Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 21 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 20

 

Olanna estava sentada na frente da mãe, na sala de estar do andar superior. A mãe chamava o aposento de salão das senhoras porque era ali que recebia as amigas, onde riam, chamavam-se pelos apelidos — Arte! Ouro! Ugodiya! — e falavam sobre o filho que continuava perdendo tempo com as mulheres de Londres, enquanto seus colegas construíam casas nas terras do pai, sobre quem havia comprado renda local e tentado fazer passar pela última palavra na Europa, sobre quem estava tentando roubar o marido de fulana e sobre quem havia importado mobília de qualidade de Milão. Agora, porém, a sala estava silenciosa. A mãe tinha um copo de água tônica numa das mãos e um lenço na outra. Chorava. Estava contando a Olanna sobre a amante do pai.

“Ele comprou uma casa para ela em Ikeja”, disse a mãe. “Tenho uma amiga que mora na mesma rua.”

Olanna observou o movimento delicado da mão da mãe enquanto enxugava os olhos. Parecia ser de cetim, o lenço; não conseguia absorver tantas lágrimas.

“A senhora já falou com ele?”, perguntou Olanna.

“E dizer o quê para o seu pai? Gwa ya gini?” A mãe largou o copo. Não dera um gole sequer desde que uma das empregadas levara para ela, numa bandeja de prata. “Não há nada que eu possa dizer a ele. Eu só queria contar a você o que está acontecendo para que não venham me dizer depois que eu não falei a ninguém.”

“Eu falo com ele”, disse Olanna. Era o que a mãe queria. Olanna havia voltado de Londres fazia um dia, mas a animação com a possibilidade que sucedeu a visita ao ginecologista de Kensington já se evaporara. Não conseguia mais se lembrar da esperança que a invadira quando ele disse que não havia nada errado com ela, e que só precisava — tinha lhe dado uma piscada — se esforçar mais. Ela queria voltar a Nsukka.

“O pior de tudo é que a mulher é uma sujeitinha qualquer”, disse a mãe, torcendo o lenço. “Uma cabra ioruba lá do mato, com dois filhos de dois homens diferentes. Fiquei sabendo que ela é velha e feia.”

Olanna levantou-se. Como se importasse a aparência da mulher. Como se “velho e feio” não se aplicasse também a seu pai. O que perturbava a mãe não era a amante, Olanna sabia, e sim o significado do que o pai tinha feito: comprar uma casa num bairro onde moravam as socialites de Lagos.

“Talvez seja melhor esperar até Kainene vir nos visitar, aí ela pode falar com ele, nne?”, disse a mãe, enxugando de novo os olhos.

“Eu disse que falo com ele, mãe.”

Mas naquela tarde, ao entrar no quarto do pai, percebeu que a mãe tinha razão. Kainene era a melhor pessoa para isso. Kainene saberia exatamente o que dizer, e, diferente dela, não sentiria aquela inaptidão desajeitada; Kainene com seus sentidos afiados, sua língua cortante e sua extrema autoconfiança.

“Papai”, disse ela, fechando a porta atrás de si. Ele estava à escrivaninha, sentado numa cadeira de encosto reto, feita de madeira escura. Não poderia perguntar-lhe se era verdade, porque ele sabia que a mãe sabia que era, e ela também. Perguntou-se, por alguns momentos, como seria essa mulher, que aspecto teria, o que ela e o pai conversavam.

“Papai”, disse de novo. Falou quase tudo em inglês. Era mais fácil ser formal e fria em inglês. “Eu gostaria que o senhor tivesse mais respeito pela minha mãe.” Não era isso que pretendia dizer. Minha mãe, em vez de mamãe, dava a impressão de que resolvera excluí-lo, como se o pai tivesse se tornado um estranho, com quem não poderia falar nos mesmos termos, como se ele não fosse seu pai.

Ele se recostou na cadeira.

“É falta de respeito ter uma relação com essa mulher, e ter comprado uma casa para ela no mesmo lugar onde vivem as amigas de mamãe”, disse Olanna. “O senhor vai para lá depois do trabalho, seu motorista estaciona na porta e o senhor parece não se importar que outras pessoas o vejam. Isso é um insulto para minha mãe.”

Os olhos do pai estavam baixos, os olhos de um homem tateando a mente.

“Eu não vou lhe dizer o que é preciso fazer, mas o senhor tem que fazer alguma coisa. Minha mãe não está feliz.” Olanna enfatizou o tem, pôs uma ênfase exagerada nele. Nunca tinha falado com o pai nesse tom antes; ela pouco falava com ele, de qualquer modo. Ficou ali olhando para o pai, e o pai para ela, e o silêncio entre os dois era vazio.

“Anugo m, eu ouvi o que disse”, falou ele. O ibo que usava era baixo, conspirador, como se ela tivesse lhe pedido para continuar enganando a mãe, mas com consideração. Isso a enraiveceu. Talvez tivesse sido isso mesmo que ela lhe pedira, mas ainda assim se sentia irritada. Olhou em volta do amplo quarto e pensou no pouco que lhe era familiar aquela vasta cama; nunca tinha visto o tom lustroso de ouro no cobertor, nem reparado em como eram intrincadamente encaracolados os puxadores de metal das cômodas. Até ele parecia estranho, um homem gordo que ela não conhecia.

“É só isso que tem para me dizer, que escutou o que eu disse?”, perguntou Olanna, erguendo a voz.

“O que você quer que eu diga?”

Olanna sentiu uma pena repentina dele, da mãe, de si e de Kainene. Queria lhe perguntar por que eram apenas estranhos partilhando um mesmo sobrenome.

“Eu vou tomar providências a respeito”, acrescentou ele. Levantou-se e aproximou-se da filha. “Obrigado, ola m”, disse.

Olanna não soube direito o que fazer desse obrigado, nem do fato de ele a ter chamado de meu ouro, algo que desde a infância nunca mais fizera e que, agora, se revestia de uma solenidade forçada. Ela se virou e saiu da sala.

* * *

Quando Olanna escutou a voz alterada da mãe, na manhã seguinte — “Seu imprestável! Inútil!” —, desceu correndo. Imaginou os pais brigando, a mãe agarrada na camisa dele, num nó apertado dos dedos, como as mulheres muitas vezes fazem com maridos infiéis. Os sons vinham da cozinha. Olanna parou na porta. Havia um homem ajoelhado diante de sua mãe, com as mãos erguidas no alto, as palmas voltadas para cima, em atitude de súplica.

“Madame, por favor; madame, por favor.”

A mãe virou-se para o mordomo, Maxwell, que estava parado ao lado, observando. “I fugo? Será que ele acha que nós o contratamos para roubar tudo o que temos, Maxwell?”

“Não, mah”, respondeu Maxwell.

A mãe voltou a se concentrar no homem ajoelhado no chão. “Quer dizer que é isso que você tem feito desde que veio para cá, seu inútil? Você veio aqui para roubar de mim?”

“Madame, por favor; madame, por favor. Estou me valendo de Deus para lhe implorar.”

“Mamãe, o que houve?”, perguntou Olanna.

A mãe se virou. “Ah, nne, eu não sabia que você já tinha acordado.”

“O que houve?”

“Foi essa besta aqui. Nós o contratamos não faz um mês e ele já quer roubar tudo o que tem na casa.” Ela se virou de novo para o homem ajoelhado. “É assim que você retribui a quem lhe dá um emprego? Sujeito estúpido!”

“O que foi que ele fez?”, perguntou Olanna.

“Venha aqui ver.” A mãe a levou até o quintal, onde uma bicicleta estava encostada numa mangueira. Um saco de pano havia caído do assento de trás, espalhando arroz pelo chão.

“Ele roubou meu arroz e estava pronto para ir para casa. Foi só pela graça de Deus que o saco caiu. Quem é que sabe o que mais ele já roubou de mim? Não é à toa que ando procurando alguns dos meus colares.” A mãe ofegava ao falar.

Olanna olhou os grãos de arroz no chão e se perguntou como é que a mãe pudera ficar no estado em que estava por causa deles e se ela realmente acreditava na própria indignação.

“Tia, por favor, fale com a madame. Foi o diabo que me fez fazer isso.” As mãos suplicantes do homem estavam agora voltadas para Olanna. “Por favor, fale com a madame.”

Olanna desviou a vista do rosto enrugado e dos olhos amarelados; ele era mais velho do que dera a impressão de início, tinha mais de sessenta anos, com certeza. “Levante-se”, disse ela.

Ele hesitou, olhando para a mãe dela.

“Eu disse para se levantar!” Não fora intenção de Olanna erguer a voz, mas ela saiu aguda. Desajeitadamente, o homem se levantou, os olhos baixos. “Mamãe, se você vai despedi-lo, então despeça e o deixe ir embora.”

O homem arquejou, como se não esperasse isso dela. A mãe também parecia espantada e olhou primeiro para Olanna, depois para o homem, em seguida para Maxwell, antes de tirar a mão do quadril. “Eu vou lhe dar mais uma chance, mas você que não ponha a mão em nada desta casa, a menos que tenha permissão. Ouviu bem?”

“Ouvi, madame. Obrigado, madame. Deus a abençoe, madame.”

O homem ainda estava entoando seus agradecimentos quando Olanna pegou uma banana da mesa e saiu da cozinha.

Contou a Odenigbo por telefone a repulsa que sentira ao ver aquele homem idoso humilhar-se daquela forma, a certeza que tinha de que a mãe o teria despedido, mas só depois de no mínimo uma hora se deliciando com o servilismo abjeto dele e com sua indignação hipócrita. “Ele não deve ter pegado mais que quatro xícaras de arroz.”

“Ainda assim, foi furto, nkem.”

“Meu pai e seus amigos políticos roubam dinheiro com os contratos que fazem com as empresas, mas ninguém os faz ficar de joelhos, implorando o perdão. E com o dinheiro roubado eles constroem casas e alugam para gente como esse homem, a preços exorbitantes que os impedem de comprar comida.”

“Você não pode reparar roubo com roubo.” Odenigbo parecia estranhamente sombrio; ela esperava dele uma explosão de raiva diante da injustiça de tudo.

“Quer dizer que a desigualdade significa indignidade?”, perguntou. “Em geral, sim.”

“Você está bem?”

“Minha mãe está aqui. Eu não tinha idéia de que ela viria me visitar.” Não era à toa que ele estava com aquela voz. “Ela já terá ido embora até terça-feira?”

“Eu não sei. Eu gostaria muito que você estivesse aqui.”

“Ainda bem que não estou. Já discutiram uma forma de quebrar o feitiço da bruxa instruída?”

“Eu digo a ela, antes que ela diga qualquer coisa, que não há nada a discutir.”

“Quem sabe você consegue apaziguá-la dizendo que estamos tentando ter um filho. Ou será que ela vai ficar horrorizada só de me imaginar tendo um filho? Afinal, alguns daqueles genes de bruxa podem passar para o neto dela.”

Esperava que Odenigbo risse da piadinha, mas ele não riu. “Mal posso esperar até terça-feira”, disse depois de um tempo.

“Eu também não”, disse ela. “Diga a Ugwu para arejar o tapete do quarto.” Nessa noite, quando a mãe entrou em seu quarto, Olanna sentiu o aroma floral do perfume Chloe, um cheiro adorável, se bem que nunca tivesse entendido por que uma pessoa precisava usar perfume para dormir. A mãe tinha frascos demais de perfume; todos alinhados em sua penteadeira como numa prateleira de loja: frascos bojudos, frascos afilados, frascos redondos. Mesmo usando perfume todas as noites para dormir, a mãe não conseguiria dar cabo deles nem em cinquenta anos.

“Obrigada, nne”, disse ela. “Seu pai já está tentando compensar pelo que fez.”

“Entendo.” Olanna não queria saber o que o pai fizera para compensar a mãe, mas tinha um curioso sentimento de realização por ter falado com ele como Kainene, de tê-lo obrigado a fazer alguma coisa, de ter sido útil.

“A senhora Nwizu logo vai parar de me ligar para dizer que viu seu pai na rua dela”, disse a mãe. “Outro dia ela disse uma coisa maliciosa sobre filhas que se recusam a casar. Acho que estava querendo me atiçar para uma discussão. A filha dela se casou no ano passado e eles não tiveram como importar nada para o casamento. Até o vestido foi feito aqui mesmo em Lagos!” A mãe sentou-se. “Por falar nisso, tem alguém querendo conhecer você. Sabe a família de Igwe Onochie? O filho é engenheiro. Acho que viu você em algum lugar e está muito interessado.”

Olanna soltou um suspiro e encostou-se na cama para escutar a mãe.

 

Ela voltou para Nsukka no meio da tarde, naquela hora inerte de sol impiedoso em que até mesmo as abelhas param em silenciosa exaustão. O carro de Odenigbo estava na garagem. Ugwu abriu a porta antes que ela batesse, a camisa desabotoada, uma leve mancha de suor debaixo dos braços. “Bem-vinda, mah”, disse ele.

“Ugwu.” Sentira falta daquele rosto leal e sorridente. “Unu anokwa ofuma? Você está bem?”

“Claro, mah”, disse ele, saindo para ir buscar a bagagem que ficara no táxi.

Olanna entrou. Tinha sentido falta do leve cheiro de detergente que ficava na sala de estar depois que Ugwu limpava as persianas. Como supunha que a mãe de Odenigbo já tivesse partido, foi um banho de água fria vê-la no sofá, vestida, mexendo numa bolsa. Amala estava ao lado, segurando uma pequena caixa de metal.

“Nkem!”, disse Odenigbo, avançando para ela. “É tão bom ter você de volta! Tão bom!”

Quando se abraçaram, o corpo dele não relaxou contra o dela, e a rápida pressão de seus lábios parecia de papel. “Mama e Amala estão de saída. Vou levá-las até a rodoviária.”

“Boa tarde, Mama”, disse Olanna, sem fazer a menor tentativa de se aproximar.

“Olanna, kedu?”, perguntou a mãe de Odenigbo. Foi ela que a abraçou primeiro; foi ela que deu um sorriso caloroso. Olanna ficou espantada, mas contente. Talvez Odenigbo tivesse conversado com ela sobre a seriedade do relacionamento, e o plano de ter um filho conquistara finalmente o coração de Mama.

“Amala, como vai você?”, disse Olanna. “Eu não sabia que você também tinha vindo.”

“Bem-vinda, tia”, murmurou Amala, de olhos baixos.

“Trouxe tudo que é seu?”, perguntou Odenigbo à mãe. “Então vamos. Então vamos.”

“Já comeu, Mama?”, perguntou Olanna.

“A refeição da manhã ainda pesa no meu estômago”, disse Mama. Ela estava com um olhar alegremente especulativo no rosto.

“Precisamos ir agora”, disse Odenigbo. “Eu tenho um jogo programado para daqui a pouco.”

“E quanto a você, Amala?”, perguntou Olanna. O rosto sorridente de Mama de repente a fez querer que ficassem um pouco mais. “Espero que tenha comido alguma coisa.”

“Comi sim, tia, obrigada”, disse Amala, ainda com os olhos concentrados no chão.

“Dê a Amala a chave para pôr as coisas no carro”, disse Mama.

Odenigbo aproximou-se de Amala, mas parou a meio caminho, de forma que teve de esticar o corpo e o braço para lhe dar a chave, que ela pegou com o maior cuidado; não se tocaram. Foi um momento minúsculo, breve e passageiro, mas Olanna notou como os dois evitaram escrupulosamente qualquer contato de pele, qualquer toque, como se estivessem unidos por uma compreensão geral tão grande que estivessem resolvidos a não se unir por mais nada.

“Boa viagem”, disse ela. Viu o carro se afastar do compound e continuou ali, dizendo a si mesma que estava enganada; que não havia nada naquele gesto. Mas ele a incomodava. Sentia algo muito parecido ao que sentira enquanto esperava ser atendida pelo ginecologista: convencida de que havia algo errado em seu corpo, no entanto desejando que o médico lhe dissesse que estava tudo bem.

“Mah, a senhora quer comer? Quer que eu aqueça um pouco de arroz?”, perguntou Ugwu.

“Agora não.” Por uns breves instantes, quis perguntar a Ugwu se ele tinha reparado no gesto, se tinha reparado em alguma coisa. “Vai ver se tem algum abacate maduro.”

“Vou, mah.” Ugwu hesitou só um pouquinho antes de sair.

Ela continuou perto da porta até Odenigbo voltar. Não sabia ao certo o que significavam aquela contração no estômago e as arfadas no peito. Abriu a porta e procurou no rosto dele.

“Aconteceu alguma coisa?”

“Como assim?” Ele segurava alguns jornais na mão. “Um dos meus alunos perdeu a prova e esta manhã veio e me ofereceu dinheiro para aprová-lo, o energúmeno.”

“Eu não sabia que Amala tinha vindo com Mama”, disse ela.

“Pois é.” E ele se pôs a rearrumar os jornais, evitando o olhar de Olanna. Aos poucos, ela foi se dando conta, em estado de choque. Ela sabia. Sabia pelos movimentos bruscos que ele fazia, pelo pânico na fisionomia, pelo modo apressado como estava tentando parecer normal de novo, que algo que não deveria ter acontecido tinha acontecido.

“Você dormiu com Amala”, disse Olanna. Não era uma pergunta, no entanto ela queria que ele respondesse como tal; queria que ele dissesse não e ficasse bravo com ela por ter chegado a pensar numa coisa dessas. Porém Odenigbo não disse nada. Sentou-se na poltrona e olhou para ela.

“Você dormiu com Amala”, repetiu Olanna. Nunca mais se esqueceria da expressão dele, olhando para ela como se nunca na vida tivesse imaginado essa cena e, por isso, não soubesse como pensar a respeito de como pensar no que dizer ou fazer.

Ela se virou para ir à cozinha e quase caiu ao lado da mesa de jantar, porque o peso no peito era grande demais, desmedido para seu tamanho.

“Olanna”, disse ele.

Ela o ignorou. Odenigbo não viria atrás dela porque estava com medo, cheio do temor dos culpados. Ela não pegou o carro e foi direto para o seu apartamento. Em vez disso, saiu no quintal, sentou-se nos degraus da porta da cozinha e ficou vendo uma galinha perto do limoeiro vigiar seus seis pintinhos, empurrando-os para as migalhas no chão. Ugwu estava apanhando abacates da árvore perto do Alojamento dos Criados. Ela não sabia bem quanto tempo ficara ali sentada antes que a galinha começasse a cacarejar bem alto e abrisse as asas para proteger os pintos, mas eles não foram rápidos o bastante para se abrigar. Um gavião mergulhou e levou um deles, um pintinho marrom e branco. Foi tão rápida, a descida do gavião e o deslizar suave, com o pinto agarrado nas garras recurvas, que Olanna pensou ter imaginado a cena. Mas não era o caso, porque a galinha corria em círculos, aos cacarejos, levantando nuvens de pó. Os outros pintinhos pareciam atordoados. Olhando para eles, Olanna perguntou-se se por acaso estariam entendendo a dança de luto da mãe. E, por fim, começou a chorar.

 

Os dias enfumaçados se arrastavam um após o outro. Olanna procurava coisas para pensar, coisas para fazer. Na primeira vez em que Odenigbo foi a seu apartamento, ela não sabia ao certo se deveria deixá-lo entrar. Mas ele bateu e bateu, dizendo: “Nkem, por favor, abra, biko, por favor, abra”, até que ela abriu. Sentada, tomando um copo de água, ela escutou Odenigbo lhe dizer que estava bêbado, que Amala viera para cima dele, que fora tudo um breve tesão irrefletido. Depois disso, ela lhe disse para ir embora. Era irritante o fato de continuar tão seguro de si a ponto de chamar o que tinha feito de um breve tesão irrefletido. Ela odiou a expressão e odiou a firmeza do tom quando ele a visitou de novo e disse: “Não significou nada, nkem, nada”. O que importava, para ela, não era o que tinha significado e sim o que ocorrera: o fato de ele ter dormido com a acompanhante da mãe três semanas apenas depois de ela ter viajado. Parecia fácil demais, o jeito como ele violara a confiança dela. Resolveu ir para Kano porque, se havia um lugar no mundo onde podia pensar com clareza, esse lugar era Kano.

Seu vôo parou antes em Lagos e, enquanto esperava a conexão, viu uma mulher alta e magra passar por ela apressada. Levantou-se e estava prestes a gritar Kainene! quando percebeu que não podia ser ela. Kainene tinha a pele mais escura e jamais usaria uma saia verde com uma blusa vermelha. Bem que gostaria que fosse Kainene, porém. Sentariam uma ao lado da outra e ela contaria a Kainene sobre Odenigbo e Kainene diria alguma coisa inteligente, sarcástica e, ao mesmo tempo, reconfortante.

Em Kano, Arize ficou furiosa.

“Aquela besta selvagem de Abba. O pênis podre dele vai cair logo, logo. Será que ele não sabe que devia acordar toda manhã, ajoelhar no chão e agradecer ao Deus dele por você ter se dignado a olhar para ele?”, disse ela, enquanto mostrava a Olanna desenhos de vestidos de noiva bufantes. Nnakwanze havia finalmente feito o pedido. Olanna olhou os modelos. Achou todos feios e enfeitados demais, mas sentia-se tão satisfeita com a raiva sentida em seu nome que apontou para um deles e murmurou: “O maka. É adorável”.

Tia Ifeka não disse nada sobre Odenigbo por alguns dias. Olanna estava sentada na varanda com ela; o sol era ardente e a cobertura de zinco estalava como se protestasse. Mas ainda assim era mais fresco ali que na cozinha enfumaçada, onde três vizinhas cozinhavam ao mesmo tempo. Olanna abanou-se com uma esteirinha de ráfia. Havia duas mulheres perto do portão, uma delas gritando em ibo — “Eu disse que você vai me dar o dinheiro hoje! Tata! Hoje, não amanhã! Você me ouviu dizer isso porque eu não falo com água na boca!” — enquanto a outra fazia gestos de súplica com as mãos e olhava para o céu.

“Como você está?”, perguntou tia Ifeka. Estava mexendo uma massa pastosa de feijão moído no pilão.

“Estou bem, tia. Melhor ainda por estar aqui.”

Tia Ifeka pôs a mão na pasta para tirar um pequeno inseto preto que caíra lá dentro. Olanna abanou-se mais rápido. O silêncio de tia Ifeka a fez querer dizer mais coisas.

“Acho que vou adiar meu programa em Nsukka e ficar aqui em Kano”, disse ela. “Eu podia ensinar por uns tempos no instituto.”

“Não.” Tia Ifeka largou a mão do pilão. “Mba. Você vai voltar para Nsukka.”

“Mas eu não posso simplesmente voltar para a casa dele, tia.”

“Não estou pedindo para você voltar para a casa dele. Eu disse que você vai voltar para Nsukka. Você não tem seu próprio apartamento e um emprego lá? Odenigbo fez o que todo homem faz e enfiou o pênis no primeiro buraco que achou quando você estava longe. Por acaso significa que alguém morreu?”

Olanna havia parado de se abanar e sentia a umidade suarenta do couro cabeludo.

“Quando seu tio se casou comigo, fiquei preocupada, achando que todas aquelas mulheres de fora acabariam me tirando de casa. Agora sei que nada do que ele possa fazer vai mudar minha vida. Minha vida só vai mudar se eu quiser que ela mude.”

“O que está dizendo, tia?”

“Ele toma o maior cuidado, agora, depois que percebeu que eu não tenho mais medo. E eu já disse a ele que se trouxer alguma desgraça para mim, seja o que for, eu corto fora aquela cobra que ele tem entre as pernas.”

Tia Ifeka voltou a revirar a pasta, e a idéia que Olanna fazia do casamento dos dois começou a desmoronar.

“Você nunca deve se comportar como se a sua vida pertencesse a um homem. Ouviu bem?”, disse tia Ifeka. “A sua vida pertence a você e só a você, soso gi. Você vai voltar no sábado. Agora, se me dá licença, preciso preparar abacha para você levar.

Experimentou um pouco da pasta e cuspiu.

 

Olanna partiu no sábado. O homem sentado a seu lado no avião, do outro lado do corredor, tinha a pele cor de ébano mais lustrosa e mais escura que já tinha visto. Reparara nele antes, em seu terno de casimira, olhando para ela enquanto esperavam na pista. Ele se oferecera para ajudá-la a levar a bagagem de mão e, mais tarde, perguntou à comissária de bordo se poderia ocupar o assento ao lado dela, uma vez que estava vazio. Entregou a ela uma cópia do New Nigerian e perguntou: “Quer ler?”. Usava um enorme anel de opala no dedo médio.

“Quero sim. Obrigada.” Olanna apanhou o jornal. Folheou as páginas, ciente de que ele a observava e de que o jornal fora seu jeito de iniciar conversa. Teve um súbito desejo de se sentir atraída por ele, de que algo mágico e louco acontecesse com ambos, e, quando o avião aterrissasse, que saíssem os dois de mãos dadas, rumo a uma vida nova cheia de felicidade.

“Eles conseguiram finalmente remover o vice-reitor ibo da Universidade de Lagos”, disse ele.

“Ah.”

“Está na última página.”

Olanna virou o jornal para ver. “Sei.”

“Por que escolher um ibo para ocupar o posto de vice-reitor em Lagos?”, perguntou ele e, como Olanna não respondeu, apenas sorriu, para dizer que estava escutando, ele acrescentou: “O problema dos ibos é que eles querem controlar tudo no país. Tudo. Por que não ficaram no Leste? Eles são donos de todas as lojas; controlam os serviços públicos, até mesmo a polícia. Se você for preso por seja qual for o crime, contanto que saiba dizer keda, eles deixam você ir.”

“Nós dizemos kedu, não keda”, disse Olanna, em voz baixa. “Significa Como vai você?”

O homem a encarou e ela correspondeu, pensando em como ele seria bonito se tivesse nascido mulher, com aquela pele perfeitamente brilhante e quase negra.

“Você é ibo?”, perguntou ele.

“Sou.”

“Mas tem o rosto dos fula.” Parecia uma acusação da parte dele.

Olanna sacudiu a cabeça. “Ibo.”

O homem resmungou alguma coisa que pareceu ter sido um desculpe, antes de se virar e começar a olhar em sua pasta. Quando ela lhe devolveu o jornal, pareceu relutante em aceitá-lo de volta, e, embora Olanna lhe desse umas olhadas de vez em quando, os olhos dele não cruzaram mais com os seus, até descerem em Lagos. Se ao menos ele soubesse que seu preconceito a deixara cheia de possibilidades. Não precisava ser a mulher ferida cujo homem dormira com uma moça da roça. Podia ser uma fula andando de avião, zombando dos ibos ao lado de um estranho bonito. Podia ser uma mulher tomando conta da própria vida. Podia ser qualquer coisa.

Quando se levantaram para sair do avião, ela olhou para ele e sorriu, mas evitou dizer obrigada, porque queria deixá-lo tanto com a surpresa como com o remorso intactos.

 

Olanna contratou uma picape e um motorista e foi até a casa de Odenigbo. Ugwu a seguia por toda parte, enquanto ela empacotava livros e apontava coisas para o motorista apanhar.

“O Patrão parece alguém que chora todo dia, mah”, disse Ugwu para ela, em inglês.

“Ponha meu liquidificador numa caixa”, disse ela. Meu liquidificador soava estranho; sempre fora o liquidificador, sem marcas de propriedade.

“Certo, mah.” Ugwu foi até a cozinha e voltou com uma caixa. Estendeu-a sem muita vontade. “Mah, por favor, perdoe o Patrão.”

Olanna olhou para ele. Ugwu sabia; tinha visto aquela mulher dividir a cama do patrão; ele também a traíra. “Osiso! Ponha meu liquidificador no carro!”

“Pois não, mah.” Ugwu virou-se para a porta.

“As visitas ainda vêm no fim da tarde?”, perguntou Olanna.

“Não do jeito como era quando a senhora estava aqui, mah.”

“Mas eles ainda vêm?”

“Vêm.”

“Ótimo.” Mas não era isso que sentia. Ela queria ter ouvido de Ugwu que Odenigbo não conseguia mais viver a vida que fora deles.

Quando ele a visitou, tentou não se sentir decepcionada com a normalidade de seu aspecto. Parou na porta e deu respostas evasivas, ressentida com a fácil loquacidade dele, com a maneira como dissera, casualmente, “Você sabe que eu nunca vou amar outra mulher, nkem”, como se tivesse certeza de que, com o tempo, tudo voltaria a ser o mesmo. Ressentia-se, também, com a atenção romântica de outros homens. Os solteiros passaram a lhe fazer visitas em casa, os casados, a esbarrar com ela na saída do departamento. O cerco deles a irritava porque isso — e eles — pareciam presumir que o relacionamento dela com Odenigbo terminara para sempre. “Não estou interessada”, dizia a eles, e, no momento mesmo em que dizia isso, torcia para que a recusa nunca chegasse aos ouvidos de Odenigbo, porque não queria que ele achasse que ela estava sofrendo. E ela não estava sofrendo: acrescentava material novo às suas aulas, preparava longas refeições, lia novos livros, comprava discos novos. Tornou-se secretária da Irmandade de São Vicente e, depois de entregarem comida nas aldeias, ela redigia a minuta das reuniões num caderno. Cultivava zínias no jardinzinho da frente e, por fim, fez amizade com sua vizinha Edna Whaler, uma negra americana.

Edna tinha uma risada tranquila. Ensinava música, tocava seus discos de jazz um pouco alto demais, fazia costeletas de porco macias e não parava de falar no homem que a deixara uma semana antes do casamento, em Montgomery, e no tio que fora linchado quando ela era criança. “Sabe o que sempre me espantou?”, perguntava a Olanna, como se já não tivesse dito isso no dia anterior. “Que os brancos civilizados pusessem belos vestidos e chapéus e se reunissem para ver um branco enforcar um negro numa árvore.”

Ela ria sua risada tranquila e dava umas batidas no cabelo, que tinha aquele brilho engordurado de cabelo alisado a ferro. A princípio, não tocavam no nome de Odenigbo. Era agradável, para Olanna, estar com alguém tão distante do círculo de amigos que partilhava com Odenigbo. Até o dia em que, enquanto cantava junto com Billie Holiday a música My man, Edna lhe perguntou: “Você o ama por que motivo?”.

Olanna ergueu a vista. Sua mente era um quadro vazio. “Por que motivo eu o amo?”

Edna ergueu as sobrancelhas, imitando as palavras de Billie Holiday, mas sem cantar.

“Eu não acho que amor tenha um motivo para existir”, disse Olanna.

“Claro que tem.”

“Eu acho que o amor vem antes e depois é que raciocinamos. Quando estou com ele, acho que não preciso de mais nada.” Suas palavras a deixaram surpresa, mas essa verdade alarmante trouxe também ímpetos de chorar.

A vizinha não tirou os olhos dela. “Você não pode continuar mentindo para si mesma, dizendo que está tudo bem.”

“Não estou mentindo para mim mesma”, disse Olanna. A voz chorosamente arranhada de Billie Holiday tinha começado a irritá-la. Não sabia o quanto era transparente. Achava que suas risadas frequentes eram autênticas e que Edna não fazia idéia de que ela chorava quando ficava sozinha, em casa.

“Eu não sou a melhor pessoa para falar sobre homens, mas você precisa conversar sobre isso com alguém”, disse Edna. “Talvez com o padre, como paga por todas as viagens beneficentes que você fez em nome da Irmandade de São Vicente de Paula.”

Edna riu e Olanna acompanhou a risada, mas já pensando que talvez precisasse mesmo conversar com alguém, alguém neutro que a ajudasse a se recuperar, a lidar com a estranha em que se transformara. Tomou o caminho da igreja de São Pedro várias vezes, nos dias seguintes, mas sempre parava no meio e mudava de idéia. Por fim, numa segunda-feira à tarde, lá foi ela, dirigindo rápido, sem reduzir a velocidade nos obstáculos para não se dar tempo de parar. Sentou-se num banco de madeira, no gabinete abafado do padre Damian, e manteve os olhos centrados no arquivo que tinha o rótulo assuntos laicos, enquanto falava sobre Odenigbo.

“Não tenho ido ao clube porque não quero vê-lo. Perdi o interesse nos jogos de tênis. Ele me traiu e me magoou, no entanto parece que continua controlando minha vida.”

O padre Damian deu uma puxada no colarinho, ajustou os óculos e esfregou o nariz, e ela se perguntou se estaria pensando em algo, qualquer coisa, para fazer, já que não tinha uma resposta para ela.

“Não vi você na igreja no último domingo”, disse ele por fim.

Olanna ficou decepcionada, mas afinal de contas ele era padre e essa tinha de ser sua solução: Procure Deus. Ela queria que ele a fizesse sentir-se justificada, que solidificasse seu direito à autopiedade, que a encorajasse a ocupar uma posição de superioridade moral. Queria que ele condenasse Odenigbo.

“O senhor acha que preciso vir à igreja com mais frequência?”

“Acho.”

Olanna meneou a cabeça e trouxe a bolsa mais para perto de si, pronta para levantar e ir embora. Não devia ter ido. Não devia ter esperado que um voluntário de cara redonda e túnica branca, um eunuco, pudesse entender como se sentia. Ele estava olhando para ela, os olhos grandes por trás das lentes.

“Também acho que você deveria perdoar Odenigbo”, disse ele, e deu mais um puxão no colarinho, como se ele o estivesse sufocando. Por um instante, Olanna sentiu desprezo pelo padre. O que ele estava dizendo era fácil demais, previsível demais. Não precisava ter ido até lá para ouvir aquilo.

“Certo.” Levantou-se. “Obrigada.”

“Não é por ele, sabe? É por você.”

“O quê?” O padre continuava sentado, de modo que ela teve de baixar a vista para olhar para ele.

“Não veja isso como um perdão. Veja como permissão para ser feliz. O que vai fazer com a tristeza que escolheu? Vai comer tristeza?”

Olanna olhou para o crucifixo acima da janela, para o rosto do Cristo, sereno em sua agonia, e não disse nada.

 

Odenigbo chegou muito cedo, antes que ela tivesse tomado o café-da-manhã. Sabia que havia algo errado, antes mesmo de destrancar a porta e ver a fisionomia sombria.

“O que foi?”, perguntou, e sentiu um horror afiado diante da esperança que se havia infiltrado em sua cabeça: que a mãe dele tivesse morrido.

“Amala está grávida”, disse ele. Havia um tom abnegado e inflexível em sua voz, o tom de uma pessoa que dá más notícias, mas permanece forte, em nome dos outros.

Olanna agarrou-se à maçaneta da porta. “O quê?”

“Mama acabou de vir me avisar que Amala está grávida de um filho meu.”

Olanna começou a rir. Ela riu, riu e tornou a rir, porque a cena atual e as semanas anteriores pareciam uma fantasia.

“Me deixe entrar”, disse Odenigbo. “Por favor.”

Ela se afastou da porta. “Entre.”

Ele sentou na beiradinha de uma cadeira e ela teve a impressão de estar colando de volta os cacos de porcelana só para vê-la se espatifar toda de novo; a dor não estava em vê-la espatifada pela segunda vez e sim na percepção de que tentar remontá-la nunca tivera a menor importância, desde o início.

“Nkem, por favor, vamos lidar com isso juntos”, disse ele. “Faremos o que você achar melhor. Por favor, vamos tratar disso juntos.”

Olanna foi até a cozinha para desligar a chaleira. Voltou e sentou-se diante dele. “Você disse que foi uma vez. Só uma vez e ela fica grávida? Só uma vez?” Gostaria de não ter erguido a voz. Mas era tão implausível, tão teatralmente implausível que tivesse dormido com uma mulher uma única vez, num estado de embriaguez, e ela tivesse engravidado.

“Foi só uma vez”, disse ele. “Só uma vez.”

“Entendo.” Mas não estava entendendo nada. O que sentiu foi uma ânsia enorme de lhe dar uma bofetada, porque a maneira de ele enfatizar uma vez transformava o ato em inevitável, como se a questão fosse quantas vezes acontecera, e não que jamais deveria ter ocorrido.

“Eu disse a Mama que iria mandar Amala ver o doutor Okonkwo, em Enugu, mas ela disse que só por cima do seu cadáver. Disse que Amala vai ter o bebê e criar a criança sozinha. Tem um rapaz que mexe com madeira, em Ondo, com quem Amala deve se casar.” Odenigbo se levantou. “Mama planejou tudo desde o início. Agora percebo que primeiro ela garantiu a bebedeira, depois mandou Amala ir ao meu quarto. É como se eu tivesse caído dentro de alguma coisa que não entendo direito.”

Olanna olhou para ele, desde o halo formado pela cabeleira até os dedos finos dos pés, calçados com sandálias, alarmada com o fato de sentir tamanha onda de aversão por alguém que amava. “Ninguém deixou você cair em coisa nenhuma”, disse.

Ele tentou segurá-la, mas ela se safou e pediu-lhe que fosse embora. Mais tarde, no banheiro, parou na frente do espelho e espremeu violentamente a barriga com ambas as mãos. A dor a fez lembrar como era inútil; a fez lembrar que havia uma criança aninhada no corpo de uma estranha, e não no seu.

 

Edna bateu tantas vezes que no fim Olanna teve de se levantar e abrir a porta.

“O que houve?”, perguntou Edna.

“Meu avô costumava dizer que os outros simplesmente peidavam, mas que o seu próprio peido sempre soltava merda”, disse Olanna. Queria parecer engraçada, mas a voz estava rouca demais, forrada de lágrimas.

“O que aconteceu?”

“A moça com quem ele dormiu está grávida.”

“Qual é o problema com você?”

Olanna franziu a vista; qual era o problema com ela?

“Vê se consegue se controlar melhor!”, disse Edna. “Por acaso acha que ele passa o dia chorando feito você? Quando aquele miserável me largou, em Montgomery, eu tentei me matar, e sabe o que ele estava fazendo? Tinha se mandado e estava tocando num grupo em Louisiana!” Edna deu um tapinha irritado no cabelo. “Olhe só para você. Você é a pessoa mais bondosa que eu já conheci. Veja como você é linda. Por que precisa de tanta coisa de fora? Por que o que você é não basta? Você é fraca demais!”

Olanna recuou; o acúmulo tumultuado de dor, pensamentos e raiva que a invadiu fez as palavras saírem de sua boca com uma precisão serena. “Não é culpa minha que seu homem tenha largado você, Edna.”

De início Edna ficou surpresa, depois com raiva, até se virar e sair. Olanna observou a vizinha indo embora e lamentou ter dito aquilo. Mas não iria pedir desculpas ainda. Daria a Edna um dia ou dois. Sentiu-se repentinamente com fome, com muita fome; suas entranhas tinham se esvaziado com tanto choro. Nem deixou seu arroz jollof aquecer devidamente, e comeu da panela, tomou duas garrafas de cerveja gelada, mas ainda assim não estava satisfeita. Comeu os biscoitos que estavam no armário e algumas laranjas da geladeira, depois resolveu ir até a Eastern Shop para comprar vinho. Iria beber. Beberia tanto vinho quanto conseguisse.

As duas mulheres que estavam na entrada da loja, a indiana da Faculdade de Ciência e a mulher de Calabar, que lecionava antropologia, sorriram e disseram boa-tarde, e Olanna se perguntou se os olhares velados encobriam o dó que sentiam, se achavam que ela estava fragilizada, desmoronando. Examinava as garrafas de vinho quando Richard se aproximou dela. “Bem que achei que era você”, disse ele.

“Olá, Richard.” Deu uma olhada para o carrinho dele. “Eu não sabia que você fazia as próprias compras.”

“Harrison foi passar uns dias com a família”, disse. “Como está você? Está bem?”

Ela não gostou da piedade que viu nos olhos dele. “Estou muito bem. Não consigo decidir qual dos dois comprar.” Fez um gesto para as garrafas de vinho. “Por que eu não compro as duas e você toma comigo, assim podemos decidir qual é o melhor? Tem uma hora para desperdiçar? Ou precisa voltar correndo para o seu livro?”

Richard parecia ter ficado surpreso com a animação dela. “Mas eu não quero importunar.”

“Claro que você não vai me importunar. Além disso, você nunca me visitou” — ela fez um silêncio — “em meu apartamento.”

Ela manteria a pose normal e afável, eles tomariam o vinho e conversariam sobre o livro dele, sobre as novas zínias dela, da arte de Igbo-Ukwu e do fiasco das eleições da Região Ocidental. E ele então poderia ir dizer a Odenigbo que ela estava ótima. Ela estava ótima.

Quando chegaram ao apartamento dela, Richard sentou-se empinado no sofá e ela queria que ele se sentasse do mesmo jeito relaxado, meio escarrapachado, como sentava na casa de Odenigbo; até a forma como segurava a taça era rígida. Ela sentou no chão acarpetado. E brindaram a independência do Quênia.

“Você tem que escrever sobre as coisas horrendas que os britânicos fizeram no Quênia”, disse Olanna. “Não eram eles que cortavam fora os testículos?”

Richard murmurou alguma coisa e desviou o olhar, como se a palavra testículos o tivesse deixado com vergonha. Olanna sorriu, olhando para ele. “Eram, não eram?”

“Eram.”

“Então você devia escrever a respeito.” Ela tomou sua segunda taça de vinho lentamente, erguendo a cabeça para saborear o líquido frio escorrendo pela garganta. “Já tem um título para o livro?”

“‘O cesto de mãos’.”

‘“O cesto de mãos’.” Olanna virou a taça e terminou de tomar o vinho. “Parece macabro.”

“É sobre as relações de trabalho. As boas coisas que foram conseguidas — as ferrovias, por exemplo —, mas também sobre a exploração do trabalho e até onde ia a imaginação colonial.”

“Ah.” Olanna levantou-se para abrir a segunda garrafa de vinho. Curvou-se para encher primeiro sua taça. Sentia-se leve, como se fosse muito mais fácil carregar o próprio peso, mas a cabeça estava em ordem; sabia o que queria fazer e o que estava fazendo. O cheiro quase úmido de Richard encheu-lhe o nariz, quando parou na frente dele, com a garrafa.

“Ainda não terminei de tomar este”, disse ele.

“Não mesmo.” Pôs a garrafa no chão, sentou-se ao lado dele, tocou nos pêlos que lhe cobriam a pele e pensou como eram macios, sem a agressividade dos pêlos de Odenigbo, nada parecido com Odenigbo. Richard olhou-a e Olanna se perguntou se seus olhos tinham de fato ficado cinza, ou se era imaginação sua. Tocou nele e deixou que a mão ficasse encostada em seu rosto.

“Venha, sente no chão aqui comigo”, disse ela por fim.

Sentaram-se lado a lado, com as costas apoiadas no sofá. Richard disse, num resmungo: “Eu preciso ir”, ou algo parecido. Mas ela sabia que ele não iria embora e que, quando deitasse na superfície eriçada do carpete, ele se esticaria a seu lado. Ela o beijou na boca. Ele a puxou com força para si e, logo em seguida, com a mesma rapidez, virou o rosto. Ela ouvia a respiração rápida dele. Ela desabotoou sua calça, moveu o corpo para puxá-la pelas pernas, e riu quando a calça enroscou nos sapatos. Tirou o vestido. Ele estava em cima dela, o carpete pinicava suas costas nuas, e a língua de Richard circulava molemente em torno de seu mamilo. Não era nada parecido com as mordidas e chupões de Odenigbo, não tinha nada daqueles choques de prazer. Richard não passava a língua em seu corpo em movimentos rápidos que a faziam esquecer de tudo; não, quando Richard beijava sua barriga, ela sabia que estava sendo beijada na barriga.

Tudo mudou quando ele entrou dentro dela. Ela ergueu os quadris, mexendo junto com ele, correspondendo a ele, e a sensação era de estar se desfazendo das amarras nos pulsos, extraindo alfinetes da pele, libertando-se com os gritos altos, muito altos, que explodiam de sua boca. Depois, sentiu-se repleta de uma sensação de bem-estar, de algo próximo à graça.