Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 7 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 6

 

Richard tomou a sopa de pimenta lentamente. Depois de comer os pedaços de tripa, ergueu a tigela de vidro até os lábios e tomou o caldo. Seu nariz escorria, havia uma queimação deliciosa na língua e sabia que estava com o rosto vermelho.

“Richard come isso com tanta facilidade”, disse Okeoma, sentado a seu lado, observando.

“Pois é! Nunca pensei que nossa pimenta fosse feita para tipos como você, Richard!”, disse Odenigbo, da outra ponta da mesa.

“Nem eu consigo digerir essa pimenta”, comentou outro convidado, um ganense, professor de economia, cujo nome Richard havia esquecido.

“O que prova que ele foi africano numa vida passada”, disse a srta. Adebayo, antes de assoar o nariz no guardanapo.

Os convidados riram. Richard também, mas não muito alto, porque a boca ainda estava com muita pimenta. Recostou-se de novo na cadeira. “Fantástico. Limpa tudo.”

“As costeletinhas também ficaram uma delícia, Richard”, disse Olanna. “Obrigada por ter trazido.” Ela estava sentada ao lado de Odenigbo e debruçou-se de leve na mesa, ao sorrir para ele.

“Eu sei que isso aqui é rolinho de salsicha, mas o que são essas coisas?” Odenigbo cutucava a bandeja que Richard tinha levado; Harrison embrulhara tudo muito graciosamente em papel-alumínio.

“Miniberinjela recheada, é isso?” Olanna deu uma olhada para Richard.

“Exato. O Harrison tem tudo quanto é idéia. Ele tirou o miolo e recheou com queijo, acho eu, e temperos.”

“Você sabia, Richard, que os europeus tiraram as entranhas de uma africana, empalharam e saíram pela Europa, para exibi-la?”, perguntou Odenigbo.

“Odenigbo, nós estamos comendo!”, disse a srta. Adebayo, embora estivesse abafando o riso.

Os outros todos riram. Odenigbo não. “É o mesmo princípio”, disse. “Você recheia comida, você recheia gente. O que eu digo é que, se você não gosta de um determinado alimento, esquece, come outra coisa, mas não me venha com recheios diferentes. Eis aí um desperdício de berinjela, na minha opinião.”

Até Ugwu parecia estar achando a história divertida quando entrou na sala de jantar para tirar a mesa. “Mister Richard, sah? Ponho a comida numa vasilha para o senhor?”

“Não, guarde ou jogue fora”, disse Richard. Ele nunca levava embora a comida que trazia; para Harrison, só transmitia os elogios dos convidados — como estava tudo muito bonito —, mas não acrescentava que tinham passado ao largo de seus canapés para comer o moi-moi, a sopa de pimenta e a galinha cozida em ervas de Ugwu.

Estavam todos indo para a sala de estar. Logo mais, Olanna apagaria a luz porque o brilho fluorescente da lâmpada era excessivo, Ugwu levaria mais bebidas, e então conversariam, dariam risada, ouviriam música, e a luz que vinha do corredor encheria a sala de sombras. Essa era a parte predileta da noite, para Richard, embora às vezes se perguntasse se Olanna e Odenigbo se tocavam, na penumbra. Não deveria estar pensando neles, sabia; não era assunto seu. Mas pensava. Reparou no jeito como Odenigbo olhava para ela, no meio de uma discussão, não como quem precisa do apoio de alguém, porque ele nunca parecia precisar de ninguém, mas simplesmente para ter certeza de que ela estava ali. Também via como às vezes Olanna piscava para Odenigbo, comunicando coisas que ele jamais saberia.

Richard apoiou seu copo de cerveja sobre uma mesinha de canto e sentou junto da srta. Adebayo e Okeoma. Sua língua apimentada ainda ardia. Olanna levantou para mudar o disco. “Primeiro Rex Lawson, o meu favorito, depois eu ponho o Osadebe.”

“Ele é um pouco derivativo, não é não, esse Rex Lawson?”, perguntou o professor Ezeka. “Uwaifo e Dairo são músicos bem melhores.”

“Toda música é derivativa, professor”, disse Olanna, em tom de brincadeira.

“Rex Lawson é um verdadeiro nigeriano. Não se apega a sua tribo kalabari; canta em todas as nossas principais línguas. Isso é original — e com certeza um motivo para gostarmos dele”, disse a srta. Adebayo.

“Esse é um motivo para não gostarmos dele”, retrucou Odenigbo. “Esse nacionalismo que significa que devemos aspirar à indiferença diante de nossas próprias culturas é uma burrice.”

“Não percam tempo querendo saber a opinião de Odenigbo sobre música High Life. Ele nunca entendeu”, disse Olanna, rindo. “Ele gosta mesmo é de música clássica, mas odeia ter que admitir isso em público porque é um gosto ocidental demais.”

“A música não tem fronteiras”, disse o professor Ezeka.

“Mas sem dúvida alguma está enraizada na cultura, e as culturas são específicas, certo?”, perguntou Okeoma. “Não poderíamos dizer então que Odenigbo adora a cultura ocidental que produziu a música clássica?”

Todos riram e Odenigbo olhou para Olanna de um jeito que suavizava seus olhos. A srta. Adebayo voltou ao assunto do embaixador francês. Não achava que os franceses deveriam ter testado armas atômicas na Argélia, claro, mas não entendia por que importava tanto assim para Balewa cortar relações diplomáticas com a França. Ela parecia perplexa, o que não era comum nela.

“Está muito claro que Balewa fez isso porque quer desviar a atenção do pacto de defesa que assinou com os britânicos”, disse Odenigbo. “E sabe que fazer pouco dos franceses sempre vai agradar os patrões. Ele é o ordenança dos britânicos. Foram eles que o puseram lá, eles lhe dizem o que fazer, e ele faz, um verdadeiro modelo parlamentar, no melhor estilo de Westminster.”

“Sem modelo parlamentar de Westminster hoje”, disse o dr. Patel. “Okeoma prometeu ler uma poesia.”

“Eu já disse a vocês que Balewa fez isso simplesmente porque quer que os norte-africanos gostem dele”, disse o professor Ezeka.

“Que os norte-africanos gostem dele? Você então acha que ele está preocupado com os outros africanos? O branco é o único patrão que Balewa conhece”, disse Odenigbo. “Não foi ele que disse que os africanos não estão preparados para se autogovernar na Rodésia? Se os britânicos o mandarem dizer que é um macaco castrado, ele diz.”

“Quanta bobagem”, disse o professor Ezeka. “Você está tergiversando.”

“Você se recusa a ver as coisas como elas realmente são!” Odenigbo mudou de posição na poltrona. “Estamos vivendo num período de grande perversidade branca. Os brancos estão desumanizando os negros da África do Sul e da Rodésia, fermentaram o que ocorreu no Congo, não querem deixar os negros norte-americanos votar, não querem deixar os aborígines australianos votar, mas o pior de tudo é o que estão fazendo aqui. Esse pacto de defesa é pior do que o apartheid e a segregação, mas nós não percebemos. Eles estão controlando a gente por trás das cortinas. E isso é muito perigoso!”

Okeoma debruçou-se para mais perto de Richard. “Esses dois não vão me deixar ler o poema hoje.”

“Eles estão em plena forma e loucos para discutir”, disse Richard.

“Como sempre.” Okeoma riu. “E como vai indo o seu livro, falando nisso?”

“Com muito custo, vai avançando.”

“É um romance sobre expatriados?”

“Bom, não, não exatamente.”

“Mas é um romance, certo?”

Richard tomou um gole de cerveja e perguntou-se o que Okeoma pensaria se soubesse a verdade — que nem mesmo ele sabia se era um romance ou não, porque as páginas que escrevera não perfaziam um todo coerente.

“Tenho um grande interesse pela arte de Igbo-Ukwu, e queria fazer disso a parte principal do livro.”

“Como assim?”

“Sinto um grande fascínio por aqueles artefatos de bronze, e isso desde o dia em que soube da descoberta. Os detalhes são espantosos. É quase incrível que esse povo já estivesse tão adiantado na complicada arte de fundir com cera perdida à época das invasões viquingues. Há uma magnífica complexidade nos objetos, simplesmente magnífica.”

“Você parece surpreso”, disse Okeoma.

“O quê?”

“Você parece surpreso, como se nunca lhe tivesse passado pela cabeça que esse povo fosse capaz de fazer tais coisas.”

Richard olhou para Okeoma; havia um novo e silencioso desdém na forma como ele o fitou de volta e franziu de leve o cenho, antes de dizer: “Já chega, Odenigbo e professor! Eu trouxe um poema que quero ler para todos vocês”.

Richard sugou a língua. A queimação das pimentas estava agora insuportável e ele mal esperou Okeoma terminar de ler um poema estranho — sobre africanos com brotoeja na bunda por defecarem em baldes importados — para se levantar e partir.

“Você continua concordando que eu leve Ugwu até o povoado dele, na semana que vem, Odenigbo?”, perguntou Richard.

Odenigbo deu uma olhada para Olanna.

“Claro que sim”, disse ela. “Espero que goste de ver a festa dos oriokpa.”

“Tome mais uma cerveja, Richard”, convidou Odenigbo.

“Estou indo para Port Harcourt amanhã bem cedo, de modo que preciso ir dormir”, disse ele, mas Odenigbo já tinha se voltado para o professor Ezeka.

“E o que me diz dos imbecis dos políticos da Assembléia Ocidental, em quem a polícia teve de usar gás lacrimogêneo? Gás lacrimogêneo! E os assistentes levando o corpo desfalecido deles para o carro! Imagine!”

A idéia de que Odenigbo não sentiria sua falta, depois que partisse, tirou o ânimo de Richard. Ao chegar em casa, Harrison abriu a porta e curvou-se. “Boa noite, sah. A comida sai bem, sah?”

“Foi, foi tudo bem, agora me deixa dormir”, retrucou rispidamente. Não estava com espírito para o que certamente viria em seguida: Harrison se ofereceria para ensinar a todos os criados de seus amigos, desejosos de aprender os segredos de magníficas receitas, como fazer um trifle de xerez ou berinjelas recheadas. Foi para o escritório, espalhou as páginas do seu manuscrito no chão e ficou olhando: algumas páginas de um romance de cidade pequena, um capítulo de um romance sobre o arqueólogo, e umas poucas páginas de descrições extasiadas dos bronzes. Começou a amassá-las, página por página, até ficar com uma pilha irregular junto à lixeira, e só então levantou-se e foi para a cama, com a sensação de sangue quente nos ouvidos.

Não dormiu bem; era como se tivesse acabado de pôr a cabeça no travesseiro, quando um sol esfuziante jorrou através das cortinas e ele escutou os barulhos de Harrison na cozinha e de Jomo trabalhando no quintal. Sentiu-se frágil. Mal podia esperar para dormir de verdade, com o braço fino de Kainene encostado em seu corpo.

Harrison serviu ovos fritos e torrada.

“Sah? Tem uns papéis que eu vejo no chão do escritório?” A fisionomia dele parecia alarmada.

“Deixe onde estão.”

“Pois não, sah.” Harrison cruzou e descruzou várias vezes os braços. “O senhor leva mãoscrito? Quer eu pego outros papéis?”

“Não, eu não vou trabalhar neste fim de semana”, disse Richard. Dessa vez, ao contrário das outras, não achou graça na decepção que tomou conta da fisionomia de Harrison. Enquanto tomava o trem, perguntou-se o que ele fazia nos fins de semana. Talvez preparasse para si pequenas e bonitas refeições de grande delicadeza. Não devia ter sido tão grosseiro com o pobre homem; não era culpa de Harrison o fato de Okeoma o considerar presunçoso. O que mais o preocupava era a expressão no rosto de Okeoma: uma desconfiança desdenhosa que o levou a pensar já ter lido em algum lugar que os africanos e os europeus seriam sempre irreconciliáveis. Era errado, da parte de Okeoma, presumir que ele fosse um daqueles ingleses que não davam aos africanos a chance de possuir uma inteligência igual. Talvez estivesse mesmo surpreso, pensando bem, mas era a mesma surpresa que expressaria se uma descoberta semelhante fosse feita na Inglaterra ou em qualquer outra parte do mundo.

Os vendedores ambulantes andavam de lá para cá. “Amendoim cozido!” “Laranjas!”

“Banana-da-terra!”

Richard chamou uma jovem que levava uma bandeja de amendoins que, a bem da verdade, ele não desejava. Ela baixou a bandeja, ele pegou um amendoim, estalou a casca entre os dedos e comeu, antes de pedir dois copinhos. Ela parecia espantada de ele saber que era preciso experimentar antes, e pensou, com azedume, que Okeoma também teria se espantado. Antes de comer, examinava cada amendoim — mole, arroxeado, murcho — tentando não pensar nas páginas amassadas no escritório, até que o trem chegou a Port Harcourt.

“Madu nos convidou para jantar amanhã”, disse Kainene, enquanto deixava a estação ferroviária em seu longo carro americano. “A mulher dele acabou de voltar do exterior.”

“É mesmo?” Richard não disse muita coisa mais e, em vez disso, olhou para os ambulantes na rua, gritando, gesticulando, correndo atrás dos carros para recolher o dinheiro.

 

O ruído da chuva batendo contra o vidro da janela o acordou, na manhã seguinte. Kainene estava deitada a seu lado, os olhos meio abertos, daquele jeito misterioso que significava que estava profundamente adormecida. Olhou para a pele de puro chocolate, brilhante de óleo, e baixou a cabeça até seu rosto. Não a beijou, não deixou que as faces se tocassem, mas aproximou-se até poder sentir a umidade do hálito e o cheiro levemente fermentado que exalava. Espreguiçou-se e foi até a janela. A chuva caía de atravessado em Port Harcourt, de modo que a água batia nas janelas e paredes, em vez de cair sobre o telhado. Talvez pela proximidade do oceano e da atmosfera, tão pesada de água que despejava a chuva antes da hora. Por alguns momentos, a chuva ficou mais intensa e o barulho na janela aumentou, feito pedregulhos lançados contra o vidro. Ele se espreguiçou de novo. A chuva havia parado e as vidraças nublaram. Atrás dele, Kainene se mexeu e resmungou algo.

“Kainene?”

Ela continuava com os olhos semiabertos, a respiração regular.

“Eu vou dar uma volta”, disse ele, embora tivesse certeza de que ela não escutara.

Do lado de fora, Ikejide estava apanhando laranjas; o uniforme fazia pregas nas costas quando ele cutucava uma fruta com a vareta.

“Bom dia, sah”, disse ele.

“Kedu?”, perguntou Richard. Sentia-se à vontade exercitando seu ibo com os empregados de Kainene, porque eles eram tão infensos a qualquer manifestação que não tinha a menor importância acertar ou não o tom.

“Estou bem, sah.”

“Jisie ike.”

“Pois é, sah.”

Richard foi até o fundo do pomar, de onde podia avistar, por entre o arvoredo, a espuma branca das ondas do mar. Sentou-se no chão. Gostaria que o major Madu não os tivesse convidado para jantar; não estava nem um pouco interessado em conhecer a mulher dele. Levantou-se, espreguiçou-se, deu a volta até o jardim da frente e olhou para a primavera violeta que subia pelo muro. Andou por alguns momentos pelo trecho enlameado da estrada deserta que levava até a casa, antes de voltar. Kainene estava na cama, lendo um jornal. Ele se acomodou do lado dela e Kainene estendeu a mão e tocou em seu cabelo, os dedos afagando delicadamente o couro cabeludo de Richard. “Tudo bem com você? Você está tenso desde ontem.”

Richard contou-lhe sobre Okeoma e, como ela não respondeu de imediato, acrescentou: “Lembro-me da primeira vez que li sobre a arte de Igbo-Ukwu, num artigo em que um professor de Oxford descrevia as peças como tendo um estranho rococó, com quase a virtuosidade de um Fabergé. Nunca me esqueci disso — rococó, quase com a virtuosidade de um Fabergé. Me apaixonei por essa expressão.”

Kainene dobrou o jornal e colocou-o na mesinha-de-cabeceira. “Por que se importa tanto com o que Okeoma acha?”

“Porque eu amo aquela arte. Foi uma coisa horrível, da parte dele, me acusar de desrespeito.”

“E é errado, da sua parte, achar que o amor não deixa espaço para mais nada. É bem possível amar e ainda assim ser condescendente em relação ao que se ama.”

Richard afastou-se um pouco. “Nem sei mais o que estou fazendo. Não sei nem mesmo se sou escritor ou não.”

“E não vai saber até escrever, certo?” Kainene saltou da cama e ele reparou no brilho metálico de seus ombros magros. “Estou vendo que você não está com vontade de sair à noite. Vou ligar para o Madu e cancelar o jantar.”

Voltou depois de fazer a ligação e sentou-se na cama; no silêncio que os separava, de repente Richard sentiu-se grato pela rispidez dela, que não lhe dava espaço para autopiedade, não lhe dava nada atrás do que se esconder.

“Uma vez eu cuspi no copo de água do meu pai”, disse ela. “Ele não tinha feito nada que pudesse me aborrecer, nada. Eu apenas cuspi. Tinha catorze anos. Teria sido uma satisfação incrível se ele tivesse bebido aquela água, mas é claro que Olanna saiu correndo e trocou o copo.” Ela se espreguiçou ao lado dele. “Agora você me conta algo horrível que você fez.”

Ele ficou excitado com aquela pele sedosa se esfregando na sua, com a rapidez com que mudara os planos de jantar na casa do amigo. “Eu não tinha confiança suficiente em mim para fazer coisas horríveis”, disse.

“Bom, então me conta alguma outra coisa.”

Pensou em lhe contar sobre aquele dia em Wentnor, quando se escondeu de Molly e sentiu, pela primeira vez, a possibilidade de moldar o próprio destino. Mas não contou. Em vez disso, falou sobre os pais, de como eles não paravam de se olhar, quando conversavam, de como se esqueciam dos aniversários do filho e, depois, semanas mais tarde, mandavam Molly fazer um bolo com a frase FELIZ ANIVERSÁRIO ATRASADO. Nunca sabiam o quê, nem quando ele comia; Molly lhe dava de comer quando se lembrava. Não tinham planejado tê-lo e, por causa disso, foi criado como um acréscimo tardio. Mas, mesmo ainda muito pequeno, sempre soube que não se tratava de não ser amado e sim, muitas vezes, de esquecimento deles, porque se amavam demais. Kainene ergueu as sobrancelhas, sardônica, como se o raciocínio dele não fizesse o menor sentido para ela; justamente por isso, Richard tinha medo de lhe dizer que, às vezes, achava que a amava demais.

2. O Livro: O Mundo Estava Calado Quando Nós Morremos

Ele trata do soldado-negociante britânico Taubman Goldie, sobre como ele coagia,

bajulava e matava para obter o controle do comércio do óleo de dendê, e de como, na

Conferência de Berlim de 1884, na qual os europeus retalharam a África, ele garantiu que

a Grã-Bretanha ficasse com dois protetorados a mais que a França, em torno do rio Níger:

o Norte e o Sul.

Os britânicos preferiam o Norte. O calor, ali, era agradavelmente seco; os hauçá-fula

tinham traços menos largos e, por isso, eram superiores aos sulistas negroides, além de

serem muçulmanos, o que significava que eram tão civilizados quanto era possível ser,

entre os nativos, sem contar que eram feudais e, portanto, perfeitos para o governo

indireto. Emires equânimes recolhiam os impostos para os britânicos, e, em troca, os

britânicos mantinham os missionários cristãos bem longe.

Por outro lado o Sul, muito úmido, era cheio de mosquitos, animistas e tribos distintas.

Os iorubas eram os mais numerosos no Sudeste. No Sudoeste, viviam os ibos, em

pequenas comunidades republicanas. Não eram nem um pouco dóceis e tinham uma

ambição preocupante. Uma vez que não tiveram o bom senso de possuir reis, os

britânicos criaram os chefes locais, os mandatários, porque o governo indireto saía bem

mais barato à coroa. Os missionários obtiveram licença para domar os pagãos; a

cristandade e a educação que levaram floresceu. Em 1914, o governador-geral uniu o

Norte e o Sul e sua mulher escolheu um nome. Assim nascia a Nigéria.

SEGUNDA PARTE

FIM DOS ANOS 60