Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 26 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 25

 

Olanna tinha sobressaltos toda vez que ouvia um trovão. Imaginava outro reide aéreo, bombas caindo dos aviões e explodindo em volta da casa, antes que ela, Odenigbo, Baby e Ugwu pudessem chegar ao bunker no fim da rua. Às vezes, via o próprio bunker desmoronar e esmagar todos eles na lama. Odenigbo e alguns outros homens da vizinhança tinham construído o abrigo antiaéreo numa semana; depois de escavar o buraco, tão grande quanto um salão, e de ter posto o telhado com troncos de palmeira besuntados de argila, ele tinha dito: “Agora estamos a salvo, nkem. Estamos a salvo”. Mas na primeira vez em que foi mostrar a ela como descer os degraus irregulares, Olanna viu uma cobra enroscada num canto. Sua pele negra rebrilhava em pontos prateados e grilos minúsculos saltavam de lá para cá; no silêncio do subterrâneo úmido que lembrava uma tumba, Olanna gritou.

Odenigbo deu uma paulada na cobra e disse a ela que iria verificar a cobertura de zinco, na entrada do bunker, para que ficasse sempre bem fechada. A calma dele a espantava. O tom tranquilo que usava para enfrentar a nova realidade a deixava estupefata. Quando os nigerianos mudaram a moeda e a Rádio Biafra apressadamente anunciou também uma nova moeda, Olanna ficou na fila do banco durante horas, driblando a violência dos homens e os empurrões das mulheres, até conseguir trocar o dinheiro deles pelas libras de Biafra, tão mais bonitas que o dinheiro nigeriano. No dia seguinte, durante o café-da-manhã, ela ergueu o envelope de tamanho médio com as notas e disse: “É todo o dinheiro que temos”.

Odenigbo parecia estar achando graça. “Nós dois estamos ganhando, nkem.”

“Este é o segundo mês que eles adiam seu pagamento”, disse ela, pondo o saquinho de chá que estava no pires dele em sua xícara. “E você não pode chamar o que eles me pagam em Akwakuma de salário.”

“Logo, logo recuperamos a nossa antiga vida em uma Biafra livre”, disse ele, com suas palavras de hábito, ditas com a tranquilidade vigorosa de hábito, tomando seu chá.

Olanna pôs a xícara contra o rosto, para esquentar e adiar o primeiro gole de um chá fraco, feito com um saquinho usado. Quando ele se levantou e lhe deu um beijo de até-logo, ela se perguntou por que motivo Odenigbo não se assustava com o pouco que tinham. Talvez porque não fosse ao mercado, ele mesmo. Não reparava que uma xícara de sal custava um xelim a mais, toda semana, que as galinhas eram partidas em pedacinhos cada vez menores e que, ainda assim, eram caros demais, e que ninguém mais vendia arroz em sacos grandes, porque não havia quem pudesse comprá-los. À noite, ficou calada, enquanto os movimentos dele aumentavam de intensidade. Era a primeira vez que se sentia distante; enquanto ele murmurava coisas em seu ouvido, ela se lamentava pelo dinheiro que ficara no banco de Lagos.

“Nkem? Tudo bem com você?”, perguntou ele, erguendo o corpo para olhá-la.

“Tudo.”

Ele sugou seu lábio inferior, antes de rolar de cima dela e cair no sono. Olanna nunca notara como o ronco dele era áspero. Estava cansado. A longa caminhada até o Diretório dos Efetivos e a absoluta estupidez de ficar compilando nomes e endereços dia após dia o deixavam exausto, ela sabia, no entanto Odenigbo voltava para casa todos os dias com os olhos brilhantes. Afiliara-se ao Corpo de Ativistas; após o trabalho, iam até os povoados vizinhos ensinar as pessoas. Olanna sempre o imaginava em pé, no meio de um bando de gente fascinada, falando naquela sua voz sonora sobre a grande nação que Biafra seria. Seus olhos viam o futuro. E por isso ela nunca lhe disse que lamentava não ter o que tinha antes, coisas diferentes em dias diferentes, toalhas de mesa com bordados prateados, o carro, biscoitos com recheio de morango para Baby. Não contou a ele que, às vezes, quando via Baby correndo com as crianças da redondeza, tão indefesa e feliz, tinha vontade de pegá-la no colo e pedir desculpas. Não que Baby fosse entender.

Desde o dia em que a professora Muokelu, que dava aula no Grupo Escolar de Akwakuma, lhe contou sobre crianças que os soldados forçavam a entrar num caminhão e que voltavam à noite com as palmas das mãos raladas e sangrando, de tanto moer mandioca, Olanna pedira a Ugwu para nunca perder Baby de vista. Não que acreditasse, de fato, que os soldados achariam alguma serventia numa criança assim tão nova. Mas os reides aéreos a preocupavam. Olanna tinha um sonho recorrente. Esquecia-se de Baby e corria para o bunker. No fim do bombardeio, saía e tropeçava num corpo calcinado de criança, com as feições tão enegrecidas que não podia garantir se era Baby ou não. Esse sonho a perseguia. Fez Baby correr até o bunker. Pediu a Ugwu para correr com Baby no colo até o bunker. Ensinou Baby a se abrigar, caso não houvesse tempo de chegar ao bunker — a deitar bem retinha com a barriga no chão, as mãos sobre a cabeça.

Ainda assim, achava que não tinha feito o suficiente, e que o sonho pressagiava alguma negligência que acabaria sendo danosa para Baby. Quando, no fim da estação de chuvas, Baby teve uma tosse que assobiava no peito, Olanna sentiu alívio. Alguma coisa tinha acontecido com ela. Se os céus fossem justos, as desgraças seriam mutuamente excludentes; já que Baby estava doente, não poderia ser ferida num reide aéreo. Uma tosse era algo que Olanna podia controlar; um reide aéreo, não.

Levou a menina até o hospital Albatross. Ugwu tirou as folhas de palmeira empilhadas sobre o carro de Odenigbo, mas cada vez que ela girava a chave, o motor zunia e morria. Por fim, Ugwu empurrou até ele pegar. Ela dirigia devagar e pisava no breque toda vez que Baby começava a tossir. Na barreira, onde havia um enorme tronco atravessado na estrada, ela disse aos defensores civis que sua filha estava muito doente, eles disseram sinto muito e não revistaram nem o carro nem a bolsa. O corredor sombrio do hospital cheirava a urina e penicilina. Havia mulheres sentadas com filhos no colo, de pé com os filhos nos quadris, e a conversa delas se misturava com choro. Olanna lembrou-se do doutor Nwala, que fora ao seu casamento. Mal reparara nele até haver o bombardeio e ele dizer: “A lama vai manchar seu vestido”. Ele tinha ajudado Olanna a se levantar, ainda envolta na camisa de Okeoma.

Disse às enfermeiras que era uma velha colega dele.

“É urgentíssimo”, disse, mantendo o sotaque britânico bem nítido e a cabeça erguida. Uma enfermeira a levou até o consultório na hora. Uma das mulheres sentadas no corredor xingou. “Tufiakwa! A gente tem que ficar aqui esperando desde a madrugada! Será por que não falamos pelo nariz, feito os brancos?”

O dr. Nwala levantou o corpo esguio da cadeira e veio apertar a mão dela. “Olanna”, disse ele, olhando para seus olhos.

“Como vai o senhor, doutor?”

“Vamos levando”, disse ele, dando um tapinha no ombro de Baby. “Como está você?”

“Muito bem. Okeoma veio nos visitar na semana passada.”

“Pois é, ele ficou um dia comigo.” Estava com os olhos postos nela, mas, para Olanna, era como se não estivesse escutando, como se na verdade não estivesse ali. Parecia perdido.

“Baby está com uma tosse já faz alguns dias”, disse Olanna em voz bem alta.

“Ah.” Ele se virou para Baby. Pôs o estetoscópio no peito dela e murmurou ndo quando ela tossiu. Quando foi até o armário para conferir alguns frascos e caixas de remédio, Olanna sentiu pena dele, sem saber ao certo por quê. O médico passou tempo demais olhando tão poucas coisas.

“Vou lhe dar um xarope para tosse, mas ela precisa de antibióticos, e infelizmente não temos mais nada aqui”, disse ele, fitando-a de novo com aquele jeito estranho de olhar do qual era impossível escapar. Sua expressão era de fadiga e melancolia. Olanna se perguntou se ele teria perdido algum ente querido recentemente.

“Vou lhe dar uma receita e você pode tentar conseguir com essa gente que negocia essas coisas, mas tem de ser alguém confiável, claro.”

“Claro”, repetiu Olanna. “Eu tenho uma amiga, a professora Muokelu, que pode ajudar.”

“Muito bem.”

“O senhor deveria vir nos visitar, quando tiver um tempinho”, disse Olanna, levantando-se.

“Vou sim.” Ele pegou a mão dela e segurou-a um pouco mais do que deveria.

“Obrigada, doutor.”

“Pelo quê? Eu não posso fazer muita coisa.” Fez um gesto na direção da porta e Olanna sabia que estava se referindo às mulheres esperando do lado de fora. Ao sair, deu uma olhada no armáno quase vazio de remédios.

 

Pela manhã, Olanna atravessou correndo a praça da cidade, a caminho do Grupo Escolar de Akwakuma. Sempre fazia isso, em lugares abertos, correr até alcançar a sombra densa das árvores, que lhe dariam boa cobertura em caso de um ataque aéreo. Havia algumas crianças debaixo da mangueira, no compound da escola, atirando pedras nas frutas. Ela gritou: “Já para a classe, osiso!”, e eles se espalharam por alguns instantes, antes de voltar a se concentrar nas mangas. Escutou a gritaria, quando uma das frutas caiu, e, depois, vozes alteradas, brigando para saber quem tinha atirado a pedra que derrubara a manga.

A professora Muokelu estava na sua classe, mexendo no sino. Os pêlos grossos e pretos nos braços e pernas, a penugem sobre o lábio e os fiapos enroscados no queixo muitas vezes faziam Olanna pensar que ela talvez fosse mais feliz se tivesse nascido homem.

“Sabe onde posso comprar antibióticos, minha irmã?”, perguntou, depois que se abraçaram. “Baby está com tosse e eles não tinham nada no hospital.”

A professora Muokelu cantarolou por um tempo, para mostrar que estava pensando. O rosto de Sua Excelência refulgia na estampa do bubu que usava todos os dias; era muito frequente ela dizer que não usaria mais nada até o Estado de Biafra ter se estabelecido totalmente.

“Qualquer um pode vender remédio, mas quem é que sabe quem mistura giz no quintal e chama de Nivaquina?”, disse ela. “Me dá o dinheiro que eu vou falar com Mama Onitsha. Ela é de confiança. E lhe vende até a cueca suja de Gowon se você pagar o preço certo.”

“Vamos deixar que ela fique com a cueca e nos dê só o remédio.” Olanna estava rindo.

A professora Muokelu sorriu e apanhou o sino. “Eu tive uma visão ontem”, disse ela. O bubu era longo demais para corpo tão curto; arrastava no chão e Olanna tinha medo que ela acabasse tropeçando e caindo.

“Que visão foi essa?”, perguntou Olanna. A professora Muokelu sempre tinha visões. Da última vez, vira Ojukwu em pessoa comandando a batalha no setor de Ogoja, o que significava que o inimigo tinha sido completamente varrido da área.

“Guerreiros tradicionais de Abiriba usaram arcos e flechas e acabaram com os vândalos no setor de Calabar. I makwa, as crianças estavam andando por cima dos ossos para ir até o rio.”

“É mesmo?”, disse Olanna, mantendo o rosto sério.

“O que quer dizer que a cidade de Calabar nunca vai se entregar”, disse a professora Muokelu, começando a tocar o sino. Olanna viu os movimentos rápidos do braço masculino. No fundo, não tinham nada em comum, ela e essa mulher nascida em Eziowelle, uma professora primária pouco instruída que acreditava em visões. Entretanto, a professora sempre lhe parecera conhecida. Não porque trançasse o cabelo e fosse com ela às reuniões dos Serviços Voluntários Femininos, e tampouco por lhe ensinar a melhor maneira de preservar legumes, e sim porque transpirava destemor, um destemor que a fazia se lembrar de Kainene.

Aquela noite, quando Muokelu apareceu com os comprimidos de antibiótico embrulhados em jornal, Olanna perguntou-lhe se não queria entrar e mostrou a ela uma foto de Kainene sentada ao lado da piscina, com um cigarro na boca.

“Esta é minha irmã gêmea. Ela mora em Port Harcourt.”

“Irmã gêmea!”, exclamou ela, mexendo com a metade de um sol amarelo de plástico que usava pendurado no pescoço, preso num cordão. “As maravilhas não terminam nunca. Eu não sabia que você tinha uma irmã gêmea, e, nekene, ela não parece nem um pouco com você.”

“Nós temos a mesma boca”, disse Olanna.

A professora Muokelu deu mais uma olhada na foto e balançou a cabeça. “Ela não se parece nem um pouco com você”, repetiu.

* * *

O antibiótico amarelou os olhos de Baby. A tosse melhorou, já não assobiava tanto e não vinha lá do fundo do peito, mas o apetite dela sumiu. Ela empurrava o garri no prato e deixava a papinha intocada, até congelar numa maçaroca que parecia cera. Olanna gastou quase todo o dinheiro do envelope comprando biscoitos e balas de caramelo de uma mulher que negociava por trás das linhas inimigas, porém Baby apenas mordiscava. Punha a menina no colo e forçava pedacinhos de cará amassado em sua boca, e, quando Baby engasgava e começava a chorar, Olanna também tinha que lutar para conter as lágrimas. Seu maior medo é que Baby morresse. E ele estava lá, aquele medo supurado, sublinhando tudo que pensava e fazia. Odenigbo largou as atividades do Corpo de Ativistas e voltava correndo para casa; Olanna sabia que ele tinha o mesmo medo que ela. Mas não falaram a respeito; temiam que, se verbalizassem seus receios, tornariam a morte de Baby iminente, até o dia que em que Olanna sentou, olhando Baby dormir, enquanto Odenigbo se vestia para ir trabalhar. A voz sonora de alguém na Rádio Biafra enchia o quarto.

Esses Estados africanos se tornaram presas do complô anglo-americano, que usa as

recomendações da comissão como pretexto para apoiar maciçamente os fantoches vacilantes

do regime neocolonialista da Nigéria.

“Isso mesmo!”, disse Odenigbo, abotoando a camisa com movimentos rápidos.

Na cama, Baby se mexeu. O rosto tinha perdido as gordurinhas e estava estranhamente adulto, afundado, com a pele fina. Olanna olhou para ela.

“Baby não vai conseguir”, disse baixinho.

Odenigbo parou e olhou para ela. Desligou o rádio, aproximou-se e segurou sua cabeça contra a barriga. Como não disse nada, a princípio, o silêncio dele virou confirmação de que Baby iria morrer. Olanna afastou a cabeça.

“É normal que ela tenha perdido o apetite”, disse ele por fim. Mas, no tom, faltava a certeza a que Olanna se acostumara.

“Veja quanto ela já emagreceu!”, disse Olanna.

“Nkem, a tosse está melhorando e o apetite dela vai voltar.” Ele começou a pentear o cabelo. Ela estava brava com ele por não ter dito o que queria ouvir, por não acreditar no poder do destino, por dizer que Baby ficaria bem, e por ser normal o suficiente para continuar se vestindo para o trabalho. O beijo que ele lhe deu antes de sair foi rápido, sem aquela costumeira e firme pressão da boca, e também por isso Olanna o censurou. As lágrimas encheram seus olhos. Lembrou-se de Amala. Amala não tinha feito contato desde o dia em que Olanna visitara o hospital, e agora ela se perguntava se teria de contar a Amala, caso Baby morresse.

A menina bocejou e acordou. “Bom dia, Mami Ola.” Até a vozinha era frágil.

“Baby, ezigbo nwa, como vai você?” Olanna pegou Baby no colo, abraçou-a, soprou em seu pescoço e lutou para conter as lágrimas. Ela parecia tão franzina, tão leve. “Você não quer comer uma papinha, meu amor? Ou um pouco de pão? O que você quer?”

Baby balançou a cabeça. Olanna estava tentando persuadi-la a tomar um pouco de Ovomaltine quando a professora Muokelu apareceu com uma sacola de ráfia e um sorriso muito satisfeito.

“Eles abriram um centro assistencial na avenida Bishop e eu dei uma passada por lá esta manhã”, disse ela. “Peça a Ugwu para me trazer uma tigela.”

Ela despejou um pó amarelo na tigela. “Frita isso para ela.”

“Fritar?”

“Tem alguma coisa nos ouvidos? Misture com um pouco de água e frite, osiso! Eles dizem que as crianças adoram o gosto dessa coisa.”

Ugwu lhe deu uma olhada comprida e foi para a cozinha. A gema desidratada de ovo, frita em óleo vermelho de dendê, parecia meio encharcada, e irritantemente colorida no prato. Baby comeu até o fim.

 

O centro assistencial já fora um ginásio para meninas. Olanna imaginou o terreno murado e gramado, antes da guerra, cheio de jovens correndo para suas classes, pela manhã, e se esgueirando até o portão para encontrar os rapazes do colégio público na mesma rua, um pouco adiante. Agora era madrugada e o portão estava trancado. Uma imensa multidão esperava do lado de fora. Olanna parou muito sem graça entre homens, mulheres e crianças que pareciam, todos eles, acostumados a ficar esperando, diante de um portão de ferro enferrujado, até que ele se abrisse e pudessem entrar e receber a comida doada por estranhos de outros países. Sentiu-se desconcertada. Parecia estar fazendo algo impróprio, algo que não era ético — conseguir comida em troca de nada. Dentro do terreno da antiga escola, podia ver pessoas se movendo, mesas com pilhas de sacos de comida e uma placa em que estava escrito CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS. Algumas mulheres, agarradas aos cestos, olhavam por cima do portão e resmungavam que o pessoal da assistência estava desperdiçando tempo. Os homens conversavam entre si; o mais velho usava o chapéu vermelho de chefe, com uma pena de enfeite. A voz de um rapaz se alçou sobre as outras, estridente, falando tolices, como uma criança aprendendo a falar.

“É trauma de guerra”, cochichou a professora Muokelu, como se Olanna não soubesse. Foi a única vez que falou. Aos poucos, ela tinha avançado até a frente do portão, incentivando Olanna a seguir cada passo seu. Alguém mais atrás começara a falar sobre uma vitória biafrense. “Estou dizendo a você, todos os soldados hauçás deram meia-volta e fugiram, tinham visto algo muito maior que eles...” A voz sumiu quando um homem que estava dentro da escola se aproximou do portão. Sua camiseta, TERRA DO SOL NASCENTE escrito em negro, era larga em torno do corpo esbelto e, na mão, levava um maço de papéis. Andava com ar de importância, os ombros erguidos. Era o supervisor.

“Ordem! Ordem!”, disse ele, abrindo o portão.

A investida súbita e desordenada da multidão surpreendeu Olanna. Sentiu-se empurrada; o corpo oscilou. Era como se todos a tivessem afastado num único movimento calculado, uma vez que não era um deles. O velho que estava a seu lado lhe deu uma cotovelada firme ao sair em disparada para a escola. A professora Muokelu estava mais adiante, avançando para uma das mesas. O velho do chapéu com a pena caiu, levantou imediatamente e continuou sua corrida trôpega para a fila. Olanna se surpreendeu com os membros da milícia, fustigando a todos com longos chicotes e gritando “Ordem! Ordem!”, e com as fisionomias severas das mulheres sentadas às mesas, que se inclinavam, punham algo no cesto estendido e depois diziam “Sim! Próximo!”

“Vai para aquela ali!”, disse a professora Muokelu, quando Olanna se aproximou dela. “Aquela ali é a fila da gema de ovo! Vai para lá! Esta aqui é de caldo de peixe.”

Olanna entrou na fila e se controlou para não empurrar a mulher que tentou expulsá-la. Deixou que ela ficasse na sua frente. A incongruência de fazer fila para pedir comida a deixava constrangida, desfigurada. Cruzou os braços, depois os soltou ao lado do corpo e voltou a cruzá-los. Estava perto da frente quando reparou que o pó que elas estavam pondo nos sacos e tigelas não era amarelo e sim branco. Não era gema de ovo, era maisena. A fila da gema de ovo era a outra. Olanna foi correndo até lá, mas a mulher que estava distribuindo as gemas se levantou e disse: “A gema de ovo acabou! O gwula!”.

O pânico invadiu o peito de Olanna. Correu atrás da mulher. “Por favor”, disse ela.

“O que é?”, perguntou ela. O supervisor, parado quase ao lado, virou-se para olhar para Olanna.

“Minha filhinha está doente...”, disse Olanna.

A mulher cortou a conversa. “Entre naquela fila para o leite.”

“Não, não, ela não tem comido nada, mas comeu a gema de ovo.” Olanna segurou no braço da mulher. “Biko, por favor, eu preciso da gema de ovo.”

A mulher desvencilhou-se com um puxão e apressou o passo para entrar no prédio, batendo a porta. Olanna permaneceu ali. O supervisor, ainda olhando atentamente para ela, se abanou com o maço de papéis e disse: “Ehe! Eu conheço você”.

Ela não se lembrava nem da cabeça calva nem do rosto barbado. Virou-se para se afastar porque tinha certeza de que seria mais um daqueles homens que diziam conhecê-la só para ter a oportunidade de passar uma cantada.

“Eu já vi você antes”, disse ele. Aproximou-se, já sorrindo, mas não o sorriso malicioso que ela esperava; sua fisionomia era franca e ele parecia encantado. “Faz alguns anos, no aeroporto de Enugu, quando fui receber meu irmão, que voltava do exterior. Você falou com minha mãe. I kasiri ya obi. Acalmou-a quando o avião pousou e não parou imediatamente.”

Aquele dia no aeroporto voltou muito apagado à lembrança de Olanna. Devia fazer uns sete anos. Lembrou-se do sotaque do mato que ele tinha, de sua agitação nervosa e também que ele lhe parecera bem mais velho do que agora.

“É você?”, perguntou ela. “Mas como foi que me reconheceu?”

“Como é que alguém consegue esquecer um rosto como o seu? Minha mãe sempre conta a história de uma bela mulher que segurou sua mão. Todos na minha família conhecem essa história. Toda vez que alguém comenta o retorno do meu irmão, ela conta de novo.”

“E como vai seu irmão?”

O orgulho iluminou o rosto do rapaz. “Ocupa cargo importante no governo. Foi ele que me deu este emprego aqui.”

Olanna se perguntou na hora se ele poderia ajudá-la a conseguir mais gema de ovo. Mas o que disse foi: “E a sua mãe, está bem?”.

“Muito bem. Ela está em Orlu, na casa do meu irmão. Ela ficou muito doente quando minha irmã mais velha demorou a voltar de Zaria; todos nós achamos que aqueles animais tinham feito com ela o que fizeram com os outros, mas ela voltou — tinha amigos hauçás que ajudaram —, e minha mãe melhorou. Vai ficar feliz quando eu contar que vi você.”

Parou de falar para olhar para uma das mesas onde duas jovens discutiam sobre comida. “Estou lhe dizendo que este caldo de peixe é meu”, dizia uma delas. “Ngwanu”, dizia a outra, “nós duas vamos morrer hoje.”

O rapaz voltou a olhá-la. “Deixa eu ver o que está acontecendo por lá. Mas espere no portão. Vou mandar alguém levar um pouco de gema de ovo para você.”

“Obrigada.” Olanna ficou aliviada com a oferta, mas assim mesmo se sentia sem graça com a troca. No portão, tentou se esconder; era como se fosse uma ladra.

“Okoromadu me mandou procurá-la”, disse uma jovem, a seu lado, e Olanna quase deu um pulo de susto. A moça pôs um saco em sua mão e voltou para a escola. “Agradeça a ele por mim”, gritou Olanna. Se ela ouviu, não se virou para dizer que ouvira. O peso do saquinho parecia dissipar seus temores enquanto esperava pela professora Muokelu; mais tarde, enquanto via Baby comer tudo, até só restar o óleo no prato, perguntava-se como ela podia suportar o horrendo gosto de plástico da gema de ovo desidratada.

Quando Olanna voltou ao centro de assistência, Okoromadu falava com as pessoas no portão. Algumas mulheres seguravam as esteiras de dormir enroladas debaixo do braço; tinham passado a noite na frente do portão.

“Não temos nada para vocês hoje. O caminhão que trazia nossos suprimentos de Awomama foi sequestrado na estrada”, disse ele, no tom comedido com que um político se dirige a seus eleitores. Olanna o observava. Ele gostava disso, do poder que vinha de saber se um grupo de pessoas iria comer ou não. “Temos escoltas militares, mas são os soldados que estão nos atacando. Eles ergueram uma barricada e levaram tudo que tinha no caminhão; chegaram a bater nos motoristas. Venham na segunda-feira, talvez a gente abra.”

Uma mulher caminhou apressada até ele e pôs o filho pequeno nos braços do rapaz. “Então fique com ele! Dê comida para ele até vocês abrirem de novo!” E começou a se afastar. O bebê era magro, amarelado, e estava aos berros.

“Bia nwanyi! Volte aqui, mulher!” Okoromadu segurava o bebê com os braços rígidos, longe do corpo.

As outras mulheres do grupo começaram a censurar a mãe — Você está jogando fora o seu filho? Ujo anaghi atu gi? Você está andando na face de Deus? —, mas foi a professora Muokelu quem se adiantou, tirou a criança dos braços de Okoromadu e devolveu-a à mãe.

“Pegue seu filho”, disse ela. “Não é culpa do moço que hoje não tem comida.”

A multidão se dispersou. Olanna e a professora andavam devagar.

“Quem é que sabe se é verdade que os soldados pegaram do caminhão deles?”, perguntou a professora Muokelu. “Vai saber se eles não guardaram tudo para revender? Nós nunca temos sal aqui porque eles guardam para revender.”

Olanna pensava na forma como a professora Muokelu tinha devolvido o bebê à mãe. “Você me lembra a minha irmã”, disse.

“Como?”

“Ela é muito forte. Ela não tem medo.”

“Ela estava fumando, naquela foto que você me mostrou. Feito uma prostituta comum.”

Olanna parou e olhou fixo para a professora.

“Não estou dizendo que ela seja uma prostituta”, disse ela, mais que depressa. “Estou só dizendo que não é bom que ela fume porque mulheres que fumam são prostitutas.”

Olanna olhou para ela e viu aversão na barba e nos braços peludos. Apressou o passo, calada, passando à frente da professora, e não disse adeus quando virou na sua rua. Baby estava sentada na frente da casa, com Ugwu. “Mami Ola!”

Olanna abraçou-a, alisando seu cabelo. Baby segurou sua mão e ergueu os olhos para ela. “Você trouxe gema de ovo, Mami Ola?”

“Não, meu tesouro. Mas logo eu arranjo mais”, disse.

“Boa tarde, mah. A senhora não trouxe nada?”, perguntou Ugwu.

“Não está vendo que meu cesto está vazio?”, retrucou Olanna com rispidez. “Ficou cego?”

 

Na segunda-feira, foi sozinha ao centro assistencial. A professora Muokelu não apareceu para chamá-la, antes do amanhecer, e não se achava entre o pessoal que esperava. O portão estava trancado, os terrenos da escola, vazios, e ela continuou ali por mais uma hora, até que a multidão começou a se dispersar. Na quarta-feira, havia um novo cadeado no portão. Foi só no sábado que o portão se abriu e Olanna se surpreendeu com a facilidade com que se juntou ao avanço da multidão e com a agilidade com que foi de uma fila a outra, esquivando-se da milícia e empurrando quem a empurrava. Estava indo embora com sacolas pequenas de maisena, gema de ovo e dois cubos de caldo de peixe quando Okoromadu chegou.

Ele acenou. “Bela mulher. Nwanyi oma!”, disse ele. Ainda não sabia o nome de Olanna. Aproximou-se, enfiou uma latinha de carne enlatada em seu cesto e se afastou apressado, como se não tivesse feito nada. Olanna olhou para a lata comprida e vermelha e quase explodiu na risada, tal foi o prazer inesperado que sentiu. Tirou do cesto, examinou, passou a mão sobre o metal frio e, quando ergueu a vista, havia um soldado olhando para ela, um dos que sofriam de trauma de guerra. Ele a fitava abertamente; não se importou em disfarçar. Pôs a lata de volta no cesto e cobriu com um saco. Estava contente que a professora Muokelu não estivesse junto, de contrário teria que dividir a carne. Pediria a Ugvvu para fazer um ensopado. Economizaria um pouco; assim ela, Odenigbo e Baby poderiam fazer um jantar ao estilo inglês, com sanduíches de carne.

O soldado traumatizado a seguiu quando ela se afastou do portão. Ela apressou o passo no trecho empoeirado que levava à rua principal, mas cinco deles, todos em fardas esfrangalhadas, a cercaram pouco depois. Eles balbuciavam, gesticulando para o cesto, os movimentos desconjuntados, o tom de voz alterado, e Olanna entendeu algumas das palavras que diziam. “Tia!” “Irmã!” “Dá agora!” “Fome mata nós todos!”

Olanna agarrou-se ainda mais ao cesto. Sentiu um ímpeto quente e infantil de chorar. “Sumam daqui! Vamos, sumam daqui!”

Por alguns momentos eles pareceram surpresos com a explosão e ficaram quietos. Depois foram se aproximando, todos juntos, como se obedecendo a uma mesma voz interna. Estavam avançando para cima dela. Poderiam fazer o que quisessem; havia um desespero que não obedecia a lei nenhuma entre eles e nos cérebros amortecidos pelos bombardeios. O medo de Olanna veio com raiva, uma raiva feroz e estimulante, e ela se imaginou lutando com eles, estrangulando todos, matando todos. A lata de carne era dela. Dela. Recuou alguns passos. Numa fração de minuto, num movimento tão rápido que ela só percebeu depois, o soldado de boné azul agarrou seu cesto, pegou a latinha e saiu correndo. Os outros foram atrás. O último continuou observando Olanna, a boca aberta, até que saiu correndo também, mas na direção oposta, para longe dos outros. O cesto estava caído no chão. Olanna ficou ali e chorou em silêncio, porque a lata não ficara com ela. Depois ergueu o cesto, tirou um pouco da areia do saco de maisena e voltou para casa.

 

Olanna e a professora Muokelu tinham evitado se cruzar na escola durante quase duas semanas, e por esse motivo, quando Olanna chegou em casa e viu a professora sentada do lado de fora, com um balde de metal cheio de cinzas de madeira queimada, ficou surpresa.

A professora levantou-se. “Eu vim lhe ensinar a fazer sabão. Sabe quanto eles estão pedindo por uma barra comum de sabão, hoje em dia?”

Olanna olhou para o bubu de algodão esfarrapado, emplastrado com a face reluzente de Sua Excelência, e percebeu que essa aula não solicitada era uma forma de ela pedir desculpas. Pegou o balde de cinzas. Abriu caminho até o quintal e, depois de a professora Muokelu ter explicado e demonstrado como fazer sabão, ela guardou as cinzas perto de uma pilha de blocos de concreto.

Mais tarde, ao contar para Odenigbo sobre o sabão, ele balançou a cabeça. Estavam sob o sapê da varanda, num banco de madeira encostado na parede.

“Ela não precisava vir aqui ensinar você a fazer sabão. Aliás, eu não consigo ver você fazendo sabão.”

“Acha que não sou capaz?”

“Ela devia ter pedido desculpas e pronto.”

“Eu devo ter exagerado na reação porque ela estava falando de Kainene.” Olanna mudou de posição. “Bem que eu queria saber se ela recebeu minhas cartas.”

Odenigbo não disse nada. Pegou sua mão e ela se sentiu grata pelas coisas que não precisava explicar.

“Quanto pêlo a professora Muokelu tem no peito?”, perguntou ele. “Você sabe?”

Olanna não sabia muito bem quem começara a rir antes, se ela ou se ele, mas de repente estavam os dois às gargalhadas, quase caindo do banco. Outras coisas se tornaram hilárias. Odenigbo disse que o céu estava sem uma nuvem e Olanna respondeu que era o tempo perfeito para aviões bombardeiros, e os dois riram. Um menino pequeno que passou na frente da casa, usando um short com enormes furos que mostravam o bumbum de pele ressecada, cumprimentou-os e eles mal conseguiram responder boa tarde antes de cair na gargalhada de novo. A risada ainda não tinha sumido da fisionomia deles, e as mãos ainda continuavam agarradas no banco quando Special Julius entrou. Sua túnica rebrilhava de lantejoulas.

“Eu trouxe o melhor vinho de palma de Umuahia! Peça para o Ugwu trazer os copos”, disse ele, pondo uma lata pequena no chão. Havia uma fartura otimista em torno dele e de suas roupas chamativas, como se não houvesse problema que não conseguisse resolver. Depois de Ugwu ter levado os copos, Special Julius falou: “Vocês sabiam que Harold Wilson está em Lagos? Veio trazer o exército britânico para acabar com a gente. Dizem que veio com dois batalhões”.

“Sente-se, meu amigo, e pare de falar besteira”, disse Odenigbo.

Special Julius riu e sorveu a bebida ruidosamente. “Quer dizer que estou falando besteira, okwa ya? Cadê o rádio? Lagos talvez não queira comunicar ao mundo que o primeiro-ministro britânico veio aqui ajudar a nos matar, mas quem sabe aqueles loucos de Kaduna resolvam se abrir.

Baby surgiu na varanda. “Tio Julius, boa tarde.”

“Baby-Baby. Como vai a tosse? Melhorou?” Mergulhou um dedo no vinho de palma e pôs na boca da menina. “Isto vai ajudar sua tosse.”

Baby lambeu os lábios, com ar de quem tinha gostado.

“Julius!”, disse Olanna.

Special Julius fez um gesto para o ar com a mão. “Nunca subestime o poder do álcool.”

“Vem sentar aqui comigo, Baby”, disse Olanna. O vestido da menina estava esgarçado de tanto uso. Olanna acomodou-a no colo, segurando-a bem apertado. Pelo menos a tosse de Baby melhorara; pelo menos estava comendo.

Odenigbo apanhou o rádio debaixo do banco. Um ruído estridente encheu o ar e, de início, Olanna pensou que vinha do rádio, até se dar conta de que era o alarme antiaéreo. Sentou-se imóvel. Alguém, de uma casa nas vizinhanças gritou “Avião inimigo!” ao mesmo tempo que Special Julius gritava “Escondam-se”, saltando para fora da varanda e derrubando o vinho de palma. Os vizinhos corriam, gritando palavras que Olanna não conseguia entender por causa do ruído daquela sirene, que ficara marcado a fogo em sua cabeça. Ela escorregou no vinho e caiu de joelho. Odenigbo a puxou, antes de agarrar Baby e correr. O ataque começou — balas chovendo lá do alto — no momento em que Odenigbo puxava a folha de zinco para que todos descessem para o bunker. Ele foi o último a entrar. Ugwu segurava uma colher suja de sopa. Olanna matava os grilos; os insetos ligeiramente úmidos pareciam pegajosos em seus dedos, e mesmo quando eles não estavam mais sobre ela, continuou estapeando braços e pernas. A primeira explosão soou longe. Vieram outras, mais perto, mais altas, e a terra tremeu. Vozes em volta dela gritavam “Jesus Cristo! Jesus Cristo!”. Sua bexiga estava dolorida e dura de tão cheia, como se pronta para explodir e liberar não urina e sim as orações distorcidas que resmungava. Havia uma mulher agachada a seu lado, segurando uma criança, um menino pequeno, mais novo que Baby. O bunker era escuro, mas dava para Olanna ver as marcas da tinha, brancas e purulentas, por todo o corpo do menino. Outra explosão chacoalhou o chão. Depois, o ruído parou. O ar estava tão parado, quando saíram do bunker, que escutavam até o có-có-có de alguns pássaros ao longe. O cheiro de queimado tomava conta.

“Nosso fogo antiaéreo foi uma maravilha! Odi egwu!”, disse alguém.

“Que Biafra ganhe a guerra!” Quem começou a canção foi Special Julius, e logo quase todos que estavam na rua fizeram coro.

Que Biafra ganhe a guerra.

Carros blindados, metralhadoras,

Combatentes e bombardeios,

Ha enweghi ike imeri Biafra!

Olanna viu Odenigbo cantando com voz vigorosa e tentou fazer igual, mas as palavras pareciam rançosas em sua língua. Sentia uma dor aguda no joelho; pegou a mão de Baby e entrou.

Estava dando o banho da tarde em Baby quando a sirene soou de novo; agarrou a menina despida e saiu correndo da casinha. Baby quase escorregou. O rugido veloz dos aviões e o pronunciado cá-cá-cá do fogo antiaéreo vinham de cima, de baixo e dos lados, e faziam seus dentes tremer. Enfiou-se no bunker e ignorou os grilos.

“Onde está Odenigbo?”, perguntou ela, depois de um tempo, pegando no braço de Ugwu. “Cadê seu patrão?”

“Ele está aqui, mah”, disse Ugwu, olhando em volta.

“Odenigbo!”, chamou Olanna. Mas ele não respondeu. Ela não se lembrava de tê-lo visto entrar no bunker. Devia estar lá fora, em algum lugar. A explosão que veio a seguir sacudiu tudo dentro de seu ouvido; tinha certeza de que, se virasse a cabeça de lado, alguma coisa flexível e resistente como cartilagem cairia lá de dentro. Foi até a entrada do abrigo. Atrás dela, escutou Ugwu dizer “Mah? Mah?” Uma senhora que morava um pouco abaixo, na mesma rua, disse: “Volte aqui! Aonde é que você vai? Ebe ka I na-eje?”, mas ela ignorou ambos e saiu do bunker.

O brilho do sol era espantoso; era como se ela fosse desmaiar com tanta luz. Correu, o coração machucando o peito, gritando “Odenigbo! Odenigbo!”, até que o viu curvado sobre alguém no chão. Olhou para seu peito nu e peludo, para sua nova barba, suas sandálias rasgadas, e, de repente, a mortalidade dele — a mortalidade dos dois — a golpeou com um aperto na garganta, uma pressão de alarme. Abraçou-o bem apertado. Havia uma casa na rua pegando fogo.

“Nkem, está tudo bem”, disse Odenigbo. “Ele foi atingido por uma bala, mas parece que é só um ferimento na pele.” Afastou-a e voltou a tratar do homem, cujo braço estava atando com sua camisa.

 

Pela manhã, o céu estava igual a um mar tranquilo. Olanna disse a Odenigbo que ele não iria ao diretório e que ela não iria dar aula; passariam o dia no bunker.

Ele deu risada. “Não seja tola.”

“Ninguém vai mandar os filhos para a escola”, disse ela.

“E você vai fazer o quê?” O tom dele era tão normal quanto seus roncos tinham sido durante a noite que passara acordada, suando, imaginando o barulho das bombas.

“Eu não sei.”

Ele lhe deu um beijo. “Só vá para o bunker se soar o alarme. Não vai acontecer nada. Posso me atrasar um pouco, se a gente resolver continuar com as aulas na região de Mbaise, hoje.”

De início, ficou magoada com a despreocupação de Odenigbo, depois reconfortada com isso. Acreditava em suas palavras, mas apenas enquanto ele estava por perto. Depois que ele saiu, sentiu-se vulnerável, exposta. Não tomou banho. Tinha medo de sair para ir até o sanitário. Tinha medo de sentar porque poderia pegar no sono e se ver despreparada quando a sirene tocasse. Tomou xícaras e xícaras de água, até a barriga ficar inchada, no entanto era como se a saliva tivesse sido sugada de sua boca e ela estivesse prestes a se afogar em pedaços de ar seco.

“Nós vamos ficar o dia todo no bunker, hoje”, disse ela a Ugwu.

“No bunker, mah?”

“Isso mesmo que você ouviu. No bunker.”

“Mas nós não podemos simplesmente ficar no bunker, mah.”

“Por acaso eu falei com a boca cheia de água? Eu disse que vamos passar o dia no bunker.”

Ugwu encolheu o ombro. “Pois não, mah. Quer que eu leve a comida de Baby?”

Ela não respondeu. Mas lhe daria um tapa se ameaçasse um sorriso que fosse, porque podia ver em seu rosto que estava achando graça na idéia de levar um prato com a papinha de Baby e se enfurnar num buraco úmido no chão para passar o dia.

“Apronte a Baby”, disse ela, ligando o rádio.

“Pois não, mah”, disse Ugwu. “O nwere igwu. Encontrei lêndeas no cabelo dela, hoje de manhã.”

“O quê?”

“Ovo de piolho. Mas só havia dois e não achei mais nenhum.”

“Piolho? Que história é essa? Como é que Baby pode ter piolho? Eu a mantenho sempre limpinha. Baby! Baby!”

Olanna puxou Baby para si e começou a soltar as tranças e escarafunchar o cabelo grosso. “Devem ser aqueles vizinhos sujos com que você gosta de brincar. Aqueles vizinhos sujos.” Suas mãos tremiam e ela arrancou um tufo de cabelo, para manter o controle. Baby começou a chorar.

“Fique parada!”, disse Olanna.

Baby se desvencilhou, correu parra Ugwu e lá ficou, olhando para Olanna com um olhar espantado, como se não a reconhecesse mais. No rádio, o hino nacional biafrense começou a tocar, preenchendo o silêncio.

Terra amada e idolatrada do sol nascente,

Pátria venerada de heroísmo valente;

Temos de defender a vida ou morrer lutando,

Vamos proteger a alma do inimigo avançando.

Mas se for a morte o preço desse amor,

Então que nos deixem morrer sem temor.

Todos ouviram até o fim.

“Leve Baby para a varanda e vigie”, disse finalmente para Ugwu, abatida. “Não vamos mais para o bunker, então?”

“Leve Baby para a varanda, só isso.”

“Pois não, mah.”

Olanna sintonizou o rádio; era muito cedo para notícias da guerra, para os monólogos incendiários sobre a grandeza de Biafra que ela tão desesperadamente precisava ouvir. Na BBC , havia boletins recentes sobre o conflito — emissários do papa, da Organização da Unidade Africana e da Commonwealth estavam se dirigindo à Nigéria para propor um acordo de paz. Ouviu o noticiário meio apática e desligou quando escutou Ugwu falando com alguém. Saiu para ver quem era. A professora Muokelu estava atrás de Baby, trançando de novo o cabelo que Olanna acabara de soltar. Os pêlos dos braços reluziam, brilhantes, como se ela tivesse passado óleo demais.

“Você também não foi dar aula, hoje?”, perguntou Olanna.

“Eu sabia que os pais não deixariam as crianças irem à escola.”

“Claro que não. Que tipo de campanha ininterrupta de bombardeio é essa?”

“Foi por causa da vinda de Harold Wilson”, rosnou a professora Muokelu. “Eles querem impressionar o homem, para que traga o exército britânico para cá.”

“Special Julius também disse isso, mas é impossível.”

“Impossível?” Muokelu sorriu como se a indicar que Olanna não tinha idéia do que dizia. “Esse Special Julius, falando nisso — você sabe que ele vende passes falsificados?”

“Ele é fornecedor, faz coisas para o exército.”

“Não estou dizendo que ele não faça um servicinho aqui outro ali para o exército, mas que ele vende passes falsificados, isso vende. O irmão dele é do governo e eles fazem isso juntos. É por causa deles que tudo quanto é tipo de malandro anda de um lado para outro, com passes especiais.” A professora Muokelu terminou uma trança e deu um tapinha no cabelo de Baby. “Aquele irmão dele é um criminoso. Dizem que deu isenção militar para todos os parentes homens, todos que fazem parte de sua umunna. E você precisava ouvir o que ele faz com aquelas jovens mocinhas que andam por aí, à procura de homens endinheirados. Dizem que ele leva até cinco para o quarto ao mesmo tempo. Tufia! E gente como ele que tem que ser executada quando o Estado de Biafra estiver totalmente estabelecido.”

Olanna deu um pulo. “Isso foi um avião? É um avião?”

“Avião, kwa?” A professora Muokelu riu. “Alguém bate a porta na casa ao lado e você acha que é um avião?”

Olanna sentou no chão e esticou as pernas. Estava exausta de medo.

“Você ficou sabendo que nós derrubamos um bombardeiro perto de Ikot-Ekpene?”, perguntou a professora.

“Não soube de nada.”

“E isso foi feito por um civil, com uma arma de caça. Sabe do que mais, é como se os nigerianos fossem tão burros que quem trabalha para eles se torna burro também. Eles são burros demais para voar com os aviões que a Rússia e a Grã-Bretanha deram para eles, por isso trouxeram os brancos para pilotar, e nem mesmo esses brancos conseguem acertar o alvo. Ah! Metade das bombas deles nem sequer explode.”

“Mas a metade que explode basta para matar todos nós”, disse Olanna. A professora continuou falando como se não tivesse escutado o que Olanna havia dito. “Soube que a nossa ogbunigwe está metendo medo neles. Em Afikpo, ela matou só algumas centenas de homens, mas o batalhão inteiro de nigerianos fugiu espavorido. Nunca tinham visto uma arma como a ogbunigwe. E nem sabem o que ainda temos reservado para eles.” Ela soltou um risinho, balançou a cabeça e mexeu no meio sol amarelo em volta do pescoço. “Gowon mandou os soldados bombardearem o mercado de Agwu no meio da tarde, quando as mulheres estão vendendo e comprando. Recusou-se a deixar que a Cruz Vermelha nos trouxesse comida, recusou kpam-kpam, de modo que agora vamos morrer de fome. Mas ele não vai conseguir. Se tivesse gente despejando armas e aviões nas nossas mãos, como fazem com a Nigéria, isso tudo já teria terminado há muito tempo e todos estariam cada um na sua própria casa, agora. Mas nós vamos vencer. Por acaso Deus está dormindo? Não!” A professora Muokelu riu. A sirene disparou. Olanna esperava o som estridente havia tanto tempo que um tremor antecipado lhe perpassou o corpo, antes mesmo de ter ouvido o alarme. Virou-se para Baby, mas Ugwu já tinha posto a menina no colo e corria para o bunker. Olanna ouvia o som dos aviões à distância, como trovões se formando, e logo depois os nítidos estalos de fogo antiaéreo se espalhando. Antes de entrar no bunker, olhou para cima e viu os jatos bombardeiros deslizando no céu, feito gaviões, voando surpreendentemente baixo, com bolas de fumaça cinza em volta deles.

Ao saírem do bunker, mais tarde, alguém disse: “Eles queriam pegar a escola primária!”.

“Aqueles ateus bombardearam a nossa escola”, disse a professora Muokelu.

“Olhem! Mais um bombardeiro!”, disse um rapaz, rindo e apontando para um urubu no céu.

Juntaram-se então à multidão que ia rumo ao Grupo Escolar de Akwakuma. Passaram dois homens, na direção oposta, levando um cadáver calcinado. Uma cratera enorme, grande o bastante para engolir um caminhão, tinha dividido em dois a rua em frente à escola. O telhado do bloco de salas de aula ruíra num amontoado de madeira, metal e poeira. Olanna não reconheceu sua sala. Todas as janelas haviam arrebentado, mas as paredes aguentaram. Do lado de fora, onde os alunos brincavam na areia, estilhaços de bomba haviam desenhado um refinado buraco no chão. E, enquanto ajudava a tirar algumas carteiras ainda intactas, era no buraco que Olanna pensava: em como um metal quente e carnívoro conseguia marcar o chão com anéis tão bonitos.

A sirene não tocou no começo da manhã, de modo que quando o feroz uá-uá-uá dos bombardeiros apareceu de lugar nenhum, no momento em que Olanna dissolvia a maisena na água para fazer o mingau de Baby, ela previu como seria. Alguém morreria. Talvez todos eles morressem. A morte era a única coisa que fazia sentido, ali agachada num subterrâneo, arrancando um pouco de terra do chão, esfregando nos dedos, à espera de que o abrigo explodisse. As bombas estavam mais nítidas e mais perto. O chão pulsava. Ela não sentia nada. Estava flutuando para fora de si mesma. Veio mais uma explosão, o solo vibrou e crianças nuas, se arrastando atrás dos grilos, acharam graça. Depois as explosões pararam e as pessoas em volta começaram a se mexer. Se ela tivesse morrido, se Odenigbo, Baby e Ugwu tivessem morrido, ainda assim o bunker teria cheiro de terra recém-arada, o sol continuaria a despontar e os grilos não iriam parar de saltar. A guerra continuaria sem eles. Olanna soltou o ar com uma raiva gelada. Foi a consciência de ser irrelevante que a levou do medo extremo à fúria extrema. Ela tinha de importar. Não iria mais existir languidamente, à espera da morte. Até Biafra vencer, os vândalos não iriam mais ditar os termos em que ela viveria.

Foi a primeira a sair do bunker. Havia uma mulher caída no chão, ao lado do corpo de uma criança, rolando na terra, chorando. “Gowon, o que eu fiz para você? Gowon, olee ihe m mere gi?” Algumas mulheres foram até ela e a ajudaram a se erguer. “Pare de chorar, já basta”, diziam. “O que você quer que seus outros filhos façam?”

Olanna foi até o quintal e começou a peneirar as cinzas do balde de metal. Tossiu ao acender o fogo; a fumaça da lenha ardia.

Ugwu observava a patroa. “Mah? Quer que eu faça?”

“Não.” Ela dissolveu a cinza numa bacia de água fria, mexendo com uma força que fez a água respingar nas pernas. Pôs os pelotes no fogo e ignorou Ugwu. Ele deve ter pressentido a raiva que se formou dentro dela e que a tornou delirante, porque se calou e entrou em casa. Da rua, vinha a voz da mulher que chorava, cada vez mais rouca e débil. Gowon, o que eu fiz para você? Gowon, olee ihe m mere gi? Olanna despejou um pouco de óleo na mistura já fria e mexeu até sentir os braços rígidos de cansaço. Havia algo de delicioso no suor que gotejava debaixo do braço, no ímpeto de vigor que fazia seu coração bater mais forte, na massa de cheiro esquisito que saía dali, depois de esfriar. E espumou. Ela tinha feito sabão.

 

No dia seguinte, Olanna não atravessou a praça correndo, a caminho da escola. A cautela se tornara, para ela, fraqueza e falta de fé. Seus passos eram firmes e ela olhava a todo momento para o céu claro, em busca de bombardeiros, porque, se os visse, pararia e começaria a atirar pedras e palavras neles. Cerca de um quarto dos alunos da sua classe apareceu. Ela ensinou a eles o significado da bandeira biafrense. As crianças se acomodaram em tábuas, sob o fraco sol da manhã que jorrava pela sala sem telhado, enquanto ela desembrulhava a bandeira de pano de Odenigbo e contava a eles o significado dos símbolos. O vermelho era o sangue dos parentes massacrados no Norte, o negro era em sinal de luto pelos mortos, o verde era pela prosperidade que Biafra teria, e, por fim, o meio sol amarelo, que significava um futuro glorioso. Olanna os ensinou a erguer a mão na mesma saudação de Sua Excelência e pediu-lhes para copiar o desenho dos dois líderes, que ela mesma fizera. Sua Excelência era robusto, desenhado com linhas duplas, ao passo que o corpo combalido de Gowon fora delineado em linhas simples.

Nkiruka, sua aluna mais inteligente, sombreou os dois rostos e, com alguns riscos de lápis, deu a Gowon um risinho sardônico e a Sua Excelência um largo sorriso.

“Eu quero matar todos os vândalos, professora”, disse ela, quando se levantou para entregar o desenho. Sorria aquele sorriso da criança precoce que sabia ter dito a coisa certa.

Olanna olhou para a menina sem saber o que dizer. “Nkiruka, vá sentar”, disse por fim.

A primeira coisa que contou a Odenigbo, quando ele chegou em casa, foi a banalidade com que a palavra matar se formara na boca de uma criança, e a culpa que sentira. Estavam no quarto, com o rádio ligado em volume baixo, e ela escutou a risada aguda de Baby no quarto ao lado.

“Ela não está na verdade querendo matar ninguém, nkem. Você ensinou a ela o que é patriotismo”, disse Odenigbo, tirando os sapatos.

“Não sei, não.” Mas as palavras dele a encorajaram, assim como o orgulho que exibia no rosto. Ele gostara da força com que, pelo menos uma vez na vida, tinha se pronunciado em defesa da causa; era como se ela fizesse parte, em pé de igualdade, do esforço de guerra.

“A Cruz Vermelha lembrou-se do nosso diretório, dessa vez”, disse ele, apontando para uma pequena caixa que trouxera consigo.

Olanna abriu-a e colocou as latinhas atarracadas de leite condensado, a também esguia lata de Ovomaltine e um pacote de sal sobre a cama. Pareciam artigos de luxo. No rádio, uma voz vibrante dizia que os valentes soldados biafrenses estavam dispersando os vândalos em torno de Abakaliki. “Vamos fazer uma festa”, disse ela.

“Uma festa?”

“Um pequeno jantar. Como aqueles que a gente fazia em Nsukka.”

“Tudo isso vai acabar em breve, nkem, e então teremos muitas e muitas festas numa Biafra livre.”

Ela gostou da forma como ele disse numa Biafra livre e levantou-se para beijá-lo na boca. “Certo, mas podemos ter uma festa na guerra também.”

“Nós mal temos o suficiente para nós.”

“Temos mais que o suficiente para nós.” Os lábios dela ainda estavam comprimidos nos dele e, de repente, as palavras assumiram um significado diferente; chegou mais perto e puxou o vestido pela cabeça, num único gesto fluido. Desabotoou a calça dele. Não deixou que ele a tirasse. Virou-se de costas, encostou na parede e guiou-o até ela, excitada com a surpresa de Odenigbo, com a firmeza de suas mãos nos quadris dela. Sabia que deveria baixar a voz, por causa de Ugwu e de Baby, no quarto ao lado, no entanto não tinha controle sobre os próprios gemidos, sobre o prazer primevo e cru que sentia em ondas, até que terminaram ambos debruçados contra a parede, ofegando e rindo.