Meio Sol Amarelo
Capítulo 33
Richard havia sentado ao lado de Kainene e massageava seu ombro, enquanto ela ria de algo que Olanna dizia. Adorava o jeito como o pescoço dela parecia mais longo quando ela jogava a cabeça para trás e ria. Adorava as noites passadas com ela, Olanna e Odenigbo; lembrava-se da sala parcamente iluminada de Odenigbo, em Nsukka, do gosto que a cerveja tinha em sua língua forrada de pimenta. Kainene estendeu o braço para o pratinho esmaltado de grilos assados, a nova especialidade de Harrison; ele pelo visto sabia exatamente onde cavar para encontrá-los na terra ressequida e onde quebrá-los, depois de assados, para que parecesse haver mais do que havia. Kainene pôs um pedaço na boca. Richard pegou dois pedaços e mastigou lentamente. Estava escurecendo e os cajueiros tinham se transformado em silhuetas cinzentas. Uma névoa de poeira pairava sobre todos eles.
“Qual a explicação que você dá para o sucesso da missão do homem branco na África, Richard?”, perguntou Odenigbo.
“O sucesso?” Odenigbo o irritava com aquele seu jeito de ficar ensimesmado durante longos momentos e, de repente, dizer ou perguntar algo inesperado.
“Exato, o sucesso. Eu penso em inglês”, disse Odenigbo.
“Talvez você devesse primeiro explicar por que o homem negro não conseguiu conter a missão do homem branco”, disse Kainene.
“Quem é que trouxe o racismo para o mundo?”, perguntou Odenigbo.
“Não estou entendendo a questão”, disse Kainene.
“O branco trouxe o racismo para o mundo. Usou-o como base para suas conquistas. É sempre mais fácil conquistar um povo mais humano.”
“Quer dizer que, quando conquistarmos a Nigéria, nós seremos os menos humanos?”, perguntou Kainene.
Odenigbo não disse nada. Algo farfalhou perto dos cajueiros e Harrison, com um salto, foi ver se pegava algum preá.
“Inatimi me deu algumas moedas nigerianas”, disse Kainene, por fim. “Vocês sabem que aquela gente da Organização dos Freedom Fighters de Biafra tem um bocado de dinheiro nigeriano. Estou querendo ir até a zona da Ninth Mile ver o que consigo comprar lá, e, se for tudo bem, vou tentar vender as coisas que os refugiados têm feito.”
“Isso seria negociar com o inimigo”, disse Odenigbo.
“Isso é negociar com mulheres nigerianas analfabetas que têm o que precisamos.”
“É perigoso, Kainene”, disse Odenigbo; a suavidade na voz dele espantou Richard.
“O setor é livre”, disse Olanna. “Nossa gente negocia livremente por lá.”
“Você também vai?” A surpresa erguera o tom da voz de Odenigbo, ao olhar para Olanna.
“Não. Pelo menos não amanhã. Quem sabe da próxima vez.”
“Amanhã?” Era a vez de Richard ficar surpreso. Kainene havia mencionado uma vez sua vontade de negociar para além das linhas inimigas, mas não sabia que ela decidira assim tão rápido quando ir.
“É, Kainene está indo amanhã”, disse Olanna.
“Verdade”, disse Kainene. “Mas não se preocupem com Olanna, ela não virá comigo. Sempre teve um medo tremendo de empreendimentos livres e honestos.” Kainene riu e Olanna também, dando-lhe um tapinha no braço; Richard viu semelhança na curva do lábio das duas, no formato dos dentes levemente maiores da frente.
“A estrada de Ninth Mile já não foi ocupada algumas vezes, antes?”, perguntou Odenigbo. “Eu não acho que você deva ir.”
“Está tudo decidido. Eu parto com Inatimi amanhã bem cedo e à noite já estaremos de volta”, disse Kainene, com aquela determinação no tom de voz que Richard conhecia tão bem. Porém, ele não se opunha à viagem; conhecia várias pessoas que faziam o que ela queria fazer.
Nessa noite, sonhou que ela voltava com uma cesta repleta de frango cozido em ervas aromáticas, arroz jollof e uma sopa grossa de peixe, o que o deixou irritado quando acordou com vozes alteradas bem na frente da janela. Relutou em largar o sonho. Kainene também tinha acordado e saíram os dois, Kainene com os panos amarrados no peito e ele de short. O dia amanhecia. A luz era pouca. Um pequeno bando de refugiados batia e chutava um rapaz, agachado no chão, as mãos protegendo a cabeça dos socos e pontapés. A calça do rapaz estava toda esburacada e o colarinho tinha sido quase arrancado, mas o meio sol amarelo continuava pregado na manga rasgada. “O que foi?”, perguntou Kainene. “O que foi?”
Antes que qualquer um falasse, Richard entendeu tudo. O soldado andara roubando a plantação deles. Isso acontecia por toda parte, agora, plantações invadidas à noite e esbulhadas de um milho tão tenro que ainda não tinha formado os grãos direito, e de carás tão novinhos que não tinham nem o tamanho de um inhame.
“Está vendo agora por que tudo que a gente planta não vai adiante?”, disse uma mulher cujo filho morrera uma semana antes. Os panos estavam amarrados bem baixo, expondo a parte de cima dos seios caídos. “Gente como esse ladrão aí vem e colhe tudo, para que a gente morra de fome.”
“Parem!”, disse Kainene. “Parem agora! Deixem o homem em paz!”
“Está nos dizendo para soltar o ladrão? Se a gente soltar esse aqui hoje, amanhã aparecem dez.”
“Ele não é um ladrão”, disse Kainene. “Estão me ouvindo? Ele não é um ladrão. É um soldado com fome.”
O bando ficou imóvel diante da calma autoridade na voz de Kainene. Aos poucos, foram voltando para as salas de aula. O soldado se levantou e tirou um pouco do pó.
“Você veio do front?”, perguntou Kainene.
Ele acenou com a cabeça. Parecia ter uns dezoito anos. Havia dois galos enormes, um de cada lado da testa, e o sangue pingava do nariz.
“Está fugindo? I na-agba oso? Você desertou?”, perguntou Kainene.
Ele não respondeu.
“Venha. Venha e coma um pouco de garri antes de ir”, disse Kainene.
As lágrimas escorriam do olho esquerdo inchado e ele pôs a palma da mão sobre ele, enquanto seguia Kainene. Não disse nada, só resmungou “Dalu — obrigado”, antes de partir, agarrado a um pequeno saco de gani. Kainene não falou mais nada, enquanto se vestia para ir ao encontro de Inatimi, no centro de refugiados.
“Você vai sair cedo, não vai, Richard?”, perguntou ela. “Aqueles bambambãs talvez fiquem no gabinete uma meia hora, hoje.”
“Vou sair dentro de uma hora.” Estava indo a Ahiara para tentar obter algumas provisões nos centros de auxílio.
“Diga a eles que estou morrendo e que precisamos desesperadamente de leite e de carne enlatada para que eu continue viva”, disse ela. Havia um novo tom de amargura em sua voz.
“Eu digo. E boa viagem para você. Ije ome. Volte com muito garri e um pouco de sal.”
Beijaram-se, um breve comprimir dos lábios, antes que ela partisse. Richard sabia que ver aquele jovem e patético soldado a deixara de mau humor, como também sabia que Kainene não achava que o rapaz fosse o motivo do fracasso das colheitas. As colheitas se extinguiam porque a terra era muito pobre, o harmatão, muito feroz, porque não havia adubo para pôr na terra, nem nada para plantar, e porque, quando conseguia achar algum cará, o povo comia metade, antes de plantar o que sobrava. Richard gostaria de poder estender a mão, torcer o céu e trazer a vitória para Biafra imediatamente. Por ela.
Kainene ainda não tinha voltado quando ele chegou de Ahiara, à noite. A sala cheirava a óleo de dendê alvejado e o cheiro vinha da cozinha; Baby estava deitada numa esteira, olhando as páginas do livro Eze goes to school.
“Me leva no ombro, tio Richard”, disse Baby, correndo para ele. Richard fingiu que tentava pegá-la, mas, de repente, despencou numa cadeira.
“Você está uma moça grande, agora, Baby. Está muito pesada para ser carregada.”
“Não!”
Olanna estava parada na porta da cozinha, vendo os dois. “Você sabe que Baby ficou muito mais sábia, com a idade, mas não cresceu nem um pouco desde o começo da guerra?”
Richard sorriu. “Melhor sabedoria que altura”, disse ele, e ela também sorriu. Ele percebia como haviam falado pouco um com o outro, como sempre evitavam ficar sozinhos.
“Teve sorte em Ahiara?”, perguntou Olanna.
“Não. Tentei por toda parte. Os centros de assistência estão vazios. Vi um homem adulto sentado no chão, na frente de um dos prédios, chupando o dedo”, disse ele.
“E o pessoal que você conhece nos diretórios?”
“Eles dizem que não temos mais nada e que a nossa ênfase agora é a autossuficiência e a agricultura.”
“Plantar o quê, com o quê? E como é que vamos alimentar milhões de pessoas com esse território minúsculo que temos agora?”
Richard olhou para ela. Mesmo a menor sugestão de crítica a Biafra provocava mal-estar nele. Preocupações haviam se entranhado nas fendas da mente, desde a queda de Umuahia, mas ele não ventilava nenhuma delas.
“Kainene está com os refugiados?”, perguntou ele.
Olanna enxugou a testa. “Acho que sim. Ela e Inatimi já devem ter voltado.”
Richard saiu para brincar com Baby. Ele a pôs nos ombros para que ela pudesse agarrar uma folha do cajueiro, depois a desceu ao chão, pensando em como era pequena, em como era leve, para uma menina de seis anos. Desenhou algumas linhas no chão, pediu a ela para apanhar algumas pedras e tentou ensiná-la a jogar nchokolo. Ficou vendo a menina tirar e arrumar os pedaços de metal pontudo de uma lata: sua coleção de estilhaços. Kainene não havia voltado, uma hora depois. Richard levou Baby até o campo. Kainene não estava sentada na escada, na frente do Ponto Sem Volta, como às vezes fazia. Não estava na enfermaria. Não estava em nenhuma das salas de aula. Richard viu Ugwu debaixo do pau-de-fogo, escrevendo num pedaço de papel.
“Tia Kainene não voltou ainda”, disse Ugwu, antes que Richard perguntasse.
“Tem certeza de que ela não veio e depois saiu para ir a algum outro lugar?”
“Tenho, sah. Mas espero que já, já ela esteja aqui.”
Richard achou divertida a precisão formal com que Ugwu disse espero; admirava a ambição de Ugwu e sua nova mania de rabiscar em tudo quanto é papel que conseguisse encontrar. Uma vez, tentara descobrir onde é que Ugwu deixava seus papéis, para poder dar uma olhada, mas não achou nada. Estava tudo enfiado nos bolsos do seu calção, muito provavelmente.
“O que está escrevendo agora?”, perguntou.
“Uma coisa pequena, sah”, disse Ugwu.
“Eu quero ficar com Ugwu”, disse Baby.
“Certo, Baby.” Richard sabia que ela iria correndo até uma das salas de aula encontrar outras crianças, para saírem caçando lagartos ou grilos. Ou iria à cata do pretenso miliciano que usava uma faca em volta da cintura e perguntava se ela queria segurá-la. Richard voltou para casa. Odenigbo acabara de chegar do trabalho e, naquele sol brilhante de fim de tarde, Richard viu os pêlos crespos que ele tinha no peito, tão gasto estava o tecido de sua camisa.
“Kainene já voltou?”, perguntou Odenigbo.
“Ainda não.”
Odenigbo lhe deu um longo olhar acusador, antes de entrar para trocar de roupa. Voltou com os panos enrolados em volta do corpo e amarrados atrás do pescoço, e sentou-se com Richard na sala. Pela rádio, Sua Excelência anunciava que iria viajar ao exterior em busca da paz.
De acordo com minhas freqüentes declarações de que eu iria pessoalmente a qualquer lugar
do mundo para garantir a paz e a segurança de meu povo, vou agora viajar para fora de
Biafra para explorar...
O sol ia se pondo quando Ugwu e Baby voltaram para casa.
“Aquela menininha, Nneka, acabou de morrer, mas a mãe dela se recusa a deixar que levem o corpo para enterrar”, disse Ugwu, depois dos cumprimentos.
“Kainene está lá?”, perguntou Richard.
“Não”, disse Ugwu.
Odenigbo e Richard levantaram e foram juntos até o centro de refugiados. Nada disseram um ao outro. Havia uma mulher gemendo numa das salas de aula. Fizeram perguntas e todos disseram a mesma coisa: Kainene havia saído com Inatimi logo cedo. Disse a eles que estava indo fazer um ataque afia, que iria negociar dentro das linhas inimigas, e que estaria de volta no final da tarde.
Passou-se um dia, depois um segundo dia. Tudo continuava igual, a secura no ar, os ventos empoeirados, os refugiados capinando a terra ressecada, mas Kainene não voltou. Richard sentia-se rolando num túnel, sentia o peso sendo sugado do corpo, hora após hora. Odenigbo lhe disse que Kainene provavelmente ficara detida do outro lado e que esperava a partida dos vândalos para poder voltar para casa. Olanna falou que esse tipo de atraso ocorria o tempo todo, com mulheres que faziam comércio em terras inimigas. Mas havia, no olhar de Olanna, um medo furtivo. Até Odenigbo parecia receoso quando disse que não iria com eles procurar Kainene, porque sabia que ela voltaria para casa; era como se tivesse medo do que poderiam descobrir. Olanna foi no carro de Richard para Ninth Mile. Viajavam em silêncio, mas quando ele parava para perguntar às pessoas na estrada se por acaso não tinham visto alguém como Kainene, ela repetia: “O tolu ogo, di ezigbo oji”, como se, ao repetir o que Richard tinha acabado de dizer — que Kainene era alta e tinha a pele muito escura —, fosse avivar a memória das pessoas. Richard lhes mostrava uma foto dela. Às vezes, na pressa, puxava a foto do vaso de cordas, em vez do retrato dela. Ninguém vira Kainene. Ninguém vira um carro parecido com o de Inatimi. Chegaram inclusive a perguntar aos soldados biafrenses, os mesmos que disseram que não poderiam seguir em frente porque as estradas estavam ocupadas. Os soldados balançaram a cabeça e disseram que não tinham visto Kainene. Na volta, Richard começou a chorar.
“Por que esse choro todo?”, perguntou Olanna, com rispidez. “Kainene só ficou presa do outro lado por alguns dias.”
As lágrimas de Richard o deixaram cego. O carro saiu da estrada e guinchou ao entrar na densa vegetação rasteira da mata.
“Pare! Pare!”, disse Olanna.
Ele parou, ela pegou a chave do contato, deu a volta, abriu a porta de Richard e tomou a direção. Voltou cantarolando sem parar, numa voz bem baixinha.