Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 36 de 39

Páginas do PDF

Meio Sol Amarelo

Capítulo 35

 

 

Ugwu agachou-se ao lado da moita de flores brancas cobertas de folhagem, olhando para os livros queimados. Eles tinham sido empilhados, antes de serem incendiados, de modo que escavou com as mãos para ver se as chamas haviam deixado alguma coisa intacta no fundo. Conseguiu tirar dois livros inteiros e limpou a capa na camisa. Nos semiqueimados, ainda conseguia enxergar algumas palavras e imagens.

“Por que eles queimaram todos eles?”, perguntou Olanna, brandamente. “Pense só no esforço para pôr fogo em tudo isso.”

O Patrão agachou-se ao lado de Ugwu e começou a procurar entre os papéis calcinados, resmungando: “Minhas pesquisas todas estão aqui, neke-ne nke, este é um dos meus rank tests para a detecção de sinais...”. Depois de um tempo, sentou na terra nua, com as pernas estendidas à frente, coisa que Ugwu desaprovou em silêncio; havia algo de indigno, de desarvorado em alguém sentado assim. Olanna segurava a mão de Baby, olhando para o pinheiro rangendo, para as ixoras e os lírios, tudo já sem forma e emaranhado. A própria rua Odim estava sem forma, emaranhada, com ambos os lados enredados em densas moitas. Até mesmo os blindados nigerianos, abandonados no fim da rua, tinham capim crescendo dos pneus.

Ugwu foi o primeiro a entrar. Olanna e Baby foram atrás. Havia teias leitosas de aranha penduradas pela sala. Ele olhou para cima e viu uma enorme aranha negra movendo-se devagar por sua rede, como se não se importasse com a presença deles, ainda confiante de que aquela era sua casa. Os sofás, as cortinas, o tapete e as estantes tinham sumido. Até as vidraças haviam desaparecido, deixando grandes buracos nas janelas, por onde os ventos secos do harmatão tinham soprado tanto pó que as paredes estavam agora de um marrom uniforme. Os grãos de poeira vagavam feito fantasmas na sala vazia. Na cozinha, apenas o pesado pilão de madeira fora deixado para trás. No corredor, Ugwu apanhou um frasco coberto de pó do chão; ao erguê-lo até o nariz, sentiu cheiro de coco. O perfume de Olanna.

Baby começou a chorar quando entraram no banheiro. As pilhas de fezes na banheira estavam secas, nacos obscenos que lembravam pedras. Páginas tinham sido arrancadas da revista Drum e usadas como papel higiênico, e as manchas cascudas besuntavam as letras. Estavam espalhadas pelo chão. Olanna pediu a Baby para parar de chorar e Ugwu se lembrou dela brincando com seu patinho amarelo naquela banheira. Abriu a torneira, que chiou, mas não verteu água. O capim no quintal chegava até os ombros, alto demais para atravessar direto, de modo que ele encontrou um pau e foi batendo para abrir caminho. A casa de abelhas que havia no cajueiro se fora. A porta do Alojamento dos Criados estava entreaberta, sustentada por dobradiças esmagadas, e ele empurrou, lembrando-se da camisa que tinha deixado pendurada num prego na parede. Sabia que não estaria mais lá, é claro, no entanto olhou para a parede, em busca dela. Anulika tinha admirado aquela camisa. Estava emocionado e assustado porque, dali a algumas horas, iria ver Anulika, porque, dali a pouco, iria finalmente voltar para casa. Não se permitia pensar em quem estava vivo e em quem morrera. Apanhou coisas do chão imundo, uma arma enferrujada e um exemplar inchado e meio comido da Socialist Review. Jogou de novo no chão e, no eco que reverberou pelo quarto, alguma coisa, quem sabe um rato, passou correndo.

Ele queria limpar. Queria esfregar feito um doido. Porém receava que isso não fosse mudar nada. Talvez a casa estivesse conspurcada nas próprias fundações, e o cheiro ressequido de algo morto havia muito tempo continuaria impregnando os aposentos, o barulho dos ratos continuaria ressoando no forro. O Patrão encontrou uma vassoura e varreu ele mesmo o escritório, deixando uma pilha de cocô de lagarto e poeira do outro lado da porta. Ugwu olhou para o escritório e viu o Patrão sentado na única cadeira que sobrara, uma que estava com uma perna quebrada e que ele encostara na parede, para manter o equilíbrio; estava curvado sobre papéis e pastas semiqueimados.

Ugwu cutucou as fezes no banheiro com um pau, resmungando pragas contra os vândalos e todos os seus descendentes, e já havia lavado a banheira quando Olanna lhe pediu para deixar a limpeza para depois da visita à família.

 

Ugwu ficou imóvel enquanto Chioke, a segunda mulher de seu pai, atirava areia nele. “Você é real, Ugwu?”, perguntou ela. “É real?”

Ela se curvava, apanhava punhados de areia e jogava sobre ele em movimentos rápidos, e a areia caía em seus ombros, braços, barriga. Por fim, ela parou e o abraçou. Ele não tinha desaparecido; não era um espírito. Vieram outras pessoas abraçá-lo, esfregar seu corpo para acreditar na sua existência, como se a areia não tivesse provado a eles que não era um espírito. Algumas mulheres choravam. Ugwu examinou as fisionomias em volta, todas bem mais magras, todas com uma profunda exaustão impressa na pele, até mesmo as crianças. Porém era Anulika a que mais parecia mudada. Seu rosto estava coberto de cravos e espinhas, e ela não olhou nos olhos do irmão, quando disse, em lágrimas: “Você não morreu, você não morreu”. Ficou espantado de ver que a irmã que achava ser linda não era mais. Era uma estranha, feia, e vesga de um olho.

“Me disseram que meu filho tinha morrido”, disse o pai, pegando-o pelo ombro.

“Onde está Mama?”, perguntou.

Antes que o pai falasse, Ugwu já sabia. Soube no momento em que Chioke saiu para recebê-lo. Devia ter sido sua mãe; ela teria pressentido sua presença e ido até o bosque de ubes.

“Sua mãe não está mais conosco”, disse o pai.

Lágrimas quentes encheram os olhos de Ugwu. “Deus nunca vai perdoá-los.”

“Cuidado com o que você diz!” O pai olhou em volta, receoso, embora ele e Ugwu estivessem sozinhos. “Não foram os vândalos. Ela morreu de tosse. Deixa eu mostrar onde está enterrada.”

O túmulo não tinha nome. Um pé de inhame, de um verde vivo, crescia no local.

“Quando?”, perguntou Ugwu. “Quando ela morreu?”

Parecia surreal perguntar Quando ela morreu? sobre a própria mãe. E não tinha importância a data em que ela tinha morrido. Com o pai falando palavras que não faziam sentido, Ugwu caiu de joelhos, pôs a testa no chão e cobriu a cabeça com as mãos, como se para se proteger de algo que despencaria lá do alto, como se essa fosse a única posição possível para absorver a morte da mãe. O pai o deixou e voltou para sua cabana. Mais tarde, Ugwu sentou-se com Anulika sob uma árvore de fruta-pão.

“Como foi que Mama morreu?”

“De tosse.”

Ela não respondeu nenhuma outra de suas perguntas da forma como ele esperava, não houve gestos cheios de energia, nenhum comentário aguçado nas respostas: sim, eles fizeram a cerimônia do vinho pouco antes de os vândalos ocuparem a aldeia. Onyeka estava bem. Tinha ido para a fazenda. Não tinham filhos, ainda. Ela desviava a vista o tempo todo, como se não se sentisse à vontade sentada ao lado dele, e Ugwu se perguntou se por acaso não havia imaginado o jeito fácil como se comunicavam antes. Ela parecia aliviada quando ouviu o chamado de Chioke; levantou rápido e foi embora.

Ugwu observava as crianças correndo em volta da árvore de fruta-pão, com provocações e berros, quando Nnesinachi chegou com uma criança nos quadris e olhos faiscantes. Ela não estava nem um pouco mudada; ao contrário dos outros, não parecia mais magra. Seus seios estavam um pouco maiores, porém, e empurravam o tecido da blusa. Ela o abraçou apertado. O bebê gritou.

“Eu sabia que você não tinha morrido”, disse ela. “Eu sabia que seu chi estava bem acordado.”

Ugwu tocou no rosto da criança. “Você se casou durante a guerra?”

“Não casei não.” Transferiu o bebê para o outro quadril. “Eu morei com um soldado hauçá.”

“Com um vândalo?” Isso era algo inconcebível, para Ugwu.

Nnesinachi fez que sim com a cabeça. “Eles estavam morando na nossa cidade e ele era bom para mim. Se eu estivesse aqui na época, o que aconteceu com Anulika jamais teria acontecido. Mas eu tinha viajado até Enugu com ele, para comprar algumas coisas.”

“O que aconteceu com Anulika?”

“Você não sabe?”

“O quê?”

“Eles a estupraram. Cinco deles.” Nnesinachi sentou-se e pôs o bebê no colo.

Ugwu olhou o céu longínquo. “Onde foi?”

“Já faz mais de um ano, isso.”

“Eu perguntei onde.”

“Ah.” A voz de Nnesinachi tremeu. “Perto do regato.”

“Aqui fora?”

“Foi.”

Ugwu curvou-se e pegou uma pedra.

“Disseram que o primeiro que subiu nela, ela mordeu no braço e arrancou sangue. Eles quase a mataram de pancada. Um dos olhos nunca mais quis abrir direito.”

Mais tarde, Ugwu deu uma volta pelo povoado e, quando chegou ao riacho, lembrou-se da fila de mulheres que iam buscar água pela manhã; sentou numa pedra e soluçou.

 

De volta a Nsukka, Ugwu não contou a Olanna sobre o estupro da irmã. Ela passava fora quase todo o tempo. Recebia recados e mais recados sobre onde mulheres que se pareciam com Kainene tinham sido vistas e, por isso, foi a Enugu, Onitsha e Benin, mas sempre voltava cantarolando baixinho. “Eu vou encontrar minha irmã”, dizia, quando Ugwu lhe perguntava como tinha sido a viagem.

“Vai sim, mah, claro que vai”, dizia Ugwu, porque tinha de acreditar, em nome dela, que Olanna encontraria Kainene.

Ele limpava a casa. Ia ao mercado. Visitava a Praça da Liberdade para ver a montanha de livros calcinados que os vândalos tinham tirado da biblioteca e queimado. Brincava com Baby. Sentava na escada que levava ao quintal e escrevia em pedaços de papel. As galinhas cacarejavam no quintal vizinho. Ele olhava por cima da cerca e se perguntava por onde andaria Chinyere, o que tinha achado dele, se tinha sobrevivido. O dr. Okeke e sua família ainda não tinham voltado, e agora um homem de pernas arqueadas, um professor de química que cozinhava em fogão a lenha e tinha um galinheiro, morava ali. Um dia, na luz fraca do crepúsculo, Ugwu olhou e viu três soldados invadindo o compound e saindo momentos depois, arrastando o professor.

Ugwu ouvira dizer que os soldados nigerianos haviam prometido matar cinco por cento de todos os acadêmicos de Nsukka, e ninguém tinha notícias do professor Ezeka desde a sua prisão em Enugu, mas de repente tudo ficou mais real quando viu o professor da casa ao lado sendo arrastado para fora. De modo que, dias depois, quando escutou batidas fortes na porta da frente, pensou que tinham ido buscar o Patrão. Ele diria que o Patrão não estava em casa; diria até que o Patrão morrera. Correu antes até o escritório, cochichou “Se esconde debaixo da mesa, sah!” e, depois, correu até a porta da frente, fazendo cara de burro. Porém, em vez do verde ameaçador das fardas do exército, do brilho das botas e das armas, ele viu um caftã marrom, sandálias sem salto e um rosto familiar que levou alguns momentos para reconhecer: a srta. Adebayo.

“Boa tarde”, disse Ugwu. Estava perto de se sentir decepcionado.

Ela olhava para dentro da casa, para o que havia atrás de Ugwu, e em seu rosto se via um medo enorme; um medo tão grande que a deixava sem expressão nenhuma, como se fosse uma caveira com dois buracos esbugalhados no lugar dos olhos.

“Odenigbo?”, sussurrava ela. “Odenigbo?”

Ugwu percebeu na hora que isso era tudo que ela conseguia dizer, que talvez nem o tivesse reconhecido e que não era capaz de fazer a pergunta completa: Odenigbo está vivo?

“Meu Patrão está bem”, disse Ugwu. “Está lá dentro.”

Ela olhava para ele. “Ó, Ugwu! Como você cresceu.” Ela entrou. “Onde ele está? Como ele está?”

“Eu vou chamá-lo, mah.”

O Patrão estava na porta do escritório. “O que está havendo, meu bom homem?”, perguntou.

“É a senhorita Adebayo, sah.”

“E você veio me dizer para eu me esconder embaixo da mesa por causa da senhorita Adebayo?”

“Eu pensei que fossem os soldados, sah.”

A srta. Adebayo abraçou o Patrão e segurou-o por tempo demais. “Eles disseram que ou você ou Okeoma não conseguiu voltar...”

“Okeoma não conseguiu voltar.” O Patrão repetiu sua frase como se não aprovasse a expressão.

A srta. Adebayo sentou-se e começou a chorar. “Sabe que nós não entendemos de fato o que se passava em Biafra? Em Lagos, a vida continuou seguindo seu curso e as mulheres usavam as rendas mais recentes do mercado. Só quando fui a Londres, para participar de uma conferência, e li um relatório sobre a fome é que fiquei sabendo.” Ficou calada algum tempo. “Assim que acabou, eu me juntei aos voluntários do Mayflower e cruzei o Níger com comida...”

Ugwu não gostava dela. Não gostava de sua nigerianice. No entanto, uma parte dele estava disposta a perdoar, se isso pudesse trazer de volta aquelas noites de antes, quando ela discutia com o Patrão numa sala que cheirava a conhaque e cerveja. Agora, ninguém vinha visitá-los, exceto Mister Richard. Havia uma nova familiaridade na presença dele. Era mais como se ele fosse da família, do jeito como sentava na sala, lendo, enquanto Olanna cuidava dos seus afazeres e o Patrão ficava no escritório.

As batidas na porta, algumas noites depois, quando Mister Richard estava de visita, irritou Ugwu. Pôs as folhas de papel na mesa da cozinha. Será que a srta. Adebayo não podia entender que o melhor seria voltar para Lagos e deixá-los sossegados? Na porta, recuou um passo quando viu os dois soldados através do vidro. Eles agarraram a maçaneta e sacudiram a porta trancada. Ugwu abriu-a. Um deles usava um gorro verde e o outro tinha uma verruga branca no queixo, como uma semente de fruta.

“Todo mundo desta casa, todos deitados de barriga no chão!”

O Patrão, Olanna, Ugwu, Baby e Mister Richard se estenderam no chão da sala de estar, enquanto os soldados reviravam a casa. Baby fechou os olhos e ficou absolutamente imóvel, de barriga colada ao chão.

O de gorro verde tinha os olhos vermelhos, flamejantes, e gritou e rasgou alguns papéis da mesa. Foi ele que pisou com a bota nas costas de Mister Richard e disse: “Homem branco! Oyinbo! Não se faça de importante com a gente, hem!”. Foi ele, também, que pôs a arma na cabeça do Patrão e disse: “Tem certeza de que não está escondendo nenhum dinheiro biafrense aqui?”.

O outro, com a verruga no queixo, disse: “Estamos atrás de tudo quanto é material que ameace a unidade da Nigéria”, depois foi até a cozinha e voltou com dois pratos transbordando de arroz jollof feito por Ugwu. Depois de comerem, tomarem um pouco de água e arrotarem bem alto, entraram na caminhonete e se foram. Tinham deixado a porta da frente aberta. Olanna levantou-se primeiro. Foi até a cozinha e jogou o resto do arroz jollof na lata de lixo. O Patrão trancou a porta. Ugwu ajudou Baby a se levantar e levou-a para dentro. “Hora do banho”, disse ele, embora ainda fosse um pouco cedo.

“Eu tomo sozinha”, disse Baby, de modo que ele parou e ficou vendo a menina se banhar sozinha pela primeira vez. Ela jogou um pouco de água nele, rindo, e ele se deu conta de que ela não iria precisar dele para sempre.

De volta à cozinha, encontrou Mister Richard lendo as folhas de papel que ele tinha deixado na bancada.

“Isso é fantástico, Ugwu.” Ele parecia surpreso. “Olanna lhe contou sobre a mulher que ela encontrou no trem, levando a cabeça do filho?”

“Contou, sah. Vai fazer parte de um livro grande. Vou levar uma porção de anos para terminar, e vou chamar de ‘Narrativa da vida de um país’.”

“Muito ambicioso”, disse Mister Richard.

“Bem que eu gostaria de ter aquele livro do Frederick Douglass.”

“Deve ter sido um dos livros que eles queimaram”, disse Mister Richard, balançando a cabeça. “Bom, na semana que vem vou para Lagos e vejo se encontro um exemplar para você. Vou ver os pais de Kainene. Mas antes vou a Port Harcourt e Umuahia.”

“Umuahia, sah?”

“Isso.”

Mister Richard não disse mais nada; nunca falava sobre suas buscas. “Se tiver tempo, sah, por favor, pergunte sobre uma pessoa para mim?”

“Eberechi?”

Um sorriso se abriu no rosto de Ugwu antes que ele pudesse recuperar o ar solene outra vez. “Ela, sah.”

“Claro.”

Ugwu deu o nome da família e o endereço e Mister Richard anotou; depois, ficaram ambos calados e Ugwu buscou, desajeitadamente, algo para dizer. “O senhor ainda está escrevendo aquele seu livro, sah?”

“Não.”

‘“O mundo estava calado enquanto nós morríamos.’ É um bom título.”

“É, de fato é. Saiu de uma frase que o coronel Madu me disse uma vez.” Richard calou-se. “A guerra não é história para eu contar, na verdade.”

Ugwu concordou de cabeça. Nunca tinha achado que era.

“Posso lhe dar uma carta, para o caso de encontrar Eberechi, sah?”

“Claro.”

Ugwu pegou as folhas de papel da mão de Mister Richard e, virando-se para fazer o jantar de Baby, cantou bem baixinho.