Meio Sol Amarelo
Capítulo 34
Olanna passou o pente de madeira no cabelo de Baby com a máxima delicadeza, mas mesmo assim ficou um tufo grande entre os dentes. Ugwu estava sentado num banco, escrevendo. Uma semana se passara e Kainene não voltara. Os ventos do harmatão estavam mais calmos e não vergavam os cajueiros, mas sopravam areia para todo lado e o ar estava denso de poeira e de rumores de que Sua Excelência não fora em busca da paz, de que ele fugira. Olanna sabia que não podia ser verdade. Acreditava, com a mesma firmeza e calma com que acreditava que Kainene voltaria para casa em breve, que a viagem de Sua Excelência seria um sucesso. Ele voltaria com um documento assinado, declarando o fim da guerra e proclamando a independência de Biafra. Ele voltaria trazendo justiça e sal.
Penteou o cabelo de Baby de novo e, de novo, caíram mais uns chumaços. Olanna ergueu os fiapos finos na mão, de um marrom amarelado e desbotado de sol, muito diferente do negro retinto natural dos cabelos de Baby. Ficou assustada. Kainene tinha dito, algumas semanas antes, que era um sinal de sabedoria extrema o cabelo de Baby começar a cair aos seis anos de idade, e, depois, saíra para procurar mais comprimidos de proteína para ela.
Ugwu ergueu a vista do papel. “Talvez fosse melhor não trançar o cabelo dela, mah.”
“É. Talvez seja por isso que anda caindo tanto, muita trança demais.”
“Meu cabelo não está caindo!”, disse Baby, dando um tapinha na cabeça.
Olanna pôs o pente de lado. “Toda hora eu me lembro do cabelo daquela criança que eu vi no trem; era muito denso. Devia ser uma trabalheira para a mãe trançá-lo.”
“E como eram as tranças?”, perguntou Ugwu.
De início Olanna se espantou com a pergunta, depois percebeu que lembrava perfeitamente como o cabelo fora trançado, e começou a descrever o estilo do penteado, com algumas trancinhas caindo sobre a testa. Depois descreveu a cabeça, os olhos abertos, o acinzentado da pele. Ugwu escrevia, enquanto Olanna falava, e o fato de ele escrever, a sinceridade de seu interesse, de repente fez sua história adquirir importância, a fez servir a um propósito maior, que nem mesmo Olanna sabia bem qual era — e então contou tudo o que se lembrava sobre o trem cheio de gente chorando, gritando e urinando.
Continuava falando quando Odenigbo e Richard voltaram. Estavam a pé; tinham partido com o Peugeot logo cedo, para ir procurar Kainene no hospital de Ahiara.
Olanna levantou-se na hora. “Acharam?”
“Não”, disse Richard, e entrou.
“Cadê o carro? Os soldados confiscaram?”
“O combustível acabou no meio da estrada. Vou tentar achar um pouco mais e voltar para pegar o carro”, disse Odenigbo, dando um abraço nela. “Nós vimos Madu. Ele disse que tem certeza de que ela ainda está do outro lado. Os vândalos devem ter bloqueado o caminho por onde ela atravessou, e ela está esperando abrir uma nova rota. Isso acontece o tempo todo.”
“Claro que sim.” Olanna apanhou o pente e começou a desembaraçar o próprio cabelo. Odenigbo estava dizendo que ela deveria agradecer por eles não terem encontrado Kainene no hospital. Que isso significava que ela estava bem, só que continuava do lado nigeriano. E no entanto ela não queria que ele a lembrasse disso. Dias depois, quando insistiu em procurar no necrotério, ele repetiu a mesma coisa, que Kainene estava em segurança, só que do outro lado.
“Mas eu vou”, disse ela. Madu tinha mandado garri, açúcar e um pouco de combustível. Ela mesma iria dirigir.
“Não vejo motivo para isso”, disse Odenigbo.
“Não vê motivo? Você não vê motivo para eu sair à procura do corpo da minha irmã?”
“Sua irmã está viva. Não tem corpo nenhum.”
“Tomara.” E virou-se para ir embora.
“Mesmo que eles tenham matado sua irmã, Olanna, eles não trariam o corpo para um necrotério daqui”, disse Odenigbo, e ela sabia que ele tinha razão, mas odiou-o por dizer isso, por chamá-la de Olanna, não de nkem, e foi assim mesmo até o prédio de cheiro horrendo, onde os cadáveres de um bombardeio recente estavam empilhados do lado de fora do necrotério, inchando sob o sol. Havia muita gente implorando para entrar e ver se achava alguém.
“Por favor, meu pai não apareceu mais, desde o bombardeio.”
“Por favor, não consigo encontrar minha filhinha.”
O bilhete de Madu que Olanna mostrou ao zelador o fez sorrir e permitir a entrada; ela insistiu em olhar o rosto de todos os cadáveres de mulher, mesmo o das que o zelador dizia serem muito velhas, e, depois, teve de parar na estrada para vomitar. Se o sol se recusa a nascer, nós o faremos nascer. Era o título de um poema de Okeoma que lhe veio à mente. Não se lembrava do resto, era algo sobre colocar um pote de barro em cima do outro para formar uma escada até o céu. Em casa, Odenigbo falava com Baby. Richard olhava para o nada. Não perguntaram a ela se tinha achado o corpo de Kainene. Ugwu lhe disse que havia uma enorme mancha de óleo de dendê em seu vestido, com voz baixa, como se soubesse que eram os restos do vômito dela. Harrison lhe disse que não havia nada para comer e ela o olhou sem entender, porque era Kainene que se encarregava de tudo, que sabia o que fazer. “Você devia deitar um pouco, nkem”, disse Odenigbo.
“Você se lembra das palavras de um poema de Okeoma que fala sobre fazer o sol nascer, se ele se recusasse a nascer?”, perguntou ela.
“‘Potes de barro queimados no zelo que vão refrescar nossos pés enquanto escalamos’.”
“Isso, isso mesmo.”
“Era meu verso predileto. Não consigo me lembrar do resto.”
Uma mulher do centro de refugiados apareceu correndo no quintal, gritando e acenando um galho verde. De um verde muito brilhante e úmido. Olanna se perguntou de onde ela o arrancara; todas as plantas e árvores em volta estavam ressequidas, despidas pelos ventos poeirentos de qualquer folha. A terra toda estava descorada.
“Acabou!”, gritou ela. “Acabou!”
Odenigbo ligou o rádio na hora, como se estivesse esperando a mulher com a notícia. A voz masculina era desconhecida.
Em todos os períodos da história, as pessoas feridas têm de recorrer às armas para se defender
quando as negociações de paz fracassam. Nós não somos exceção. Pegamos em armas pela
sensação de insegurança gerada em nosso povo pelos massacres. Nós lutamos em defesa
dessa causa.
Olanna sentou-se; gostou da honestidade, das vogais firmes, da serena certeza da voz no rádio. Baby perguntava ao pai por que a mulher do centro de refugiados estava gritando tanto. Richard levantou-se e aproximou-se do rádio. Odenigbo aumentou o volume. A refugiada acrescentou: “Eles disseram que os vândalos estão chegando com varas para espancar os civis até mais não poder. Nós vamos para o mato”. Virando-se, correu de volta para o centro.
Aproveito a oportunidade para cumprimentar os oficiais e os homens de nossas forças
armadas pelo heroísmo e pela bravura que lhes valeram a admiração do mundo todo.
Agradeço a população civil pela tenacidade e pela coragem diante de dificuldades
esmagadoras e diante da fome. Estou convencido de que o sofrimento de nosso povo tem que
terminar imediatamente. E, para tanto, determinei que as tropas sejam dispensadas em
ordem. E peço ao general Gowon que seja humano e que ordene a seus soldados uma pausa,
enquanto prosseguem as negociações do armistício.
Depois da transmissão, Olanna sentiu-se atordoada de descrença. Sentou-se.
“E agora, mah?”, perguntou Ugwu, sem qualquer expressão no rosto.
Ela desviou o olhar para os cajueiros cobertos de pó, depois para cima, na direção do céu que se curvava rumo à terra numa parede sem nuvens.
“Agora posso sair para encontrar minha irmã”, disse baixinho.
Passou-se uma semana. Uma caminhonete da Cruz Vermelha chegou ao centro de refugiados e duas mulheres distribuíram copos de leite. Muitas famílias saíram de lá para buscar parentes desaparecidos ou para se esconder no mato, receosos dos soldados nigerianos que viriam com o chicote na mão. Mas na primeira vez em que Olanna viu soldados nigerianos, na estrada principal, eles não pareciam estar segurando chicotes. Andavam para cima e para baixo, falavam ioruba em voz alta entre si, riam e gesticulavam para as moças. “Venha se casar comigo agora, e eu lhe dou arroz e feijão.”
Olanna foi fazer parte da multidão que os observava. As fardas passadas e de caimento elegante, as botas negras bem engraxadas, os olhares confiantes deles a encheram com o vazio de quem se vê roubada. Eles haviam bloqueado a estrada e estavam mandando os carros voltar. Nenhum movimento, ainda. Nenhum movimento. Odenigbo queria ir até Abba, ver onde estava enterrada sua mãe, e todos os dias andava até a estrada principal para ver se os soldados nigerianos estavam deixando os carros passar.
“Nós devíamos fazer as malas”, disse ele a Olanna. “As estradas vão abrir em um ou dois dias. Saímos bem cedo para dar tempo de parar em Abba e chegamos a Nsukka antes do escurecer.”
Olanna não queria fazer as malas — havia muito pouco para guardar, de todo modo —, e não queria ir a lugar nenhum. “E se Kainene voltar?”, perguntou.
“Nkem, ela encontra a gente com facilidade.”
Odenigbo saiu. Era fácil para ele dizer que Kainene conseguiria achá-los. Como é que podia saber? Como é que podia saber, por exemplo, se ela fora ferida ou não? E se não pudesse viajar longas distâncias? Ela se arrastaria até ali, pensando encontrar gente para cuidar dela, e encontraria uma casa vazia.
Apareceu um homem no compound. Olanna o fitou por algum tempo, antes de reconhecer o primo Odinchezo, e aí gritou, correu para ele, abraçou-o e recuou para olhá-lo de novo. Ela não o via desde o dia de seu casamento, ele e o irmão, os dois de farda da milícia.
“E o Ekene?”, perguntou, temerosa. “Ekene kwanu?”
“Ele está em Umunnachi. Eu vim assim que soube onde você estava. Estou indo para Okija. Dizem que alguns parentes da mãe estão por lá.” Olanna entrou com ele em casa e levou-lhe um copo de água. “E como você está, meu irmão?”
“Nós não morremos”, disse.
Olanna sentou-se ao lado e pegou na mão dele; havia calos inchados e brancos nas duas palmas. “Como foi que se viraram nas estradas, com os soldados nigerianos?”
“Eles não causaram nenhum problema. Eu falei em hauçá com eles. Um até tirou um retrato de Ojukwu e me pediu para urinar em cima, e eu obedeci.” Odinchezo sorriu, um sorriso cansado, delicado, e ficou tão parecido com tia Ifeka que as lágrimas encheram os olhos de Olanna.
“Não, não, Olanna”, disse ele, e a abraçou. “Kainene vai voltar. Uma mulher de Umudioka saiu para fazer um ataque afia, mas os vândalos ocuparam aquele setor, de modo que ela ficou sem poder sair dali durante quatro meses. Voltou para a família dela ontem.”
Olanna sacudiu a cabeça, mas não contou a ele que não era Kainene, não era apenas Kainene, que a fazia chorar. Enxugou os olhos. Ele a segurou por alguns momentos mais, e, antes de se levantar, pôs uma nota de cinco libras em sua mão. “Agora me deixe ir”, disse ele. “A estrada é longa.” Olanna olhou o dinheiro. O frescor vermelho e mágico da nota a surpreendeu. “Odinchezo! Isto é demais!”
“Alguns de nós da Biafra-Dois tínhamos dinheiro nigeriano, e trocamos com eles, mesmo estando na milícia”, disse Odinchezo, encolhendo os ombros. “E você não tem dinheiro nigeriano, tem?”
Ela abanou a cabeça; nunca tinha visto o novo dinheiro nigeriano. “Espero que não seja verdade o que andam dizendo, que o governo vai assumir todas as contas bancárias dos biafrenses.”
Olanna encolheu os ombros. Ela não sabia. As notícias eram confusas e contraditórias. Primeiro tinham ouvido dizer que todo o pessoal universitário de Biafra deveria se apresentar para liberação militar em Enugu. Depois veio a notícia de que deveriam se apresentar em Lagos. E aí só os envolvidos com os militares biafrenses é que deveriam se apresentar.
Mais tarde, quando foi ao mercado com Baby e Ugwu, ficou boquiaberta com as montanhas de arroz e feijão exibidas nas bacias, com o deliciosamente malcheiroso peixe, com a carne sangrenta que atraía as moscas. Alimentos que pareciam ter caído do céu, envoltos num maravilhamento quase perverso. Observou as mulheres, mulheres biafrenses, regateando, dando o troco em libras nigerianas como se fosse uma moeda que tivessem usado a vida inteira. Ela comprou um pouco de arroz e peixe seco. Não quis se desfazer de grande parte do dinheiro; não sabia o que viria pela frente.
Odenigbo chegou em casa dizendo que as estradas estavam abertas. “Nós partimos amanhã.”
Olanna foi para o quarto e começou a chorar. Baby subiu no colchão, deitou do lado e a abraçou.
“Mami Ola, não chore; ebezi na”, disse Baby, e a pequenez morna dos braços de Baby em seu corpo a fizeram soluçar mais alto ainda. Baby continuou com ela, segurando-a, até ela parar de chorar e enxugar os olhos.
Richard partiu aquela noite.
“Vou procurar Kainene nas cidades vizinhas à região de Ninth Mile”, disse ele.
“Espere até amanhecer”, disse Olanna.
Richard abanou a cabeça.
“Você tem combustível?”, perguntou Odenigbo.
“O suficiente para me levar até Ninth Mile, se eu for em ponto morto nas ladeiras.”
Olanna lhe deu um pouco de seu dinheiro nigeriano, antes que ele partisse com Harrison. E, na manhã seguinte, com tudo que tinham dentro do carro, escreveu um bilhete apressado e deixou na sala.
Ejima m, nós estamos indo para Abba e depois Nsukka. Voltaremos em uma semana para
ver como está a casa. O.
Gostaria de ter acrescentado estou com saudade ou espero que tudo tenha ido bem, mas resolveu que era melhor não. Kainene daria risada e diria algo como eu não saí para tirar férias, pelo amor de Deus, eu fiquei isolada em território inimigo.
Ela entrou no carro e olhou para os cajueiros.
“A tia Kainene vai para Nsukka também?”, perguntou Baby.
Olanna virou-se e olhou cuidadosamente para o rosto de Baby, à procura de um sinal de clarividência, de um sinal de que Baby sabia que a tia voltaria. De início, pensou ter visto o sinal, mas depois não teve mais muita certeza.
“Vai, meu tesouro”, disse ela. “Tia Kainene vai para Nsukka.”
“Ela ainda está negociando?”
“Está.”
Odenigbo ligou o carro. Tirou os óculos e embrulhou-os num pano. Eles tinham ouvido dizer que os soldados nigerianos não gostavam de gente com cara de intelectual.
“Você consegue ver o suficiente para dirigir?”, perguntou Olanna.
“Consigo.” Olhou para trás, para Ugwu e Baby, antes de sair do compound. Passaram por algumas barreiras, controladas por soldados nigerianos, e Odenigbo murmurava alguma coisa toda vez que eles o deixavam passar. Em Abagana, passaram pela frota destruída da Nigéria, uma longa, enorme coluna de veículos calcinados. Olanna não tirava os olhos. Nós fizemos isso. Estendeu a mão e pegou na de Odenigbo.
“Eles venceram, mas nós fizemos isso”, disse ela, e percebeu como era esquisito dizer eles venceram, dar voz a uma derrota na qual não acreditava. Seu sentimento não era o de ter sido derrotada; era de ter sido enganada. Odenigbo apertou a mão de Olanna. Ela pressentiu o nervosismo dele na tensão do maxilar, quando foram se aproximando de Abba.
“Será que minha casa ainda está de pé?”, disse ele.
O mato despontara por toda parte; as pequenas casas estavam completamente envolvidas pelo capim amarronzado. Havia uma touceira crescendo no portão do compound da família e ele estacionou perto, com o peito subindo e descendo, a respiração ofegante. A casa continuava em pé. Atravessaram um capim denso e seco até lá, e Olanna olhou em volta, com medo de ver o esqueleto de Mama jogado em algum lugar. Porém o primo a enterrara; perto da goiabeira, havia uma pequena elevação de terra e uma cruz, feita de forma grosseira com dois galhos. Odenigbo ajoelhou-se ali, puxou um tufo de capim e ficou com ele na mão.
Foram para Nsukka em estradas marcadas por buracos de bala e crateras de bombas; Odenigbo tinha que desviar o tempo todo. Viram prédios enegrecidos, telhados explodidos, paredes semidestruídas. Aqui e ali, carcaças calcinadas de carros queimados. Reinava uma estranha calma. Perfis recurvos de abutres enchiam o horizonte. Chegaram a uma barreira. Alguns homens cortavam o mato alto na beira da estrada, os cutelos balançando para cima e para baixo; outros levavam grossas tábuas até uma casa cujas paredes pareciam um queijo suíço, crivadas de balas, umas grandes, outras pequenas.
Odenigbo parou ao lado de um oficial nigeriano. A fivela de seu cinto reluzia e ele se curvou para olhar dentro do carro, um rosto escuro com dentes muito brancos.
“Por que ainda estão com placas de Biafra? Vocês apoiam os rebeldes derrotados?” Ele tinha uma voz alta, inventada; era como se estivesse num palco, ciente do seu papel de valentão. Atrás dele, um dos rapazes gritava com os trabalhadores. O cadáver de um homem morto jazia na acostamento, junto ao mato.
“Nós vamos mudar assim que chegarmos a Nsukka”, disse Odenigbo.
“Nsukka?” O oficial endireitou o corpo e riu. “Sei, a Universidade de Nsukka. Foram vocês que planejaram a revolta com Ojukwu, vocês, gente estudada.”
Odenigbo não disse nada e continuou olhando em frente. O oficial abriu a porta do carro com um puxão violento. “Oya! Saia e carregue um pouco de lenha para nós. Vamos ver se consegue ajudar uma Nigéria unida.”
Odenigbo olhou para ele. “Para quê?”
“Está perguntando para mim? Eu disse para você sair e ajudar!”
Um soldado ao lado do oficial apontou a arma.
“Isso é uma piada”, resmungou Odenigbo. “O na-egwu egwu.”
“Saia!”, disse o oficial.
Olanna abriu a porta. “Venham, Odenigbo e Ugwu. Baby, fique sentada no carro.”
Quando Odenigbo saiu, o oficial lhe deu um tapa no rosto com tamanha violência, de forma tão inesperada, que ele caiu contra o carro. Baby chorava.
“Não está agradecido por não matarmos todos vocês? Saia e carregue aquelas tábuas rápido, duas de cada vez!”
“Deixe a minha mulher ficar com nossa filha, por favor”, disse Odenigbo.
O som do segundo bofetão dado pelo oficial não foi tão alto quanto o primeiro. Olanna não olhou para Odenigbo; concentrou-se cuidadosamente num dos homens que levava uma pilha de blocos de concreto, as costas nuas e magras cobertas de suor. Depois andou até a pilha de tábuas e apanhou duas. De início, tropeçou sob o peso — não esperava que fossem tão pesadas —, depois se equilibrou e começou a andar com elas até a casa. Quando largou as tábuas, estava transpirando. Reparou nos olhos de cobiça de um dos soldados, que a seguiam como se pudessem atravessar as roupas. Na segunda viagem, ele tinha se aproximado e estava de pé ao lado da pilha.
Olanna olhou para ele, depois chamou: “Oficial!”.
O oficial tinha acabado de deixar um carro passar. Virou-se. “O que foi?”
“Acho melhor o senhor dizer para o rapaz aqui que é bom ele nem pensar em me tocar”, disse Olanna.
Ugwu estava atrás e Olanna pressentiu a hora em que prendeu a respiração, em pânico com a ousadia dela. Porém o oficial riu; parecia ao mesmo tempo espantado e impressionado. “Ninguém vai tocar em você”, disse ele. “Meus rapazes são treinados. Não são como aqueles rebeldes sujos que seu povo chama de exército.”
Parou outro carro, um Peugeot 403. “Saia do carro já!”
Um homenzinho pequeno saltou e parou ao lado do carro. O oficial estendeu o braço, puxou os óculos do rosto dele e os jogou no mato. “Ah, agora não consegue ver nada? Mas conseguia ver para escrever propaganda em nome de Ojukwu, certo? Não era isso que todos vocês, funcionários públicos, faziam?”
O homem franziu a vista e esfregou os olhos.
“Deite-se”, disse o oficial. O homem deitou-se no asfalto. O oficial pegou uma vareta longa e começou a chicotear o homem nas costas e nas nádegas, ta-wai, ta-wai, ta-wai, e o homem berrou alguma coisa que Olanna não entendeu.
“Diga Obrigado, sah!”, disse o oficial.
O homem disse: “Obrigado, senhor”.
“Diga de novo!”
“Obrigado, senhor!”
O oficial parou e fez um gesto para Odenigbo. “Oya, pessoal dos estudos, vocês podem ir. E não se esqueçam de trocar essas placas.”
Foram rápidos e calados para o carro. A palma das mãos de Olanna doía. O oficial ainda batia no homem quando partiram.