Meio Sol Amarelo
Capítulo 12
Richard lia mais uma vez o bilhete de Kainene quando o avião pousou em Kano. Tinha achado enquanto buscava uma revista na pasta. Bem que teria gostado de saber que aquele bilhete ficara os dez dias passados em Londres dentro de sua pasta, à espera de ser lido.
Será o amor essa necessidade equivocada de tê-lo a meu lado o tempo quase todo? Será o
amor essa segurança que eu sinto em nossos silêncios? Será o entrosamento, a completude?
Ele sorria enquanto lia; Kainene nunca escrevera nada parecido para ele. Duvidava até que ela tivesse lhe escrito qualquer coisa, antes, a não ser o genérico Beijo, Kainene, nos cartões de aniversário. Leu várias vezes, demorando-se no I (eu) tão elaboradamente recurvo que chegava a parecer o símbolo da libra esterlina. De repente, não estava mais contrariado com o fato de o vôo ter saído atrasado de Londres, nem com a baldeação em Kano, que adiaria ainda mais sua chegada a Lagos. Uma leveza absurda se apoderara dele; tudo era possível, tudo era controlável. Levantou-se e ajudou a mulher que viajara a seu lado a carregar a valise. Será o amor essa segurança que sinto em nossos silêncios?
“Você está sendo muito gentil”, disse a mulher, num sotaque irlandês. O vôo estava cheio de não-nigerianos. Se Kainene estivesse junto, com certeza teria dito algo em tom zombeteiro — Aí vão os europeus rumo ao saque. Apertou a mão da comissária de bordo, ao pé da rampa, e caminhou rápido pelo asfalto; o sol estava forte, um calor penetrante e branco que o fazia imaginar todo o líquido de seu corpo evaporando, secando, e sentiu-se aliviado quando entrou e sentiu o frescor do prédio. Parou na fila da alfândega e releu o bilhete de Kainene. Será o amor essa necessidade equivocada de tê-lo a meu lado quase o tempo todo? Ele a pediria em casamento quando voltasse a Port Harcourt. Primeiro, ela diria algo como: “Um sujeito branco e sem dinheiro. Meus pais vão ficar escandalizados”. Mas aceitaria. Ele sabia que ela aceitaria. Alguma coisa tinha acontecido com ela, nos últimos tempos, um abrandamento, um amadurecimento do qual surgira o bilhete. Não sabia muito bem se ela o perdoara pelo incidente com Olanna — nunca falaram no assunto —, mas esse bilhete, essa nova franqueza, significavam que ela estava pronta a ir em frente. Estava alisando o bilhete na palma da mão quando um funcionário muito jovem e de pele muito escura perguntou: “O senhor tem algo a declarar?”.
“Não”, disse Richard, entregando o passaporte. “Estou indo para Lagos.”
“Muito bem! Bem-vindo à Nigéria”, disse o jovem. Seu corpo era gordo, grande, parecia desleixado dentro do uniforme.
“Você é funcionário, aqui?”, perguntou Richard.
“Sou, sim. Estou em treinamento. Até dezembro, já serei um inspetor de alfândega diplomado.”
“Ótimo”, disse Richard. “E de onde você é?”
“Eu venho da região sudeste, de uma cidade chamada Obosi.”
“O pequeno vizinho de Onitsha.”
“O senhor conhece o lugar?”
“Trabalho na Universidade de Nsukka e já viajei muito pela região leste. Estou escrevendo um livro sobre a área. E minha noiva é de Umunnachi, que não fica muito longe de você.” Sentiu uma onda de realização ao ver como a palavra noiva saíra facilmente dele, sinal de uma futura beatitude matrimonial. Sorriu, depois percebeu que o sorriso ameaçava virar risada e que ele poderia estar ligeiramente delirante. Era aquele bilhete.
“O senhor disse sua noiva?” O jovem parecia não ter aprovado.
“Isso. O nome dela é Kainene.” Richard falava devagar, certificando-se de arrastar a segunda sílaba inteirinha.
“O senhor fala ibo?” Os olhos do rapaz mostraram um frágil respeito por Richard.
“Nwanne di na mba”, disse Richard, de forma enigmática, torcendo para não ter misturado as bolas e que o provérbio quisesse dizer que o irmão de alguém sempre podia vir de uma terra diferente.
“Eh! Você fala! I na-asu Igbo!” O rapaz pegou na mão de Richard com a sua, úmida de suor, sacudiu-a calorosamente, e começou a falar de si. Seu nome era Nnaemeka.
“Eu conheço muito bem o pessoal de Umunnachi, eles dão trabalho, todos eles”, falou. “Meus parentes avisaram minha prima para não se casar com aquele sujeito de Umunnachi, mas ela não escutou. Todos os dias, batiam nela até que ela arrumou as coisas e voltou para a casa do pai. Mas nem todo mundo em Umunnachi é mau. Os parentes da minha mãe vêm de lá. O senhor nunca ouviu falar da mãe da minha mãe? Nwayike Nkwelle? O senhor devia escrever sobre ela em seu livro. Era uma herbalista fantástica, e tinha o melhor remédio para a malária. Se tivesse cobrado dinheiro grosso das pessoas, eu agora estaria estudando medicina no exterior. Mas minha família não pode me mandar para fora, e o pessoal em Lagos está dando bolsa de estudo para os filhos de gente que tem como subornar. É por causa de Nwayike Nkwelle que eu queria estudar para médico. Mas não estou dizendo que esse emprego aqui de inspetor da alfândega é ruim. Afinal, temos de fazer exame para entrar, e muita gente fica enciumada. Quando eu me tornar um inspetor de alfândega de verdade, a vida vai ser bem melhor, com muito menos sofrimento...”
Uma voz, falando inglês com um elegante sotaque hauçá, anunciou que os passageiros do vôo saído de Londres deveriam prosseguir para o embarque com destino a Lagos. Richard sentiu-se aliviado. “Foi muito bom falar com você, jisie ike.”
“Foi mesmo, senhor. Saudações a Kainene.”
Nnaemeka virou-se para voltar a sua escrivaninha. Richard apanhou a pasta. A entrada lateral abriu-se com um estrondo e três homens entraram correndo, empunhando rifles de cano longo. Estavam de farda verde do exército e Richard se perguntou por que os soldados sempre faziam um espetáculo de si mesmos, entrando dessa forma, até ver como estavam vermelhos e perigosamente vidrados os olhos deles.
O primeiro soldado agitou a arma para um lado e outro, “Ina nyamiri! Onde estão os ibos? Quem é ibo, aqui? Cadê os infiéis?”
Uma mulher gritou.
“Você é ibo”, disse o segundo soldado para Nnaemeka.
“Não, eu venho de Katsina! Katsina!”
O soldado avançou para ele. “Diga Allahu Akbar!”
O saguão ficou em silêncio. Richard sentiu o suor frio pesando sobre os cílios.
“Diga Allahu Akbar!”, repetiu o soldado.
Nnaemeka ajoelhou-se. Richard viu o medo entranhado tão lá no fundo que as bochechas caíram e o transfiguraram numa máscara que não parecia em nada com ele. Nnaemeka não poderia dizer “Allahu Akbar”, Deus é grande, porque seria traído pelo sotaque. Mesmo assim, Richard queria que ele dissesse as palavras; queria que algo, qualquer coisa, acontecesse no silêncio sufocante e, como se em resposta a seus pensamentos, o rifle disparou e o peito de Nnaemeka se abriu, uma massa vermelha espedaçada; o bilhete caiu da mão de Richard.
Os passageiros estavam agachados atrás dos bancos. Homens se ajoelharam para baixar a cabeça até o chão. Alguém gritava em ibo: “Minha mãe, ó! Minha mãe, ó! Deus disse que não!”. Era o garçom do bar. Um dos soldados se aproximou bem dele e disparou, depois mirou nas garrafas de bebida alinhadas atrás e disparou contra elas também. Tudo ficou cheirando a uísque, gim e Campari.
Chegaram mais soldados, houve mais tiros, mais gritos de “Nyamiri!” e “Araba, araba!”. O garçom do bar se remexia no chão e o gorgolejo que saía de sua boca era gutural. Os soldados correram pela pista, entraram no avião, tiraram à força os ibos que já tinham subido, enfileiraram todos eles, fuzilaram e deixaram-nos ali, as roupas de estampados vivos feito manchas coloridas na faixa preta empoeirada. Os guardas de segurança cruzaram os braços por cima das fardas e observaram tudo. Richard sentiu que molhava a calça. Havia um zumbido penoso em seu ouvido. Quase perdeu o avião porque, enquanto os outros passageiros caminhavam, trêmulos, para o embarque, ele ficou de lado, vomitando.
Susan ainda estava de roupão. Não pareceu surpresa de vê-lo chegar sem ser anunciado. “Você parece exausto”, disse ela, tocando em seu rosto. O cabelo dela estava embaraçado e sem brilho, meio jogado para trás, revelando suas orelhas vermelhas.
“Acabei de chegar de Londres. Nosso vôo parou em Kano.”
“É mesmo?”, perguntou Susan. “E como foi o casamento do Martin?”
Richard continuava imóvel no sofá; não se lembrava de nada do que ocorrera em Londres. Susan não parecia ter reparado que ele não abrira a boca. “Um uísque pequeno com bastante água?”, perguntou, já servindo a bebidas. “Kano é muito interessante, não é?”
“É”, disse Richard, embora o que quisesse lhe dizer era que tinha visto os ambulantes, os carros, os ônibus e as ruas lotadas de Lagos com espanto, porque a vida ali continuava a seguir seu rumo do mesmo jeito normal de sempre, como se nada estivesse acontecendo em Kano.
“É muito tolo ver que os nortistas estão pagando o dobro para os estrangeiros, tudo para não contratar um sulista. Mas tem muito dinheiro por lá. O Nigel acabou de me ligar para falar de um amigo dele, John, um escocês horrendo. Mas, como eu ia dizendo, o John é piloto de avião e fez uma pequena fortuna levando ibos para lugares mais seguros nesses últimos dias. Ele disse que centenas de pessoas foram mortas só em Zaria.”
Richard sentia que seu corpo estava se preparando para fazer algo, para estremecer, para desmaiar. “Então você sabe o que está acontecendo por lá?”
“Claro que eu sei. Só espero que a coisa não chegue até aqui. É quase impossível prever essas coisas.” Susan tomou a bebida num gole só. Ele reparou no tom acinzentado de sua pele, nas pequenas gotas de suor sobre o lábio. “Tem muito ibo em Lagos — quer dizer, eles estão em toda parte, não é mesmo? Não que eles não soubessem o que esperar, quando a gente pensa melhor a respeito, eles com aquele sentido de clã deles, sempre melhores que os outros, sempre controlando os mercados. Uma coisa muito judaica, na verdade. E pensar que são relativamente incivilizados; não dá para compará-los aos iorubas, por exemplo, que vêm mantendo contato com os europeus há anos, na costa. Lembro-me de alguém me dizendo, quando vim para cá: cuidado com os criados ibos que você contratar, porque, antes que você se dê conta, eles já serão donos da casa e do terreno onde ela foi construída. Mais um uisquinho?”
Richard balançou a cabeça. Susan serviu mais uma dose para si e, dessa vez, não acrescentou nenhuma água. “Você não viu nada no aeroporto de Kano, viu?”
“Não”, disse Richard.
“Eles não iriam até o aeroporto, imagino. É extraordinário, não é mesmo, o jeito como essa gente não consegue controlar o ódio que sentem uns pelos outros. Claro que todos nós odiamos alguém, mas é tudo uma questão de controle. A civilização nos ensina o controle.
Susan bebeu seu uísque e serviu um terceiro. A voz dela ecoava, quando ele foi ao banheiro, e piorou a terrível dor de cabeça que sentia. Abriu a torneira. Chocou-se de ver que não estava nada mudado, no espelho, que os pêlos da sobrancelha continuavam espetados, descontrolados, e que os olhos ainda tinham o mesmo tom de azul dos vitrais. Deveria ter ficado transfigurado com o que presenciara. Sua vergonha deveria ter deixado verrugas vermelhas no rosto. O que ele sentiu, quando viu Nnaemeka ser morto, não foi choque e sim um imenso alívio de Kainene não estar com ele, porque não teria como protegê-la e porque eles saberiam que ela era ibo e a teriam matado. Richard não poderia ter salvado Nnaemeka, mas ao menos deveria ter pensado nele primeiro, deveria ter se sentido arrasado com a morte do rapaz. Olhou para seu reflexo no espelho e perguntou-se se aquilo de fato acontecera, se de fato tinha visto homens morrerem, se o cheiro que ainda sentia de garrafas de bebida estilhaçadas e de corpos humanos ensanguentados era imaginação sua ou verdade. Porém sabia que aquilo tudo acontecera e que punha em dúvida apenas porque essa era a expressão de seu desejo. Baixou a cabeça na pia e começou a chorar. A água assobiou ao sair da torneira.
3. O Livro: O Mundo Estava Calado Quando Nós Morremos
Ele escreve sobre a Independência. A Segunda Guerra Mundial mudou a ordem do
mundo: o Império desmoronava e uma elite nigeriana que dizia o que pensava, quase toda
ela do Sul, surgira nesse meio tempo.
O Norte estava inquieto: temia o domínio do Sul, bem mais instruído, e sempre quis
separar-se dos sulistas infiéis. Entretanto os britânicos tinham de manter a Nigéria como ela
era — uma criação deles de alto valor, um grande mercado, um espinho no olho da França.
Para favorecer o Norte, ajeitaram as eleições pré-independência em favor do Norte e
redigiram uma nova constituição que dava aos nortistas o controle sobre o governo central.
O Sul, ansioso pela independência, aceitou a constituição. Com os britânicos fora,
haveria coisas boas para todo mundo: salários de “branco” há muito negados aos nigerianos,
promoções, altos cargos. Nada foi feito em relação ao clamor dos grupos minoritários, e as
regiões já estavam competindo tão ferozmente que algumas queriam ter embaixadas
estrangeiras separadas.
Em 1960, na época de sua Independência, a Nigéria era um conjunto de fragmentos
presos por um frágil fecho.