Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 25 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 24

 

 

A vontade de Richard era dar uma surra em Harrison. Sempre o surpreendera pensar que alguns ingleses colonialistas chicoteavam seus criados negros idosos. Agora, porém, sentia vontade de fazer o mesmo. Queria botar Harrison deitado de barriga no chão e bater, bater e bater, até ele aprender a manter a boca fechada. Se ao menos não lhe tivesse ocorrido a idéia de levar Harrison junto. Mas ele iria passar uma semana inteira lá, e não queria deixá-lo sozinho em Nsukka. No primeiro dia, Harrison, como se para justificar sua visita, cozinhou uma comida complicada: uma sopa de feijão e cogumelos, um mexido de papaia, frango no creme de leite salpicado de folhas verdes e uma torta de limão de sobremesa.

“Está delicioso, Harrison”, disse Kainene, com um brilho malicioso no olhar. Estava de bom humor; puxara Richard para seus braços depois que ele chegara e dançara com ele pelo chão encerado da sala, de brincadeira.

“Obrigado, madame”, disse Harrison, curvando-se.

“E você cozinha essas coisas na sua casa?”

Harrison parecia ter se magoado. “Eu não cozinho na casa, madame. Minha mulher faz comida nativa.”

“Claro.”

“Eu cozinho qualquer tipo de comida européia, qualquer coisa que meu patrão está comendo no país dele.”

“Deve ser difícil para você comer comida nativa quando vai para casa, então.” Kainene enfatizou a palavra nativo, e Richard se segurou para não dar risada.

“É, madame.” Harrison curvou-se de novo. “Mas precisa me virar.”

“Esta torta está mais gostosa do que a que eu comi na última vez em que estive em Londres.”

“Obrigado, madame.” Harrison sorria de orelha a orelha. “Meu patrão diz que todo mundo na casa do senhor Odenigbo fala igual. Eu às vezes faço para ele levar para lá, mas agora não faço mais nada para a casa do senhor Odenigbo, desde a vez em que ele grita com meu patrão. Grita feito louco e a rua inteira ouve. Ele não tem cabeça muito certa.”

Kainene virou-se para Richard e arqueou as sobrancelhas. Richard deixou cair o copo de água.

“Eu vou pegar pano, sah”, disse Harrison, e Richard teve de se controlar para não pular em cima dele e estrangulá-lo.

“Do que o Harrison está falando?”, perguntou Kainene, depois que a água foi enxugada. “O revolucionário gritou com você?”

Ele poderia ter mentido. Nem Harrison sabia exatamente quais eram os motivos que levaram Odenigbo até sua casa, aquela noite, para berrar com ele. Mas não mentiu, porque temia não conseguir mentir direito e teria no fim que lhe contar a verdade, tornando tudo duas vezes mais danoso. De modo que contou o que acontecera. Falou do ótimo Borgonha branco que ele e Olanna tomaram e de como, depois, se sentiu roído de remorsos.

Kainene empurrou o prato e pôs os cotovelos na mesa, o queixo apoiado de leve nas mãos cruzadas. Não disse nada por muitos longos minutos. Richard não sabia como interpretar a expressão em seu rosto.

“Espero que você não me venha com pedidos de perdão”, disse por fim. “Não há nada mais banal.”

“Por favor, não me peça para ir embora.”

Ela pareceu surpresa. “Ir embora? Isso seria fácil demais, você não acha?”

“Me desculpe, Kainene.”

Richard se sentia transparente; ela olhava para ele, mas era como se pudesse ver o entalhe de madeira pendurado atrás dele. “Quer dizer então que você tem tesão na minha irmã. Que falta de originalidade”, disse ela.

“Kainene”, disse ele.

Ela se levantou. “Ikejide!”, chamou. “Venha tirar a mesa.”

Estavam saindo da sala de jantar quando o telefone tocou. Ela ignorou. Mas ele continuou tocando até que ela resolveu atender. Voltou para o quarto e disse: “Era Olanna”.

Richard olhou para ela, implorando com os olhos.

“Teria sido desculpável se fosse qualquer outra mulher. Não minha irmã”, disse ela.

“Eu sinto tanto, tanto.”

“Acho melhor você dormir no quarto de hóspedes.”

“Claro, lógico.”

Ele não sabia o que ela estava pensando. Era o que mais o assustava, o fato de não fazer idéia do que lhe passava pela cabeça. Deu uns tapas no travesseiro, arranjou o cobertor de novo, sentou-se na cama e tentou ler. Porém a mente estava ativa demais para que o corpo ficasse parado. Preocupava-o a possibilidade de Kainene ligar para Madu e contar o ocorrido, e que Madu desse risada, dizendo: “Ele foi um erro desde o começo, largue dele, largue dele, largue dele”. Por fim, antes de pegar no sono, lembrou-se das palavras curiosamente reconfortantes de Molière: A felicidade ininterrupta é uma caceteação; ela sempre deve ter altos e baixos.

 

Kainene o cumprimentou com uma fisionomia estóica na manhã seguinte.

A chuva caía pesado no telhado e o céu nublado empalidecia a sala de jantar. Kainene tomava uma xícara de chá e lia o jornal com a luz acesa.

“Harrison está fazendo panquecas”, disse ela, voltando a se concentrar no jornal. Richard sentou na sua frente, sem saber o que fazer, culpado demais até para servir o próprio chá. O silêncio dela e os barulhos e cheiros vindos da cozinha o deixaram meio claustrofóbico.

“Kainene”, disse ele. “Será que podemos conversar?”

Ela ergueu a vista e ele reparou, primeiro, que estava com os olhos inchados e vermelhos, depois que havia muita raiva e mágoa neles. “Nós conversaremos quando eu quiser conversar, Richard.”

Ele olhou para baixo, como uma criança levando um pito, e, de novo, sentiu medo de que ela o mandasse embora para sempre.

A campainha tocou antes do meio-dia e, quando Ikejide veio dizer que a irmã de madame estava na porta, Richard pensou que Kainene fosse mandar que ele fechasse na cara dela. Mas não foi o que aconteceu. Kainene pediu a Ikejide que servisse bebidas e foi até a sala de estar; do topo da escada, onde se plantou, Richard tentou escutar o que era dito. Escutou a voz chorosa de Olanna, mas não conseguiu entender o que ele estava dizendo. Odenigbo falou muito rapidamente, num tom que parecia inusitadamente calmo. Depois Richard escutou a voz de Kainene, clara e nítida. “É tolice esperar que eu perdoe isso.”

Houve um silêncio curto e depois o ruído de uma porta sendo aberta. Richard correu até a janela para ver o carro de Odenigbo dando marcha a ré, o mesmo Opel azul que tinha parado no seu compound na rua Imoke, e de onde saíra Odenigbo, um homem troncudo, em roupas bem passadas, berrando: “Eu quero que você fique longe da minha casa! Entendeu bem? Fique longe da minha casa! Nunca mais volte a me visitar!”. Na varanda, Richard se perguntava se Odenigbo iria esmurrá-lo. Mais tarde, percebeu que Odenigbo não tinha intenção de bater nele, talvez nem o considerasse digno de um murro, e essa idéia o deixara deprimido.

“Ficou escutando?”, perguntou Kainene, entrando no quarto. Richard virou-se da janela, mas ela não esperou pela resposta dele e continuou, em tom brando: “Eu tinha esquecido o quanto o revolucionário parece um boxeador, na verdade — se bem que com finesse.

“Eu jamais poderei me perdoar se eu perder você, Kainene.”

A fisionomia dela não mostrava nada. “Peguei seu manuscrito do escritório, hoje de manhã, e queimei”, disse ela.

Richard sentiu dentro do peito um amontoado de emoções que não saberia nomear. “O cesto de mãos”, a profusão de páginas que, finalmente, começava a acreditar que fosse se tornar um livro, tinha virado cinza. Ele jamais conseguiria reproduzir a energia desenfreada que viera com as palavras. Mas isso não importava. O que importava é que, ao queimar o manuscrito, Kainene mostrara que não iria terminar o relacionamento; não teria se dado ao trabalho de lhe causar tristeza se não fosse ficar. Talvez Richard não fosse um escritor de verdade, no fim das contas. Ele tinha lido não lembrava onde que, para o escritor verdadeiro, não existe nada mais importante que sua arte, nem mesmo o amor.

6 . O Livro: O Mundo Estava Calado Quando Nós Morremos

Ele escreve sobre o mundo, que permaneceu calado enquanto os biafrenses morriam.

Argumenta que a Grã-Bretanha inspirou esse silêncio. As armas e o conselho que os

britânicos deram à Nigéria formou outros países. Nos Estados Unidos, Biafra estava “sob

a esfera de interesses britânicos”. No Canadá, o primeiro-ministro deixou escapar: “Onde

é que fica Biafra?”. A União Soviética enviou técnicos e aviões à Nigéria, vibrando com a

possibilidade de influir na África sem ofender norte-americanos e britânicos. E, de suas

posições de supremacia branca, África do Sul e Rodésia olharam triunfantes para mais

uma prova de que governos liderados por negros estavam fadados ao fracasso.

A China comunista denunciou o imperialismo anglo-americano-soviético, mas nada fez

para apoiar Biafra. Os franceses venderam armamentos a Biafra, mas não deram o

reconhecimento de que o país mais precisava. E muitos países negros da África, temendo

que a independência de Biafra desencadeasse outras secessões, deram seu apoio à Nigéria.

QUARTA PARTE

 

FIM DOS ANOS 60