Meio Sol Amarelo
Capítulo 18
Ugwu foi o primeiro a ver gente marchando pela estrada de terra que cortava Abba. Arrastavam suas cabras, levavam carás e caixotes na cabeça, galinhas e esteiras enroladas debaixo do braço, lamparinas a querosene nas mãos. As crianças levavam pequenas bacias ou puxavam crianças ainda menores pela mão. Ugwu os viu passar, alguns calados, outros falando em voz alta; muitos deles, sabia, sem saber para onde estavam indo.
O Patrão voltou antes do previsto de uma reunião realizada à tarde. “Nós partimos para Umuahia amanhã”, disse ele. “Já íamos para lá, de todo modo. Só estamos partindo uma semana ou duas mais cedo.” Odenigbo falava depressa demais, olhando um ponto ao longe. Ugwu se perguntou se o Patrão se comportava assim porque não queria aceitar o fato de que sua cidade natal estava prestes a cair, ou se era porque Olanna não estava falando com ele. Ugwu não sabia o que acontecera entre os dois, mas, fosse o que fosse, tinha ocorrido depois da reunião da aldeia, na praça. Olanna voltara num estranho silêncio. Falava de forma mecânica. Não ria. Deixou que ele tomasse todas as decisões sobre a comida e sobre Baby, e passou a maior parte do tempo na cadeira de pau, na varanda. Uma vez, Ugwu viu Olanna andar até a goiabeira para acariciar seu tronco e disse a si mesmo que daria mais um minuto antes de ir tirá-la de lá, antes que os vizinhos começassem a dizer que ela enlouquecera. Mas Olanna não ficou muito tempo. Virou-se em silêncio e voltou a sentar na varanda.
E parecia tão calada quanto antes. “Por favor, Ugwu, faça as nossas malas e pegue toda a comida que temos.”
“Pois não, mah.”
Ele fez as malas rapidamente — não havia muita coisa que guardar, não era como em Nsukka, onde tinha ficado tão paralisado com as muitas escolhas que acabara levando pouca coisa. Pôs tudo no carro bem cedo, na manhã seguinte, e depois deu uma repassada na casa, para ver se não havia esquecido nada. Olanna já tinha empacotado os álbuns. E dera banho em Baby. Ficaram ao lado do carro, enquanto o Patrão conferia o óleo e a água. Na rua, as pessoas passavam em grandes grupos.
O portão de madeira no muro de barro, atrás da casa, abriu-se com um rangido e Aniekwena entrou no compound. Era primo do Patrão. Ugwu não gostava do trejeito na boca de Aniekwena; ele sempre aparecia para visitar na hora das refeições e, quando Olanna o convidava a se unir a eles “para levar as mãos à boca”, fazia um “Ó! Ó!”, de surpresa exagerada. Mas parecia sombrio, agora. Atrás dele, vinha a mãe do Patrão.
“Estamos prontos para ir, Odenigbo, mas sua mãe se recusa a fazer a mala e partir”, disse Aniekwena.
O Patrão fechou o capô. “Mama, eu achei que nós tínhamos concordado que a senhora iria para Uke.”
“Ekwuzikwananu nofu! Não diga isso! Você me falou que nós tínhamos que fugir e que era melhor eu ir para Uke. Mas por acaso ouviu eu concordar com isso? Por acaso eu disse ‘sim’ a você?”
“Então quer ir para Umuahia conosco?”, perguntou o Patrão.
Mama olhou para o carro, lotado de coisas. “Mas por que você está fugindo? E para onde está fugindo? Está ouvindo algum barulho de tiro?”
“As pessoas estão fugindo de Abagana e Ukpo, o que significa que os soldados hauçás estão perto e logo vão entrar em Abba.”
“Você não escutou nosso dibia dizer que Abba nunca foi conquistada? De quem é que estou fugindo, e da minha própria casa? Alu melu! Sabe que seu pai está nos xingando por isso?”
“Mama, a senhora não pode ficar aqui. Não vai ficar ninguém em Abba.”
Ela olhou, franzindo a vista, concentrada, como se procurar uma vagem madura na noz-de-cola fosse mais importante que as palavras do Patrão. Olanna abriu a porta do carro e pediu para Baby ir atrás.
“As notícias não são boas. Os soldados hauçás estão se aproximando”, disse Aniekwena. “Eu vou para Uke. Mande um recado para nós quando chegar a Umuahia.” Virou-se e começou a se afastar.
“Mama!”, gritou o Patrão. “Vá buscar suas coisas agora!”
A mãe continuou olhando para os galhos da noz-de-cola. “Eu vou ficar e cuidar da casa. Depois de fugir, vocês vão voltar. E eu vou estar aqui, à espera. De quem é que estou fugindo e da minha própria casa, gbo?”
“Talvez fosse uma idéia melhor falar com ela delicadamente, em vez de erguer a voz desse jeito”, disse Olanna, em inglês. Seu tom de voz era muito formal, os sons curtos e separados. A primeira e última vez que Ugwu ouvira Olanna falar desse jeito com o Patrão fora durante os meses que antecederam o nascimento de Baby.
A mãe do Patrão olhava desconfiada para os dois, como se estivesse certa de que Olanna a ofendera em inglês.
“Mama, a senhora não vem conosco?”, perguntou o Patrão. “Biko. Por favor, venha conosco.”
“Me dá a chave da sua casa. Eu posso precisar de alguma coisa que esteja aí.”
“Por favor, venha conosco.”
“Me dá a chave.”
O Patrão olhou em silêncio para ela, e em seguida lhe entregou um molho de chaves. “Por favor, venha conosco”, disse ele de novo, mas a mãe não respondeu e amarrou as chaves numa ponta dos panos.
O Patrão entrou no carro. Ao se afastar, olhou várias vezes para trás, para olhar a mãe, talvez para ver se ela havia mudado de idéia e correra para alcançar Aniekwena, ou se estava acenando para ele parar. Mas ela não se mexeu. Ficou ali parada, sem acenar. Ugwu a viu também, até que viraram na rua de terra. Como é que ela poderia ficar ali sozinha, sem a presença dos parentes todos? Se todo mundo em Abba estava saindo, como ela iria comer, se não existiria mercado?
Olanna tocou no ombro do Patrão. “Ela vai ficar bem. Os soldados federais não vão ficar em Abba, se conseguirem passar.”
“Verdade”, disse o Patrão. Depois inclinou-se e a beijou na boca, e Ugwu sentiu um alívio animador de que estivessem falando normalmente de novo. O fluxo de refugiados estava diminuindo.
“O professor Achara encontrou uma casa para nós, em Umuahia”, disse o Patrão, com uma voz alta demais, alegre demais. “Alguns velhos amigos já foram para lá, e tudo logo vai voltar ao normal. Tudo vai voltar a ser perfeitamente normal!”
Como Olanna continuasse calada, Ugwu disse: “Pois é, sah”.
Não havia nada normal sobre a casa. O teto de sapê e as paredes sem pintura e rachadas incomodavam Ugwu, mas não tanto como a latrina cavernosa, apenas um buraco no chão, numa casinha do lado de fora, com uma folha de zinco enferrujada por cima, para manter as moscas longe. Baby ficou aterrada. A primeira vez que usou a latrina, Ugwu teve que ficar segurando, enquanto Olanna tentava persuadi-la. Baby chorou um bom tempo. Chorou muito, durante os dias seguintes, como se também ela considerasse aquela casa indigna do Patrão, um terreno feio, um capim que pinicava, blocos de concreto empilhados nos cantos, e as casas dos vizinhos próximas demais, tão perto que era possível sentir o cheiro das comidas gordurosas e ouvir os filhos chorando. Ugwu tinha certeza de que o professor Achara enganara o Patrão, para ele alugar aquela casa; havia um quê de astúcia nos olhos saltados do homem. Além disso, a casa do professor ficava um pouco mais abaixo, e era grande e pintada com um branco deslumbrante.
“Esta não é uma boa casa, mah”, disse Ugwu.
Olanna riu. “Olha só pra você. Você não sabia que tem muita gente dividindo uma casa, agora? A escassez é enorme. E aqui estamos nós, com dois quartos, uma cozinha, uma sala de estar e uma sala de jantar. Temos sorte de conhecer alguém que nasceu aqui em Umuahia.”
Ugwu não disse mais nada. Mas gostaria que ela não estivesse tão satisfeita com isso.
“Nós decidimos fazer o casamento no mês que vem”, contou-lhe Olanna, alguns dias depois. “Vai ter pouca gente, e a festinha vai ser aqui mesmo.”
O choque foi grande para Ugwu. Ele imaginara perfeição absoluta para o casamento deles, a casa de Nsukka toda decorada para a festa, a toalha de mesa engomada forrada de pratos. Seria melhor se eles esperassem a guerra acabar, em vez de se casar nessa casa de aposentos sombrios e cozinha cheirando a mofo.
Nem mesmo o Patrão parecia se importar com o estado da casa. Ele voltava do diretório, à noite, e sentava lá fora, ouvindo satisfeito a Rádio Biafra e a BBC, como se a varanda não tivesse o chão cheio de barro incrustado, como se o banco de madeira nua que havia ali fosse o sofá acolchoado que tinha em Nsukka. Os amigos começaram a aparecer, com o correr das semanas. Às vezes, o Patrão ia com eles até o bar do Sol Nascente, ali perto. Em outras, sentava com eles na varanda e conversava. Essas visitas faziam Ugwu superar as indignidades da casa. Ele não servia mais sopa de pimenta, nem drinques, mas podia ouvir o sobe-e-desce das vozes, as risadas, a cantoria, o berreiro do Patrão. A vida chegou perto de ser quase como era em Nsukka, pouco depois da secessão; a esperança bailava em volta de novo.
Ugwu gostava de Special Julius, que usava túnicas bordadas com lantejoulas até a altura dos joelhos, era fornecedor do exército e levava cerveja Golden Guinea, garrafas de uísque White Horse e, às vezes, gasolina num galão preto; foi Special Julius, também, que sugeriu ao Patrão espalhar folhas de palmeira sobre o carro, como camuflagem, e a pintar os faróis traseiros de piche.
“É muito improvável que a gente sofra algum ataque aéreo, mas a vigilância deve ser a nossa palavra de ordem!”, disse o Patrão, segurando o pincel na mão. Um pouco do piche escorrera pelo pára-choque, estragando a pintura azul, e, mais tarde, depois que o Patrão entrou, Ugwu limpou cuidadosamente tudo, até a maçaroca preta cobrir apenas as lanternas.
De todas as visitas, a preferida de Ugwu era a do professor Ekwenugo. Ele era membro do Grupo de Ciências. A unha de seu indicador era tão comprida e afilada que mais parecia um punhal e, enquanto falava sobre o que ele e seus colegas estavam produzindo — minas terrestres de alto impacto, chamadas de ogbunigwe, fluido de freio com óleo de coco, motores feitos com ferro velho, tanques, granadas —, ela ia alisando a unha. Os outros aplaudiam sempre que ele fazia algum anúncio, assim como Ugwu, de seu banco na cozinha. O anúncio, feito pelo professor Ekwenugo, do primeiro míssil biafrense causou a maior salva de palmas de todas.
“Nós lançamos hoje à tarde, hoje à tarde”, disse ele, afagando a unha. “Nosso próprio míssil. Minha gente, nós estamos no caminho certo.”
“Nós somos um país de gênios!”, disse Special Julius, para ninguém em especial. “Biafra é a terra dos gênios!”
“A terra dos gênios”, repetiu Olanna, o rosto naquela fase delicada entre o sorriso e a gargalhada.
Os aplausos logo deram lugar à música.
So-lidarie-dade pra sempre!
So-lidarie-dade pra sempre!
Nossa república vencerá!
Ugwu cantou junto, torcendo, de novo, para ter a chance de se juntar à Defesa Civil, ou aos milicianos, que saíam em busca de nigerianos escondidos na selva. O noticiário sobre a guerra tornou-se o ponto alto de seu dia, o rufar sempre rápido dos tambores, a voz magnífica dizendo:
A eterna vigilância é o preço da liberdade! Aqui fala a Rádio Biafra de Enugu!
E aqui estão as notícias de hoje da guerra!
Depois de notícias esplendorosas — os soldados de Biafra estavam expulsando os últimos contingentes do inimigo, as baixas nigerianas eram altas, as operações para concluir a ocupação estavam no fim —, Ugwu tecia fantasias sobre entrar para o exército. Ele seria como aqueles recrutas que iam para o campo de treinos — enquanto seus parentes e amigos ficavam de lado, aplaudindo — e saíam de olhar brilhante, vestindo corajosas fardas duras de goma, com meio sol amarelo cintilando na manga.
Ele ansiava por desempenhar um papel, queria agir. Vencer a guerra. De modo que, quando vieram as notícias pelo rádio de que Biafra havia capturado o meio-oeste e que os soldados biafrenses estavam marchando rumo a Lagos, Ugwu sentiu uma estranha mistura de alívio e decepção. A vitória era deles e estava doido para voltar à casa da rua Odim, ficar perto da família de novo, ver Nnesinachi. No entanto parecia que a guerra tinha acabado cedo demais, e que ele não contribuíra. Special Julius levou uma garrafa de uísque e os convidados cantaram e berraram embriagadamente sobre o poder de Biafra, a estupidez dos nigerianos, a tolice dos locutores da rádio BBC.
“Olha só para a boca imunda desses ingleses. ‘Ação surpreendente de Biafra!’, ora sim senhor.”
“Eles estão surpresos porque as armas que Harold Wilson deu àqueles vaqueiros muçulmanos não nos mataram tão rápido quanto eles esperavam!”
“É a Rússia que você deveria culpar, não a Grã-Bretanha.”
“Decididamente é a Grã-Bretanha. Nossos rapazes trouxeram algumas cápsulas nigerianas disparadas no setor de Nsukka, para fazermos uma análise. Todas elas, sem exceção, tinham as palavras DEPARTAMENTO DE GUERRA DA GB impressas.”
“E a gente vive interceptando sotaques britânicos nas mensagens trocadas por rádio, também.”
“A Grã-Bretanha e a Rússia. Essa aliança perversa não vai dar certo.”
As vozes foram aumentando de volume e Ugwu parou de escutar. Levantou-se, saiu pelos fundos e foi sentar na pilha de blocos de concreto, ao lado da casa. Alguns garotos pequenos, da Brigada de Meninos Biafrenses, estava praticando na rua, com paus entalhados para parecer espingardas, andando de gatinhas, chamando um ao outro de capitão! e ajudante! com vozes estridentes.
Uma vendedora ambulante com uma bandeja na cabeça passou. “Quem quer comprar garri? Quem quer comprar garri?”
Parou quando uma jovem na casa em frente chamou. Barganharam por um tempo, depois a jovem gritou: “Se você quer roubar as pessoas, então roube. Mas não venha me dizer que você estava vendendo garri por esse preço”. A vendedora soltou um assobio e foi embora.
Ugwu conhecia a jovem da casa em frente. Tinha prestado atenção nela por causa da redondez perfeita de suas nádegas, de como rebolavam ritmicamente de um lado a outro quando ela andava. Seu nome era Eberechi. Tinha ouvido os vizinhos falando dela; a história que circulava é que seus pais a haviam dado a um oficial do exército que aparecera para fazer uma visita, assim como se dá noz-de-cola aos convidados. Uma noite, os pais dela bateram na porta do militar, abriram e empurraram docemente a jovem para dentro. Na manhã seguinte, o militar sorridente agradeceu os pais sorridentes, enquanto Eberechi olhava.
Ele viu quando ela entrou de volta e se perguntou qual seria a sensação de ser oferecida a um estranho, e o que acontecera depois que ela entrara em seu quarto, e sobretudo quem tinha mais culpa, os pais dela ou o oficial. Ugwu não queria pensar muito sobre culpa, porém, porque isso o fazia lembrar do Patrão e de Olanna durante aquelas semanas antes do nascimento de Baby, semanas que ele preferia esquecer.
O Patrão achou um “pára-chuva” no dia do casamento. O velhinho chegou cedo, cavou uma cova rasa no quintal da casa, fez uma fogueira e, depois, sentou-se em meio à fumaça azulada, alimentando o fogo com folhas secas.
“Não virá chuva nenhuma, não acontecerá nada, até o casamento acabar”, disse, quando Ugwu levou para ele um prato de arroz e carne. Ugwu sentiu o cheiro forte de gim em seu hálito. Virou-se e voltou a entrar, para que a fumaça não se entranhasse na camisa passada com o maior cuidado. Os primos de Olanna, Odinchezo e Ekene, estavam sentados na varanda, com seus uniformes de miliciano. O fotógrafo mexia na máquina. Alguns convidados na sala de estar falavam e riam, esperando por Olanna, e, de vez em quando, alguém entrava e depositava alguma coisa — uma panela, um banquinho, um ventilador — na pilha de presentes.
Ugwu bateu na porta de Olanna e abriu.
“O professor Achara está pronto para levá-la à igreja, mah.”
“Certo.” Olanna desviou a vista do espelho. “Onde está Baby? Ela não foi brincar lá fora, foi? Não quero que ela suje o vestido.”
“Ela está na sala.”
Olanna estava sentada diante do espelho torto. Seu cabelo fora puxado para trás, expondo todo o seu rosto radiante e sem uma mancha. Ugwu nunca vira sua patroa tão bonita, e no entanto havia uma relutância triste na forma como ela deu uma batida no pequeno chapéu marfim e rosa que usava de banda, para ter certeza de que os alfinetes estavam todos no lugar.
“A gente faz a cerimônia do vinho mais tarde, quando nossos soldados recuperarem Umunnachi”, disse ela, como se Ugwu não soubesse.
“Claro, mah.”
“Mandei recado para Kainene, em Port Harcourt. Ela não virá, mas queria que ela soubesse.”
Ugwu fez uma pausa e disse: “Eles estão esperando, mah”.
Olanna levantou-se e deu uma olhada geral. Passou a mão sobre as laterais do vestido marfim e rosa, em forma de trapézio da cintura para baixo, que ia até os joelhos. “Os pontos estão tão desiguais. Arize poderia ter feito isso tão melhor.”
Ugwu não disse nada. Se ao menos pudesse estender a mão e bater em seus lábios, para apagar aquele sorriso triste. Se ao menos esse pouco adiantasse.
O professor Achara bateu na porta semi-aberta. “Olanna? Você está pronta? Disseram que Odenigbo e Special Julius já estão na igreja.”
“Estou pronta, sim; por favor, entre”, disse Olanna. “Trouxe as flores?”
O professor Achara entregou-lhe um buquê de flores de plástico, multi-coloridas. Olanna recuou. “O que é isso? Eu queria flores frescas, Emeka.”
“Mas ninguém planta flores em Umuahia. As pessoas daqui plantam para comer”, disse o professor Achara, rindo.
“Então eu vou sem flores.”
Por alguns momentos de incerteza, nenhum dos dois sabia o que fazer com as flores de plástico: Olanna segurava o buquê à distância, enquanto o professor Achara tocava, mas não pegava, as flores. Por fim, recebeu-as de volta e disse: “Deixe-me ver se consigo encontrar alguma outra coisa”, e saiu do quarto.
O casamento foi simples. Olanna não levou flores. A igreja católica de São Sebastião era pequena e estava cheia só até a metade com os amigos que tinham comparecido. Ugwu não prestou muita atenção nos presentes, porém, porque enquanto olhava para o pano branco do mísero altar, imaginou-se casando. De início a noiva era Olanna, depois se transformou em Nnesinachi e, em seguida, em Eberechi, com suas nádegas perfeitamente redondas, todas no mesmo vestido rosa e marfim, com um minúsculo chapéu na cabeça.
Foi o aparecimento de Okeoma, já de volta à casa, que tirou Ugwu de seu mundo de fantasias. Okeoma não se parecia em nada com a lembrança que tinha dele: o cabelo desalinhado e a camisa amassada do poeta tinham sumido. Sua farda bem cortada o fazia parecer mais alto, mais magro, e a manga mostrava a imagem de uma caveira ao lado do meio sol amarelo. O Patrão e Olanna o abraçaram muitas vezes. Ugwu queria abraçá-lo também, porque o rosto risonho de Okeoma trazia de volta o passado com uma força tamanha que Ugwu achou que a sala envolta pela fumaça do “para-chuva” era a sala da casa da rua Odim.
Okeoma levara seu primo desajeitadamente alto e magro, o dr. Nwala.
“Ele é oficial-médico-chefe do Hospital Albatroz”, disse Okeoma, para apresentá-lo. O dr. Nwala olhava para Olanna com uma adoração tão irritantemente aberta que Ugwu sentiu vontade de dizer a ele para afastar aqueles olhos de sapo dela, oficial-médico-chefe ou não. Ugwu se sentia não só envolvido como responsável pela felicidade de Olanna. Enquanto ela e o Patrão dançavam lá fora, rodeados por amigos batendo palmas, ele pensou: Eles me pertencem. Era como um selo de estabilidade, o casamento, porque, enquanto fossem casados, seu mundo com eles estaria seguro. Eles dançaram juntos por um tempo, até que Special Julius mudou a música para High Life, e eles então se separaram, juntaram as mãos e olharam um para o outro, mexendo-se ao ritmo da nova música de Rex Lawson, Salve Biafra, a Terra da Liberdade. De salto alto, Olanna era mais alta que o Patrão. Ela sorria, faiscava, ria. Quando Okeoma começou a brindar, enxugou os olhos e disse ao fotógrafo, parado atrás do tripé: “Espere, espere, não tire ainda”.
Ugwu ouviu o barulho pouco antes de cortarem o bolo na sala de estar, aquele rugido rápido de uá-uá-uá no céu. De início, trovejou bastante, depois ficou tudo quieto e aí recomeçou, mais alto e mais rápido. De algum lugar ali por perto, as galinhas começaram um cacarejo infernal.
Alguém disse: “Avião inimigo! Reide aéreo!”.
“Para fora!”, gritou o Patrão, mas alguns convidados estavam indo para o quarto, gritando “Jesus! Jesus!”.
Os sons eram mais altos, bem em cima deles.
Eles saíram correndo — o Patrão, Olanna com Baby no colo, Ugwu, alguns convidados — até a horta de mandioca, ao lado da casa, e ficaram deitados de bruços. Ugwu olhou para cima e viu os aviões, planando bem baixo, sob o céu azul, como duas aves de rapina. Eles despejaram centenas de balas para todos os lados, antes de as bolas escuras começarem a rolar pela barriga, como se os aviões estivessem pondo ovos enormes. A primeira explosão foi tão alta que o ouvido de Ugwu tapou e seu corpo todo estremeceu, junto ao chão que vibrava. Uma mulher de uma casa vizinha puxou o vestido de Olanna. “Tire isso! Tire esse vestido branco! Eles vão ver e vão atirar em nós!”
Okeoma arrancou a camisa, os botões arrebentando, e envolveu Olanna. Baby começou a chorar. O Patrão colocou a mão bem solta sobre sua boca, como se os pilotos pudessem ouvi-la. Veio uma segunda explosão, depois a terceira, a quarta e a quinta, até que Ugwu sentiu a umidade quente da urina em sua cueca e se convenceu de que as bombas não terminariam jamais; continuariam a cair até ter destruído tudo e matado todo mundo. Mas elas pararam. Os aviões avançaram no céu. Ninguém se mexeu nem falou por um bom tempo, até que Special Julius se levantou e disse: “Eles se foram”.
“Os aviões estavam tão baixos”, disse um garoto, todo animado. “Eu vi o piloto!”
O Patrão e Okeoma foram os primeiros a sair na direção da rua. Okeoma parecia menor, só de camiseta e calça. Olanna continuou sentada no chão, segurando Baby, a camisa de camuflagem embrulhando seu vestido de noiva. Ugwu levantou-se e foi para a rua. Escutou o dr. Nwala dizer a Olanna: “Deixe-me ajudá-la a se levantar. A terra vai manchar seu vestido.”
Fumaça saía de um compound perto do moinho que fazia farinha de milho, a uma rua dali. Duas casas haviam desabado, eram só detritos empoeirados, e alguns homens cavavam freneticamente pela mixórdia de cimento, dizendo: “Você ouviu aquele grito? Ouviu?”. Uma película fina de poeira prateada cobria todo o corpo deles, fazendo-os parecer fantasmas sem pernas de olhos esbugalhados.
“A criança está viva, eu a ouvi chorando, ouvi sim”, disse alguém. Homens e mulheres tinham se juntado para ajudar e olhar; alguns escavavam os detritos, outros ficavam olhando, e havia os que soltavam berros e estalavam os dedos. Um carro pegava fogo; o corpo de uma mulher jazia bem ao lado, as roupas queimadas, manchas rosadas espalhadas por toda a pele calcinada, e quando alguém cobriu o cadáver com um saco de juta rasgado, Ugwu ainda viu aparecerem as pernas rígidas e negras como carvão. O céu estava encoberto. O cheiro úmido de chuva chegando se misturou ao cheiro enfumaçado de coisas queimando. Okeoma e o Patrão se juntaram aos que escavavam os detritos. “Eu ouvi a criança”, disse alguém de novo. “Eu ouvi a criança.”
Ugwu virou-se para ir embora. Viu uma sandália elegante largada na rua e apanhou-a, olhou para as tiras de couro, para o salto grosso em forma de cunha, e deixou-a onde estava. Imaginou a jovem chique que devia estar usando o calçado, e que tirara a sandália para correr melhor. Perguntou-se onde estaria o outro pé.
Quando o Patrão voltou para casa, Ugwu estava sentado no chão da sala, com as costas na parede. Olanna comia uma fatia de bolo, num pires. Ainda estava com o vestido de noiva; a camisa de Okeoma fora bem dobrada e estava sobre uma poltrona. Os convidados haviam saído devagar, dizendo pouca coisa, as fisionomias sombreadas de culpa, como se constrangidos de terem deixado o reide aéreo arruinar o casamento.
O Patrão serviu-se com uma taça de vinho de palma. “Você ouviu o noticiário?”
“Não”, disse Olanna.
“Nossos soldados perderam todo o território que haviam capturado no meio-oeste e a marcha para Lagos terminou. A Nigéria diz que agora é guerra, não é mais uma série de ações.” Ele balançou a cabeça. “Fomos sabotados.”
“Você quer um pedaço de bolo?”, perguntou Olanna. O bolo continuava no centro da mesa, inteirinho, fora o minúsculo pedaço que Olanna tinha cortado.
“Agora não.” Ele tomou o vinho e serviu outra taça. “Vamos construir um bunker, para o caso de novos reides aéreos.” Seu tom era normal, calmo, como se os ataques aéreos fossem algo tranquilo, como se não fossem a morte chegando perto, momentos antes. Virou-se para Ugwu. “Você sabe o que é um bunker, meu bom homem?”
“Sei, sah. Como aquele que Hitler tinha.”
“Bom, é parecido, eu imagino.”
“Mas, sah, as pessoas estão dizendo que esses bunkers são como uma vala comum”, disse Ugwu.
“Mas que bobagem. Bunkers são mais seguros do que ficar deitado numa plantação de mandioca.”
Lá fora, a escuridão tomara conta de tudo e o céu se iluminava de vez em quando com os relâmpagos. Olanna de repente deu um salto da cadeira e gritou: “Cadê Baby? Ke Baby?” Depois começou a correr para o quarto.
“Nkem!” O Patrão foi atrás dela.
“Você não está ouvindo? Não está ouvindo as bombas de novo?”
“São trovões.” O Patrão agarrou Olanna por trás e segurou-a. “São só trovões. O que o nosso ‘para-chuva’ afastou está finalmente caindo do céu. São só trovões.”
Segurou-a por um pouco mais de tempo, até que, por fim, Olanna sentou e cortou mais uma fatia de bolo para si.
4. O Livro: O Mundo Estava Calado Quando Nós Morremos
Ele argumenta que a Nigéria não tinha economia nenhuma, até a independência. O
Estado colonialista era autoritário, uma ditadura despreocupadamente brutal, destinada a
beneficiar a Grã-Bretanha. A economia, em 1960, consistia em potenciais — matérias-
primas, seres humanos, espíritos animados e algum dinheiro que sobrou nas cooperativas,
depois que os britânicos levaram embora o grosso para reconstruir a economia do pós-guerra.
E havia também o petróleo recém-descoberto. Porém os novos líderes nigerianos estavam
otimistas demais, ambiciosos demais com projetos de desenvolvimento que iriam lograr a
credibilidade do povo, ingênuos demais na hora de aceitar empréstimos estrangeiros
extorsivos, interessados demais em imitar os britânicos, em assumir as atitudes superiores, os
hospitais de primeira e os salários melhores que, durante tanto tempo, foram negados aos
nigerianos. Ele acena para problemas complexos que o novo país terá de enfrentar, mas se
concentra nos massacres de 1966. As razões ostensivas — vingança pelo “golpe ibo”, protesto
contra um decreto unitário que faria o povo do Norte sair perdendo no funcionalismo
público — não tinham a menor importância. Assim como também não importava o número
variável de mortes: três mil, dez mil, cinquenta mil. O importante foi que os massacres
assustaram e uniram os ibos. O importante foi que os massacres fizeram de antigos
nigerianos fervorosos biafrenses.
TERCEIRA PARTE
INÍCIO DOS ANOS 60