito tempo com nenhuma delas, caso contrário Susan acabava atirando um copo na parede ao chegar em casa. Na primeira vez, ele ficou atônito. Tinha passado alguns momentos conversando com Clovis Bancroft sobre a vida do irmão dela como comissário distrital em Enugu, anos antes, e, na volta para casa, no carro com motorista particular, ela não tinha dito uma palavra. Richard achou que talvez estivesse cochilando; só podia ser esse o motivo de não falar sobre o vestido horrendo de fulana ou dos hors-d’oeuvres sem criatividade servidos pelos anfitriões. Porém, quando chegaram em casa, Susan apanhou um cristal do armário e atirou na parede. “Aquela mulherzinha horrenda, Richard, e bem na minha cara, ainda por cima. Que horror!” Depois, sentou-se no sofá e enterrou o rosto nas mãos, até ele pedir um milhão de desculpas, embora não soubesse exatamente pelo que estava se desculpando.

Outra taça foi se espatifar na parede algumas semanas depois. Ele conversava com Julia March a respeito de uma pesquisa que ela fizera sobre o Asantehene de Gana, e ouvia fascinado o que ela descobrira, até que Susan apareceu e puxou-o pelo braço. Mais tarde, depois de o vidro ser estilhaçado em mil cacos, Susan disse que sabia que a intenção dele não era flertar, mas que ele precisava entender que as pessoas eram horrendamente presunçosas, e a fofoca, feroz, nada menos que feroz. Ele pedira desculpas de novo e se perguntara o que pensavam os criados que limpavam aqueles cacos todos.

Depois houve o jantar em que falou sobre arte Nok com uma professora universitária, uma tímida ioruba que parecia estar tão deslocada quanto ele. Como esperasse uma reação de Susan, preparou-se para pedir desculpas antes mesmo que ela pisasse na sala, poupando assim uma taça. Mas Susan estava toda faladeira, na volta; perguntou se a conversa com a mulher havia sido interessante e disse que esperava que ele tivesse aprendido alguma coisa útil para usar no livro. Ele a encarou na obscuridade do interior do carro. Ela não teria dito a mesma coisa se a conversa fosse com uma britânica, mesmo que algumas tivessem ajudado a redigir a constituição nigeriana. Era apenas, como ele percebeu, uma questão de as negras não representarem ameaça nenhuma para Susan; elas não eram rivais.

Tia Elizabeth havia dito que Susan era animada e charmosa, se bem que um pouco mais velha que ele, que ela morava fazia um tempo na Nigéria e que poderia lhe mostrar algumas coisas. Richard não queria ninguém lhe mostrando nada; tinha se virado muito bem sozinho, em viagens anteriores ao exterior. Mas tia Elizabeth insistiu. A África não é como a Argentina, ou a Índia. Ela dizia África com o tom de alguém que reprime um estremecimento, ou talvez não quisesse que ele se fosse, talvez torcesse para ele continuar em Londres, escrevendo para o News Chronicle. Ele ainda achava que ninguém lia sua minúscula coluna, embora tia Elizabeth dissesse que todos os amigos dela liam. O que era de se esperar: tratava-se afinal de contas de uma sinecura, aquele cargo; jamais teria sido contratado se o editor não fosse um velho amigo dela.

Richard não tentou explicar para tia Elizabeth a vontade que tinha de ver a Nigéria, mas aceitou a oferta de Susan para lhe mostrar algumas coisas. Ao chegar a Lagos, a primeira coisa em que reparou foi no brilho de Susan, no belo rostinho de classe alta, no jeito como ela se concentrou toda nele, tocando em seu braço quando ria. Susan falava com autoridade sobre a Nigéria e os nigerianos. Quando passavam pelos mercados barulhentos, com música High Life jorrando das lojas, pelas barracas dos ambulantes montadas ao acaso, pelas sarjetas cheias de água parada, ela dizia: “Na verdade, eles têm um vigor extraordinário, mas muito pouco senso de higiene, infelizmente”. Ela lhe contou que os hauçás do Norte eram um povo digno, que os ibos eram enfezados e adoravam dinheiro, e que os iorubas eram muito alegres, ainda que fossem uns belos de uns parasitas. Nas noites de sábado, quando apontava para os grupos de pessoas vestidas com cores brilhantes, dançando em frente a toldos iluminados, dizia: “Olha só. Os iorubas se endividam até o pescoço para dar essas festas”.

Ela o ajudou a encontrar um apartamento pequeno, comprar um carro pequeno, obter a carteira de motorista, ir aos museus de Lagos e Ibadã. “Você precisa conhecer todos os meus amigos”, dizia. De início, quando Susan o apresentava como escritor, Richard tinha vontade de corrigi-la: jornalista, não escritor. Só que ele era um escritor, ao menos tinha certeza de que queria ser escritor, um artista, um criador. O jornalismo era temporário, algo que continuaria fazendo até escrever seu brilhante romance.

De modo que se deixou apresentar como escritor. Ao menos isso parecia fazer com que os amigos dela o tolerassem. O professor Nicholas Green, por exemplo, sugeriu que ele se candidatasse a uma bolsa estrangeira para fazer pesquisas em Nsukka, onde poderia escrever num ambiente universitário. E foi justamente o que Richard fez, não só pela perspectiva de escrever numa universidade como porque ficaria no Sudeste, na terra onde surgira a arte de Igbo-Ukwu, a terra do esplêndido vaso de cordas. Era por isso que tinha ido à Nigéria.

Estava em Lagos havia alguns meses quando Susan lhe perguntou se não gostaria de ir morar com ela, uma vez que a casa em Ikoyi era grande, os jardins, adoráveis, e ela achava que ele trabalharia muito melhor ali do que em seu apartamento alugado, com chão de cimento desigual e um senhorio sempre a reclamar que ele deixava as luzes acesas muito tempo. Richard não queria dizer sim. Não queria ficar muito tempo em Lagos. Queria viajar pelo país enquanto esperava a resposta de Nsukka. Porém Susan já tinha mandado pintar o arejado escritório e ele aceitou se mudar. Dia após dia, sentava na cadeira de couro de Susan, lia livros e trechos de material de pesquisa, olhava os jardineiros regando a grama e batucava na máquina, ainda que ciente de estar datilografando e não escrevendo. Susan cuidava para lhe dar o silêncio necessário, exceto quando punha a cabeça no vão da porta e cochichava: “Quer um chá?”, ou “Aceita um copo de água?”, ou “Vamos almoçar mais cedo?”. Ele respondia também num sussurro, como se o fato de escrever tivesse se tornado algo sagrado, transformando também o aposento em sacrossanto. Ele não lhe contou que não havia escrito nada que prestasse até o momento, que as idéias em sua cabeça ainda não tinham conseguido unir personagem, cenário e tema. Imaginava que ela fosse ficar magoada; o trabalho de Richard tornara-se seu melhor passatempo, e ela chegava em casa todos os dias com livros e periódicos da Biblioteca do British Council. Susan via o livro como uma entidade já em existência, que poderia, portanto, ser terminado. Richard, no entanto, não tinha certeza nem de qual seria o assunto. Mas agradecia a fé que ela depositava nele. Era como se o fato de ela acreditar tornasse o livro uma realidade, e ele mostrava a gratidão que sentia indo a festas das quais não gostava. Depois de algumas, percebeu que comparecer não era suficiente; tentaria ser engraçado. Se conseguisse dizer uma coisa cômica no momento das apresentações, talvez isso compensasse seus silêncios e, mais importante ainda, deixaria Susan satisfeita. Praticou uma frase cômica e autodepreciativa na frente do espelho do banheiro por algum tempo. Quando Susan dissesse: “Este é Richard Churchill”, ele cumprimentaria a pessoa, acrescentando, rápido: “Nenhum parentesco com Sir Winston, infelizmente, caso contrário eu seria um pouco mais inteligente”.

Os amigos de Susan riam da tirada, embora ele não soubesse direito se era por dó da tentativa desastrada de fazer graça ou porque tinham achado divertido. Mas ninguém nunca tinha dito a ele: “Que engraçado”, em tom de zombaria, como Kainene fez naquele primeiro dia, nos salões do hotel Federal Palace. Ela fumava. Sabia soltar anéis perfeitos de fumaça. Estava no mesmo círculo que ele e Susan, e, quando Richard olhou para ela, pensou que fosse a amante de um dos políticos. Ele fazia isso com as pessoas que conhecia, tentava adivinhar o motivo de estarem na festa, queria saber quem fora levado por quem. Talvez porque, se não fosse por Susan, não estaria em nenhuma daquelas recepções. Richard não sabia que Kainene era filha de um rico nigeriano — não tinha nada do recato estudado das outras. Parecia mais uma amante: o batom descaradamente vermelho, o vestido justo, o fato de fumar. Por outro lado, não sorria o sorriso plástico das amantes. Não tinha nem mesmo a beleza genérica que o levava a acreditar por alto nos boatos de que os políticos nigerianos permutavam suas amantes. Na verdade, ela não era nem um pouco bonita. Mas Richard só foi notar isso quando olhou de novo para ela, na hora em que um amigo de Susan fez as apresentações. “Esta é Kainene Ozobia, a filha do chefe Ozobia. Kainene acabou de se formar em Londres. Kainene, esta é Susan Grenville-Pitts, do British Council, e este é Richard Churchill.”

“Como está?”, disse Susan a Kainene, virando-se em seguida para falar com outro convidado.

“Olá”, disse Richard. Kainene ficou calada por um tempo excessivo, com o cigarro entre os lábios, olhando-o bem de frente, até que ele passou a mão pelo cabelo e resmungou: “Nenhum parentesco com Sir Winston, infelizmente, caso contrário eu seria mais inteligente”.

Ela exalou a fumaça, antes de dizer: “Que engraçado”. Era muito magra e muito alta, quase tão alta quanto ele, e olhava direto em seus olhos, com uma expressão rígida que não revelava nada. Tinha a pele da cor de chocolate belga. Ele abriu um pouco as pernas e pressionou os pés com firmeza no chão, porque receou que, se não fizesse isso, acabaria tombando e colidindo com ela.

Susan voltou e puxou-lhe o braço, mas ele não queria ir e, quando abriu a boca, não tinha certeza do que dizer. “Acontece que Kainene e eu temos um amigo comum, em Londres. Eu já lhe contei sobre Wilfred do Spectator?”

“Ah”, disse Susan, sorrindo. “Que ótimo. Então vou deixar vocês dois pondo a conversa em dia. Volto daqui a pouco.”

Trocou beijos com um casal de idade, antes de ir até um grupo na outra ponta da sala.

“Você acabou de mentir para a sua mulher”, disse Kainene.

“Ela não é minha mulher.” Estava espantado de ver como se sentia zonzo, ali ao lado dela. Ela levou a taça até a boca e tomou um gole. Inalou e soltou a fumaça. Cinzas prateadas rodopiaram até o chão. Tudo parecia em câmara lenta: o salão de baile do hotel aumentou, murchou, e o ar foi sugado para dentro e para fora de um espaço que parecia ser, por alguns momentos, ocupado só por ele e Kainene.

“Quer sair da frente, por favor?”, pediu ela.

Ele se assustou. “Como?”

“Tem um fotógrafo bem atrás de você que está louco para tirar uma foto minha, sobretudo do meu colar.”

Ele se afastou e ficou olhando enquanto ela encarava a máquina. Não posou, mas parecia se sentir à vontade; estava acostumada a ser fotografada em festas.

“O colar vai figurar na edição de amanhã do Lagos Life. Imagino que seja meu jeito de contribuir com nosso recém-independente país. Estou dando aos meus compatriotas algo para desejar, um incentivo para que trabalhem duro”, disse ela, voltando a ficar ao lado dele.

“E um colar muito lindo”, disse ele, embora parecesse espalhafatoso. Assim mesmo queria estender a mão e tocá-lo, erguê-lo, e, depois, deixar que se aninhasse de novo no vazio do pescoço. Os ossos de sua clavícula eram pontiagudos.

“Claro que não é lindo. Meu pai tem um gosto repugnante em matéria de jóias”, disse ela. “Mas o dinheiro é dele. Estou vendo minha irmã e meus pais me procurando, por falar nisso. Preciso ir.”

“Sua irmã também está aqui?”, perguntou Richard, rapidamente, antes que ela pudesse se virar e partir.

“Está. Somos gêmeas”, disse, e depois parou, como se essa fosse uma revelação de grande peso. “Kainene e Olanna. O nome dela é o poético Ouro de Deus, e o meu é mais prático: Vamos esperar e ver o que mais Deus vai nos trazer.”

Richard viu o sorriso repuxando um dos cantos da boca de Kainene, um sorriso sardônico que, a seu ver, ocultava alguma coisa, quem sabe insatisfação. Não sabia o que dizer. Era como se o tempo estivesse escorrendo rápido demais.

“Quem é a mais velha?”, perguntou.

“Quem é a mais velha? Que pergunta.” Ela arqueou as sobrancelhas. “Me disseram que eu saí primeiro.”

Richard aninhou a taça de vinho na mão, sem saber se iria espatifá-la caso apertasse mais um pouco.

“Lá está ela, minha irmã”, disse Kainene. “Quer que eu o apresente? Todo mundo quer conhecê-la.”

Richard não se virou para olhar. “Eu prefiro conversar com você”, disse. “Se não se importa, claro.” Passou a mão pelo cabelo. Ela o observava; sentiu-se um adolescente, com o olhar dela em cima dele.

“Você é tímido.”

“Já me chamaram de coisas piores.”

Ela sorriu, de um jeito que significava que tinha achado isso engraçado, e ele se sentiu realizado por tê-la feito sorrir.

“Já esteve no mercado de Balogun?”, perguntou ela. “Eles põem os nacos de carne em cima do balcão e você é que aperta e cutuca até escolher o que quer. Minha irmã e eu somos carne. Estamos aqui para que os solteiros adequados se aproximem.”

“Ah”, disse ele. Parecia algo estranhamente íntimo de se conversar com um desconhecido, embora tivesse sido dito no mesmo tom seco e sarcástico que parecia ser seu natural. Queria lhe contar algo sobre si mesmo, também, queria trocar pequenos grãos de intimidade com ela.

“Aí vem a mulher que você renegou”, murmurou Kainene.

Susan aproximou-se e pôs uma taça na mão dele. “Aqui, querido”, disse, antes de se virar para Kainene. “Que bom ter conhecido você.”

“Que bom ter conhecido você”, respondeu Kainene, erguendo de leve a taça para Susan.

Richard foi levado embora por Susan. “Ela é filha do chefe Ozobia, não é? E o que foi que houve com ela? Que incrível. A mãe é maravilhosa, absolutamente maravilhosa. O chefe Ozobia é dono de metade de Lagos, mas há algo de terrivelmente nouveau riche nele. Não teve uma educação formal, entende, e a mulher também não. Acho que é isso que o faz tão óbvio.” Richard em geral se divertia com as minibiografias de Susan, mas dessa vez os cochichos o irritaram. Ele não quis a taça de champanhe; as unhas dela estavam se enterrando em seu braço. Ela o levou até um grupo de expatriados e parou, conversando, rindo alto, um pouco embriagada. Ele procurou Kainene pelo salão todo. De início, não conseguiu encontrar o vestido vermelho, mas depois a viu, ao lado do pai; o chefe Ozobia parecia uma pessoa expansiva, falando com gestos arqueados, vestido num abadá bordado cujas inúmeras dobras de tecido azul o tomavam ainda mais troncudo. A sra. Ozobia tinha metade do tamanho do marido e usava os panos e o turbante feitos do mesmo tecido azul. Richard ficou momentaneamente surpreso com a perfeição do formato dos olhos amendoados, intimidado de ver a beleza daquele rosto de pele escura. Jamais teria adivinhado que ela era mãe de Kainene, como também não teria adivinhado que Kainene e Olanna eram gêmeas. Olanna puxara a mãe, embora a sua fosse uma beleza mais acessível, com uma fisionomia mais doce, uma graciosidade sorridente, e um corpo carnudo, com curvas que enchiam o vestido preto. Um corpo que Susan chamaria de africano. Kainene parecia ainda mais magra ao lado de Olanna, quase andrógina, com seu vestido comprido e reto acentuando os quadris de menino. Richard encarou-a por um bom tempo, querendo que ela o procurasse com os olhos. Ela parecia distante, observando as pessoas no grupo em que estava com uma expressão às vezes indiferente, às vezes zombeteira. Por fim, ergueu a vista, cruzou o olhar com ele, inclinou a cabeça e arqueou as sobrancelhas, como se soubesse perfeitamente que ele estivera olhando o tempo inteiro. Richard desviou os olhos. Em seguida voltou a olhar para ela, resolvido a sorrir dessa vez, a fazer algum gesto que pudesse servir para alguma coisa, mas ela já tinha virado as costas. Ele continuou olhando até ela ir embora com os pais e a irmã.

 

Richard leu o Lagos Life, no dia seguinte, e quando viu a foto buscou naquela expressão algo que não sabia o que era. Escreveu algumas páginas numa explosão de produtividade furiosa, retratos fictícios de uma mulher alta cor do ébano, com um peito quase liso. Foi até a Biblioteca do British Council e procurou o nome de seu pai nos jornais de negócio. Copiou da lista telefônica os quatro números ao lado de ozobia. Apanhou o fone inúmeras vezes, mas repunha no gancho sempre que ouvia a voz da telefonista. Praticou o que iria dizer na frente do espelho, os gestos que faria, embora soubesse que ela não poderia vê-lo ao telefone. Pensou em mandar um cartão, ou quem sabe uma cesta de frutas. Por fim, ligou. Kainene não parecia surpresa com a ligação. Ou talvez fosse uma questão de ela parecer calma demais, num momento em que o coração dele queria saltar fora do peito.

“Gostaria de sair para tomar alguma coisa?”

“Claro. Que tal o Zobis, ao meio-dia? O hotel é do meu pai e eu posso conseguir uma suíte privativa para nós.”

Ele desligou, trêmulo. Não estava muito seguro de que havia motivo para empolgação, se suíte privativa era um bom indício. Quando se encontraram no saguão do hotel, ela se aproximou para que ele pudesse beijar-lhe o rosto e, depois, foi na frente até o terraço no andar de cima, onde sentaram, olhando para as palmeiras em volta da piscina. Era um dia ensolarado e luminoso. De vez em quando, as folhas se agitavam e ele torcia para que a brisa não desmanchasse o seu cabelo, e que o guarda-sol o protegesse daquelas desagradáveis manchas cor de tomate maduro que apareciam em suas bochechas sempre que tomava sol.

“Dá para ver Heathgrove daqui”, disse ela, apontando. “A injustamente cara e enigmática escola secundária britânica que minha irmã e eu fizemos. Meu pai achava que éramos muito pequenas para sermos mandadas ao exterior, mas estava resolvido a ter duas filhas tão parecidas com as européias quanto possível.”

“É aquele prédio com a torre?”

“Isso. A escola toda só tem dois prédios, na verdade. Éramos muito poucas, ali. É uma escola tão exclusiva que a maioria dos nigerianos nem sabe que existe.” Kainene olhou para o copo por um tempo. “Você tem irmãos?”

“Não. Sou filho único. Meus pais morreram quando eu tinha nove anos.”

“Nove. Você era novo.”

Ele ficou contente de ela não ter demonstrado compaixão demais, daquele jeito falso que as pessoas usam, como se tivessem conhecido os pais mortos.

“Eles estavam sempre fora. Foi a Molly, minha babá, quem me criou, na verdade. Depois que eles morreram, ficou decidido que eu iria viver com minha tia, em Londres.” Richard calou-se, satisfeito com a estranha e rudimentar intimidade que sentia ao falar de si mesmo, algo muito raro. “Meus primos Martin e Virginia tinham mais ou menos a mesma idade que eu, mas eram tremendamente sofisticados; tia Elizabeth era muito pernóstica e eu era o primo que tinha vindo de uma minúscula aldeia em Shropshire. Comecei a pensar em fugir no dia em que cheguei lá.”

“E fugiu?”

“Muitas vezes. Eles sempre me achavam. Às vezes na mesma rua.”

“E para onde estava fugindo?”

“O quê?”

“Para onde estava fugindo?”

Richard pensou um pouco. Sabia que estava fugindo daquela casa cheia de retratos de gente morta havia muito tempo olhando para ele. Mas não sabia para onde estava fugindo. Será que as crianças pensam nisso?

“Quem sabe eu estava correndo de volta para a Molly. Não sei.”

“Eu sabia para onde eu queria fugir. Mas aquilo não existia, de modo que não fugi”, disse Kainene, recostando-se na poltrona.

“Como assim?”

Ela acendeu um cigarro, como se não tivesse ouvido a pergunta. Os silêncios de Kainene deixavam em Richard uma sensação de inadequação, e uma vontade enorme de chamar sua atenção de novo. Queria contar sobre o vaso de cordas. Não sabia ao certo onde tinha lido alguma coisa sobre a arte de Igbo-Ukwu e do morador que, ao abrir um poço, encontrara os bronzes do século IX, talvez os primeiros da África. Entretanto sabia que tinha visto as fotos pela primeira vez na revista Colonies Magazine. O vaso chamou sua atenção na hora; passou o dedo pela imagem, louco de vontade de tocar nas cordas delicadamente moldadas em volta do metal. Queria explicar como ficara comovido com ele, mas decidiu que seria melhor não. Daria tempo ao tempo. Sentiu um curioso consolo com isso e percebeu que o que ele mais queria, com ela, era tempo.

“Você veio para a Nigéria para fugir de alguma coisa?”, perguntou ela por fim.

“Não. Sempre fui uma pessoa solitária e sempre quis ver a África, por isso aceitei a licença que meu modesto jornal me deu e um empréstimo generoso de minha tia, e cá estou.”

“Eu não o imaginaria uma pessoa solitária.”

“Por quê?”

“Porque você é bonito. As pessoas bonitas raramente são solitárias.” Ela disse isso sem inflexão na voz, como se não fosse um elogio, e por isso ele torceu para que não tivesse reparado em seu rubor.

“Bom, mas eu sou”, disse ele; não conseguiu pensar em mais nada para dizer. “Sempre fui.”

“Um solitário e um explorador atual do Continente Negro”, disse ela, secamente.

Ele riu. Foi como ter cuspido o som fora, incontrolável, e ele olhou para baixo, para a clara piscina, e pensou, satisfeito, que aquele tom de azul era também a cor da esperança.

 

Encontraram-se no dia seguinte para almoçar, e no outro também. Todas as vezes, ela o levava até a suíte, sentavam-se no terraço, comiam arroz e tomavam cerveja gelada. Ela tocava a borda do copo com a ponta da língua, antes de dar um gole. Isso o excitava — ver de relance a língua rosada, ainda mais porque ela não parecia consciente do ato. Seus silêncios eram melancólicos, insulares, mas assim mesmo ele se sentia ligado a ela. Talvez porque ela fosse distante e retraída. Descobriu-se falando como nunca tinha falado antes, e quando o tempo deles acabava e ela levantava da mesa, em geral para se unir ao pai em alguma reunião, ele sentia os pés engrossarem com sangue coagulado. Ele não queria ir embora, não conseguia suportar a idéia de voltar para o escritório de Susan e ficar batendo à máquina, esperando suas batidas surdas na porta. Não entendia por que Susan não suspeitava de nada, por que não podia simplesmente olhar e ver como ele estava diferente, não entendia por que nem havia reparado que ele passava mais loção pós-barba, agora. Richard ainda não tinha sido infiel, claro, mas a fidelidade não dizia respeito só a sexo. Rir ao lado de Kainene, contar a Kainene sobre tia Elizabeth, ver Kainene fumando, claro que tudo isso era infidelidade; ou assim lhe parecia. O coração acelerar quando Kainene lhe dava um beijo de adeus era uma infidelidade. A mão dela na sua, sobre a mesa, era uma infidelidade. De modo que no dia em que Kainene não lhe deu o beijo costumeiro de adeus e, em vez disso, comprimiu sua boca na dele, de lábios abertos, ele se espantou. Não tinha se permitido esperar tanto. Talvez por isso a ereção não tenha vindo: a mistura castradora de surpresa e desejo. Eles se despiram rápido. O corpo nu de Richard pressionava Kainene, no entanto seu pênis continuava mole. Explorou os ângulos da clavícula, os lábios, querendo o tempo todo que corpo e alma funcionassem melhor juntos, querendo que seu desejo ultrapassasse a ansiedade. Mas o pênis não endureceu. Podia sentir seu peso flácido entre as pernas.

Ela sentou na cama e acendeu um cigarro.

“Desculpe”, disse, e, quando ela deu de ombros, sem dizer nada, ele se arrependeu de ter pedido desculpas. Richard percebeu qualquer coisa de deprimente naquela suíte luxuosa e atravancada de móveis, enquanto vestia a calça que podia muito bem não ter sido tirada e Kainene enganchava o sutiã. Ele queria que ela dissesse alguma coisa.

“Vamos nos ver amanhã?”, perguntou ele.

Ela soltou a fumaça pelo nariz, observou-a sumir no ar e disse: “Isto aqui não tem o menor refinamento.”

“Vamos nos ver amanhã?”, perguntou ele de novo.

“Eu vou para Port Harcourt com o meu pai para encontrar um pessoal do petróleo”, disse ela. “Mas eu volto logo depois do meio-dia, na quarta. A gente podia almoçar bem tarde.”

“Combinado, então”, disse Richard, e, até ela entrar no saguão do hotel, dias depois, ele continuava preocupado, sem saber se ela iria aparecer ou não. Almoçaram e ficaram vendo as pessoas na piscina.

Kainene estava um pouco mais animada, fumava mais, falava mais. Contou a ele sobre as pessoas que tinha conhecido desde que começara a trabalhar com o pai, todas elas iguais. “A nova classe alta nigeriana não passa de um bando de analfabetos que nunca leu nada, que come coisas das quais não gosta em restaurantes libaneses caríssimos, e cujo único tema de conversa é: ‘Como está se comportando o carro novo?’.” A certa altura, ela riu. Em outro momento, segurou na mão dele. Mas não perguntou se ele gostaria de entrar na suíte e Richard não sabia se ela queria dar um tempo ou se resolvera que esse, no fim das contas, não era o tipo de relacionamento desejado.

Richard não conseguia tomar nenhuma atitude. Passaram-se dias até que ela finalmente perguntou se ele queria entrar, e ele se sentiu como aquele ator substituto que fica torcendo para o ator principal não aparecer, mas que, quando o protagonista adoece, se dá conta de que não tem capacidade, e de que não está tão pronto quanto pensava para enfrentar as luzes da ribalta. Ela entrou na frente. Quando começou a levantar o vestido de Kainene acima da cintura, ela o empurrou com toda a calma, como se soubesse que aquele frenesi era apenas uma armadura contra o medo. Pendurou o vestido sobre a cadeira. Ele estava tão apavorado de falhar que ver o pênis ereto o deixou delirantemente agradecido, tão agradecido que foi uma questão de entrar dentro dela e sentir na hora aquele tremor involuntário impossível de parar. Ficaram ali um tempo, ele em cima dela, depois ele saiu de lado. Queria dizer a ela que isso nunca lhe acontecera. Sua vida sexual com Susan era satisfatória, ainda que superficial.

“Eu sinto tanto”, disse ele.

Ela acendeu um cigarro, observando-o. “Gostaria de vir jantar em casa esta noite? Meus pais convidaram algumas pessoas.”

Por alguns momentos, não soube o que dizer, espantado. Depois falou: “Claro, eu adoraria”. Esperava que o convite significasse alguma coisa, refletisse uma mudança de percepção em relação ao relacionamento de ambos. Mas quando chegou à casa dos pais de Kainene, em Ikoyi, ela o apresentou dizendo: “Este é Richard Churchill”, e então parou, fazendo uma pausa que parecia uma provocação deliberada para os pais e os outros convidados, para que pensassem o que quisessem. O pai o olhou de cima a baixo e perguntou o que fazia.

“Sou escritor”, disse Richard.

“Escritor? Entendo”, disse o chefe Ozobia.

Richard desejou ardentemente não ter dito que era escritor, de modo que acrescentou, como se para compensar a afirmação: “Sou fascinado pelas descobertas em Igbo-Ukwu. Os objetos de bronze”.

“Hummmm”, resmungou o chefe Ozobia. “Tem alguém da família fazendo negócios na Nigéria?”

“Não, infelizmente não.”

O chefe Ozobia sorriu e desviou os olhos. Não disse muito mais coisas para Richard durante o resto da noite. Tampouco a sra. Ozobia, que seguia o marido com modos suntuosos e uma beleza ainda mais intimidante, vista de perto. Olanna era diferente. Recebeu-o com um sorriso contido, quando Kainene os apresentou, mas, depois de conversarem um pouco, tornou-se mais calorosa, e ele ficou sem saber se aquela centelha em seus olhos era de pena ou se ela tinha consciência de ele queria dizer as coisas certas e, no entanto, não sabia quais eram as coisas certas. Sua cordialidade o deixou lisonjeado.

Teve a curiosa sensação de ter sido largado de lado quando ela se sentou na outra ponta da mesa. A salada havia acabado de ser servida no momento em que Olanna começou a discutir política com um convidado. Richard sabia que falavam sobre a necessidade de a Nigéria tornar-se uma república e parar de dizer que a rainha Elizabeth era a chefe de Estado do país, mas não prestou muita atenção até que ela se virou e perguntou: “Você não concorda, Richard?”, como se a opinião dele importasse.

Ele limpou a garganta. “Claro, sem dúvida”, disse, embora não tivesse muita certeza do que acabara de endossar. Sentiu-se agradecido por ela tê-lo puxado para a conversa, por tê-lo incluído, e ficou encantado com essa característica, que parecia ao mesmo tempo sofisticada e ingênua, um idealismo que se recusava a ser sufocado pela realidade arenosa. A pele de Olanna reluzia. Os ossos da face subiam, quando sorria. Porém a ela faltava a mística melancólica de Kainene, que o revigorava e o confundia. Kainene sentou-se a seu lado e disse pouco ao jantar, exceto por um pedido peremptório para que o criado trocasse uma taça que parecia embaçada, e pela pergunta, com o corpo semi-inclinado para ele: “Este molho é nojento, não acha?”. Ela era inescrutável, observando, bebendo, fumando. Richard ardia por saber o que ia pela cabeça de Kainene. Sentia uma dor quase idêntica quando a desejava na cama, e sonhava estar dentro dela, penetrando cada vez mais fundo, tentando descobrir algo que sabia que nunca descobriria. Era como beber um copo de água atrás do outro e continuar sedento, com o receio excitante de jamais ser capaz de matar aquela sede.

 

Richard estava preocupado com Susan. Ele a observava, o queixo firme, os olhos verdes, e dizia consigo que era injusto enganá-la, enfurnar-se no escritório até ela pegar no sono, mentir sobre estar na biblioteca, no museu ou no clube de pólo. Ela merecia coisa melhor. Mas havia uma estabilidade tranquilizadora em estar com ela, uma certa segurança em seus sussurros, em seu escritório com gravuras a lápis de Shakespeare na parede. Kainene era diferente. Ele a deixava com uma felicidade aturdida e uma sensação igualmente atordoante de insegurança. Queria lhe perguntar o que achava das coisas que nunca discutiam — do relacionamento deles, do futuro, de Susan —, porém suas incertezas o deixavam mudo todas as vezes; ele tinha medo do que ela poderia responder.

Adiou qualquer decisão até a manhã em que acordou com a lembrança daquele dia em Wentnor, quando estava fora, brincando, e ouviu Molly chamá-lo. “Richard! O jantar!” Em vez de responder “Estou indo!”, e correr para ela, escondera-se debaixo de uma touceira, ralando os joelhos. “Richard! Richard!” Dessa vez, Molly parecia aflita, mas ele continuou calado, agachado. “Richard! Dicky, onde você foi parar?” Um coelho parou para olhá-lo e, ao encarar o coelho de volta, teve consciência de que, por uns breves momentos, apenas ele e o coelho sabiam onde o menino estava. Mas o bicho resolveu dar um salto, Molly espiou embaixo da touceira e o viu. Ela bateu nele. Disse para ele ir para o quarto e ficar o resto do dia lá. Disse que estava muito amolada e que iria contar tudo ao sr. e à sra. Churchill. Porém aqueles curtos momentos tinham valido a pena, aqueles momentos de puro e pleno abandono, quando sentiu que ele, e só ele, estavam com o controle do universo de sua infância. Lembrando-se disso, resolveu terminar com Susan. Seu relacionamento com Kainene talvez não durasse muito, mas os momentos passados com ela, sem a opressão de mentiras e fingimentos, faria a brevidade valer a pena.

Sua decisão o animou. Ainda assim, adiou por uma semana, até a noite em que voltaram de uma festa onde Susan tinha bebido vinho demais.

“Você quer tomar alguma coisa mais, antes de ir dormir, querido?”, perguntou ela.

“Susan, eu gosto muito de você”, disse ele, com pressa. “Mas não estou muito certo de que esteja tudo bem — quero dizer, tudo bem entre nós.”

“Do que está falando?”, perguntou Susan, embora seu tom abafado de voz e seu rosto empalidecido mostrassem que sabia perfeitamente do que ele estava falando.

Richard passou a mão pelo cabelo.

“Quem é?”, perguntou ela.

“Não é outra mulher. É só que eu acho que nossas necessidades são diferentes.” Ele esperava não ter parecido muito insincero, mas era verdade; eles sempre quiseram coisas diferentes, sempre deram valor a coisas diferentes. Ele nunca devia ter-se mudado para a casa dela.

“Não é a Clovis Bancroft, é?” Suas orelhas estavam vermelhas. Elas sempre ficavam vermelhas, depois que bebia, mas só então Richard notou a estranheza da reação, as orelhas vermelho-irascíveis sobressaindo-se no rosto pálido.

“Não, claro que não.”

Susan pegou uma bebida e sentou-se no braço do sofá. Ficaram calados uns instantes. “Gostei de você assim que o vi, e não achava que isso fosse acontecer. Pensei, como ele é bonito, como é delicado, e devo ter decidido que não deixaria você me escapar.” Ela riu baixinho e ele reparou nas rugas minúsculas em volta de seus olhos.

“Susan...”, disse ele, e parou, porque não havia mais nada a dizer. Não sabia que ela pensava essas coisas dele. Percebeu que tinham conversado muito pouco, que o relacionamento fora um fluxo tosco, sem contribuição de nenhum dos dois, pelo menos não dele. Para ele, o relacionamento acontecera.

“Foi tudo muito depressa, para você, não foi?”, disse Susan. Ela se aproximou mais dele. Havia recobrado a compostura; seu queixo não tremia mais. “Na verdade você não teve chance de explorar um pouco. De ver mais do país, como queria; você se mudou para cá e eu o fiz ir a todas aquelas festas pavorosas cheias de gente que não está nem um pouco interessada em arte africana e esse tipo de coisa. Deve ter sido horrível para você. Eu sinto muitíssimo, Richard, e compreendo. Claro que você precisa ver um pouco do país. Tem alguma coisa em que eu possa ajudar? Tenho amigos em Enugu e Kaduna.”

Richard pegou a taça da mão dela, pôs na mesa e abraçou-a. Sentiu uma vaga nostalgia do conhecido cheiro de maçã de seu xampu. “Não se preocupe que vai dar tudo certo”, disse.

Susan não imaginava que estivesse tudo acabado de fato, isso era óbvio; achava que ele voltaria e ele não disse nada para que pensasse de forma diferente. Quando o criado, de avental branco, abriu a porta para ele sair, Richard se sentiu leve, aliviado.

“Adeus, sah”, disse o criado.

“Adeus, Okon.” Richard se perguntou se o inescrutável Okon alguma vez encostara o ouvido na porta, quando ele e Susan estavam tendo aquelas brigas de quebrar taças. Uma vez havia pedido a Okon para lhe ensinar algumas frases simples em efik, porém Susan pusera um fim nas lições no dia em que surpreendeu os dois em seu escritório, Okon muito inquieto, vendo Richard pronunciar as palavras. O criado olhara Susan com gratidão, como se ela tivesse acabado de salvá-lo de um branco maluco, e, mais tarde, o tom de Susan foi suave, quando disse a ele que compreendia que ainda não soubesse como as coisas eram feitas no país. Ninguém pode cruzar certos limites. O tom fazia lembrar o de sua tia Elizabeth, com opiniões apoiadas na decência incontrita e acomodada dos ingleses. Talvez, se tivesse lhe contado sobre Kainene, Susan usasse o mesmo tom para dizer que entendia muito bem sua necessidade de experimentar com uma negra.

Richard viu Okon acenando, enquanto se afastava. Sentiu uma necessidade incontrolável de cantar, só que não era homem de cantar. Todas as outras casas da rua Glover eram como a de Susan, espaçosas, abraçadas por palmeiras, com gramados apáticos.

 

Na tarde seguinte, Richard sentou-se na cama, nu, olhando para Kainene. Acabara de fracassar de novo. “Desculpe. Acho que eu fico excitado demais”, disse ele.

“Quer me passar um cigarro?”, pediu ela. O lençol sedoso salientava a magreza angulosa de seu corpo nu.

Ele acendeu para ela. Ela sentou na cama, os bicos escuros dos seios retesados com o frio do ar-condicionado, e virou a cabeça, ao soltar a fumaça. “Vamos dar um tempo”, disse ela. “E há outras maneiras.”

Richard sentiu uma rápida onda de irritação contra si, por aquela inutilidade molenga, e contra ela, por aquele sorriso semizombeteiro e por dizer que havia outras maneiras, como se ele fosse permanentemente incapaz de fazer as coisas do modo tradicional. Ele sabia o que podia ou não fazer. Sabia que podia satisfazê-la. Só precisava de tempo. Mas já começava a pensar em certas ervas, ervas poderosas para a masculinidade, sobre as quais se lembrava de ter lido em algum lugar, e que os homens africanos tomavam.

“Nsukka é um pequeno trecho de poeira no meio do sertão, a terra mais barata que eles puderam comprar para construir a universidade”, disse Kainene. Era espantosa a facilidade com que mergulhava numa conversa mundana. “Mas talvez seja perfeita para você escrever seu livro, não acha?”

“É.”

“Você pode gostar e resolver ficar.”

“Posso.” Richard entrou de novo debaixo do lençol. “Mas o que me agrada mesmo é que você vai estar em Port Harcourt, e eu não terei de vir até Lagos para a gente se ver.”

Kainene não disse nada, fumando com tragadas uniformes, e, por um momento aterrador, ele se perguntou se ela não estaria prestes a dizer que pretendia acabar com tudo assim que deixasse Lagos, e que, em Port Harcourt, encontraria um homem capaz de desempenhar.

“Minha casa vai ser perfeita para os nossos fins de semana”, disse ela, por fim. “É monstruosa. Meu pai me deu no ano passado, como parte do dote, acho eu, um chamariz para o tipo certo de homem querer se casar com a filha feia. Tremendamente europeu, pensando bem, já que nós não temos dotes, temos só o preço da noiva.” Ela apagou o cigarro. Ainda não tinha terminado de fumar. “Olanna disse que não queria uma casa. Não que ela precise de uma. Guarde as casas para a filha feia.”

“Não diga isso, Kainene.”

“Não diga isso, Kainene”, imitou-o Kainene, se levantando. Ele queria puxá-la de volta para a cama. Mas não se mexeu; não dava para confiar em seu corpo e não aguentaria decepcioná-la de novo. Às vezes, achava que não sabia nada sobre ela, e que nunca seria capaz de entendê-la. Entretanto, outras vezes, deitado a seu lado, tinha a sensação de estar inteiro e a certeza de que jamais sentiria falta de mais nada.

“Por falar nisso, pedi a Olanna para apresentá-lo a seu amante revolucionário”, disse Kainene. Ela arrancou a peruca e, com seu cabelo curtinho todo trançado, o rosto parecia mais jovem, menor. “Ela namorava um príncipe hauçá, um sujeito meigo e agradável, só que ele não tinha nenhuma das ilusões amalucadas dela. E esse Odenigbo se vê como o próprio freedom fighter. Ele é matemático mas passa o tempo todo escrevendo artigos para os jornais, falando sobre sua própria marca mal-costurada de socialismo africano. Olanna adora isso. Eles não parecem perceber a piada que é o socialismo, no fundo.” Ela pôs a peruca de volta e começou a escová-la; o cabelo encaracolado, repartido no meio, ia até o queixo. Richard gostava das linhas limpas de seu corpo esguio, da magreza do braço erguido.

“O socialismo até que poderia funcionar na Nigéria, se fosse feito da maneira correta, acho”, disse ele. “No fundo é tudo uma questão de justiça econômica, certo?”

Kainene bufou. “O socialismo jamais funcionaria com o povo ibo.” Ela manteve a escova suspensa no ar. “Ogbenyealu é um nome muito comum para meninas, e sabe o que quer dizer? 'Para Que Não Se Case com Homem Pobre.' Carimbar isso numa criança na hora em que nasce é capitalismo com C maiúsculo.”

Richard riu e achou ainda mais divertido porque ela não riu; simplesmente voltou a escovar o cabelo. Ele pensou na próxima vez em que daria risada com ela, e na seguinte. Pegava-se pensando com frequência no futuro, mesmo antes de o presente terminar.

Levantou-se e sentiu-se tímido quando ela olhou para seu corpo nu. Talvez a falta de expressão no rosto de Kainene servisse para esconder sua repugnância. Richard vestiu a cueca e abotoou a camisa às pressas.

“Eu deixei a Susan”, falou sem pensar. “Estou na pensão Princewill, em Ikeja. Vou pegar o resto das minhas coisas na casa dela antes de ir para Nsukka.”

Kainene o encarou e ele viu surpresa em seu rosto, depois algo mais, mas não tinha muita certeza do que era. Seria espanto?

“Na verdade, nós nunca tivemos um relacionamento de fato”, disse ele. Não queria que ela pensasse que tinha feito isso por sua causa, não queria que ela começasse a se fazer perguntas sobre o relacionamento deles. Não ainda.

“Você vai precisar de um empregado”, disse ela.

“O quê?”

“Um empregado em Nsukka. Vai precisar de alguém para lavar sua roupa e limpar a casa.”

Ele ficou momentaneamente confuso com a falta de lógica no diálogo. “Um empregado? Eu me viro muito bem sozinho. Já vivi sozinho muito tempo.”

“Vou pedir a Olanna para encontrar alguém”, disse Kainene. Puxou um cigarro da cigarreira, mas não acendeu. Pôs o cigarro na mesa-de-cabeceira e foi abraçá-lo, um aperto trêmulo dos braços. Richard ficou tão surpreso que não a abraçou de volta. Ela nunca se aproximara tanto assim dele, a menos que estivessem na cama. Só que também não parecia saber o que fazer do abraço, porque recuou rápido e acendeu o cigarro. Ele pensava nesse abraço com frequência, e, a cada vez, tinha a sensação de uma muralha desabando.

 

Richard partiu para Nsukka na semana seguinte. Dirigiu em velocidade moderada, parando na estrada de vez em quando para olhar o mapa feito à mão que Kainene lhe dera. Depois de cruzar o rio Níger, decidiu dar uma passada em Igbo-Ukwu. Agora que estava finalmente em terras ibo, antes de mais nada queria ver de onde viera o vaso de cordas. Algumas casas de cimento pontilhavam o povoado; elas estragavam o aspecto pitoresco das cabanas de barro aglomeradas na beira das trilhas de terra batida, trilhas tão estreitas que teve de parar o carro a uma boa distância e seguir um rapaz de short cáqui que parecia acostumado a mostrar o local aos visitantes. Seu nome era Emeka Anozie. Fora um dos operários que haviam trabalhado na abertura do buraco. Ele mostrou a Richard as largas valas retangulares onde as escavações aconteceram, as pás e as latas que tinham sido usadas para escovar os bronzes.

“O senhor quer falar com o nosso grande pai? Eu traduzo, se quiser”, ofereceu Emeka.

“Obrigado.” Richard sentiu-se ligeiramente desarmado com o calor com que foi recebido, com os vizinhos que o seguiam dizendo, “Boa tarde, nno, bem-vindo”, como se nem passasse pela cabeça deles pensar em se importar com o fato de ele ter aparecido sem ser convidado.

Pa Anozie tinha um pano encardido enrolado em volta do corpo e amarrado atrás do pescoço. Ele abriu caminho até a penumbra de seu obi, que cheirava a cogumelos. Embora Richard já tivesse lido como os bronzes foram achados, fez a pergunta assim mesmo. Pa Anozie enfiou uma pitada de rapé nas narinas, antes de começar a contar a história. Cerca de vinte anos antes, seu irmão estava abrindo um poço quando atingiu algo metálico que acabou sendo uma cabaça. Não demorou para encontrar mais objetos e, depois de tirá-los da terra e lavar, o irmão chamou os vizinhos para irem ver. Eram coisas muito bem-feitas e vagamente familiares, mas ninguém sabia de ninguém que fizesse algo parecido. Não demorou para que os boatos chegassem até os ouvidos do comissário distrital em Enugu, que enviou alguém encarregado de levar os achados para o Departamento de Antiguidades em Lagos. Depois disso, por uns tempos, ninguém mais fez perguntas sobre os bronzes e não apareceu ninguém. O irmão dele acabou o poço e a vida seguiu seu curso. Aí, faz alguns anos, um branco de Ibadã chegou para escavar. Houve longas conversações, antes de os trabalhos começarem, por causa de um redil de bodes e um muro de um compound que teria de ser removido, mas no fim deu tudo certo. Era época dos ventos do harmatão, mas, como receassem alguma tempestade, cobriram as valetas com lonas espalhadas sobre varas de bambu. Acharam cada coisa linda: cabaças, conchas, vários enfeites de mulher, figuras de cobras, vasilhas.

“Também acharam uma câmara mortuária, não foi?”, Richard perguntou.

“Acharam.”

“O senhor acha que foi usada pelo rei?”

Pa Anozie deu uma olhada comprida e magoada para Richard e durante alguns instantes ficou resmungando algo, com ar aflito. Emeka riu, antes de traduzir. “Papa disse que achava que você era um dos brancos que sabem pelo menos um pouco. Ele disse que o povo ibo não conhece o que é rei. Nós temos sacerdotes e anciãos. A câmara mortuária deve ter sido para algum sacerdote. Mas um sacerdote não faz o povo sofrer tanto quanto um rei. Os brancos nos impuseram os chefetes locais, e agora todos estão se dizendo reis.”

Richard pediu desculpas. Sabia que os ibos tinham fama de ser uma tribo republicana havia milhares de anos, mas um dos artigos sobre as descobertas em Igbo-Ukwu sugeria que talvez em algum momento tivessem tido reis que, mais tarde, foram depostos. Os ibos eram, afinal de contas, um povo que depunha deuses que já não serviam aos seus propósitos. Richard sentou-se ali por algum tempo, imaginando a vida de pessoas capazes de tanta beleza, de tanta complexidade, nos tempos de Alfredo, o Grande. Queria escrever sobre isso, criar algo com isso, mas não sabia o quê. Quem sabe um romance especulativo, no qual o personagem principal fosse um arqueólogo ocupado com a escavação de objetos de bronze que, de repente, se vê transportado para um passado idílico?

Agradeceu Pa Anozie e levantou-se. Pa Anozie disse alguma coisa e Emeka perguntou: “Papa está querendo saber se você não vai tirar uma foto dele. Todos os brancos que vieram tiraram uma foto dele”.

Richard sacudiu a cabeça. “Não, desculpe, eu não trouxe máquina.” Emeka riu. “Papa quer saber que tipo de branco é esse. Por que ele veio até aqui e o que está fazendo?”

Enquanto seguia para Nsukka, Richard também se perguntou o que estava fazendo e, mais preocupante, sobre o que iria escrever.

 

A residência universitária na rua Imoke estava reservada para pesquisadores e artistas estrangeiros; era esparsamente mobiliada, quase ascética, e quando Richard olhou para as duas poltronas da sala, a cama de solteiro, os armários vazios da cozinha, sentiu-se imediatamente em casa. Tudo era preenchido por um silêncio adequado. Porém, numa visita a Olanna e Odenigbo, concordou de imediato quando ela comentou: “Tenho certeza de que vai querer tornar a casa um pouco mais habitável”, muito embora gostasse da monotonia da mobília. Concordou porque o sorriso de Olanna era um prêmio, porque a atenção dela o lisonjeava. Ela insistiu para que ele contratasse o mesmo jardineiro, Jomo, para ir duas vezes por semana plantar algumas flores no quintal. Ela o apresentou aos amigos; mostrou-lhe o mercado; disse que tinha encontrado o criado ideal.

Richard imaginava alguém jovem e alerta, como o criado deles, Ugwu, mas Harrison era um homenzinho magro e curvado, de meia-idade, usando uma camisa branca grande demais para ele, que parava abaixo dos joelhos. Ele se curvava de forma extravagante antes de falar qualquer coisa. Contou a Richard, com orgulho mal disfarçado, que havia trabalhado anteriormente para o padre irlandês chamado Bernard e para o professor Land, dos Estados Unidos. “Estou fazendo uma boa salada de beterraba”, disse ele no primeiro dia, e mais tarde Richard percebeu que ele não tinha orgulho só da salada como também de seus cozidos de beterraba, comprada na barraca de “legumes especiais”, porque a maioria dos nigerianos não comia beterraba. O primeiro jantar que Harrison fez foi de peixe, com uma entrada de salada de beterraba. Um prato carmim de beterraba cozida apareceu no dia seguinte, ao lado do arroz. “É de uma receita americana para batata que eu transformei”, disse Harrison, enquanto via Richard comer. No outro dia veio mais uma salada de beterraba e, no seguinte, um prato assustadoramente vermelho de beterraba cozida acompanhando o frango.

“Chega, Harrison, por favor”, disse Richard, erguendo a mão. “Chega de beterraba.”

Harrison pareceu desapontado e, depois, seu rosto se iluminou. “Mas, sah, estou fazendo comida do seu país; toda comida que o senhor come quando criança, eu faço. Na verdade, não estou fazendo comida nigeriana, só receita estrangeira.”

“A comida nigeriana é muito boa, Harrison.” Se ao menos o criado tivesse noção do quanto ele odiara a comida de sua infância, o arenque de gosto pronunciado e cheio de espinhas, o mingau com aquela espantosa pele grossa por cima, qual um forro impermeável, a carne assada demais, com a gordura das pontas mergulhada em molho.

“Certo, sah.” Harrison parecia enfezado.

“Falando nisso, Harrison, você sabe de alguma erva para homem?”, perguntou Richard, torcendo para que a voz saísse casual.

“Sah?”

“Ervas.” Richard fez um gesto vago.

“Legumes, sah? Eu faço qualquer salada do seu país muito bem, sah. Para o professor Land, eu faço muita salada diferente diferente.”

“Sei, mas estou falando de verduras para doença.”

“Doença? Então vai no médico no Centro Médico.”

“Estou interessado em ervas africanas, Harrison.”

“Mas, sah, elas não são boas, as que o feiticeiro dá. Elas são diabólicas.”

“Claro.” Richard desistiu. Já devia saber que Harrison, com sua paixão excessiva por tudo que não fosse nigeriano, não era a pessoa certa para perguntar. Perguntaria a Jomo.

Ele esperou até Jomo chegar e, então, parou na janela, observando os lírios recém-plantados sendo regados. Jomo largou o regador e começou a apanhar os frutos de uma acácia-da-sombra; eles haviam caído durante a noite anterior e jaziam, ovais e amarelados, na grama. Richard muitas vezes sentia o cheiro extremamente adocicado das frutas apodrecendo, um cheiro que, ele sabia, permaneceria associado com Nsukka para sempre. Jomo segurava uma sacola de ráfia cheia de frutos quando Richard se aproximou.

“Bom dia, Mister Richard, sah”, disse ele, no seu modo solene. “Eu queria levar as frutas para o Harrison, para o caso do senhor querer, sah. Não peguei pra mim.” Jomo pôs a sacola no chão e apanhou o regador.

“Tudo bem, Jomo. Eu não quero fruta nenhuma”, disse Richard. “Falando nisso, será que você conhece alguma erva para homens? Para homens que estão tendo problemas com... com estar com uma mulher?”

“Conheço, sah.” Jomo continuou regando as plantas como se essa fosse uma pergunta que ouvisse todos os dias.

“Você conhece alguma erva para homens?”

“Conheço, sah.”

Richard sentiu o estômago saltar em triunfo. “Eu gostaria de ver como é, Jomo.”

“Meu irmão teve problema antes porque a primeira mulher dele não fica grávida e a segunda também não fica grávida. Aí tem uma folha que o dibia deu e ele mascou. Agora gravidou as duas.”

“Ah. Muito bom. Será que você consegue me arrumar essa erva, Jomo?” Jomo parou o que estava fazendo e olhou para ele, o rosto sensato sensatamente cheio de dó caridoso. “Isso não funciona pra branco, sah.”

“Não, não. É que eu quero escrever sobre o assunto.”

Jomo abanou a cabeça. “O senhor vai no dibia e masca a folha na frente dele. Não pra escrever, sah!” Jomo voltou a murmurar desafinado a música que cantava para regar.

“Entendo”, disse Richard, e, ao voltar para dentro, fez questão de não mostrar o desapontamento; entrou direto em casa, lembrando-se de que o patrão era ele, afinal.

Harrison estava na frente da porta, fingindo que limpava o vidro. “Tem alguma coisa que o Jomo não está fazendo direito, sah?”, perguntou, esperançoso.

“Eu estava só fazendo umas perguntas a ele.”

Harrison fez cara de decepção. Era óbvio, desde o começo, que ele e Jomo não iriam se dar bem, o cozinheiro e o jardineiro, cada qual se achando melhor que o outro. Uma vez, Richard escutou Harrison dizer a Jomo para não regar as plantas em frente à janela do escritório porque “o som da água está perturbando o Patrão”. E Harrison queria que ele ouvisse, já que falou muito alto e parado bem diante da janela do escritório. Os salamaleques de Harrison o divertiam, assim como a reverência com que tratava seu trabalho de escritor. Harrison resolveu tirar o pó da máquina de escrever todos os dias, ainda que ela nunca estivesse empoeirada, e relutava em jogar fora as páginas que via na lata de lixo. “O senhor não vai mais usar isto, sah? Tem certeza mesmo?”, costumava perguntar Harrison, segurando as páginas amassadas, e Richard então dizia que sim, que tinha certeza. As vezes se perguntava o que Harrison diria se ele contasse que não tinha nem mesmo certeza sobre o que escrevia, que fizera um rascunho com um arqueólogo, depois jogara fora, escrevera uma história de amor entre um inglês e uma africana e jogara fora, e começara a escrever sobre a vida numa pequena cidade nigeriana. A maior parte do material para essa sua última tentativa vinha das noites que passava com Odenigbo, Olanna e seus amigos. Eles o aceitaram sem grande alarde, não prestavam atenção especial a ele e, talvez por isso, ele se sentia à vontade sentado num sofá, na sala de estar, ouvindo.

Quando Olanna o apresentou a Odenigbo, dizendo: “Este é o amigo de Kainene, de quem eu já tinha falado, Richard Churchill”, Odenigbo apertara calorosamente sua mão e dissera: “Não me tornei primeiro-ministro do rei para presidir a liquidação do Império Britânico”.

Richard levou alguns instantes para entender, antes de dar risada da imitação mambembe de Sir Winston Churchill. Mais tarde, ao ver Odenigbo acenar um exemplar do Daily Times, gritando: “É agora que temos que começar a descolonizar nossa educação! Não amanhã, agora! Ensinar a eles a nossa história!”, pensou consigo, aí está um homem que confia na excentricidade de sua personalidade, um homem que não é especialmente atraente, mas que chamaria a atenção de todos numa sala cheia de homens bonitos. Richard também observava Olanna, e, a cada vez que olhava para ela, sentia-se renovado, como se ela tivesse ficado ainda mais linda nos minutos precedentes. Sentia uma emoção desagradável, porém, ao ver a mão de Odenigbo em seu ombro e, mais tarde, ao imaginá-los juntos, na cama. Ele e Olanna conversavam muito pouco, fora do papo geral, mas, um dia antes de ele partir para visitar Kainene, em Port Harcourt, Olanna disse: “Richard, por favor, mande lembranças a Kainene”.

“Claro que sim”, disse ele; era a primeira vez que ela mencionava o nome da irmã.

 

Kainene foi apanhá-lo na estação ferroviária num Peugeot 404, saiu do centro de Port Harcourt e seguiu na direção do mar e de uma casa isolada, de três andares, com varandas cobertas por uma primavera do mais pálido tom de violeta. Richard sentiu o cheiro de sal no ar, enquanto Kainene o levava de um amplo aposento a outro, todos de muito bom gosto, com móveis de tendências diversas, entalhes de madeira, quadros de calmas paisagens, esculturas arredondadas. Os assoalhos encerados recendiam a madeira.

“Eu gostaria que fosse um pouco mais perto do mar, para nós termos uma vista melhor. Mas pelo menos mudei a decoração paterna e já não está mais tão nouveau riche, eu imagino.”

Richard riu. Não só porque Kainene estava zombando de Susan — ele contara o que Susan tinha dito sobre o chefe Ozobia —, como também porque dissera nós. Nós significava os dois; ela o incluíra. Quando foi apresentá-lo aos criados, três homens em uniformes cáqui de mau caimento, disse a eles, com aquele seu sorriso seco: “Vocês vão ver Mister Richard com muita frequência”.

“Bem-vindo, sah”, disseram eles, em uníssono, parados quase de prontidão, enquanto Kainene apontava para cada um e dizia o nome: Ikejide, Nnanna e Sebastian.

“Ikejide é o único que tem um pouco de massa cinzenta dentro da cabeça”, disse Kainene.

Os três sorriram, como quem pensa coisa diferente, mas claro que não diriam nada.

“Agora, Richard, eu vou lhe mostrar o que há em volta.” Kainene fez uma mesura zombeteira e levou-o, pela porta dos fundos, até um pomar de laranjas.

“Olanna me pediu para lhe dar um olá”, disse Richard, segurando sua mão.

“Quer dizer então que o amante revolucionário dela recebeu bem você. Devemos ficar gratos. Antes, ele só aceitava professores negros em sua casa.”

“Pois é, ele me contou. Disse que Nsukka estava cheia de gente da USAID, do Peace Corps e da Universidade Estadual do Michigan, e ele queria um foro para os poucos professores nigerianos.”

“E para sua paixão nacionalista.”

“Imagino que sim. Ele é reanimadoramente diferente.”

“Reanimadoramente diferente”, repetiu Kainene. Parou para amassar alguma coisa no chão, com a sola da sandália. “Quer dizer que você gostou deles? De Olanna e Odenigbo?”

Richard queria olhar nos olhos dela para tentar discernir o que Kainene queria que dissesse. Queria dizer o que ela quisesse ouvir. “Gostei, gostei deles.” A mão dela estava frouxa na sua e Richard temeu que ela fosse escapulir. “Eles tornaram bem mais fácil a minha adaptação em Nsukka”, acrescentou, como se para justificar o fato de ter gostado do casal. “Acabei me acomodando muito mais facilmente. E, claro, eu tenho o Harrison.”

“Claro, o Harrison. E como vai o Homem das Beterrabas?”

Richard puxou-a para si, aliviado que não estivesse brava. “Vai bem. Na verdade é um bom sujeito, muito divertido.”

Estavam no pomar, no denso entrelaçado das laranjeiras, quando Richard foi dominado por uma sensação estranha. Kainene falava sobre um de seus empregados, mas ele percebeu que retrocedia, que sua mente se desdobrava e se enrolava em si mesma. As laranjeiras, a presença de tantas árvores ao redor, o zumbido das moscas no ar, a abundância de verde trouxeram de volta a lembrança da casa dos pais, em Wentnor. Era incongruente que essa umidade tropical, com um sol que deixava seus braços de um suave escarlate e as abelhas aquecidas, o fizesse pensar naquela casa caindo aos pedaços na Inglaterra, com correntes de ar mesmo no verão. Viu os choupos e os salgueiros atrás da casa, os campos onde perseguia texugos, as colinas ondeadas cobertas de urzes e samambaias que se estendiam por quilômetros e quilômetros, pontilhadas de ovelhas pastando. Colinas azuis da lembrança. Viu o pai e a mãe sentados com ele no quarto que cheirava a umidade, e o pai lendo poesia para os dois.

Em meu coração, um ar que mata

Sopra de uma terra distante:

O que são essas colinas azuis da lembrança,

Que torres, que fazendas são essas?

Essa é a terra do contentamento perdido.

Vejo com toda a clareza

As felizes estradas por onde passei

E para as quais nunca mais voltarei.*

A voz do pai sempre ficava mais grave nas palavras colinas azuis da lembrança, e depois que os pais saíam do quarto, e durante as semanas seguintes em que estariam fora, ele olhava pela janela e via as colinas distantes irem ficando azuis.

 

Richard espantou-se com a vida ocupada de Kainene. Vendo-a em Lagos, em encontros breves no hotel, não percebera que ela levava uma vida plena, e que continuaria plena mesmo que ele não fizesse parte dela. Era estranhamente perturbador pensar que não era o único a ocupar o mundo de Kainene, mas mais estranho ainda era ver que ela já tinha uma rotina, poucas semanas depois de chegar a Port Harcourt. O trabalho estava sempre em primeiro lugar; resolvera fazer as fábricas do pai crescerem, e fazer melhor do que ele tinha feito. À noite, as visitas — gente de empresas negociando contratos, gente do governo negociando suborno, gente da fábrica negociando cargos — chegavam e paravam os carros perto da entrada do pomar. Kainene sempre cuidava para que não ficassem muito tempo, e não o convidava para participar porque dizia que os encontros iriam entediá-lo, de modo que Richard ficava lá em cima, lendo ou escrevendo alguma coisa até que fossem embora. Em geral, tentava manter afastado da mente o medo que sentia de fracassar na cama com Kainene; seu corpo continuava duvidoso e ele descobrira que pensar em fracasso tornava o fracasso mais provável.

Foi na sua terceira visita a Port Harcourt que o criado bateu na porta do quarto para anunciar: “O major Madu está aí, madame”, e Kainene perguntou se Richard não queria descer com ela.

“Madu é um velho amigo e eu gostaria que você o conhecesse. Acabou de voltar de um treinamento militar no Paquistão.”

Richard sentiu o perfume do convidado já do corredor, um cheiro penetrante e másculo. O homem que usava a colônia era espantoso, de uma forma que, na hora, Richard achou primevo: um amplo rosto cor de mogno, lábios grossos, nariz largo. Quando se levantou para apertar-lhe a mão, Richard quase recuou. O homem era imenso. Richard estava acostumado a ser o mais alto na sala, aquele a quem tinham de erguer a vista para conversar, mas ali estava um homem que tinha quase oito centímetros a mais, com uma largura de ombros e uma corpulência firme que o faziam ainda mais alto, mais maciço.

“Richard, este é o major Madu Madu”, disse Kainene.

“Olá”, disse ele. “Kainene me falou a seu respeito.”

“Olá”, disse Richard. Era íntimo demais ouvir esse mamute dizer, com um sorriso levemente presunçoso, o nome de Kainene assim na sua cara, como se a conhecesse muito bem, como se soubesse algo que Richard não sabia, como se o que quer que fosse que Kainene tivesse dito a ele a respeito de Richard houvesse sido cochichado na orelha, entre risadinhas tolas geradas pela intimidade física. E, por falar nisso, que espécie de nome era Madu Madu? Richard sentou-se num sofá e recusou a bebida que Kainene lhe ofereceu. Sentia-se pálido. Gostaria que Kainene tivesse dito, Este é meu amante Richard.

“Quer dizer que você e Kainene se conheceram em Lagos?”, perguntou Madu.

“Foi”, respondeu Richard.

“Ela me falou de você pela primeira vez quando liguei para ela do Paquistão, faz um mês.”

Richard não conseguiu pensar em algo para responder. Não sabia que Kainene tinha falado com ele no Paquistão e não se lembrava de ela ter alguma vez mencionado ser amiga de um oficial do exército cujo nome e sobrenome eram o mesmo. “E há quanto tempo vocês se conhecem?”, perguntou Richard, e imediatamente receou ter dado sinais de suspeita com essa pergunta.

“O compound da minha família, em Umunnachi, é bem ao lado do compound dos Ozobia.” O major Madu virou-se para Kainene. “Não dizem que nossos antepassados são aparentados? Só que o seu povo roubou nossas terras e nós expulsamos vocês de lá, certo?”

“Foi o seu povo que roubou a terra”, disse Kainene, e riu. Richard ficou surpreso ao escutar o tom rascante da risada. Ficou ainda mais espantado com a familiaridade com que Madu se comportava, a forma como se afundava no sofá, levantava para pôr um disco, fazia pilhérias com os criados que serviam o jantar. Richard se sentiu posto de lado. Gostaria que Kainene tivesse lhe avisado que o major Madu ficaria para o jantar. Gostaria que ela tomasse gim-tônica com ele e não uísque com água, como o outro. Gostaria que o sujeito parasse de lhe fazer perguntas, como se o estivesse entretendo, como se fosse ele o anfitrião e Richard a visita. E está gostando da Nigéria? O arroz aqui não é delicioso? Como está indo seu livro? Gostou de Nsukka?

Richard não apreciou as perguntas nem as maneiras perfeitas dele, à mesa.

“Fiz treinamento em Sandhurst”, disse o major Madu, “e o que eu mais odiava, lá, era o frio. Sobretudo porque eles faziam a gente correr todo dia, pela manhã, naquele frio tremendo, só de camiseta e short.”

“Dá bem para entender por que achava tão frio”, disse Richard.

“Claro. A cada um, o que é seu. Tenho certeza de que não vai demorar para ficar com muita saudade de casa”, disse ele.

“Não creio, de jeito nenhum”, respondeu Richard.

“Bem, os britânicos acabaram de decidir que irão impor um controle sobre a emigração de países da Commonwealth, certo? Eles querem que as pessoas fiquem em seus próprios países. A ironia, claro, é que nós, da Commonwealth, não podemos controlar o movimento dos britânicos que se mudam para os nossos países.”

Ele mastigou o arroz lentamente, examinando uma garrafa de água por alguns momentos, como se fosse um vinho cujo ano da colheita desejasse muito saber.

“Logo depois que voltei da Inglaterra, fiz parte do Quarto Batalhão que foi para o Congo, sob os auspícios das Nações Unidas. Nosso batalhão não era bem administrado, mas, apesar disso, eu preferia o Congo à relativa segurança da Inglaterra. E tudo por causa do tempo.” O major Madu ficou alguns momentos em silêncio. “Nós tínhamos uma administração de péssima qualidade no Congo. Estávamos sob o comando de um coronel britânico.” Deu uma olhada em Richard e continuou mastigando.

Richard enfureceu-se; seus dedos pareciam estar rígidos e temia deixar o garfo cair no chão, o que demonstraria àquele sujeito insuportável como se sentia.

A campainha da porta tocou logo depois do jantar, enquanto estavam sentados na varanda enluarada, bebendo e escutando música High Life.

“Deve ser o Udodi, eu disse a ele para vir me encontrar aqui”, disse o major Madu.

Richard deu um tapa num mosquito irritante que zumbia perto do ouvido. A casa de Kainene parecia ter-se tornado ponto de encontro para o major Madu e seus amigos.

Udodi era um homenzinho pequeno, de aparência banal, sem nada do charme astuto ou da sutil arrogância do major Madu. Deu a impressão de estar embriagado, e quase maníaco na forma como sacudiu a mão de Richard para cima e para baixo, várias vezes. “Você é parceiro de negócios de Kainene? Trabalha com petróleo?”, perguntou.

“Eu não fiz as apresentações ainda, não é?”, disse Kainene. “Richard, o major Udodi Ekechi é um amigo de Madu. Udodi, este é Richard Churchill.”

“Ah”, disse o major Udodi, franzindo os olhos. Serviu uma dose de uísque e tomou de um só gole, antes de dizer alguma coisa em ibo que Kainene respondeu num inglês frio e nítido: “Minha escolha de amantes não é da sua conta, Udodi”.

Richard bem que teria gostado de poder abrir a boca e, com muita fluência, dizer àquele homem que se mandasse dali, mas nada falou. Sentia-se irremediavelmente fraco, com aquele tipo de fraqueza que vem com doença, com sofrimento. A música cessara e dava para ouvir o marulho distante da arrebentação.

“Desculpe! E eu não falei que era da minha conta!” O major Udodi riu e estendeu a mão para pegar a garrafa de uísque de novo.

“Vai com calma”, disse o major Madu. “Você deve ter começado cedo, no rancho.”

“A vida é curta, irmão!”, disse o major Udodi, servindo mais uma dose, antes de se virar para Kainene. “I magonu, você sabe, o que eu disse é que as mulheres nossas que seguem os homens brancos são quase sempre de família pobre e com o tipo de corpo que os brancos adoram.” Interrompeu-se e depois continuou, numa mímica zombeteira do sotaque inglês: “Traseiros estupendamente desejáveis.” Riu. “Os brancos fazem e desfazem com nossas mulheres no escuro, mas nunca vão se casar com elas. Isso nunca! Aliás, não vão com elas a nenhum lugar público considerado bom. No entanto, elas continuam se humilhando e lutando por atenção, para obter uns trocados e chás idiotas numa latinha enfeitada. É uma nova escravidão, estou lhe dizendo, uma nova escravidão. Mas você é filha de um dos bambambãs, portanto o que está fazendo com ele?”

O major Madu levantou-se. “Me desculpe tudo isso, Kainene. O major está fora de si.” Depois puxou Udodi de lado e disse algo num ibo muito rápido.

O major Udodi estava rindo de novo. “Certo, certo, mas me deixa levar o uísque. A garrafa já está quase vazia. Me deixa levar o uísque.”

Kainene não disse nada quando o major Udodi pegou a garrafa da mesa. Depois que eles saíram, Richard sentou-se ao lado dela e pegou na sua mão. Era como se tivesse desaparecido do mapa; por isso não fora incluído no pedido de desculpas. “Que horror de homem. Sinto muito pelo que ele fez.”

“Ele estava mais bêbado que um gambá. Madu deve estar se sentindo muito mal, agora”, disse Kainene. Depois fez um gesto para uma pasta sobre a mesa e acrescentou: “Eu acabei de obter um contrato para fornecer as botas militares para o batalhão de Kaduna”.

“Que bom.” Richard tomou a última gota que havia em seu copo e ficou vendo Kainene folhear a pasta.

“O sujeito encarregado é ibo, e Madu disse que gostaria de dar o contrato a um companheiro ibo. De modo que tive sorte. E ele só está pedindo uma porcentagem de cinco por cento.”

“Um suborno?”

“Ai, quanta inocência.”

A zombaria dela o irritou, assim como a rapidez com que absolvera o major Madu de toda e qualquer responsabilidade pelo comportamento rude do major Udodi. Levantou-se e começou a andar pela varanda. Os insetos zumbiam em volta da lâmpada fluorescente.

“Quer dizer então que você conhece Madu há muito tempo?”, disse por fim. Detestava ter de chamá-lo pelo primeiro nome; presumia uma cordialidade que não sentia. Mas não havia opção. De modo algum iria chamá-lo de major; usar um título seria o mesmo que elevar sua condição.

Kainene ergueu a vista. “Desde sempre. A família dele e a nossa são muito chegadas. Lembro que uma vez, há alguns anos, quando fomos a Umunnachi para passar o Natal, ele me deu uma tartaruga. O mais estranho e o melhor presente que já recebi em toda a minha vida. Olanna achou errado Madu ter pegado a pobre criatura de seu hábitat natural e essa coisa toda, mas ela nunca gostou muito de Madu, para falar a verdade. Eu pus numa vasilha e, claro, ela morreu logo depois.” E voltou a ler sua pasta.

“Ele é casado, não é?”

“É. Adaobi está fazendo faculdade em Londres.”

“É por isso que você se encontra com ele com tanta frequência?” A pergunta saiu num semigrasnido, como se precisasse tirar o pigarro da garganta.

Ela não respondeu. Talvez não tivesse escutado. Era óbvio que estava enfronhada na pasta, no novo contrato. Levantando-se, disse: “Eu vou fazer algumas anotações, não vou demorar, depois venho falar com você”.

Richard se perguntou por que não podia simplesmente indagar a Kainene se achava Madu atraente e se algum dia tivera um envolvimento com ele, ou, pior, se ainda estava envolvida com ele. Sentia medo. Aproximou-se dela, abraçou-a e segurou-a bem firme, querendo sentir os batimentos de seu coração. Era a primeira vez na vida que sentia que poderia pertencer a algum outro lugar.

1. O Livro: O Mundo Estava Calado Quando Nós Morremos

Para o prólogo, ele relata a história da mulher com a cabaça. Ela está sentada no chão

de um trem, espremida entre pessoas chorando, gritando, rezando. Viaja calada, afagando

num ritmo suave a cabaça coberta que tem no colo, até cruzarem o Níger; depois, ergue a

tampa e pede a Olanna e aos outros por perto que olhem lá dentro.

Olanna lhe conta essa história e ele repara nos detalhes. Ela lhe conta que as manchas

de sangue nos panos da mulher se confundiam com o estampado do tecido, produzindo

um tom malva enferrujado. Ela descreve os desenhos entalhados na cabaça, linhas

enviesadas se entrecruzando, e fala da cabeça de criança lá dentro: tranças desalinhadas

caindo por sobre um rosto marrom-escuro, os olhos completamente brancos,

lugubremente abertos, e a boca um pequeno Ó de espanto.

Depois que escreve isso, menciona a alemã que fugiu de Hamburgo com os corpos

incinerados dos filhos dentro das malas, a ruandense que pegou partes minúsculas dos

seus bebês mortos a pancadas. Mas toma cuidado para não estabelecer paralelos. Para a

capa do livro, porém, desenha um mapa da Nigéria e ressalta em vermelho vivo a forma

de ípsilon na junção dos rios Níger e Benue. E usa o mesmo tom de vermelho para

marcar os limites de onde, no Sudeste, Biafra existiu por três anos.

* Do poema “A Shropshire lad”, de A. E. Housman (1859-1936).