Meio Sol Amarelo
Capítulo 13
Os Mergulhos no Escuro de Olanna começaram no dia em que voltou de Kano, no dia em que suas pernas fraquejaram. Elas estavam boas, quando desceu do trem, e Olanna nem precisou se segurar nos corrimões ensanguentados; estavam boas quando pegou um ônibus lotado, em que não conseguia nem coçar as costas, e viajou até Nsukka em pé durante três horas. Mas, diante da porta da frente da casa de Odenigbo, elas fraquejaram. Assim como a bexiga. Houve uma espécie de derretimento das pernas e houve também a umidade do líquido quente escorrendo por entre as coxas. Foi Baby que a descobriu. Baby tinha ido até a porta da frente, para olhar, perguntando a Ugwu quando é que Mami Ola iria voltar, e deu um berro quando a viu desmaiada no degrau. Odenigbo a levou para dentro, deu-lhe um banho e não deixou que Baby a abraçasse muito apertado. Depois que Baby dormiu, Olanna contou a Odenigbo o que vira. Descreveu as roupas vagamente conhecidas nos corpos sem cabeça jogados no quintal, os dedos ainda se mexendo na mão de Tio Mbaezi, os olhos revirados da cabeça de criança na cabaça e o tom esquisito na pele — um cinza chapado, amarelado, como um quadro-negro mal apagado — de todos os cadáveres que jaziam no quintal.
Nessa noite, teve o primeiro Mergulho no Escuro. Um grosso cobertor desceu de lá de cima e comprimiu seu rosto firmemente, enquanto ela lutava para respirar. Depois, quando se foi, liberando-a para respirar fundo muitas vezes, Olanna viu corujas em fogo na janela, sorrindo e chamando por ela com as penas chamuscadas. Tentou descrever esses Mergulhos no Escuro para Odenigbo. Tentou lhe dizer também qual era o gosto dos comprimidos que o dr. Patel lhe dera, grudentos e úmidos como sua língua, pela manhã.
Mas Odenigbo sempre dizia: “Psiu, nkem. Você vai ficar boa logo”. Ele falava com suavidade demais. A voz parecia tão tola, tão diferente do que ele era. Ele até cantava quando lhe dava banho na banheira cheia de água perfumada com a espuma de banho de Baby. Ela queria pedir-lhe para parar de ser ridículo, mas os lábios pesavam. Falar era trabalho árduo. Quando os pais e Kainene vieram visitá-la, não falou grande coisa; foi Odenigbo que contou a eles o que ela tinha visto.
No começo, a mãe de Olanna, sentada ao lado do pai, acenou a cabeça para Odenigbo, que falava naquele tom brando e bobo de voz. Depois, ela despencou; simplesmente deslizou, como se os ossos estivessem liquefeitos, até ficar meio deitada, meio sentada no chão. Era a primeira vez que Olanna via a mãe sem maquiagem, sem ouro pendurado nas orelhas, e a primeira vez que via Kainene chorar, desde que eram crianças. “Você não precisa falar sobre isso, não precisa”, dizia Kainene, soluçando, embora Olanna não tivesse nem mesmo tentado falar a respeito.
O pai andava de um lado a outro da sala. Perguntou várias vezes a Odenigbo onde, exatamente, Patel se formara em medicina, e como ele podia afirmar que a incapacidade de Olanna de andar era psicológica. Falou de como tinha ficado decepcionado de ter que dirigir o caminho todo, desde Lagos, porque o bloqueio do governo significava que a Nigeria Airways não estava mais voando para o Sudeste. “Nós queríamos vir imediatamente, imediatamente”, disse ele, tantas vezes que Olanna começou a se perguntar se ele achava, de fato, que teria feito diferença a data de chegada. Porém fez uma grande diferença eles terem ido, sobretudo que Kainene tivesse aparecido. Isso não significava que Kainene a tivesse perdoado, claro, mas algum significado tinha.
Nas semanas seguintes, Olanna ficou de cama, acenando a cabeça quando amigos e parentes vinham para lhe dizer ndo — sinto muito —, para balançar a cabeça e resmungar sobre a perversidade daqueles hauçás muçulmanos, daqueles bodes pretos do Norte, daqueles vaqueiros com os pés forrados de carrapatos. Seus Mergulhos no Escuro ficavam piores nos dias em que recebia visita; às vezes, chegava a ter três, um logo depois do outro, que a deixavam sem fôlego, exausta, exausta demais até para chorar, com energia suficiente apenas para engolir as pílulas que Odenigbo punha em sua boca. Algumas visitas tinham histórias para contar — em Zaria, os Okafor haviam perdido o filho e sua família, quatro pessoas ao todo, a filha Ibe não tinha voltado de Kaura-Namoda, a família de Onyekachi tinha perdido oito pessoas em Kano. Também falavam que os acadêmicos britânicos da Universidade de Zaria haviam incentivado os massacres e enviado estudantes para incitar os jovens, que grandes multidões nos terminais rodoviários de Lagos vaiavam e zombavam, gritando “Fora os ibos, fora os ibos, assim o garri fica mais barato! Fora os ibos! Parem de querer ser dono de toda casa e toda loja!”. Olanna não gostava de ouvir essas histórias, assim como não gostava dos olhares furtivos que davam para suas pernas, como se as visitas quisessem descobrir um tumor que explicasse o fato de ela não conseguir andar.
Certos dias, acordava de um cochilo sentindo-se bem, com as idéias em ordem, como acontecia agora. A porta do quarto estava aberta e ela podia ouvir vozes se alternando, na sala. Por algum tempo, Odenigbo havia pedido aos amigos que não aparecessem. Havia parado de jogar tênis para ficar em casa com ela, e Ugwu não precisar levá-la ao banheiro. Olanna ficou satisfeita quando os convidados voltaram a frequentar a casa. Às vezes, acompanhava as conversas. Sabia que a associação feminina da universidade organizava doações de alimentos aos refugiados, que as estações, as minas de estanho e os mercados do Norte estavam desertos depois que os ibos fugiram, que o coronel Ojukwu passara a ser considerado o líder dos ibos, e que as pessoas falavam de secessão e de um novo país, que receberia o nome da enseada de Biafra.
A srta. Adebayo falava no mesmo vozeirão de sempre. “Estou dizendo que os nossos alunos deveriam parar de fazer tanto barulho. Pedir a David Hunt que renuncie não faz o menor sentido. Vamos dar uma chance a ele e ver se retomamos a paz.”
“David Hunt acha que somos todos crianças doidas.” Esse era Okeoma. “O sujeito devia ir para casa. Por que ele vem nos dizer como apagar o fogo, quando foram ele e seus compatriotas britânicos que juntaram a lenha para acendê-lo, para começo de conversa?”
“Eles podem ter juntado a lenha, mas fomos nós que acendemos o fósforo”, disse alguém com uma voz que ela não conhecia, talvez fosse o professor Achara, o novo catedrático de física, que tinha vindo de Ibadã, depois do segundo golpe.
“Lenha ou não, o importante é encontrar uma forma de firmar a paz antes que a explosão seja geral”, disse a srta. Adebayo.
“E que tipo de paz estamos procurando obter? O próprio Gowon disse que não existe base para união, de modo que qual é o tipo de paz que queremos obter?”, perguntou Odenigbo. Olanna o imaginou na beirada da poltrona, empurrando os óculos contra o rosto, enquanto falava. “A secessão é a única resposta. Se Gowon queria manter este país unido, teria feito alguma coisa há muito tempo. Tenha a santa paciência, nenhum deles condenou publicamente os massacres, e já se passaram meses! E como se toda a nossa gente que foi assassinada não tivesse a menor importância!”
“Você não ouviu o que Zik disse outro dia? A Nigéria Oriental fervilha, fervilha, e vai continuar fervilhando enquanto o governo não se concentrar nos massacres”, disse o professor Ezeka, a voz rouca desaparecendo rápido.
A cabeça de Olanna doía. O sol brilhava fraco através das cortinas que Ugwu abrira quando levara o café-da-manhã para ela. Precisava urinar; urinava com muita frequência, ultimamente, e não conseguia se lembrar de perguntar ao dr. Patel se era por causa dos remédios que tomava. Olhou para a campainha na mesinha-de-cabeceira, depois estendeu o braço e passou a mão por cima do plástico preto em forma de domo, até achar o botão vermelho no meio que soltava um som estridente quando apertado. Odenigbo insistira em instalá-lo ele mesmo, de início, e, toda vez que ela apertava o botão, saíam faíscas da conexão na parede. Por fim, ele levou um eletricista, que deu risada enquanto refazia a ligação. A campainha não soltava mais faíscas, mas era estridente demais, e, toda vez que queria ir ao banheiro e apertava o botão, o eco reverberava pela casa toda. Não iria usar aquilo. Baixou as pernas até o chão. O ruído vindo da sala de estar diminuíra, como se alguém tivesse baixado o volume coletivo das vozes.
Depois ouviu Okeoma dizer “Aburi”. Parecia adorável, o nome daquela cidade ganense, e ela imaginou um punhado de casas espalhadas numa área de relva perfumada. Aburi era sempre citada nas conversas. Okeoma dizia que Gowon deveria seguir o acordo que tinha assinado com Ojukwu em Aburi, o professor Ezeka dizia que o fato de Gowon renegar o que fora acordado em Aburi significava que ele não queria o bem dos ibos, ou então Odenigbo reafirmava o refrão, On Aburi we stand, nós respeitamos o acordo de Aburi.
“Mas como é que Gowon vai fazer essa meia-volta?” A voz de Okeoma estava mais alta. “Em Aburi, ele concordou com uma confederação, e agora quer um só governo para toda a Nigéria; entretanto um só governo foi a razão de ele e seu povo terem matado soldados ibos.”
Olanna se levantou e pôs uma perna à frente, depois a outra. Oscilou. Havia uma pressão muito forte em volta dos tornozelos. Estava andando. A firmeza do chão sob seus pés era emocionante e as pernas pareciam ter dentro vasos que vibravam. Passou por Raggedy Ann, a boneca de pano de Baby, largada no chão, parou e ficou olhando para ela um tempo, antes de prosseguir até o banheiro.
Mais tarde, Odenigbo veio e olhou-a com aqueles seus olhos inquisitivos, como sempre fazia, como se estivesse procurando a prova de algo. “Você não toca a campainha faz um tempo, já, nkem. Não está com vontade de urinar?”
“Eles já foram embora?”
“Foram. Você não precisa urinar?”
“Eu já fui. Andando.”
Odenigbo olhou fixo para ela.
“Eu andei”, disse Olanna de novo. “Eu fui sozinha até o banheiro.”
Havia algo que ela nunca vira na expressão de Odenigbo, algo precioso e assustador. Ela sentou e ele imediatamente estendeu os braços para segurá-la, mas ela o dispensou, andou alguns passos até o armário, e de volta para a cama. Odenigbo sentou, ainda olhando para ela.
Olanna pegou sua mão, encostou-a no rosto, depois apertou-a contra o peito. “Toque em mim.”
“Eu vou chamar o Patel. Quero que ele venha e dê uma olhada em você.”
“Toque em mim.” Sabia que ele não queria, que tocara em seus seios só porque faria tudo que ela pedisse, qualquer coisa que a fizesse se sentir melhor. Olanna afagou seu pescoço, enterrou os dedos em seus cabelos densos, e, quando foi penetrada, pensou na barriga grávida de Arize, de como devia ter sido fácil romper-se, a pele estirada como estava. Começou a chorar.
“Nkem, não chore.” Odenigbo havia parado; estava deitado a seu lado, alisando sua testa. Mais tarde, quando lhe deu mais comprimidos com um pouco de água, ela tomou sem reclamar, deitou-se de novo e esperou pela estranha calmaria que os remédios traziam.
A batida suave de Ugwu a acordou; ele abriria a porta e entraria com uma bandeja de comida, que colocaria ao lado de seus remédios, da garrafa de Lucozade e da lata de glicose. Lembrou-se da primeira semana depois da volta, a semana em que Odenigbo saltava da cama toda vez que ela se mexia. Tinha pedido água e, quando Odenigbo abriu a porta do quarto para ir até a cozinha, quase tropeçou em Ugwu, enroscado numa esteira, bem na porta. “Meu bom homem, o que está fazendo aqui?”, e Ugwu respondera: “O senhor não sabe onde fica nada na cozinha, sah”.
Olanna fechou os olhos e fingiu estar dormindo. Ugwu estava bem perto, vigiando; dava para ouvir sua respiração.
“Quando estiver pronta, mah, a comida chegou.” Olanna quase deu risada; ele provavelmente sempre soube que ela fingia dormir quando chegava com a comida. Abriu os olhos. “O que você fez?”
“Arroz jollof.” Ergueu a tampa do prato. “Usei tomate fresco da horta.”
“A Baby já comeu?”
“Já, mah. Ela está brincando aí fora com os filhos do doutor Ikeke.”
Olanna apanhou o garfo na mão.
“Amanhã eu faço salada de fruta para a senhora, mah. Aquele mamoeiro do fundo está com um mamão maduro no pé. Vou dar mais um dia e depois eu colho, antes que os passarinhos descubram. Vou pôr laranja e leite também.”
“Ótimo.”
Ugwu continuou no quarto e Olanna sabia que não iria embora enquanto ela não começasse a comer. Ergueu o garfo até a boca devagar, e mastigou de olhos fechados. Devia estar tão bom quanto qualquer coisa que Ugwu cozinhava, ela tinha certeza; no entanto, fora os comprimidos esfarelentos, fazia muito tempo que não conseguia sentir o gosto de nada. Por fim, tomou um pouco de água e pediu a Ugwu para levar a bandeja embora.
Na sua mesa-de-cabeceira, Odenigbo tinha posto uma longa folha de papel com as palavras NÓS, FUNCIONÁRIOS DA UNIVERSIDADE, EXIGIMOS A SECESSÃO COMO FORMA DE SEGURANÇA datilografado no alto e uma miscelânea de assinaturas embaixo.
“Estava esperando você ficar forte o bastante para assinar, antes de entregar à assembléia em Enugu”, tinha dito ele.
Depois que Ugwu saiu, ela pegou uma caneta, assinou o abaixo-assinado e depois conferiu o texto, para ver se havia algum erro. Não havia nenhum. Mas Odenigbo não precisou entregar a carta porque a secessão foi anunciada naquela noite. Ele sentou na cama, com o rádio colocado na mesinha-de-cabeceira. A transmissão estava com um pouco de estática, como se as ondas do rádio entendessem a importância do discurso. A voz de Ojukwu era inconfundível; vibrantemente masculina, carismática, macia:
Meus conterrâneos e conterrâneas, vocês, o povo da Nigéria Oriental: Conscientes da
suprema autoridade de Deus Todo-Poderoso sobre toda a humanidade; do dever que têm
para com a posteridade; cientes de que qualquer governo sediado fora da Nigéria Oriental
não poderá mais proteger suas vidas e propriedades; decididos a dissolver todos os laços,
políticos e de outra natureza, entre vocês e a ex-República da Nigéria; e tendo me
autorizado a proclamar em seu nome a Nigéria Oriental como república soberana e
independente, eu assim faço e proclamo solenemente que o território e a região
conhecidos e chamados de Nigéria Oriental, juntamente com sua plataforma continental
e suas águas territoriais, sejam considerados daqui para a frente como um Estado
soberano independente, com nome e título de República de Biafra.
“Este é o nosso começo”, disse Odenigbo. Já abandonara aquela falsa suavidade de voz e o tom era normal de novo, vigoroso e sonoro. Tirou os óculos, agarrou as mãozinhas de Baby e começou a dançar com ela, em círculos. Olanna riu e depois sentiu que estava seguindo um roteiro, como se a animação de Odenigbo não aceitasse nada a não ser mais animação. Sentou-se e estremeceu. Ela queria que a secessão ocorresse, mas agora parecia algo grande demais para ser concebido. Odenigbo e Baby dançavam em volta, sem parar, Odenigbo cantando desafinadamente uma música composta por ele mesmo — “Este é o nosso começo, claro que é, o nosso começo, claro que é...” — enquanto Baby ria em alegre incompreensão. Olanna observou os dois, a mente paralisada no presente, na mancha de suco de caju na frente do vestido da filha.
O comício foi realizado na Praça da Liberdade, no centro do campus, professores e alunos gritando e cantando, uma interminável camada de cabeças, as faixas erguidas lá no alto.
Nós nunca, jamais nos mudaremos
Assim como uma árvore à beira da água,
Nós jamais nos mudaremos.
Ojukwu nos dá apoio, jamais nos mudaremos.
Deus nos dá apoio, jamais nos mudaremos.
Todos balançavam o corpo, cantando, e Olanna imaginou a mangueira e a gmelina oscilando também, em uníssono, num único arco fluido. O sol parecia uma chama que havia chegado perto demais, no entanto garoava e as gotinhas mornas se misturavam a seu suor. O braço roçou no de Odenigbo, quando ergueu seu cartaz: NÓS NÃO PODEMOS MORRER FEITO CÃES , dizia. Baby, sentada nos ombros de Odenigbo, acenava sua boneca de pano, o sol brilhava por entre a garoa fina, e Olanna se sentia plena de uma deliciosa exuberância. Ugwu estava a seu lado. Seu cartaz dizia DEUS ABENÇOE BIAFRA. Eles eram biafrenses. Ela era biafrense. Atrás dela, um homem falava de alguma coisa acontecida no mercado, de comerciantes dançando ao som de música soukous, distribuindo as melhores mangas e os melhores amendoins de graça. Uma mulher disse que iria para lá assim que o comício terminasse para ver se conseguia alguma coisa; Olanna virou-se para eles e riu.
Um líder estudantil falou alguma coisa ao microfone e a cantoria parou. Alguns rapazes carregavam um caixão onde estava escrito NIGÉRIA em giz branco; ergueram o caixão com uma solenidade zombeteira e começaram a cavar um buraco raso no chão. Quando baixaram o caixão no buraco, a multidão soltou um brado que se esparramou, como ondas num lago, até que tudo virou uma só explosão, até Olanna sentir que todos ali tinham se tornado uma única pessoa. Alguém gritou “Odenigbo!”. E o nome dele se espalhou entre os estudantes. “Odenigbo! Fale conosco!”
Odenigbo subiu ao pódio agitando sua bandeira de Biafra: faixas vermelhas, negras e verdes e, no centro, um meio sol amarelo brilhante.
“Biafra nasceu! Nós vamos liderar a África Negra! Viveremos em segurança! Nunca mais alguém vai nos atacar! Nunca mais!”
Odenigbo ergueu o braço enquanto falava, e Olanna se lembrou de como o braço de tia Ifeka, largada morta no chão, parecia desajeitadamente retorcido, de como o sangue tinha empoçado, tão denso que parecia cola, não um sangue vermelho e sim quase preto. Talvez tia Ifeka pudesse ver esse comício, e todas as pessoas reunidas ali, ou talvez não, se a morte fosse uma opacidade silenciosa. Olanna balançou a cabeça, para afastar esses pensamentos, pegou Baby do pescoço de Ugwu e abraçou-a bem apertado.
Depois do comício, ela e Odenigbo foram para o clube. Os estudantes haviam se reunido num campo de hóquei, ali perto, queimando efígies de papel de Gowon numa fogueira brilhante; a fumaça se enroscava no ar noturno e se misturava com as risadas e conversas. Olanna viu tudo aquilo e percebeu, com uma onda de doçura, que todos sentiam o que ela e Odenigbo sentiam, como se nas veias de todos corresse aço líquido, e não sangue, como se todos pudessem parar descalços sobre brasas incandescentes.