Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 24 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 23

 

Olanna estava na sala de Richard. O vazio austero do aposento a deixava nervosa; gostaria que houvesse quadros, ou livros, ou bonecas russas para os quais pudesse olhar. Mas só havia uma pequena foto do vaso de cordas de Igbo-Ukwu pendurada na parede, olhando para ela, quando Richard entrou. O sorriso inseguro que ele trazia nos lábios suavizava seu rosto. Às vezes, ela se esquecia de como ele era bonito, naquele seu jeito loiro de olhos azuis.

Falou imediatamente. “Olá, Richard.” Sem esperar resposta e ignorando o breve período de silêncio que em geral segue um cumprimento, acrescentou: “Você foi ver Kainene no último fim de semana?”.

“Não. Não, não fui.” Seus olhos evitaram os dela e se concentraram na peruca reluzente. “Fui até Lagos. É que Sir Winston Churchill morreu.”

“O que aconteceu foi burrice de ambas as partes”, disse Olanna, reparando que as mãos dele tremiam.

Richard fez que sim. “Claro, claro.”

“Kainene não perdoa com facilidade. Não faria o menor sentido contar para ela.”

“Claro que não.” Richard ficou uns momentos em silêncio. “Você estava com problemas emocionais e eu não devia ter...”

“O que houve precisou de duas pessoas, Richard”, disse Olanna, e de repente sentiu desprezo pelas mãos trêmulas, pela timidez pálida e pela vulnerabilidade que ele exibia tão francamente enrodilhada em torno da garganta, feito uma gravata.

Harrison entrou com uma bandeja. “Trago bebidas, sah.”

“Bebida?” Richard virou-se num movimento súbito e Olanna ficou aliviada de não haver nada muito perto dele, caso contrário teria sido derrubado. “Ah, não, na verdade não. Você quer tomar alguma coisa?”

“Estou de saída”, disse Olanna. “Como vai, Harrison?”

“Muito bem, madame.”

Richard seguiu-a até a porta.

“Eu acho que devíamos manter tudo normal”, disse ela, antes de sair apressada para o carro.

Perguntava-se se não teria sido melhor ser menos teatral e dar a ambos a oportunidade de conversar com calma sobre o que acontecera. Mas teria adiantado muito pouco trazer à tona o lixo do dia anterior. Ambos queriam o que aconteceu e ambos desejavam que não tivesse acontecido; o que importava agora é que ninguém jamais ficasse sabendo.

Surpreendeu a si própria, portanto, quando contou a Odenigbo. Ela estava deitada e ele sentado na beira da cama — pensava no quarto mais como sendo dele que dos dois — e era a segunda vez que dormiam juntos desde que fora embora. Ele estava pedindo a ela por favor para voltar.

“Vamos casar”, disse ele. “Aí então Mama nos deixa em paz.”

Talvez tenha sido seu tom cheio de si, ou a maneira óbvia com que continuava contornando a responsabilidade e culpando a mãe que fez Olanna dizer: “Eu dormi com Richard”.

“Não.” Odenigbo parecia incrédulo balançando a cabeça.

“Dormi.”

Odenigbo levantou-se, foi até o armário e olhou para ela, como se não tivesse condições de estar mais perto, por temer o que faria se estivesse. Tirou os óculos e esfregou a ponte do nariz. Ela sentou na cama e percebeu que a desconfiança os acompanharia para sempre, que a descrença sempre seria uma opção para eles.

“Você sente alguma coisa por ele?”, perguntou Odenigbo.

“Não”, disse ela.

Ele voltou e sentou-se a seu lado. Parecia dividido entre atirá-la para fora da cama e puxá-la mais para perto, mas depois se levantou de chofre e saiu do quarto. Mais tarde, quando bateu na porta do escritório dele, para dizer que estava indo, Odenigbo não respondeu.

De volta ao apartamento, não parava de andar de um lado para o outro. Não deveria ter contado o que se passara com Richard. Ou deveria ter dito mais: que lamentava ter traído Kainene, e a ele, mas que não lamentava o ato em si. Devia ter dito que não tentara uma vingança cruel, nem quisera marcar pontos, e que o ato assumira um significado redentor para ela. Devia ter dito que o egoísmo a libertara.

A batida sonora na sua porta, na manhã seguinte, a encheu de alívio. Ela e Odenigbo iriam sentar e conversar direito, e, dessa vez, não deixaria que ambos ficassem girando em círculos, sem se confrontar. Porém não era Odenigbo. Edna entrou chorando, os olhos vermelhos e inchados, para lhe dizer que os brancos tinham posto uma bomba na igreja batista de sua cidade natal. Quatro meninas haviam morrido. Uma delas era colega de sua sobrinha. “Eu a vi, quando fui para casa, seis meses atrás”, disse Edna. “Seis meses atrás eu vi a menina.”

Olanna fez chá e sentou-se ao lado de Edna, os ombros se tocando, enquanto ela chorava com arfadas tão altas que parecia estar sufocando. O cabelo não tinha o costumeiro brilho oleoso; parecia o pêlo fosco de uma velha vassoura.

“Ai, meu Deus”, disse ela, entre soluços. “Ai, meu Deus.”

Olanna estendeu várias vezes a mão para apertar seu braço. A crueza daquela dor a deixou impotente, trouxe o desejo de poder alcançar o passado e reverter a história. Por fim, Edna adormeceu. Olanna pôs delicadamente um travesseiro sob sua cabeça e sentou-se, pensando em como um único ato podia reverberar através do tempo e do espaço e deixar manchas que nunca mais poderiam ser lavadas. Pensou que a vida era efêmera e que o melhor era não optar pela tristeza. Ela voltaria para a casa de Odenigbo.

Eles jantaram em silêncio, na primeira noite. A mastigação de Odenigbo a irritou, a bochecha cheia e os movimentos do maxilar, moendo a comida. Ela comeu pouco e a todo momento olhava para sua caixa de livros na sala. Odenigbo estava concentrado em separar sua galinha do osso e, uma vez na vida, comeu todo o arroz, até limpar o prato. Quando finalmente resolveu conversar, falou do caos na Região Ocidental.

“Eles jamais deveriam ter reinstalado o premiê. Por que agora se espantam com os bandidos que queimam carros e matam os adversários, em nome das eleições? Um bruto corrupto sempre vai se comportar como um bruto corrupto”, disse ele.

“Mas ele tem o apoio do primeiro-ministro”, disse Olanna.

“É o Sardauna que está no comando. O sujeito está dirigindo o país como se fosse um feudo muçulmano dele.”

“Nós ainda estamos tentando ter um filho?”

Por trás das lentes, os olhos dele pareciam espantados. “Claro que estamos”, disse. “Ou não estamos?”

Olanna não respondeu nada. Uma tristeza enevoada tomou conta dela ao pensar no que tinham permitido acontecer entre eles, e no entanto havia uma nova emoção de frescor, era um relacionamento em termos diferentes. Não estaria mais sozinha na luta para preservar aquilo que partilhavam; ele se juntaria a ela. Suas certezas haviam balançado.

Ugwu entrou para tirar a mesa.

“Me traga um conhaque, meu bom homem”, disse Odenigbo.

“Pois não, sah.”

Odenigbo esperou até Ugwu servir o conhaque e sair, antes de dizer: “Pedi a Richard para não vir mais aqui”.

“O que houve?”

“Passei por ele na rua, perto do prédio da minha faculdade, e vi uma expressão nele que me irritou muito, de modo que o segui até a rua Imoke e me pus a berrar.”

“O que você disse a ele?”

“Não me lembro.”

“Você não quer me dizer.”

“Não me lembro.”

“Tinha mais alguém?”

“O empregado dele apareceu.”

Sentaram-se os dois no sofá da sala. Ele não tinha o direito de ir tirar satisfações, de dirigir sua raiva contra Richard, e no entanto ela entendia por que Odenigbo fizera isso.

“Eu nunca culpei Amala”, disse ela. “Foi em você que eu depositei minha confiança, e a única maneira de alguém mexer com essa confiança era tendo sua permissão. Eu culpei só você.”

Odenigbo pôs a mão na coxa de Olanna.

“Você devia ficar bravo comigo, não com Richard”, disse ela.

Ele ficou calado tanto tempo que ela pensou que não fosse responder, mas ele disse: “Eu quero ficar bravo com você”.

A fragilidade dele a comoveu. Ajoelhou-se diante dele e desabotoou a camisa, para sugar a carne firme e macia de sua barriga. Sentiu-o inalar mais forte quando ela tocou no zíper da calça. Em sua boca, ele estava duro. A leve dor no maxilar inferior, a pressão de suas mãos espalmadas sobre a cabeça, tudo a excitou, e, mais tarde, disse: “Meu Deus, Ugwu deve ter visto tudo”.

Ele a levou até o quarto. Tiraram a roupa em silêncio e tomaram uma ducha juntos, apertando-se um no outro no boxe estreito e, depois, colados na cama, os dois ainda molhados faziam movimentos lentos. Ela estava maravilhada com a sensação reconfortante de seu corpo compacto em cima dela. Ele cheirava a conhaque e ela queria lhe dizer que era quase como nos velhos tempos, de novo, mas não disse porque tinha certeza de que ele sentia o mesmo e não queria arruinar o silêncio que os unia.

Esperou até ele adormecer, o braço jogado por cima dela, o ronco alto saindo pela boca entreaberta, antes de se levantar e ligar para Kainene. Precisava ter certeza de que Richard não havia dito nada a ela. Não achava, no fundo, que os gritos de Odenigbo o tivessem levado a confessar, mas não estava certa disso.

“Kainene, sou eu”, disse ela, quando Kainene atendeu o telefone.

“Ejima m”, disse Kainene. Olanna nem se lembrava mais da última vez que a irmã a chamara de minha gêmea. Isso a animou, assim como a normalidade de sua voz, com aquele falar arrastado e seco que dava a entender que uma conversa com Olanna não era sua maior chateação, mas assim mesmo era uma.

“Eu queria dizer kedu”, falou Olanna.

“Eu estou bem. Você sabe que horas são?”

“Não percebi que era tão tarde.”

“Você voltou para o seu amante revolucionário?”

“Voltei.”

“Você tinha que ouvir a mamãe falando dele. Dessa vez, ele deu a munição perfeita para ela.”

“Foi um erro dele”, disse Olanna, para logo depois se arrepender, porque não queria que Kainene pensasse que estava dando uma desculpa a Odenigbo.

“Mas não é contra os princípios do socialismo engravidar pessoas das classes inferiores?”, perguntou Kainene.

“Vou deixar você dormir.”

Houve uma minúscula pausa, antes de Kainene dizer, com seu tom usual de quem se diverte: “Ngwanu. Boa noite”.

Olanna pôs o fone no gancho. Era óbvio que Richard não diria nada a Kainene; o relacionamento deles poderia não sobreviver. E talvez fosse melhor que ele não pudesse mais visitá-los.

 

Amala teve uma menina. Era sábado e Olanna estava na cozinha com Ugwu, fazendo uma fritada de bananas e, quando a campainha soou, ela soube na hora que o recado viera de Mama.

Odenigbo foi até a cozinha, as mãos nas costas. “O mu nwanyi”, disse ele, baixinho. “Ela teve uma menina. Ontem.”

Olanna não levantou os olhos da tigela de bananas amassadas porque não queria que ele visse seu rosto. Não sabia o que iria mostrar, se conseguiria captar a mistura cruel de emoções que sentia, o desejo de chorar, de esbofeteá-lo e de se controlar, tudo ao mesmo tempo.

“Nós temos de ir até Enugu esta tarde para ver se está tudo em ordem”, disse ela, bruscamente, levantando-se. “Ugwu, por favor, termine isto.”

“Claro, mah.” Ugwu observava seus movimentos; Olanna sentia a mesma responsabilidade de uma atriz cujos parentes esperam uma atuação esplêndida.

“Obrigado, nkem”, disse Odenigbo. Ele a abraçou, mas Olanna se desvencilhou.

“Me deixa tomar um banho rápido.”

No carro, seguiram em silêncio. Ele dava espiadas frequentes nela, como se quisesse dizer alguma coisa, mas não soubesse como começar. Ela mantinha o olhar voltado para a estrada e só deu uma olhada para ele, para o jeito hesitante como segurava a direção. Sentia-se moralmente superior a ele. Talvez fosse imerecido e falso pensar que era melhor que ele, mas era a única maneira de manter controle sobre emoções disparatadas, agora que a filha de uma desconhecida nascera.

Por fim, quando estavam estacionando na frente do hospital, Odenigbo falou.

“No que está pensando?”

Olanna abriu a porta do carro. “Na minha prima Arize. Não faz nem um ano que casou e já está louca para engravidar.”

Odenigbo não disse nada. Mama foi encontrá-los na entrada da maternidade. Olanna esperava vê-la dançando de felicidade, e olhando para ela com olhos zombeteiros, mas o rosto enrugado estava taciturno, e o sorriso que deu ao abraçar Odenigbo foi forçado. O ar do hospital estava denso de cheiros químicos.

“Mama, kedu?”, disse Olanna. Queria parecer em controle, determinar o rumo das coisas.

“Estou bem”, disse Mama.

“Onde está o bebê?”

Mama pareceu surpresa com sua brusquidão. “Na ala dos recém-nascidos.”

“Vamos ver Amala primeiro”, disse Olanna.

Mama levou-os até um quarto. A cama estava coberta com um lençol amarelo e Amala, deitada com o rosto voltado para a parede. Olanna afastou os olhos do ligeiro volume em sua barriga; de novo, era insuportável pensar que a filha de Odenigbo tinha estado naquele corpo. Concentrou-se nos biscoitos, na lata de glicose e no copo de água na mesinha ao lado.

“Amala, eles vieram”, disse Mama.

“Boa tarde, nno”, disse ela, sem virar o rosto para eles.

“Como está você?”, perguntaram Odenigbo e Olanna, quase ao mesmo tempo.

Amala resmungou uma resposta. O rosto continuou voltado para a parede. No silêncio que se seguiu, Olanna escutou passos rápidos no corredor de fora. Já fazia alguns meses que ela sabia que esse momento chegaria, no entanto, olhando para Amala, sentiu um vazio escuro. Parte dela esperava que esse dia nunca acontecesse.

“Vamos ver a criança”, disse. Ao se virar para sair, junto com Odenigbo, reparou que Amala não havia mudado a posição do rosto, não havia se mexido, não fizera nada para mostrar que tinha escutado.

Na ala dos recém-nascidos, uma enfermeira pediu a eles que esperassem em um dos bancos enfileirados junto à parede. Olanna via, através das persianas, muitos berços e muitos bebês chorando, e imaginou que a enfermeira ficaria confusa e traria o bebê errado. Porém ela levou o bebê certo; a cabeça forrada de cabelos maciamente crespos e os olhos muito espaçados eram inconfundíveis. Só tinha dois dias e já se parecia com Odenigbo.

A enfermeira fez menção de lhe entregar o bebê, envolto num cobertor branco de lã, mas Olanna fez um gesto para Odenigbo. “Deixa o pai segurá-la primeiro.”

“Vocês sabem que a mãe se recusa a tocar na criança?”, disse a enfermeira, entregando o bebê a Odenigbo.

“O quê?”, disse Olanna.

“Ela não tocou na filha. Estamos usando uma ama-de-leite.”

Olanna olhou para Odenigbo, que segurava o bebê com os braços estendidos, como se precisasse de uma certa distância. A enfermeira ia dizer algo mais quando apareceu um jovem casal e ela se apressou a ir ter com eles.

“Mama acabou de me contar”, disse Odenigbo. “Disse que Amala não quer nem ver o bebê.”

Olanna não respondeu.

“Eu vou acertar a conta”, disse ele. Parecia estar pedindo desculpas.

Ela estendeu os braços e, assim que ele lhe entregou a criança, o choro estridente começou. Do outro lado da sala, a enfermeira e o casal olharam para ela e Olanna teve certeza de que eles sabiam que ela não fazia a menor idéia de como agir com um bebê aos berros no colo, que ela era incapaz de ficar grávida.

“Quietinha, quietinha, o zugo”, disse ela, sentindo-se um tanto teatral. Porém a boca minúscula continuou aberta e torcida, e o choro era tão estridente que ela se perguntou se não doía naquele corpinho tão pequeno. Olanna enfiou o dedo mindinho no punho da menina. Aos poucos, o choro foi diminuindo, mas a boca minúscula continuou aberta, mostrando gengivas rosadas, e os olhos redondos se franziram e olharam para ela. Olanna riu. A enfermeira apareceu.

“Hora de levá-la para dentro”, disse. “Quantos você tem?”

“Eu não tenho filhos”, disse Olanna, satisfeita que a enfermeira tivesse pensado que tinha.

Odenigbo voltou e eles entraram no quarto de Amala, onde Mama, sentada na beira da cama, segurava uma tigela tampada. “Amala se recusa a comer”, disse ela. “Gwakwa ya. Diga a ela para comer.”

Olanna pressentiu o incômodo de Odenigbo ao falar, com uma voz alta demais: “Você deve comer, Amala”.

Amala resmungou qualquer coisa. Por fim, virou o rosto para eles e Olanna pôde vê-la: uma mocinha feiosa da roça, encolhida na cama como se para suportar mais um golpe furioso da vida. Nem uma vez ela olhou para Odenigbo. O que ela devia sentir por ele era um medo reverente. Se Mama a tinha mandado entrar no quarto do filho ou não, o fato é que ela não disse não porque nunca lhe passou pela cabeça que pudesse dizer não. Odenigbo deu um cantada embriagada em Amala e ela se submeteu prontamente, sem levantar objeção nenhuma: ele era o patrão, falava inglês, tinha carro. Foi tudo como deveria ser.

“Você escutou o que meu filho disse?”, perguntou Mama. “Ele disse que você precisa comer.”

“Eu ouvi, Mama.” Amala sentou-se na cama e pegou a tigela esmaltada, os olhos voltados para o chão. Olanna a observava. Talvez fosse ódio o que sentia por Odenigbo. Quem pode saber quais os verdadeiros sentimentos daqueles que não têm voz? Olanna aproximou-se de Amala, mas não tinha certeza do que queria dizer, de modo que apanhou a lata de glicose, examinou-a e pôs de volta na mesinha. Mama e Odenigbo tinham saído do quarto.

“Eu vou embora”, disse Olanna.

“Boa viagem”, disse Amala.

Olanna queria lhe dizer algo, mas não conseguiu achar palavras, de modo que lhe deu um tapinha no ombro e saiu do quarto. Odenigbo e Mama conversaram ao lado do bebedouro por tanto tempo que os mosquitos começaram a morder Olanna, que resolveu entrar no carro e tocar a buzina.

“Desculpe”, disse Odenigbo, ao entrar. Não falou nada do que a mãe e ele tinham conversado até chegarem aos portões do campus, em Nsukka, uma hora depois. “Mama não quer ficar com a criança.”

“Ela não quer ficar com a criança?”

“Não.”

Olanna sabia por quê. “Ela queria um menino.”

“É.” Odenigbo tirou a mão da direção para baixar um pouco mais o vidro da janela. Olanna encontrava um prazer culpado na humilhação que o inundara desde o parto de Amala. “Nós concordamos que ela vai ficar com o pessoal de Amala. Eu vou a Abba na semana que vem para conversar com eles...”

“Nós vamos ficar com ela”, disse Olanna. Assustou a si própria com a clareza com que articulara o desejo de ficar com o bebê e de como lhe parecia a coisa certa a fazer. Era como se sempre tivesse sido esse o seu desejo.

Odenigbo virou-se para ela com os olhos esbugalhados por trás dos óculos. Estava passando tão devagar por cima de um obstáculo de trânsito que receou que o carro fosse morrer. “Nossa relação é o mais importante, para mim, nkem”, disse ele, baixinho. “Temos de tomar a decisão correta para nós.”

“Você não estava pensando em nós quando engravidou a moça”, disse Olanna, antes que pudesse se controlar; detestava a malícia que havia no seu tom de voz, o ressentimento renovado.

Odenigbo parou o carro na garagem. Parecia cansado. “Vamos pensar a respeito.”

“Nós vamos ficar com ela”, repetiu Olanna, com firmeza.

Podia criar uma criança, a filha dele. Compraria livros sobre maternidade, encontraria uma ama-de-leite e enfeitaria o quarto. Revirou-se na cama a noite inteira. Não sentira pena da criança. Ao contrário, ao segurar aquele corpinho morno, teve consciência de que era possível descobrir felicidades inesperadas, de que o nascimento não fora planejado, mas que se transformara, assim que ocorreu, naquilo que tinha de ser. Sua mãe não pensava dessa maneira; a voz ao telefone, no dia seguinte, estava grave, com o tom solene de alguém falando de um morto.

“Nne, você logo vai ter seu próprio filho. Não acho certo que você crie a filha de uma moça da roça que ele engravidou assim que você viajou. Criar um filho é uma coisa muito séria, minha filha, mas, nesse caso, não é a coisa certa.”

Olanna segurava o fone e olhava para as flores no centro da mesa. Uma delas havia caído; era espantoso que Ugwu tivesse esquecido de tirá-la do vaso. Havia verdade nas palavras da mãe, ela sabia disso, no entanto também sabia que o bebê tinha a cara que ela sempre imaginara que teria uma filha sua com Odenigbo — cabelos fartos, olhos bem espaçados e gengivas rosadas.

“Os parentes dela vão lhe dar trabalho”, disse a mãe. “A própria moça vai lhe dar trabalho.”

“Ela não quer a criança.”

“Então deixa com os parentes dela. Mande o que for preciso, mas deixe a criança lá.”

Olanna soltou um suspiro. “Anugo m, vou pensar um pouco mais a respeito.”

Ela pôs o fone no gancho, depois tornou a pegá-lo e deu à telefonista o número de Kainene em Port Harcourt. A telefonista tinha uma voz preguiçosa, fez Olanna repetir o número várias vezes e soltou uma risadinha, antes de fazer a conexão.

“Mas quanta nobreza, a sua”, disse Kainene, depois que Olanna lhe contou.

“Não é nobreza, não.”

“Você vai adotá-la formalmente?”

“Vou, acho que vou.”

“E o que vai dizer a ela?”

“O que eu vou dizer a ela?”

“É, quando ela for mais velha.”

“A verdade: que Amala é a mãe dela. E vou fazer com que me chame de Mami Olanna, ou algo parecido, porque assim, se Amala voltar, sempre será a mãe.”

“Você está fazendo isso para agradar seu amante revolucionário.”

“Não é não.”

“Você está sempre tentando agradar todo mundo.”

“Não estou fazendo isso por ele. Essa idéia não é dele.”

“Então por que está fazendo isso?”

“Ela parecia tão indefesa. Foi como se eu já a conhecesse.”

Kainene ficou calada por alguns instantes. Olanna puxou o fio do telefone.

“Eu acho que essa foi uma decisão muito corajosa”, disse por fim.

Embora Olanna tivesse ouvido perfeitamente, perguntou: “O que foi que você disse?”.

“É muita coragem sua fazer isso.”

Olanna recostou-se na cadeira. A aprovação de Kainene, algo que até esse momento ela nunca tinha recebido, era como uma doçura em sua língua, um jorro de competência, um bom presságio. De repente, tomou a decisão final — traria a criança para casa.

“Você virá para o batismo dela?”, perguntou Olanna.

“Eu ainda não visitei esse inferno poeirento de vocês, de modo que, sim, talvez eu vá.”

Olanna desligou, sorrindo.

 

Mama levou o bebê embrulhado num xale marrom que tinha o cheiro desagradável de ogiri. Sentou-se na sala e arrulhou amorosamente com ela até Olanna aparecer. Depois se levantou e entregou-a.

“Ngwanu. Eu não demoro para vir visitá-la”, disse. Parecia estar com uma pressa constrangida, como se para ela o assunto todo fosse fácil de acabar.

Depois que se foi, Ugwu examinou o bebê com uma fisionomia levemente preocupada. “Mama disse que o bebê parece a mãe dela. Que é a mãe dela nascida de novo.”

“As pessoas se parecem, Ugwu, mas isso não quer dizer que são uma reencarnação.”

“Mas elas reencarnam, mah. Todos nós vamos voltar um dia.”

Olanna dispensou-o com um aceno. “Vá jogar este xale no lixo. Tem um cheiro horroroso.”

O bebê estava chorando. Olanna sossegou a pequena, deu-lhe um banho numa pequena bacia e olhou preocupada para o relógio, com medo de que a ama-de-leite, uma mulher bem gorda que a tia de Ugwu descobrira, se atrasasse. Mais tarde, depois que a ama chegou, amamentou a criança e ela adormeceu, Olanna e Odenigbo olharam para o bebê, deitado de costas no berço, perto da cama dos dois. Sua pele era de um marrom irradiante.

“Ela tem tanto cabelo, igualzinha a você”, disse Olanna.

“Você vai olhar para ela às vezes e me odiar.”

Olanna deu de ombros. Não queria que ele pensasse que estava fazendo isso por ele, como um favor para ele, porque dizia muito mais respeito a ela que a ele.

“Ugwu disse que sua mãe foi ver o dibia”, disse ela.

“O quê?”

“Ugwu acha que tudo isso aconteceu porque sua mãe foi ver o dibia e que o remédio que ele deu levou você a dormir com Amala.”

Odenigbo calou-se por alguns momentos. “Imagino que é a única forma que ele tem de dar um sentido a isso.”

“O feitiço deveria ter produzido o menino desejado, não é mesmo?”, disse ela. “É tudo tão irracional.”

“Não mais irracional que acreditar num Deus cristão que ninguém pode ver.”

Estava acostumada às chacotas afetuosas que ele fazia de sua fé benemerente e teria dito que nem sabia ao certo se acreditava ou não num Deus cristão que não podia ver. Mas com um ser humano indefeso deitado no berço, alguém tão dependente dos outros que sua própria existência tinha de ser prova de um bem maior, as coisas haviam mudado.

“Eu acredito sim”, disse ela. “Acredito num bom Deus.”

“Eu não acredito em deus nenhum.”

“Eu sei. Você não acredita em nada.”

“No amor”, disse ele, olhando para ela. “Eu acredito no amor.”

Ela não pretendia rir, mas a risada veio assim mesmo. Ela queria dizer que também o amor era irracional. “Temos de pensar em um nome”, disse.

“Mama lhe deu o nome de Obiageli.”

“Nós não podemos batizá-la com esse nome.” A mãe de Odenigbo não tinha o menor direito de dar nome a uma criança que rejeitou. “Nós vamos chamá-la de Baby, por enquanto, até encontrarmos o nome perfeito. Kainene sugeriu Chiamaka. Sempre gostei desse nome: Deus é belo. Kainene será a madrinha. Tenho de ir falar com o padre Damian sobre o batismo.” Faria compras em Kinsgway. Encomendaria uma peruca nova em Londres. Sentia-se zonza.

Baby se mexeu e uma nova onda de medo tomou conta de Olanna. Olhou para o cabelo brilhante de óleo Pears e se perguntou se conseguiria de fato criar uma criança. Sabia que era normal, o jeito como ela respirava rápido demais, como se estivesse ofegante, e no entanto se preocupava até com isso.

Nas primeiras vezes em que ligou para a casa da irmã, naquela tarde, não houve resposta. Talvez Kainene estivesse em Lagos. Ligou novamente à noite e, quando Kainene atendeu e disse? “Alô”, parecia rouca.

“Ejima m”, disse Olanna. “Está resfriada?”

“Você trepou com Richard.”

Olanna levantou-se.

“Você, a boazinha.” A voz de Kainene estava controlada. “A boazinha não devia trepar com o amante da irmã.”

Olanna afundou de novo no pufe e percebeu que o que sentia era alívio. E Kainene sabia disso. Ela não teria mais que se preocupar com o fato de a irmã descobrir. Estava livre para sentir remorso de verdade.

“Eu devia ter contado para você, Kainene. Não significou nada.”

“Claro que não significou nada. Afinal, foi só uma questão de trepar com o meu amante.”

“Não foi essa a minha intenção.” Olanna sentiu as lágrimas nos olhos. “Kainene, eu sinto muito mesmo.”

“Por que você trepou com ele?” Kainene parecia assustadoramente calma. “Você é a boazinha, a favorita, a beldade da família e a revolucionária africanista que não gosta de homens brancos. Pura e simplesmente, não precisava trepar com ele. Então por que trepou?”

Olanna respirava devagar. “Eu não sei, Kainene, não foi algo que eu tenha planejado. Eu sinto muito. Foi imperdoável.”

“É imperdoável”, disse Kainene, e desligou.

Olanna pôs o fone no gancho e sentiu um estalo ardido dentro do corpo. Conhecia muito bem a irmã gêmea, sabia o quanto Kainene se apegava à dor.