Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 22 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 21

 

 

Richard sentiu-se quase aliviado ao saber da morte de Sir Winston Churchill. Isso lhe dava a oportunidade de evitar Port Harcourt no fim de semana. Ainda não estava preparado para enfrentar Kainene.

“Você vai ter que aposentar aquela sua horrenda piada sobre Churchill, agora, não vai?”, disse Kainene ao telefone, quando ele falou que teria de viajar para Lagos, para as cerimônias na Embaixada Britânica. Ele riu e depois pensou como seria se por acaso ela descobrisse, o largasse e ele nunca mais ouvisse aquela voz sardônica ao telefone.

Fazia poucos dias, mas até mesmo a lembrança do apartamento de Olanna era nebulosa: ele dormira no chão da sala de estar de Olanna, e acordara com uma dor de cabeça seca e a sensação intensamente constrangedora da própria nudez. Ela estava sentada no sofá, vestida e calada. Richard sentia-se sem graça, não sabia se deveriam conversar sobre o ocorrido. Por fim, acabou saindo sem dizer uma palavra, porque não queria que aquilo que ele imaginava ser remorso se transformasse em aversão. Ele não fora o escolhido; poderia ter sido qualquer outro homem. Pressentira na hora em que abraçara o corpo nu de Olanna, porém isso não prejudicou o prazer que encontrou nas curvas, nos movimentos sincronizados, no fato de ela ter tomado e dado na mesma proporção. Nunca tinha estado tão firme, nunca tinha durado tanto quanto com ela.

Agora, porém, estava desolado. A admiração que sentia por Olanna se tinha nutrido de sua indisponibilidade, era uma adoração à distância, mas agora que experimentara o vinho em sua língua, e comprimira seu corpo a ponto de também ele ficar cheirando a coco, havia uma estranha perda. Perdera a fantasia. Mas o que mais tinha medo de perder era Kainene. Estava decidido a nunca contar nada a ela.

 

Susan sentou-se a seu lado, nas cerimônias fúnebres, e quando partes de um discurso feito por Sir Winston Churchill foram reproduzidas, ela juntou as mãos enluvadas bem apertadas e encostou-se nele. Richard sentiu lágrimas nos olhos. Talvez esta fosse a única coisa que tinham em comum, a admiração por Churchill. Depois, ela o convidou a ir tomar alguma coisa com ela no Polo Club. Ela o levara uma única vez e dissera, sentada diante do enorme gramado verde: “Os africanos começaram a frequentar isto aqui faz poucos anos, mas você não iria acreditar na quantidade deles, agora, e eles não demonstram o menor apreço, na verdade”.

Estavam sentados no mesmo lugar de novo, perto da cerca caiada, ao lado de um garçom nigeriano vestido num terno preto muito justo. O clube estava quase vazio, embora houvesse um jogo de pólo na outra ponta. Os ruídos de oito homens berrando, xingando e galopando a toda velocidade atrás de uma bola enchiam o ar. Susan falava baixinho, repleta daquela mágoa imprecisa de quem chora por um morto que nunca conheceu. Susan falou que era interessante o fato de a última pessoa agraciada com um enterro de Estado, fora da família real, ter sido o duque de Wellington, como se isso fosse novidade para ele, comentou que era muito triste que muitos ainda não soubessem o quanto Churchill fizera pela Grã-Bretanha, e que fora horrível que alguém, durante a cerimônia, tivesse sugerido que a mãe de Churchill tinha sangue de pele-vermelha. Susan parecia um pouco mais bronzeada do que ele se lembrava; nunca mais a vira, desde que fora para Nsukka. Pareceu mais animada, depois de algumas doses de gim, e falou sobre um filme maravilhoso sobre a família real que fora mostrado no British Council.

“Você não está prestando muita atenção, está?”, perguntou ela, depois de um tempo. Suas orelhas estavam vermelhas.

“Claro que estou.”

“Fiquei sabendo sobre a sua namorada, a filha do chefe Ozobia”, disse Susan, pronunciando namorada numa caricatura do que achava ser o sotaque de gente comum.

“O nome dela é Kainene.”

“Você usa sempre preservativo, não usa? É preciso tomar o maior cuidado, até mesmo com os mais instruídos deles.”

Richard olhou para a interminável calma do gramado. Jamais seria feliz com ela — a vida seria revestida de gaze, todos os seus dias se fundindo num longo pano transparente de nada.

“Eu tive um caso com John Blake”, disse ela.

“Teve?”

Susan riu. Estava brincando com o copo, correndo o vidro pela mesa, espalhando a água que tinha se formado nele. “Você parece surpreso.”

“Não estou, não”, disse ele, embora estivesse. Não porque ela tivesse tido um caso e sim porque fora com John, que era casado com uma de suas melhores amigas, Caroline. Mas essa era a vida dos expatriados. No que lhe dizia respeito, eles viviam o tempo todo fazendo sexo com as mulheres e os maridos uns dos outros, cópulas ilícitas que eram mais uma forma de passar o tempo naquele calor esbranquiçado dos trópicos do que expressões genuínas de paixão.

“Não significou nada, absolutamente nada”, disse Susan. “Mas quero que fique sabendo que vou continuar ocupada, enquanto espero você terminar seu caso com a escurinha.”

Richard queria dizer alguma coisa para ela sobre deslealdade com os amigos, mas percebeu como pareceria hipócrita, ao menos para si mesmo.

5. O Livro: O Mundo Estava Calado Quando Nós Morremos

Ele escreve sobre fome. A fome foi a arma de guerra da Nigéria. A fome quebrou Biafra,

trouxe fama a Biafra e fez Biafra durar o tempo que durou. A fome fez os povos do mundo

repararem e provocou protestos e manifestações em Londres, Moscou e na Tchecoslováquia.

A fome fez a Zâmbia, a Tanzânia, a Costa do Marfim e o Gabão reconhecerem Biafra, a

fome levou a África até a campanha presidencial de Nixon, e fez os pais do mundo todo

dizerem aos filhos para raspar o prato. A fome levou organizações de ajuda a fazer

transportes clandestinos de comida durante a noite, uma vez que nenhum dos lados

conseguia chegar a um acordo quanto às rotas. A fome ajudou a carreira dos fotógrafos. E a

fome fez a Cruz Vermelha Internacional chamar Biafra de sua maior emergência, desde a

Segunda Guerra Mundial.