Meio Sol Amarelo
Capítulo 4
Ugwu tirou a mesa lentamente. Levou primeiro os copos, depois as tigelas manchadas com o caldo do ensopado e os talheres, e, por fim, empilhou prato sobre prato. Ainda que não tivesse espiado pela porta da cozinha enquanto os outros comiam, saberia quem estava à mesa. O prato do Patrão era sempre o que mais arroz espalhado tinha, como se não prestasse atenção ao que comia e os grãos lhe fugissem do garfo. O copo de Olanna tinha marcas de batom em forma de crescente. Okeoma comia tudo com colher, empurrando o garfo e a faca para o lado. O professor Ezeka tinha levado a própria cerveja, e a garrafa marrom com cara de ter sido importada estava ao lado do prato. A srta. Adebayo sempre deixava as fatias de cebola na sua tigela. E Mister Richard nunca chupava os ossos do frango.
Na cozinha, Ugwu manteve o prato de Olanna de lado, sobre o balcão de fórmica, e esvaziou os outros, vendo o arroz, o ensopado, os legumes e os ossos escorregarem para a lata de lixo. Alguns ossinhos estavam tão bem mastigados que pareciam farpas de madeira. Os de Olanna não, porque ela só mastigava de leve as pontas e eles conservavam a forma. Ugwu sentou-se, escolheu um osso e fechou os olhos, enquanto sugava, imaginando a boca de Olanna se fechando sobre o mesmo osso.
Ele chupava languidamente, um osso atrás do outro, e não se importava com o barulho que fazia com a boca. Estava sozinho. O Patrão tinha acabado de sair para o clube, junto com Olanna e os amigos. A casa sempre ficava mais silenciosa, nessa hora, quando ele podia deixar o tempo passar sem fazer nada, com os pratos do almoço na pia e o jantar ainda longe, a cozinha banhada pelo braseiro do sol. Olanna chamava essa hora de Hora do Trabalho da Escola, e, quando estava em casa, pedia a ele que fosse fazê-los no quarto. Ela não sabia que seus trabalhos de casa nunca levavam muito tempo, e que, depois, sentado à janela, batalhava com as frases difíceis dos livros do Patrão e se distraía com as borboletas que mergulhavam e ressurgiam por cima das flores brancas do jardim.
Ugwu pegou um de seus cadernos enquanto chupava o segundo osso. O tutano frio tinha um sabor ácido em sua língua. Leu a poesia copiada do quadro-negro com tanto cuidado que parecia até a letra da própria professora Oguike, depois fechou os olhos e recitou.
Continuamente lembro, enquanto o tempo passa
Que fui privado das belezas que eles vêem,
E que o Flautista prometeu a mim também.
Pois ele nos guiava a um mundo só de paz
Que, perto da cidade, ao nosso alcance, jaz,
Com fontes a brotar e frutos nos pomares,
Flores de cor mais suave abrindo-se aos milhares,
Mistério e novidade em todos os lugares.*
Ugwu abriu os olhos e deu uma outra lida para se certificar de que não havia esquecido nada. Torcia para que o Patrão não se lembrasse de pedir para ele recitar, porque, embora soubesse tudo de cor, teria de dar uma resposta quando ele perguntasse: O que isso quer dizer? Ou então: O que você acha que esse verso está dizendo de fato? A imagem que a professora Oguike tinha distribuído, com um homem de cabelos compridos sendo seguido por ratos felizes, era incompreensível para ele, e quanto mais Ugwu olhava, mais certo ficava de que se tratava de alguma brincadeira sem sentido. Nem mesmo a professora Oguike parecia saber o que significava aquilo. Ugwu acabara gostando dela — da professora Oguike — porque não o tratava com atenção especial, não parecia notar que ele se sentava sozinho, na classe, na hora do recreio. Por outro lado, logo no primeiro dia a professora reparou na rapidez com que ele aprendia, durante os testes por escrito e orais que ela fez, enquanto o Patrão esperava do lado de fora da sala abafada. “O menino obviamente vai pular pelo menos uma série, em algum momento, ele tem inteligência nata”, ela dissera depois ao Patrão, como se Ugwu não estivesse parado bem ao lado deles, e inteligência nata tornou-se na hora sua expressão favorita.
Ele fechou o caderno. Tinha chupado todos os ossos e, imaginando que o gosto da boca de Olanna estava em sua boca, começou a lavar os pratos. A primeira vez que chupara os ossos de Olanna fora depois de ter visto os dois se beijando na sala, num sábado de manhã, as bocas abertas comprimidas uma na outra. A idéia da saliva dela na boca do Patrão o deixara ao mesmo tempo enojado e excitado. Ainda deixava. Era o mesmo que sentia quando ela gemia, à noite; não gostava de ouvi-la, mas ia até a porta do quarto e encostava a orelha na madeira fria para escutar. Assim como examinava as roupas de baixo que ela pendurava no banheiro — corpetes negros, sutiãs escorregadios, calcinhas brancas.
Olanna se encaixara tão facilmente na casa. À noite, quando os convidados enchiam a sala, sua voz se destacava das outras na perfeita clareza de sua dicção, e Ugwu se imaginava mostrando a língua para a srta. Adebayo e dizendo: “A senhora não fala inglês como minha patroa, portanto fecha essa cloaca”. Parecia que suas roupas tinham estado sempre no armário, sua música High Life sempre no toca-discos, seu aroma de coco sempre recendendo em todos os aposentos, seu Impala sempre parado na entrada. Mesmo assim, tinha saudade dos antigos tempos em que morava sozinho com o Patrão. Tinha saudade das noites em que sentava no chão da sala, com o Patrão falando com voz grave, e das manhãs em que servia o café para ele sabendo que as únicas vozes que poderia escutar eram as vozes dos dois.
O Patrão mudara; olhava para Olanna vezes demais, tocava nela vezes demais, e quando Ugwu abria a porta da frente para ele seus olhos passavam direto para a sala, para ver se Olanna já chegara. Um dia antes, o Patrão tinha dito a Ugwu: “Minha mãe vem nos visitar este fim de semana, por isso, limpe o quarto de hóspedes”. Antes que Ugwu pudesse dizer “Pois não, sah”, Olanna emendara: “Acho que Ugwu devia se mudar para o Alojamento dos Criados. Assim, nós ficamos com um quarto de hóspedes livre. Mama talvez fique uns tempos conosco”.
“Claro”, disse o Patrão, tão prontamente que isso incomodou Ugwu; era como se estivesse disposto a enfiar a cabeça no fogo se Olanna lhe pedisse. Era como se ela tivesse se tornado o patrão. No entanto, Ugwu não se importou de mudar para o Alojamento dos Criados, que estava vazio, exceto por algumas teias de aranha e alguns caixotes. Poderia esconder coisas que tinha tirado do lixo ali; poderia fazer do lugar algo inteiramente seu. Nunca tinha ouvido o Patrão falar da mãe, e, enquanto limpava o quarto de hóspedes, mais tarde, imaginou como ela seria, essa mulher que dera banho no Patrão quando bebê, que o tinha alimentado, que tinha limpado seu nariz. Ugwu já estava temeroso da mulher que gerara o Patrão.
Terminou rápido de lavar a louça do almoço. Se fosse rápido também no preparo dos legumes para a sopa do jantar, daria tempo de ir até a casa de Mister Richard para conversar um pouco com Harrison, antes de os patrões voltarem. Nessa época, picava os legumes com a mão, em vez de fatiá-los. Olanna gostava que fosse feito desse jeito; dizia que, assim, retinham mais vitaminas. Também ele começara a gostar de verduras, assim como gostava da maneira como ela lhe ensinara a fritar ovos com um pouco de leite, a cortar as bananas-da-terra fritas em círculos delicados, em vez daqueles ovais desajeitados, a fazer moi-moi no vapor, numa cuia de alumínio, em vez de usar folha de bananeira. Agora que ela deixava a comida quase toda a cargo dele, Ugwu gostava de espiar pela porta da cozinha para ver quem murmurava o maior número de elogios, quem gostava do quê, quem aceitava uma segunda porção. O dr. Patel gostava da galinha cozida com uziza. Assim como o sr. Richard, embora ele nunca comesse a pele. Talvez a pele pálida da galinha o fizesse lembrar da própria pele. Para Ugwu, não havia nenhum outro motivo possível; afinal de contas, a pele era a parte mais saborosa. Mister Richard sempre dizia: “O frango estava uma delícia, Ugwu, muito obrigado” quando Ugwu aparecia para levar mais água ou para tirar alguma coisa da mesa. Às vezes, quando os outros convidados iam para a sala de estar, Mister Richard entrava na cozinha para fazer perguntas a Ugwu. Eram perguntas de fazer qualquer um rir. Se seu povo tinha esculturas ou entalhes de deuses. Se ele já tinha estado no templo à beira do rio. Mas o que mais divertia Ugwu era ver Mister Richard escrevendo as respostas num pequeno caderno de capa de couro. Alguns dias antes, quando Ugwu mencionou, assim por acaso, a festa de ori-okpa, os olhos de Mister Richard ficaram ainda mais azuis e ele disse que queria ver a festa; falou que pediria ao Patrão para deixar que fossem os dois até a cidade natal de Ugwu.
Ugwu riu ao tirar os legumes da geladeira. Não conseguia imaginar Mister Richard durante a festa ori-okpa, em que os mmuo (Mister Richard disse que eram uma espécie de mascarada, correto?, e Ugwu concordara, desde que as mascaradas significassem espíritos) marchavam pela aldeia chicoteando os jovens e perseguindo as jovens. Os próprios mmuo talvez rissem de ver um estrangeiro pálido rabiscando notas num caderno. Mas estava contente por ter mencionado a festa, porque isso significava uma oportunidade de ver Nnesinachi, antes de ela partir para o Norte. Imagine como ela ficaria impressionada quando ele chegasse no carro de um branco, dirigido pelo próprio branco! Sem dúvida dessa vez iria reparar nele; Ugwu também mal podia esperar pela oportunidade de impressionar Anulika, primos e parentes com seu inglês, sua camisa nova, seus conhecimentos sobre sanduíches e água correndo da torneira, seu talco perfumado.
Ugwu tinha acabado de lavar as verduras quando escutou a campainha. Era muito cedo para serem os amigos do Patrão. Foi até a porta, enxugando as mãos no avental. Por alguns instantes, não sabia se sua tia estava mesmo parada na porta ou se estava vendo apenas sua imagem, porque tinha acabado de lembrar de casa.
“Tia?”
“Ugwuanyi”, disse ela, “você tem que voltar para casa. Ogagi kwann? Cadê seu patrão?”
“Voltar para casa?”
“Sua mãe está bem doente.”
Ugwu examinou o lenço amarrado em volta da cabeça da tia. Dava para ver como o tecido estava ralo, todo esgarçado de tanto uso. Lembrou-se de que, quando o pai da prima morrera, a família mandara avisá-la em Lagos, dizendo que ela tinha que voltar para casa porque o pai estava muito doente. Quando você está longe de casa, eles dizem que o morto está muito doente.
“Sua mãe está doente”, repetiu a tia. “Ela está perguntando por você. Eu digo ao Patrão que você volta amanhã, assim ele não fica pensando que estamos pedindo demais. Muitos criados ficam anos sem voltar para casa, você sabe disso.”
Ugwu não se mexeu, enrolando a barra do avental em volta do dedo. Queria pedir à tia que contasse a verdade, que dissesse se a mãe estava morta. Mas a boca não conseguia formar as palavras. Sentiu medo ao se lembrar da última doença da mãe, do dia em que ela tossiu tanto que o pai saiu de madrugada para chamar o dibia, enquanto a mulher mais nova dele, Chioke, esfregava suas costas.
“O Patrão não está em casa”, disse por fim. “Mas vai voltar logo.”
“Eu espero e imploro a ele para deixar você ir para casa.”
Ele foi na frente até a cozinha, onde a tia sentou e ficou observando Ugwu fatiar um cará e depois cortar as fatias em cubos. Ele trabalhava rápido, febrilmente até. A luz do sol que entrava pela janela parecia brilhante demais para aquela hora da tarde, cheia demais de um esplendor desastroso.
“Meu pai está bem?”, perguntou Ugwu.
“Está.” A fisionomia da tia era opaca, a voz, sem inflexão: o comportamento de uma pessoa que levava mais más notícias do que as relatadas. Devia estar escondendo algo. Talvez a mãe estivesse de fato morta; quem sabe pai e mãe haviam caído fulminados logo de manhã. Ugwu continuou fatiando, num silêncio retumbante, até que o Patrão voltou, as roupas brancas do tênis emplastradas de suor nas costas. Estava sozinho. Ugwu gostaria que Olanna tivesse voltado com ele, para poder olhar em seu rosto enquanto falava.
“Bem-vindo, sah.”
“Obrigado, meu bom homem.” O Patrão colocou a raquete sobre a mesa da cozinha. “Um pouco de água, por favor. Perdi todas as partidas, hoje.”
Ugwu já estava com a água à mão, bem gelada, num copo sobre um pires.
“Boa tarde, sah”, disse a tia.
“Boa tarde”, disse o Patrão, com ar ligeiramente perplexo, como se não soubesse ao certo quem era ela. “Ah, sim. Como vai a senhora?”
Antes que ela pudesse responder, Ugwu falou: “Minha mãe está doente, sah. Por favor, sah, se eu for vê-la hoje, volto amanhã.”
“O quê?”
Ugwu repetiu o que tinha dito. O Patrão o encarou, depois encarou a panela no fogão. “Você já terminou o jantar?”
“Ainda não, sah. Mas eu termino vapt-vupt, antes de ir. Deixo a mesa posta e tudo arranjado.”
O Patrão virou-se para a tia de Ugwu. “Gini me? Qual o problema com a mãe dele?”
“Sah?”
“A senhora é surda?” E o Patrão deu uma pancada no ouvido, como se a tia não soubesse o significado de surdo. “Qual o problema com a mãe dele?”
“Sah, o peito dela está pegando fogo.”
“Peito pegando fogo?” O Patrão deu uma bufada. Tomou toda a água, depois se virou para Ugwu e falou em inglês. “Ponha uma camisa e entre no carro. Sua aldeia não fica assim tão longe. Nós voltamos a tempo.”
“Pois não, sah.” Ugwu se sentiu fragilizado, ao andar até o carro com a tia e o Patrão. Era como se as pernas fossem dois cabos de vassoura, do tipo que quebra fácil durante o harmatão. A viagem até sua aldeia foi feita quase em silêncio. Quando passavam por certas fazendas com fileiras intermináveis de milho e mandioca, como se fossem uma cabeleira muito bem trançada, o Patrão dizia: “Viram só? É nisso que o nosso governo devia se concentrar. Se nós aprendermos a tecnologia da irrigação, podemos alimentar o país todo sem o menor problema. Podemos superar essa dependência colonial das importações”.
“Sei, sah.”
“Mas, em vez disso, tudo o que os energúmenos do governo fazem é mentir e roubar. Vários dos meus alunos se juntaram ao grupo que foi até Lagos, hoje de manhã, para protestar, sabia?”
“Pois não, sah”, disse Ugwu. “Por que eles estão protestando, sah?”
“Por causa do censo. O censo foi uma bagunça, todo mundo falsificou os números. Não que Balewa vá fazer algo a respeito, porque é cúmplice, como todos os outros. Mas nós temos que erguer a voz!”
“Sei, sah”, respondeu Ugwu, e, no meio da preocupação com a mãe, sentiu uma pontinha de orgulho porque sabia que a tia estava com os olhos arregalados de espanto diante das conversas profundas que ele mantinha com o Patrão. E em inglês, ainda por cima. Pararam um pouco antes da cabana da família.
“Pegue as coisas da sua mãe rapidinho”, disse o Patrão. “Estou esperando alguns amigos de Ibadã esta noite.”
“Pois não, sah!”, disseram Ugwu e a tia, ao mesmo tempo.
Ugwu saltou do carro e ficou parado. A tia correu para a cabana e, logo depois, seu pai saiu, os olhos vermelhos, parecendo mais encurvado do que a lembrança que Ugwu tinha dele. Ajoelhou-se na terra e agarrou as pernas do Patrão. “Obrigado, sah. Que alguém possa lhe retribuir.”
O Patrão recuou e Ugwu viu o pai oscilar e quase cair para trás. “Levante-se, kunie”, disse o Patrão.
Chioke saiu da cabana. “Esta é minha outra mulher, sah!”, disse o pai, levantando-se.
Chioke cumprimentou o Patrão com ambas as mãos. “Muito obrigada, Patrão. Deje!” Correu lá para dentro e saiu com um pequeno abacaxi, que enfiou na mão do Patrão.
“Não, não”, disse o Patrão, empurrando o abacaxi de volta. “Os abacaxis daqui são muito ácidos, eles me queimam a boca.”
As crianças do povoado estavam se juntando em volta do carro, espantadas, para espiar o interior e passar a mão na carroceria azul. Ugwu afastou todo mundo de lá. Queria que Anulika estivesse em casa, assim ela entraria com ele na cabana da mãe. Gostaria que Nnesinachi aparecesse, pegasse sua mão e lhe dissesse, apaziguadora, que a doença da mãe não era muito séria, e depois o levasse até o bosque à beira do riacho, desamarrasse os panos e lhe oferecesse os seios, erguendo-os para ele. As crianças falavam alto. Algumas mulheres em volta conversavam num tom mais baixo, de braços cruzados. O pai não parava de perguntar ao Patrão se ele não queria noz-de-cola, um pouco de vinho de palma, um banco para sentar, uma água, e o Patrão a tudo dizia não, não, não. Ugwu gostaria que o pai se calasse. Aproximou-se um pouco mais da cabana e deu uma espiada. Seu olhar cruzou com o da mãe, na luz mortiça. Ela parecia ter encolhido.
“Ugwu”, disse ela. “Nno, bem-vindo.”
“Deje”, cumprimentou ele, depois se calou e ficou observando a tia ajudar a mãe a amarrar os panos em volta da cintura para sair.
Ugwu estava prestes a ajudá-la a entrar no carro quando o Patrão disse: “Dá licença, meu bom homem”. Foi ele quem ajudou sua mãe a entrar no carro e pediu que ficasse deitada no assento de trás, esticada o mais que pudesse.
Ugwu de repente desejou que o Patrão não tocasse na mãe, porque as roupas dela cheiravam a velhice e necessidade e, também, porque o Patrão não sabia que as costas dela doíam e que sua roça de inhame nunca dava o suficiente, e que seu peito de fato parecia em fogo quando tossia. Afinal, o que o Patrão sabia do que quer que fosse já que tudo o que fazia era berrar com os amigos e tomar conhaque à noite?
“Fiquem tranquilos, nós vamos mandar um recado a vocês depois que o médico tiver dado uma olhada nela”, disse o Patrão ao pai e à tia de Ugwu, antes de partir.
Ugwu evitou olhar para trás, para ver a mãe; abriu o vidro da janela e deixou que o ar soprasse barulhento nos ouvidos e o distraísse. Quando finalmente se virou para olhá-la, pouco antes de chegarem ao campus, seu coração deu uma parada ao ver os olhos fechados e os lábios frouxos. Porém seu peito subia e descia. Ela respirava. Ugwu soltou o ar lentamente e pensou em todas as noites geladas em que ela tossia sem parar, e ele ficava pregado junto às duras paredes da cabana, ouvindo o pai e Chioke pedirem a ela para tomar a beberagem.
Olanna abriu a porta, usando o avental que tinha uma mancha de óleo na frente. O seu avental. Ela beijou o Patrão. “Eu pedi ao Patel para vir até aqui”, disse ela, e depois se virou para a mãe de Ugwu. “Mama. Kedu?”
“Estou bem”, sussurrou a mãe dele. Depois olhou em volta da sala e pareceu murchar um pouco ao ver os sofás, o toca-discos, as cortinas.
“Eu vou levá-la lá para dentro”, disse Olanna. “Ugwu, por favor, termine a comida e ponha a mesa.”
“Sim, senhora.”
Na cozinha, Ugwu mexeu o caldeirão da sopa de pimenta. O caldo oleoso girava, o cheiro dos temperos subia e fazia cócegas no nariz, e os pedaços de carne e de tripa boiavam de um lado a outro. Mas Ugwu não estava prestando atenção nisso. Estava concentrado, querendo ouvir alguma coisa. Já fazia um bom tempo, tempo demais, que Olanna entrara com a mãe, e que o dr. Patel a examinava. As pimentas faziam seus olhos lacrimejarem. Lembrou que, da última vez em que a mãe tinha ficado doente de tanto tossir, começara a gritar que não sentia mais as pernas, e que o dibia dizia para ela mandar os maus espíritos embora. “Diga pra eles que ainda não chegou sua hora! Gwa ha kita! Diga pra eles agora!”, insistia o dibia.
“Ugwu!”, chamou o Patrão. Os convidados tinham chegado. Ugwu foi para a sala de estar e trabalhou mecanicamente, servindo as nozes-de-cola e a pimenta mbongo, desarrolhando garrafas, pegando mais gelo, distribuindo as tigelas fumegantes de sopa de pimenta. Depois, sentado na cozinha, remexendo nas unhas dos pés, imaginava o que estaria acontecendo no quarto. Escutou a voz alta do Patrão falando na sala. “Ninguém está dizendo que queimar propriedade do governo é uma coisa boa, mas mandar o exército para matar, em nome da ordem? Teve gente do povo tiv que caiu morta por nada. Por nada! Balewa enlouqueceu!”
Ugwu não sabia quem era essa gente tiv, mas a palavra morta o fez estremecer. “Ainda não chegou sua hora”, sussurrou ele. “Não chegou sua hora.”
“Ugwu?” Olanna estava na porta da cozinha.
Ele saltou do banco. “Patroa? Patroa?”
“Não precisa ficar preocupado com a sua mãe. O doutor Patel diz que ela está com uma infecção e que vai ficar boa.”
“Ah!” Ugwu sentiu tanto alívio que receou sair flutuando se levantasse a perna. “Obrigado, patroa!”
“Ponha o resto da sopa na geladeira.”
“Sim, senhora.” Ugwu ficou observando enquanto Olanna voltava para a sala. Os bordados em seu vestido bem justo cintilavam e, por alguns momentos, pareceu um espírito curvilíneo saído do mar.
Os convidados estavam rindo, agora. Ugwu deu uma espiada na sala. Muitos não estavam mais eretos, nas poltronas, e sim escarrapachados, amolecidos pelo álcool, sem ânimo para novas idéias. A noite terminava. As conversas iriam se suavizar e girar em torno do tênis e da música; depois os convidados se ergueriam e começariam a dar risada de coisas que não tinham graça, como da dificuldade em abrir a porta da frente ou dos morcegos voando baixo demais. Ugwu esperou até Olanna ir para o banheiro e o Patrão para o escritório, antes de ir ver a mãe, adormecida, enrodilhada feito uma criança no colchão.
De manhã, seus olhos brilhavam. “Já estou bem”, disse. “O remédio que o médico me deu é muito forte. Mas o que me mata é o cheiro.”
“Que cheiro?”
“Na boca dos dois. Senti quando sua patroa e seu patrão vieram me ver, hoje de manhã, e também quando fui à privada.”
“Ah. Aquilo é pasta de dente. Nós usamos para limpar os dentes.” Ugwu sentiu orgulho de dizer nós, para que a mãe soubesse que ele também usava.
Porém ela não se impressionou muito. Estalou os dedos e pegou seu pauzinho de mascar. “E o que tem de errado em usar um bom atu? Aquele cheiro me deu vontade de vomitar. Se eu ficar muito mais tempo aqui, não vou conseguir manter comida no estômago, por causa do cheiro.”
Mas se impressionou quando Ugwu lhe contou que estava mudando para o Alojamento dos Criados. Era como receber casa própria, toda sua. Pediu ao filho para ver o Alojamento dos Criados, e ficou maravilhada ao constatar que era maior que sua cabana, e, mais tarde, insistiu que estava bem o suficiente para ajudar na cozinha. Ele a viu curvada sobre a vassoura e lembrou-se de quando costumava dar umas palmadas no bumbum de Anulika porque ela não se abaixava direito para varrer. “Por acaso andou comendo cogumelos? Varra feito mulher!”, dizia ela, e Anulika resmungava que a vassoura era curta demais e que não tinha culpa se era todo mundo mão-de-vaca e não comprava cabos mais compridos. Ugwu de repente desejou que Anulika estivesse ali, assim como as crianças e as mulheres novidadeiras de seu umunna. Desejou que o povoado inteiro estivesse ali, assim poderia participar das conversas ao luar e das brigas, e mesmo assim continuar morando na casa do Patrão, com suas torneiras de água corrente, sua geladeira e seu fogão.
“Eu vou para casa amanhã”, disse a mãe.
“Devia ficar mais uns dias e descansar.”
“Eu vou amanhã. Vou agradecer a sua patroa e seu patrão, quando eles voltarem, e dizer que já estou boa o bastante para ir para casa. Que alguém possa retribuir a eles o que eles fizeram por mim.”
Ugwu foi com ela até o fim da rua Odim, pela manhã. Nunca tinha visto a mãe andar tão rápido, mesmo quando levava o fardo entrelaçado na cabeça, nunca tinha visto seu rosto tão liso.
“Fique bem, meu filho”, disse ela, e enfiou um pauzinho de mascar na sua mão.
No dia em que a mãe do Patrão chegou, Ugwu fez um arroz jollof apimentado. Misturou arroz branco em molho de tomate, experimentou, depois tampou e baixou o fogo. Saiu da cozinha. Jomo havia encostado o ancinho numa parede e estava sentado no degrau, chupando uma manga.
“Isso aí que você está cozinhando cheira muito bem”, disse Jomo.
“É para a mãe do meu patrão, arroz jollof com galinha frita.”
“Eu devia ter lhe dado um pouco da minha carne. Ficaria muito melhor que a galinha.” Jomo gesticulou para a sacola amarrada atrás da bicicleta. Ele já tinha mostrado a Ugwu o pequeno animal peludo, embrulhado em folhas frescas.
“Eu não posso cozinhar carne do mato, aqui!”, disse Ugwu em inglês, rindo.
Jomo virou-se para olhar para ele. “Dianyi, você agora fala inglês feito filho de professor.”
Ugwu balançou a cabeça, feliz de escutar o elogio, e mais feliz ainda porque Jomo jamais adivinharia que, sempre que a professora Oguike lhe fazia uma pergunta, aquelas crianças com pele de seda e inglês fácil zombavam da forma como pronunciava as palavras porque seu sotaque da roça era forte demais.
“O Harrison devia vir escutar inglês bem falado de alguém que não vive se vangloriando”, disse Jomo. “Ele acha que sabe tudo só porque mora com um branco. Onye nzuzu! Criatura estúpida!”
“Muito, muito estúpida!”, concordou Ugwu. Tinha sido igualmente enfático no fim de semana anterior, quando concordou com Harrison que Jomo era um tolo.
“Ontem, o bode trancou o tanque e se recusou a me dar a chave”, contou Jomo. “Ele diz que eu desperdiço água. E por acaso a água é dele? Agora, se as plantas morrerem, o que eu digo a Mister Richard?”
“Isso é muito mau.” Ugwu estalou os dedos, para mostrar o quanto a atitude era reprovável. A última disputa dos dois tinha sido porque Harrison escondera o aparador de grama e se recusara a contar a Jomo onde estava, até Jomo lavar de novo uma camisa de Mister Richard, manchada por cocô de passarinho. Eram as flores inúteis de Jomo, afinal de contas, que atraíam os passarinhos. Ugwu apoiara os dois. Dissera a Jomo que Harrison não tinha motivo para esconder o aparador de grama, e, mais tarde, dissera a Harrison que Jomo não tinha por que plantar flores ali, para começo de conversa, sabendo que elas atraíam passarinho. Ugwu preferia os modos solenes e as falsas histórias de Jomo, mas Harrison, com seu mau inglês insistente, era misteriosamente cheio de conhecimentos sobre coisas estrangeiras e diferentes. Ugwu queria aprender que coisas eram essas, de modo que mantinha amizade com ambos; tornara-se um parasita, absorvendo muito e dando pouco em troca.
“Um dia eu ainda vou ferir seriamente o Harrison, maka Chukwu”, disse Jomo. Atirou fora o caroço de manga, tão chupado que estava quase branco, sem mais nem vestígio da polpa laranja. “Tem alguém batendo na porta da frente.”
“Ah. Ela chegou! Só pode ser a mãe do Patrão.” Ugwu saiu correndo lá para dentro; mal escutou Jomo se despedir.
A mãe dele tinha o mesmo corpo maciço, a mesma pele escura e a energia vibrante do filho; era como se jamais fosse precisar de ajuda para carregar uma lata d’água ou tirar uma pilha de lenha da cabeça. Ugwu ficou surpreso ao ver a jovem com olhos baixos parada ao lado, levando a bagagem. Esperava que a mãe viesse sozinha. Também esperava que chegasse um pouco mais tarde, depois que o arroz estivesse pronto.
“Bem-vinda, Mama, nno”, disse ele. Pegou as malas da jovem. “Bem-vinda, tia, nno.”
“Você é o que se chama Ugwu? Como está?”, perguntou a mãe do Patrão, dando-lhe um tapinha no ombro.
“Muito bem, Mama. A viagem foi boa?”
“Foi. Chukwu du anyi. Deus nos trouxe.” Ela olhava para o toca-discos. Os panos de gorgorão verde pareciam rígidos em sua cintura, e os quadris davam a impressão de quadrados. Ao envergar aqueles panos, não mostrava a mesma naturalidade das mulheres do campus, mulheres acostumadas a usar contas de coral e brincos de ouro. Vestia aquilo da mesma maneira que Ugwu imaginava que sua mãe vestiria, se tivesse panos parecidos: com insegurança, como se não acreditasse que não era mais pobre.
“Como está, Ugwu?”, perguntou ela de novo.
“Estou bem, Mama.”
“Meu filho me disse que você está indo muito bem.” Ela estendeu o braço para ajustar o turbante verde que usava bem baixo na cabeça, quase cobrindo as sobrancelhas.
“Estou, Mama.” Ugwu baixou os olhos, modestamente.
“Deus o abençoe, que seu chi quebre as pedras do caminho. Ouviu bem?” Ela soava como o Patrão, com o mesmo tom sonoro e autoritário.
“Ouvi, Mama.”
“Quando é que meu filho volta?”
“Eles só voltam à noite. Disseram que a senhora devia descansar, Mama. Estou fazendo arroz e galinha.”
“Descansar?” Ela sorriu e entrou na cozinha. E começou a desempacotar mantimentos que trouxera numa sacola: peixe seco, inhame, temperos e folhas de utazi. “Pois eu não venho da roça?”, perguntou. “Este é meu descanso. Trouxe os ingredientes para fazer uma sopa de verdade para o meu filho. Sei que você se esforça, mas você é só um rapaz. O que sabe um rapaz sobre a verdadeira cozinha?” Dando um sorrisinho de viés para a moça que a acompanhava, e que estava perto da porta, braços cruzados e os olhos ainda baixos, como se aguardasse ordens, acrescentou: “Não é isso mesmo, Amala? Por acaso o lugar de um rapaz é na cozinha?”.
“Kpa, Mama, não”, disse Amala. Ela tinha uma voz estridente.
“Viu só, Ugwu? Lugar de rapaz não é na cozinha.” A mãe do Patrão parecia triunfante. Estava parada diante da bancada, já lidando com o peixe seco, tirando espinhas que pareciam agulhas.
“Pois não, Mama.” Ugwu estava surpreso que ela não tivesse pedido um copo de água ou tivesse ido lá dentro se trocar. Sentou-se num banco e esperou que ela lhe dissesse o que fazer. Era o que a mãe do Patrão queria; pressentiu isso. Ela estava olhando tudo em volta. Espiou com desconfiança o fogão, deu uma pancada na panela de pressão, tamborilou os dedos pelas panelas.
“Eh! Meu filho gasta dinheiro nessas coisas caras”, disse ela. “Está vendo só, Amala?”
“Estou, Mama”, disse Amala.
“Essas coisas pertencem a minha patroa, Mama. Ela trouxe muitas coisas de Lagos”, disse Ugwu. Estava irritado — com o fato de ela presumir que era tudo do Patrão, com o fato de ter assumido a cozinha, e de ter ignorado seu impecável arroz jollof com galinha.
A mãe do Patrão não respondeu. “Amala, venha preparar os inhames”, disse.
“Pois não, Mama.” Amala pôs os inhames numa panela e, depois, olhou, sem saber o que fazer, para o fogão.
“Ugwu, acenda o fogo para ela. Nós somos gente de aldeia, que só conhece lenha!”, disse ela com uma risada curta.
Nem Ugwu nem Amala riram. Ugwu ligou o fogo. A mãe do Patrão atirou um pedaço de peixe seco na boca. “Ponha água para ferver, Ugwu, e depois corte essas folhas de ugu para a sopa.”
“Pois não, Mama.”
“Tem alguma faca afiada nesta casa?”
“Tem, Mama.”
“Então use e corte muito bem o ugu.”
“Pois não, Mama.”
Ugwu acomodou-se diante de uma tábua de cortar. Sabia que estava sendo vigiado. Quando começou a picar as folhas fibrosas da abóbora, ela berrou: “Ei! Ei! É assim que você corta ugu? Alu melu! Pica mais miudinho! Do jeito como está fazendo, é melhor fazer a sopa com as folhas inteiras”.
“Pois não, Mama.” Ugwu começou a picar as folhas em tiras tão finas que elas iriam se romper dentro do caldo quente.
“Assim está melhor”, disse a mãe do Patrão. “Viu por que os rapazes não têm nada o que fazer na cozinha? Você não sabe nem picar ugu direito.”
Ugwu queria dizer, Claro que eu pico ugu muito bem. Eu faço muitas coisas na cozinha bem melhor que a senhora, mas, em vez disso, falou: “Minha patroa e eu não cortamos legumes com a faca, nós rasgamos com a mão, porque assim eles conservam melhor os nutrientes”.
“Sua patroa?” A mãe do Patrão se calou. Era como se ela quisesse dizer algo, mas se conteve. O vapor da água permeava o ar. “Mostre o pilão para Amala para ela poder socar os inhames.”
“Pois não, Mama.” Ugwu tirou o pilão de madeira de baixo da mesa e estava passando uma água nele quando Olanna chegou. Ela apareceu na porta da cozinha; o vestido era elegante, o sorriso, iluminado.
“Mama!”, disse ela. “Bem-vinda, nno. Eu sou Olanna. Fez boa viagem?” Ela estendeu os braços para a mãe do Patrão. Aproximou-se para envolvê-la num abraço, mas a outra manteve as mãos na lateral do corpo e não devolveu o abraço.
“Foi, nossa viagem foi boa”, disse ela.
“Boa tarde”, disse Amala.
“Bem-vinda.” Olanna deu um abraço rápido em Amala, antes de se virar para a mãe do Patrão. “Ela é parente de Odenigbo, Mama?”
“Ela me ajuda na casa”, disse a mãe do Patrão. Tinha dado as costas para Olanna e mexia a sopa.
“Mama, venha, vamos sentar. Bia nodu ana. Não se incomode com a comida. Devia descansar. Deixa que o Ugwu faz tudo.”
“Eu quero fazer uma boa sopa para o meu filho.”
Houve uma ligeira pausa, antes de Olanna dizer: “Claro, Mama”. O ibo dela tinha escorregado para o dialeto que Ugwu escutara do Patrão, quando os primos apareceram para visitá-lo. Olanna deu umas voltas pela cozinha, como se ansiosa para fazer algo que agradasse a mãe, mas sem saber direito o quê. Abriu a panela de arroz e fechou-a. “Pelo menos me deixe ajudá-la, Mama. Vou trocar de roupa.”
“Fiquei sabendo que você não mamou no seio da sua mãe”, disse a mãe do Patrão.
Olanna parou onde estava. “O quê?”
“Dizem que você não mamou nos seios da sua mãe.” Virando-se para olhar Olanna de frente, continuou: “Por favor, volte e diga a elas que você não conseguiu achar meu filho. Diga às suas companheiras bruxas que não encontrou com ele”.
Olanna olhou-a perplexa. A voz da mãe subiu de tom, como se o continuado silêncio de Olanna a obrigasse a gritar. “Você me ouviu? Diga a elas que remédio nenhum vai funcionar com o meu filho. Ele não vai se casar jamais com uma mulher anormal, a menos que me mate antes. Só sobre o meu cadáver!” A mãe do Patrão bateu as mãos, soltou uma espécie de pio e estapeou a boca com a palma da mão, para que o som ecoasse.
“Mama...”, disse Olanna.
“Não me venha com mama isso, mama aquilo”, disse a outra. “Eu já disse, não me venha com mama isso e aquilo. Me deixe sossegada. Diga a suas companheiras bruxas que você não encontrou o meu filho!” Ela abriu a porta dos fundos e gritou. “Vizinhos! Tem uma bruxa na casa do meu filho! Vizinhos!” A voz dela era aguda. A vontade de Ugwu era pôr-lhe uma mordaça, era enfiar os legumes fatiados na sua boca. A sopa queimava.
“Patroa? A senhora não quer ficar na sala?”, perguntou ele, aproximando-se de Olanna.
Olanna pelo visto se controlou. Pôs uma trança atrás da orelha, apanhou sua bolsa da mesa e foi para a porta da frente. “Diga a seu patrão que fui para o meu apartamento”, disse ela.
Ugwu seguiu-a e viu quando ela entrou no carro e se foi. Sem acenar. O jardim ficou silencioso; não havia borboletas esvoaçando entre as flores brancas. De volta à cozinha, Ugwu se surpreendeu ao ver a mãe do Patrão cantando uma música religiosa docemente melódica: Nya nya oya um gaana. Na m metu onu uwe ya aka...
Ela parou de cantar e limpou a garganta. “Para onde foi aquela mulher?”
“Não sei. Mama”, disse Ugwu. Foi até a pia e começou a guardar os pratos limpos. Detestou o aroma forte que a sopa soltava por toda a cozinha; a primeira coisa que faria, depois que ela se fosse, seria lavar as cortinas, porque aquele cheiro ia ficar impregnado no tecido.
“Foi por isso que eu vim. Eles dizem que ela controla o meu filho”, disse ela, mexendo a sopa. “Não me espanta que meu filho ainda não tenha se casado, ao passo que os colegas estão já contando quantos filhos têm. Ela usou bruxaria para segurá-lo. Ouvi dizer que o pai dela veio de uma família de mendigos preguiçosos de Umunnachi, até que conseguiu emprego de coletor de impostos e passou a roubar de gente que trabalha duro. Agora já abriu uma porção de negócios e anda por Lagos como se fosse um bambambã. E a mãe é a mesma coisa. Que mulher põe um filho no mundo e não lhe dá de mamar, se está viva e bem? Por acaso isso é normal, gbo, Amala?”
“Não, Mama.” Os olhos de Amala estavam focados no chão, como se estivesse fazendo desenhos nele.
“Eu soube que o tempo todo, quando ela era criança, sempre houve uma empregada para limpar o ike, depois que ela terminava de cagar. E, para completar, os pais mandaram ela estudar na faculdade. Por quê? Muito estudo acaba com qualquer mulher, todo mundo sabe disso. Faz ela ficar com a cabeça inchada e aí começa a insultar o marido. Que tipo de mulher ela vai ser, me diga?” A mãe do Patrão ergueu uma ponta dos panos para enxugar o suor da testa. “Essas moças que fazem faculdade vão atrás dos homens até ficarem com o corpo inútil. Ninguém sabe se ainda podem ter filhos. Você por acaso sabe? Por acaso alguém sabe?”
“Não, Mama”, disse Amala.
“Por acaso alguém sabe, Ugwu?”
Ugwu fez bastante barulho com o prato que estava guardando e fingiu não ter ouvido. Ela se aproximou e bateu em seu ombro.
“Não se preocupe, meu filho vai achar uma boa mulher e não vai mandar você embora depois de casar.”
Talvez, se concordasse com tudo, ela ficaria exausta mais rápido e calaria a boca. “Pois não, Mama”, disse.
“Eu sei como meu filho deu duro para chegar aonde chegou. E tudo isso não é para ser desperdiçado com uma perdida.”
“Não, Mama.”
“Eu não me importo de onde venha a mulher com quem meu filho vai se casar. Não sou daquele tipo de mãe que vive tentando encontrar mulher para os filhos na própria aldeia. Mas não quero uma mulher wawa, nem nenhuma daquelas mulheres imo ou aro, claro; elas falam um dialeto tão estranho que eu me pergunto quem disse a elas que somos todos do povo ibo.”
“Pois não, Mama.”
“Não vou deixar que essa bruxa continue controlando meu filho. Ela não vai conseguir. Vou consultar o dibia Nwafor Agbada, quando voltar para casa; os remédios dele são famosos lá nas minhas bandas.”
Ugwu parou. Conhecia muitas histórias de gente que havia usado remédio do dibia: a primeira esposa sem filhos que deu um nó no útero da segunda esposa, a mulher que fez o próspero filho de uma vizinha enlouquecer, o homem que matou o irmão por causa de uma disputa de terras. Talvez a mãe do Patrão resolvesse dar um nó no útero de Olanna, ou aleijá-la, ou, mais assustador ainda, matá-la.
“Estou indo, Mama. Meu Patrão me mandou ir ao quiosque”, disse Ugwu, saindo às pressas pela porta dos fundos antes que ela dissesse qualquer coisa. Tinha de conversar sobre isso com o Patrão. Já fora até a faculdade uma vez, no carro de Olanna, num dia em que ela havia parado no departamento dele para pegar alguma coisa, e estava certo de que poderia achar o prédio de novo. Ficava perto do zoológico, e sua turma havia visitado o zoológico fazia pouco tempo, numa fila única, liderada pela professora Oguike, com ele atrás de todo mundo, por ser o mais alto.
Na esquina da rua Mbanefo, viu o carro do Patrão vindo na sua direção. O carro parou.
“Este não é o caminho do mercado, é, meu bom homem?”, perguntou o Patrão.
“Não, sah. Eu estava indo falar com o senhor.”
“Minha mãe chegou?”
“Chegou, sah. Sah, aconteceu uma coisa.”
“O quê?”
Ugwu contou sobre os acontecimentos da tarde, relatando rapidamente as palavras das duas mulheres, e terminou com a mais horrível das notícias: “Mama disse que vai falar com o dibia, sah”.
“Quanta besteira. Ngwa, entre no carro. Acho melhor você voltar comigo.”
Ugwu chocou-se ao ver que o Patrão não tinha ficado chocado, que ele não tinha entendido a gravidade da situação, por isso acrescentou: “Foi muito mau, sah. Muito mau. Mama quase estapeou a patroa”.
“O quê? Ela estapeou Olanna?”, perguntou o Patrão.
“Não, sah.” Ugwu fez um silêncio; talvez tivesse ido longe demais. “Mas bem que parecia que ela queria estapear”.
O rosto do Patrão relaxou. “Ela nunca foi lá muito razoável, de qualquer modo”, disse ele, em inglês, abanando a cabeça. “Vamos entre, vamos embora.”
Porém Ugwu não queria entrar no carro. Queria que o Patrão fizesse a manobra e fosse direto para o apartamento de Olanna. Sua vida estava organizada, segura, e a mãe do Patrão teria de parar de embaralhar as coisas; o primeiro passo era o Patrão ir aplacar Olanna.
“Entre no carro”, repetiu o Patrão, estendendo o braço até a outra porta para se certificar de que estava destrancada.
“Mas, sah. Eu achava que o senhor ia ver minha patroa.”
“Entra, seu energúmeno!”
Ugwu abriu a porta, entrou e o Patrão seguiu para a rua Odim.
* Do poema “The pied piper of Hamelin”, de Robert Browning (1812-89). Tradução de Alípio Correia de Franca Neto