Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 18 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 17

 

 

Olanna debruçou-se na grade da varanda da casa de Odenigbo, em Abba, olhando para o quintal. Perto do portão, Baby estava de joelhos, brincando na areia, sob a vigilância de Ugwu. O vento fazia farfalhar as folhas da goiabeira. O tronco da árvore fascinava Olanna, a forma como era pálido e manchado, tons de argila clara alternando-se com tons mais fortes de ardósia, quase como a pele das crianças das aldeias que tinham a doença chamada nlacha. Muitas dessas crianças haviam passado para dizer “nno nu, bem-vindos”, no dia em que chegaram de Nsukka, assim como os pais, tios e tias, todos trazendo bons votos e ansiosos para ouvir notícias da evacuação. Olanna sentira afeto por eles; as boas-vindas a fizeram pensar que era querida. Sua afeição se estendia até mesmo à mãe de Odenigbo. Perguntava-se agora por que não tinha afastado Baby da avó, que a rejeitara ao nascer, e por que ela própria não fugira do abraço de Mama. Mas havia uma característica obsessiva, incompleta, em tudo que acontecera aquele dia — estar cozinhando junto com Ugwu, a partida tão repentina que nem sabia se tinha apagado o fogão, as multidões que enchiam as estradas, o ruído das balas —, e ela aceitou o abraço de Mama, até mesmo devolveu o abraço. Agora que tinham voltado a ser educadas uma com a outra, Mama aparecia para ver Baby, e entrava pelo portão de madeira que havia no muro de barro e que separava a casa dela da de Odenigbo. Às vezes, era Baby que atravessava o portão para ir vê-la e correr atrás das cabras que zanzavam pelo quintal. Olanna nunca tinha muita certeza da limpeza dos pedaços de peixe seco ou de carne de sol que Baby voltava mastigando, mas tentava não se incomodar, assim como tentava sufocar seu ressentimento; a afeição de Mama por Baby sempre fora meio insincera, meio forçada, e era tarde para que sentisse qualquer outra coisa que não fosse ressentimento.

Baby ria de algo que Ugvvu tinha dito; a risada pura e fina fez Olanna sorrir. Baby gostava dali; a vida era mais lenta e mais simples. Como o fogão, a torradeira, a panela de pressão e os temperos importados tinham ficado para trás, em Nsukka, as refeições também eram mais simples, e Ugwu tinha mais tempo para brincar com ela.

“Mami Ola!”, chamou Baby. “Vem ver!”

Olanna acenou. “Baby, está na hora de tomar banho.”

Viu o contorno das mangueiras no quintal pegado; algumas tinham mangas maduras que pareciam brincos pesados. O sol se punha. As galinhas cacarejavam, voando para a árvore da noz-de-cola, onde dormiam. Podia ouvir alguns moradores locais trocando cumprimentos com a mesma voz alta usada pelas mulheres do grupo de costura. Ela se juntara ao grupo duas semanas antes, no prédio da prefeitura, para costurar camisetas e toalhas para os soldados. No começo, sentia-se irritada com elas, porque quando tentava falar sobre as coisas que tinha deixado para trás, em Nsukka — seus livros, seu piano, suas roupas, suas louças, suas perucas, sua máquina de costura Singer, a televisão —, elas a ignoravam e começavam a falar sobre outra coisa. Agora, entendia que ninguém falava das coisas que tinham sido largadas para trás. Em vez disso, falavam sobre a mobilização para a vitória. Um professor doara sua bicicleta aos soldados, os sapateiros faziam botas de graça para os soldados e os agricultores davam cará a eles. Vencer a guerra. Era difícil, para Olanna, visualizar uma guerra acontecendo nesse momento, balas caindo na poeira vermelha de Nsukka, enquanto os soldados biafrenses rechaçavam os vândalos. Era quase sempre muito difícil visualizar qualquer coisa de concreto que não viesse empanado pelas lembranças de Arize, tia Ifeka e tio Mbaezi, e que não desse a impressão de vida sendo vivida num tempo suspenso.

Tirou os chinelos e andou, descalça, pelo jardim da frente, até onde Baby havia construído uma cabana de areia. “Muito bom, Baby. Quem sabe ela dure até amanhã, se as cabras não entrarem no quintal pela manhã. Agora é hora do banho.”

“Não, Mami Ola!”

“Eu acho que Ugwu vai pegar você no colo e é agora.” Olanna deu uma olhada para Ugwu.

“Não!”

Ugwu pegou Baby no colo e correu com ela na direção da casa. O chinelinho de Baby caiu no chão e eles pararam para pegá-lo, com a menina repetindo o tempo todo “Não!”, e rindo. Olanna se perguntava como Baby se sentiria com a mudança para Umuahia, na semana seguinte, uma cidade a três horas de distância dali, onde Odenigbo fora designado para o Diretório dos Efetivos. A expectativa dele era trabalhar no Diretório de Pesquisa e Produção, mas havia um número imenso de gente superqualificada para pouquíssimos empregos; até ela ficara de fora por falta de vagas em quaisquer dos diretórios. Ela daria aula no primário, esse seria seu esforço para vencer a guerra, vencer a guerra. Torcia para que o professor Achara encontrasse acomodação perto de outros professores universitários, para que Baby tivesse o tipo certo de criança com quem brincar.

Sentou-se numa daquelas cadeiras baixas de madeira com encosto meio deitado — precisava reclinar o corpo para poder descansar as costas. Eram cadeiras que ela só tinha visto nessa aldeia, feitas por carpinteiros locais, cujas placas poeirentas via nos cruzamentos de estradas de terra, quase sempre com a palavra CARPINTEIRO escrita de forma errada: capintero, capiteiro, capenteiro. Era impossível sentar numa dessas cadeiras; elas presumiam uma vida de descanso conquistado a duras penas, noites reclinadas sob o ar fresco, depois de um dia todo na roça. Talvez também presumissem uma vida de tédio.

Estava escuro e os morcegos voavam com estardalhaço quando Odenigbo voltou para casa. Passava o dia fora, participando de uma reunião depois da outra, todas sobre como Abba poderia se mobilizar para vencer a guerra, como Abba poderia desempenhar um papel importante na formação do Estado de Biafra; às vezes, ela via homens voltando dessas reuniões com falsas armas entalhadas em madeira. Viu Odenigbo atravessar a varanda, uma confiança agressiva no andar. Seu homem. Às vezes, ao olhar para ele, sentia-se tomada de uma orgulhosa sensação de propriedade.

“Kedu?”, perguntou ele, curvando-se para beijá-la na boca. Examinou cuidadosamente seu rosto, como se precisasse ter certeza de que estava tudo bem. Fazia isso desde que Olanna voltara de Kano. Dizia que a experiência tinha mudado muita coisa nela, que ela ficara muito mais para dentro. Ele usava a palavra massacre, quando falava com os amigos, mas nunca na frente dela. Era como se o que tinha acontecido em Kano, mesmo tendo sido um massacre, para Olanna fosse uma experiência.

“Estou bem”, disse ela. “Você não chegou meio cedo?”

“Terminamos mais cedo porque amanhã vai haver uma reunião geral na praça.”

“Por quê?”

“Os mais velhos decidiram que é hora. Estão circulando muitos boatos tolos de que Abba terá de evacuar em breve. Alguns energúmenos estão até dizendo que as tropas federais entraram em Awka!” Odenigbo riu e sentou-se junto a Olanna. “Você vem?”

“À reunião?” Ela não tinha sequer considerado a hipótese. “Eu não sou de Abba.”

“Mas podia ser, se casasse comigo. Devia ser, aliás.”

Ela olhou para ele. “Nós estamos muito bem, assim.”

“Estamos em guerra e minha mãe vai ter de decidir o que fazer com o meu corpo, se acontecer alguma coisa. Mas é você quem devia resolver isso.”

“Pára, nada vai acontecer com você.”

“Claro que nada vai acontecer comigo. Eu só quero que você se case comigo. Nós devíamos nos casar. Não faz mais sentido. Nunca fez sentido não sermos.”

Olanna ficou vendo uma vespa se agitar em torno da colméia esponjosa no canto da parede. Tinha feito todo o sentido, para ela, a decisão de não se casar, a necessidade de preservar o que ambos haviam envolto num xale de diferença. Porém a antiga estrutura que se encaixava a seus ideais se fora, depois que Arize, tia Ifeka e tio Mbaezi se tornaram rostos imobilizados em seu álbum de retratos. Agora que as balas tinham chegado a Nsukka. “Você vai ter que levar vinho para o meu pai.”

“Isso é um sim?”

Um morcego deu um mergulho e Olanna baixou a cabeça. “É. É um sim.”

Pela manhã, ela escutou o pregoeiro da cidade passando na frente da casa, batendo num ogene barulhento. “Haverá uma reunião de todos os moradores de Abba amanhã, às quatro da tarde, na praça Amaeze!” Gom-gom-gom. “A cidade de Abba diz que todos os homens e todas as mulheres têm que ir!” Gom-gom-gom. “Quem não comparecer vai receber uma multa!”

“Eu queria saber de quanto são essas multas”, disse ela, vendo Odenigbo se vestir. Ele deu de ombros. Tinha apenas duas camisas e as duas calças que Ugwu pusera apressadamente na sacola, e ela sorriu, pensando em como sabia o que ele iria vestir cada manhã, antes mesmo que ele começasse.

Tinham acabado de sentar para tomar o café-da-manhã quando o Land Rover dos pais de Olanna parou diante do compound.

“Mas que sorte a minha”, disse Odenigbo. “Eu vou contar a seu pai imediatamente. Podemos fazer o casamento aqui na próxima semana.” Ele sorria. Havia qualquer coisa do garoto nele, desde o momento em que ela dissera sim, na varanda, algo ingenuamente alegre que ela também gostaria de estar sentindo.

“Você sabe que não é assim que se faz”, disse ela. “Você tem que ir até Umunnachi com seus parentes e fazer tudo como se deve.”

“Claro que eu sei. Estava só brincando.”

Olanna foi até a porta, se perguntando por que os pais dela tinham aparecido. Não fazia nem uma semana que eles haviam feito uma visita e ela não estava preparada para ouvir outro monólogo irritadiço da mãe, enquanto o pai ficava parado e balançava a cabeça, concordando com tudo: Por favor, venha ficar conosco em Umunnachi; Kainene deveria deixar Port Harcourt até sabermos se essa guerra vai em frente ou não; aquele zelador ioruba que nós deixamos em Lagos vai pilhar a casa toda; eu estou lhe dizendo, nós devíamos ter dado um jeito de trazer todos os carros conosco.

O Land Rover parou debaixo da noz-de-cola e sua mãe saltou. Estava sozinha. Olanna sentiu um ligeiro alívio de não ver o pai. Era mais fácil lidar com um por vez.

“Bem-vinda, mamãe, nno”, disse Olanna, dando um abraço nela. “Tudo bem?”

A mãe encolheu os ombros, sua maneira de dizer que as coisas estavam assim-assim. Usava uma saia de panos vermelhos e uma blusa rosa, e calçava sapatos sem salto, de um preto brilhante. “Tudo bem.” A mãe olhou em volta, da mesma maneira que tinha olhado antes, furtivamente, antes de botar um envelope com dinheiro na mão de Olanna. “Cadê ele?”

“Odenigbo? Está lá dentro, comendo.”

A mãe entrou na frente na varanda e debruçou-se sobre um pilar. Abriu a bolsa e fez um gesto para Olanna olhar lá dentro. A bolsa estava cheia de brilhos e faíscas de jóias, corais, metais e pedras preciosas.

“Ah! Ah! Mãe, para que tudo isso?”

“Eu levo tudo para onde eu vou, agora. Meus brilhantes estão dentro do sutiã.” A mãe cochichava. “Nne, ninguém sabe o que está acontecendo. Ouvimos dizer que Umunnachi está prestes a cair e que os federais estão perto.”

“Os vândalos não estão perto. Nossos soldados estão expulsando todos eles de Nsukka.”

“Mas quanto tempo eles vão demorar para expulsá-los?”

Olanna não gostou do beicinho petulante no rosto da mãe, da forma como ela baixou a voz, como se assim pudesse excluir Odenigbo. Não contaria nada a ela que eles tinham decidido se casar. Não ainda.

“Seja como for”, continuou a mãe, “seu pai e eu já estamos com tudo planejado. Pagamos alguém que vai nos levar até Camarões e pôr a gente num vôo até Londres. Vamos usar nossos passaportes nigerianos; os camaronenses não vão nos criar problema. Não foi fácil, mas agora está feito. Nós pagamos por quatro lugares.” A mãe deu um tapinha no turbante, como se para se certificar de que continuava no lugar. “Seu pai foi para Port Harcourt, contar a Kainene.”

Olanna sentiu pena de ver o apelo que havia no olhar da mãe. Ela sabia que a filha não fugiria para a Inglaterra com eles, e que Kainene também não iria. Mas era muito dela fazer uma última tentativa bem-intencionada e fadada ao fracasso.

“Você sabe que eu não vou”, disse com doçura, querendo estender a mão e tocar na pele perfeita da mãe. “Mas você e o papai devem ir, se isso os deixa mais seguros. Eu vou ficar com Odenigbo e Baby. Nós estamos bem. Iremos para Umuahia em algumas semanas, para que Odenigbo comece a trabalhar num diretório.” Olanna calou-se uns instantes. Queria dizer que fariam o casamento em Umuahia, mas, em vez disso, falou: “Assim que Nsukka for recuperada, nós voltamos”.

“Mas e se Nsukka nunca mais voltar a ser recuperada? E se essa guerra não tiver mais fim?”

“Não vai ser assim.”

“Como é que eu posso deixar minhas filhas e correr para um lugar seguro?”

Porém Olanna sabia que ela podia e iria. “Nós ficaremos muito bem.”

A mãe enxugou os olhos com a palma da mão, embora não houvesse nenhuma lágrima, antes de tirar um envelope aéreo da bolsa. “É uma carta de Mohammed. Alguém levou até Umunnachi. Pelo visto ficou sabendo que Nsukka foi evacuada e achou que você estivesse em Umunnachi. Desculpe. Tive de abrir, para ter certeza de que não havia nada perigoso dentro.”

“Nada perigoso?”, repetiu Olanna. “Gini? Do que você está falando, mãe?”

“Quem é que sabe? Ele não é o inimigo, agora?”

Olanna sacudiu a cabeça. Estava contente que a mãe fosse para o exterior e que não tivesse mais que lidar com ela até a guerra acabar. Queria esperar até ela ir embora, antes de ler a carta, para que a mãe não ficasse buscando significados em suas expressões, mas não conseguiu não puxar a única folha de papel do envelope na mesma hora. A letra de Mohammed era igual a ele — aristocrática e longa, com floreios elegantes. Queria saber se ela estava bem. Deu-lhe números de telefone, para os quais poderia ligar se precisasse de ajuda. Achava a guerra sem sentido e esperava que terminasse logo. Ele a amava.

“Graças a Deus que você não se casou com ele”, disse a mãe, observando enquanto ela dobrava o papel. “Você já imaginou a situação em que estaria agora? O di egwu!”

Olanna não respondeu. A mãe foi embora pouco depois; não quis entrar para cumprimentar Odenigbo. “Você ainda pode mudar de idéia, nne, e os quatro lugares já estão pagos”, disse ela, subindo no carro, segurando bem apertado a bolsa cheia de jóias. Olanna acenou até o Land Rover atravessar os portões do compound.

 

Surpreendeu-a ver a quantidade de homens e mulheres que havia em Abba, reunidos na praça para a reunião, amontoados em volta da antiquíssima udala. Odenigbo lhe contara que, quando criança, ele e outros garotos passavam a maior parte do tempo brigando pelas frutas caídas da udala. Não podiam subir na árvore nem arrancar as frutas porque era tabu; a udala pertencia aos espíritos. Ela olhou para a árvore, enquanto os anciãos falavam com os moradores da cidade, e imaginou Odenigbo quando menino, olhando para o alto, como ela fazia agora, esperando ver os contornos enfumaçados de um espírito. Será que ele fora tão animado quanto Baby? Provavelmente, talvez ainda mais que Baby.

“Abba, kwenu!”, disse o dibia Nwafor Agbada, o homem cujos remédios, segundo diziam, eram os mais fortes por ali.

“Siiim!”, gritaram todos.

“Abba kwezuenu!”

“Siiim!”

“Abba nunca foi derrotada por ninguém. Eu repito, Abba nunca foi derrotada.” A voz dele era forte. Tinha apenas uns tufos, feito bolas de algodão, na cabeça, e seu cajado tremia toda vez que ele o martelava no chão. “Nós não saímos atrás de briga, mas quando a briga nos acha, nós esmagamos todos os que estão contra nós. Nós lutamos com Ukwulu e Ukpo e acabamos com eles. Meu pai nunca me contou de nenhuma guerra perdida, assim como o pai dele também nunca falou de nenhuma guerra perdida. Nós nunca fugiremos de nossa terra natal. Nossos ancestrais nos proíbem. Nós nunca fugiremos da nossa terra!”

A multidão aplaudiu. Assim como Olanna. Lembrava-se dos comícios pró-independência da faculdade; os movimentos de massa sempre a deixavam com a sensação de poder; por um curto período, todo mundo unido por uma só possibilidade.

Contou a Odenigbo sobre a carta de Mohammed enquanto voltavam a pé da praça, depois da reunião. “Ele deve estar tão abalado com tudo isso. Nem consigo imaginar como deve estar se sentindo.”

“Como pode dizer uma coisa dessas?”, perguntou Odenigbo.

Ela reduziu o passo e olhou para ele, espantada. “Qual o problema?”

“O problema é que você está dizendo que esse maldito muçulmano hauçá está abalado! Ele é cúmplice, um cúmplice absoluto de tudo que aconteceu ao nosso povo, portanto como é que você vem dizer que ele está abalado?”

“Você está brincando, certo?”

“Brincando? Como é que pode falar essas coisas, depois de ter visto o que eles fizeram em Kano? Já imaginou o que deve ter acontecido com Arize? Eles estupram as grávidas, antes de cortá-las ao meio!”

Olanna se encolheu. Tropeçou numa pedra no caminho. Não podia acreditar que ele tivesse trazido Arize à baila dessa forma, que tivesse barateado a memória de Arize só para mostrar que estava certo numa discussão espúria. A raiva paralisou seus órgãos. Começou a andar rápido, deixando Odenigbo para trás, e, quando chegou em casa, foi para o quarto de hóspedes e não se surpreendeu quando sentiu o Mergulho no Escuro. Lutou para não se deixar tomar, para respirar, e, por fim, deitou-se na cama, exausta. Não falou com Odenigbo no dia seguinte. Nem no outro. E, quando o primo de sua mãe, tio Osita, veio de Umunnachi para lhe dizer que estava sendo convocada para uma reunião no compound do avô, não comunicou nada a ele. Simplesmente pediu a Ugwu que aprontasse Baby e, quando Odenigbo foi para uma reunião, saiu com os dois no carro dela.

Lembrou-se do jeito como Odenigbo dissera: “Desculpe, desculpe”, com um quê de impaciência, como se tivesse direito a um perdão. Ele devia estar achando que, se ela conseguira perdoá-lo pelo que ocorrera na época do nascimento de Baby, ela poderia perdoar qualquer coisa. E Olanna se ressentia com isso. Talvez por esse motivo não tenha dito a ele que estava indo para Umunnachi. Ou talvez porque sabia o motivo de estar sendo convocada para a reunião e não quis conversar sobre isso com ele.

Rodou por estradas esburacadas de terra, ladeadas por capim alto, e pensou em como era interessante que as pessoas pudessem dizer algo como Umunnachi convocou você, como se Umunnachi fosse uma pessoa, não um povoado. Chovia. As estradas estavam enlameadas. Deu uma rápida espiada na casa de campo dos pais, ao passar diante dos três andares que surgiam em meio à chuva; eles já estariam em Camarões, a essa altura, ou talvez já tivessem chegado a Londres, ou Paris, e estivessem folheando os jornais para ver o que estava acontecendo no país. Estacionou na frente da casa do avô, perto da cerca de sapê. Os pneus derraparam um pouco no solo lamacento. Depois que Ugwu e Baby saíram do carro, ela continuou sentada um tempo, vendo as gotas de chuva escorrerem pelo vidro da frente. Seu peito estava pesado e precisava de um tempo para respirar lentamente e liberar o ar, liberar a si própria para poder responder às perguntas que os mais velhos lhe fariam na reunião. Eles seriam gentis, formais, todos reunidos na sala de estar cheirando a mofo: seus tios e tios-avôs, suas mulheres, alguns primos e, talvez, um bebê amarrado na costas de alguém.

Ela falaria com voz cristalina e olharia para baixo, para as linhas de giz branco riscadas pelo chão, algumas apagadas pelos anos, algumas só um traço reto, outras curvas elaboradas, ou apenas as iniciais. Quando criança, vira o avô apresentar o pedaço de nzu a seus convidados, e ela então seguia cada movimento dos homens, enquanto eles riscavam o chão, e das mulheres, que passavam o giz no rosto e, às vezes, davam umas mordidinhas. Uma vez, o avô saiu da sala e Olanna mascou um pedaço de giz, também; ainda se lembrava do gosto insípido de potassa.

Seu avô, Nweke Udene, teria liderado a reunião, se ainda estivesse vivo. Porém Nwafor Isaiah faria as vezes dele; era agora o membro mais velho da umunna. Ele diria: “Outros vieram e nós ficamos de olho na estrada, esperando nosso filho Mbaezi e sua mulher Ifeka e nossa filha Arize, bem como nosso genro Ogidi. Esperamos e esperamos, mas nem sinal deles. Passaram-se muitos meses e nossos olhos doem de tanto ficar olhando a estrada. Pedimos que viesse para nos dizer o que sabe. Umunnachi está perguntando sobre todos os filhos que não voltaram do Norte. Você esteve lá, filha. O que você nos disser, nós diremos a Umunnachi.”

Foi em grande parte o que aconteceu. A única coisa que Olanna não esperava era ouvir a voz alterada da irmã de tia Ifeka, Mama Dozie. Mulher muito brava, diziam que um dia batera em Papa Dozie, depois que ele largou um filho doente para ir ver a amante. Naquele dia, Mama Dozie não estava em casa, tinha saído para colher inhame no agu. A criança quase morreu. Mama Dozie, segundo diziam, ameaçara cortar fora o pênis de Papa Dozie, antes de estrangulá-lo, se a criança morresse.

“Não minta, Olanna Ozobia, i sikwana asi!”, gritou Mama Dozie. “Que a varíola te pegue, se você mentir. Quem lhe disse que foi o corpo da minha irmã que você viu? Quem lhe disse? Não minta. Que o cólera acabe com você.”

O filho Dozie levou a mãe para fora. Tinha crescido tanto, Dozie, desde a última vez que Olanna o vira, alguns anos antes. Ele segurava a mãe bem firme, e ela tentava afastá-lo, como se para ter permissão de socar Olanna, e Olanna queria que ele a soltasse. Queria que Mama Dozie batesse nela, a estapeasse, se isso a fizesse sentir-se melhor, se isso pudesse fazer com que tudo que acabara de contar aos integrantes da família toda, reunidos na sala, fosse uma mentira. Gostaria que Odinchezo e Ekene gritassem com ela também, e a questionassem por estar viva, em vez de morta como a irmã, os pais e o cunhado. Gostaria que não ficassem ali sentados, quietos, olhando para baixo, como homens de luto quase sempre fazem, e mais tarde viessem lhe dizer que estavam felizes que ela não tivesse visto o corpo de Arize; todos sabiam o que aqueles monstros faziam com as grávidas.

Odinchezo rasgou uma folha grande de ede e deu a ela, para substituir o guarda-chuva. Porém Olanna não colocou a folha em cima da cabeça, enquanto corria até o carro. Levou um bom tempo destrancando a porta e deixou a chuva escorrer por sobre o cabelo trançado, por cima dos olhos e pela face. Espantou-se com a rapidez com que a reunião chegara ao fim, com o pouco tempo que levou para confirmar que quatro parentes seus estavam mortos. Ela tinha dado aos que ficaram para trás o direito do luto, de usar preto e de receber visitas que entrariam dizendo “Ndo nu”. Ela tinha dado a eles o direito de ir em frente, depois do luto, e de considerar que Arize, o marido e os pais foram embora para sempre. O imenso peso de quatro enterros mudos era grande em sua cabeça, enterros baseados não em corpos físicos e sim em suas palavras. E ela se perguntava se porventura teria se enganado, se porventura imaginara os corpos largados no pó, tantos corpos no quintal que só de lembrá-los sentia o sal na boca. Quando finalmente abriu o carro e Ugwu e Baby correram para entrar, ela ainda ficou sentada, imóvel, por uns tempos, consciente de que Ugwu a observava com preocupação, e de que Baby estava quase dormindo.

“Quer que eu vá pegar um pouco de água para a senhora?”, perguntou ele.

Olanna balançou a cabeça. Claro que ele sabia que ela não queria água. Ele só queria que ela saísse daquele transe, girasse a chave na ignição e os levasse de volta para Abba.