Meio Sol Amarelo
Capítulo 5
Olanna olhou para Odenigbo pelo vidro por alguns momentos, antes de abrir a porta. Fechou os olhos na hora em que ele entrou, como se, fazendo isso, pudesse negar o prazer que o perfume da colônia Old Spice trazia. Ele estava vestido para jogar tênis, com o short branco que, tantas vezes, só para amolá-lo, ela chamou de apertado no traseiro.
“Estive conversando com a minha mãe, caso contrário teria vindo antes”, disse ele. Encostou os lábios nos dela e fez um gesto para o velho bubu que ela usava. “Você não vai ao clube?”
“Estava cozinhando.”
“Ugwu me disse o que houve. Eu sinto muito que minha mãe tenha se comportado dessa forma.”
“Eu tive de sair... da sua casa.” A voz de Olanna falhou. Ela queria ter dito nossa casa.
“Mas não precisava, nkem. Você não devia ter prestado atenção nela.” Colocou um exemplar da revista Drum sobre a mesa e começou a andar de um lado a outro, na sala. “Resolvi falar com o doutor Okoro sobre a greve dos trabalhadores. É inaceitável que Balewa e seus cupinchas pura e simplesmente rejeitem todas as reivindicações. Simplesmente inaceitável. Temos de mostrar o nosso apoio. Não podemos nos alienar.”
“Sua mãe fez um papelão.”
“Você está zangada.” Odenigbo parecia surpreso. Sentou-se na poltrona e, pela primeira vez, Olanna reparou no espaço grande que havia entre os móveis, como era esparsa a mobília, como tudo parecia desabitado. Todas as suas coisas estavam na casa dele; seus livros prediletos estavam nas estantes do escritório dele. “Nkem, não achei que você fosse levar isso tão a sério. Mas você viu que minha mãe não sabe o que faz. Ela é apenas uma mulher que morou a vida toda numa aldeia. E tenta abrir caminho no novo mundo com recursos que estariam melhor no velho.” Odenigbo levantou e aproximou-se, para abraçá-la, porém Olanna deu as costas e foi para a cozinha.
“Você nunca falou sobre sua mãe”, disse. “Nunca me chamou para ir com você até Abba, para visitá-la.”
“Pára com isso, nkem. Aliás, eu nem visito minha mãe tanto assim. E perguntei, sim, se você queria ir, da última vez, só que você estava indo para Lagos.”
Olanna foi até o fogão e passou várias vezes uma esponja sobre a superfície morna, de costas para Odenigbo. A impressão era a de que, de alguma forma, decepcionara tanto Odenigbo quanto ela própria, ao permitir que o comportamento da mãe a deixasse tão perturbada. Devia ter-se posto acima daquela cena; devia ter sacudido os ombros, devia ter visto que era escarcéu de uma mulher de aldeia; não tinha sentido ficar imaginando todas as respostas que poderia ter dado, em vez de permanecer calada na cozinha. Acontece que estava irritada, e ficou ainda mais com as palavras de Odenigbo, que pelo visto não podia acreditar que ela não era tão magnânima quanto ele imaginava. Ele a estava fazendo sentir-se pequena e absurdamente petulante, e, o que era pior, talvez estivesse certo. Talvez ele estivesse sempre certo. Por um breve instante irracional, desejou poder largá-lo. Depois desejou, com um pouco mais de lógica, poder amá-lo sem precisar dele. Precisar dava poder a Odenigbo, sem que ele tentasse obtê-lo; precisar era a incapacidade de discernir que muitas vezes a acometia quando estava ao lado dele.
“O que você fez?”, perguntou Odenigbo.
“Arroz.” Ela enxaguou a esponja e guardou. “Você não vai jogar tênis?”
“Achei que você também ia.”
“Perdi a vontade.” Olanna virou-se. “Por que o comportamento da sua mãe se torna aceitável por ela ser uma mulher de aldeia? Conheço uma porção de mulheres de aldeia que não se comportam dessa maneira.”
“Nkem, a vida inteira da minha mãe é em Abba. Você por acaso sabe que tamanho tem essa pequena vila? Claro que ela vai se sentir ameaçada por uma mulher instruída vivendo com o filho. Claro que você tem que ser uma bruxa. É só assim que ela consegue entender. A grande tragédia do mundo pós-colonial não é não ter dado à maior parte a chance de dizer se queria ou não esse novo mundo; a grande tragédia é que a maioria não recebeu as ferramentas para negociar nesse novo mundo.”
“Você conversou com ela?”
“Não havia por quê. Olha só, eu quero pegar o doutor Okoro no clube. Vamos discutir isso quando eu voltar. Eu fico aqui, esta noite.”
Ela parou de lavar as mãos. Queria que ele a convidasse a voltar para casa com ele, queria que ele dissesse que iria repreender a mãe na frente dela, por ela. Mas lá estava ele, resolvido a passar a noite na casa dela, feito um menino assustado se escondendo da mãe.
“Não”, disse ela.
“O quê?”
“Eu disse não.” Ela foi para a sala de estar sem enxugar as mãos. O apartamento parecia pequeno.
“Qual é o problema, Olanna?”
Ela sacudiu a cabeça. Não permitiria que ele deixasse nela a sensação de que havia algo errado com ela. Tinha o direito de ficar irritada, o direito de não escolher deixar a humilhação de lado em nome de um intelectualismo exaltado, e reivindicava esse direito. “Vá.” E fez um gesto para a porta. “Vá jogar sua partida de tênis e não volte aqui.”
Ele se levantou e saiu, batendo a porta. Nunca tinham tido uma briga; ele sempre tivera paciência com as discordâncias de Olanna, ao contrário do que fazia com os outros. Mas talvez estivesse apenas sendo condescendente e não levasse a sério suas opiniões, para começo de conversa. Olanna estava meio zonza. Sentou-se sozinha na mesa nua — até seus jogos americanos estavam na casa dele — e comeu seu arroz. Não tinha gosto de nada, muito diferente daquele que Ugwu fazia. Ligou o rádio. Pensou ter ouvido chiados no forro. Levantou-se para visitar sua vizinha, Edna Whaler; sempre teve vontade de conhecer melhor a bonita negra norte-americana que, às vezes, levava para ela pratos cobertos com um pano, com biscoitos também americanos. Mas mudou de idéia na porta e não saiu. Depois de ter levado o arroz quase todo de volta para a cozinha, andou pela casa, apanhando jornais antigos e largando no mesmo lugar. Por fim, foi até o telefone e esperou a telefonista atender.
“Me dá o número rápido, eu tenho mais o que fazer”, disse uma voz preguiçosa e anasalada.
Olanna estava acostumada com a inépcia e a falta de profissionalismo das telefonistas, mas essa era a experiência mais grosseira que já tinha tido.
“Haba, eu corto esta linha se você continuar desperdiçando meu tempo”, disse a telefonista.
Olanna deu um suspiro e, lentamente, deu o número de Kainene.
Kainene parecia sonolenta ao pegar o fone. “Olanna? Aconteceu alguma coisa?”
Olanna sentiu uma certa melancolia; sua irmã gêmea achava que só tendo acontecido alguma coisa é que ela ligaria. “Não, nada. Eu só queria dizer kedu, ver como você vai.”
“Mas que chocante.” Kainene bocejou. “Como vai Nsukka? E o seu amante revolucionário?”
“Odenigbo está ótimo. E Nsukka também.”
“Richard parece apaixonado. Está fascinado até com o seu amante revolucionário.”
“Você devia fazer uma visita.”
“Richard e eu preferimos nos encontrar aqui em Port Harcourt. Aquele caixotinho que deram para ele como casa não é exatamente adequado.”
A intenção de Olanna fora dizer a Kainene que ela deveria fazer uma visita para ela, ela e Odenigbo. Mas é claro que Kainene entendera muito bem o que ela tinha dito e simplesmente achara melhor fingir não entender.
Mas, em vez de consertar, disse: “Estou indo para Londres no mês que vem. Quem sabe você podia vir junto?”.
“Tenho muita coisa para fazer, aqui. Ainda não estamos em temporada de férias.”
“Por que nós não conversamos mais, Kainene?”
“Mas que pergunta.” Kainene parecia ter achado graça e Olanna imaginou o sorriso zombeteiro levantando um dos cantos da boca.
“Só queria saber por que nós não conversamos mais”, repetiu. Kainene não respondeu. Um zumbido de estática invadiu a linha telefônica. Ficaram tanto tempo em silêncio que Olanna achou que devia se desculpar. “Não quero tomar seu tempo”, falou.
“Você vai ao jantar de aniversário do papai, na semana que vem?”, perguntou Kainene.
“Não.”
“Eu já devia ter imaginado. Imagino que seja opulento demais para o seu revolucionário abstêmio e você.”
“Não quero tomar seu tempo”, repetiu Olanna, pondo o fone no gancho. Tornou a pegá-lo, e estava prestes a pedir à telefonista que ligasse para o número da mãe, mas mudou de idéia e desligou. Gostaria de ter alguém em quem se apoiar; depois desejou ser uma outra pessoa, daquelas que não precisam recorrer a ninguém, como Kainene. Puxou o fio do telefone, para desenroscá-lo. Os pais haviam insistido em instalar uma linha, como se não tivessem escutado a filha dizer que iria praticamente morar com Odenigbo. Ela protestara, mas sem muita veemência, com aquele mesmo não murcho com que recebia os depósitos frequentes em sua conta bancária e com que encarou o Impala novo, de estofamento macio.
Embora soubesse que Mohammed viajara, deu o número dele em Kano para a telefonista; a voz anasalada disse: “Você está falando demais hoje!”, antes de conectá-la. Ela continuou segurando o fone bem depois de não ter recebido resposta. Ouviu de novo um ruído farfalhado no forro. Sentou-se no chão e encostou a cabeça na parede, para ver se se sentia menos leve, menos desgovernada. A visita da mãe de Odenigbo abrira um buraco na rede de penas macias que a sustinha, tirara algo dela, e Olanna estava apreensiva. Era como estar a um passo de onde deveria estar. Era como se tivesse deixado suas pérolas ao léu por tempo excessivo, e já fosse hora de juntá-las e guardá-las com mais cuidado. A idéia lhe veio lentamente: queria ter um filho com Odenigbo. Eles nunca tinham discutido esse assunto de fato. Uma vez ela lhe dissera que não tinha a lendária ânsia feminina de engravidar; sua mãe a chamara de anormal, até Kainene dizer que também não fazia parte da turma. Odenigbo riu e disse que pôr uma criança num mundo tão injusto quanto o nosso era um ato de burguesia blasée, de todo modo. Nunca mais se esquecera da frase: o parto como um ato de burguesia blasée — era engraçado, e mentiroso também. Assim como ela também nunca pensara em ter um filho, até então; a ânsia que veio do ventre foi repentina, ardente e nova. Ela queria o peso sólido de uma criança, um filho, em seu corpo.
Quando a campainha tocou, nessa noite, ela saiu da banheira e foi até a porta embrulhada numa toalha. Odenigbo estava segurando um pacote de suya embrulhado em jornal; ela sentiu o cheiro defumado e apimentado que vinha da comida.
“Você ainda está com fome?”, perguntou ele.
“Estou.”
“Vista-se e vamos voltar juntos. Eu falo com a minha mãe.”
Ele cheirava a conhaque. Entrou e pôs o suya sobre a mesa; nos olhos avermelhados de Odenigbo, Olanna viu lampejos da vulnerabilidade que se ocultava tão bem debaixo da confiança volúvel. Ele sentia medo, afinal. Ela encostou o rosto em seu pescoço, quando ele a abraçou, e lhe disse, em voz baixa: “Não, você não precisa fazer isso. Fique aqui”.
Depois que a mãe de Odenigbo partiu, Olanna voltou para casa. Ugwu disse: “Desculpe, patroa”, como se ele de alguma forma fosse o responsável pelo comportamento de Mama. Depois remexeu no bolso do avental e acrescentou: “Eu vi um gato preto ontem à noite, depois que Mama e Amala partiram”.
“Um gato preto?”
“Sim, senhora. Perto da garagem.” Ficou alguns momentos calado. “Gato preto significa desgraça.”
“Entendo.”
“Mama disse que ia falar com o dibia da aldeia.”
“E você acha que foi o dibia que enviou o gato preto para nos morder?” Olanna riu.
“Não, senhora.” Ugwu cruzou os braços, desolado. “Aconteceu na minha aldeia, patroa. Uma mulher foi até o dibia e conseguiu remédio para matar a mulher mais velha, e uma noite antes que a mulher mais velha morresse, um gato preto passou na frente da cabana dela.”
“Quer dizer que Mama vai usar o remédio do dibia para me matar?”, perguntou Olanna.
“Ela quer separar vocês dois.”
A solenidade de Ugwu a comoveu. “Tenho quase certeza de que o gato era do vizinho, Ugwu”, disse ela. “A mãe do seu patrão não pode usar remédio nenhum para nos separar. Nada pode nos separar.”
Ugwu voltou para a cozinha e Olanna ficou pensando no que acabara de dizer. Nada pode nos separar. Claro que o remédio que a mãe dele queria conseguir com o dibia — e na verdade todos os feitiços supernaturais — não significavam nada para ela, mas de novo ficou preocupada quanto a seu futuro com Odenigbo. Ela queria certeza. Ansiava por um sinal, um arco-íris, que significasse segurança. De qualquer forma, estava aliviada de voltar à vida normal, à vida deles, de dar aulas, jogar tênis e receber os amigos que enchiam a sala. Como eles costumavam chegar bem mais tarde, surpreendeu-se de ouvir a campainha tocar durante a tarde, uma semana depois, quando Odenigbo ainda estava dando aula. Era Richard.
“Olá”, disse ela, convidando-o a entrar. Ele era muito alto; Olanna tinha que virar a cabeça para olhá-lo, para ver os olhos da cor de um mar sereno e os cabelos que caíam sobre a testa.
“Eu só queria deixar isso para Odenigbo”, disse ele, entregando um livro a Olanna. Ela adorava o jeito como ele pronunciava Odenigbo, enfatizando tão sinceramente o nome todo. Ele evitava olhar nos olhos de Olanna.
“Não quer sentar?”, perguntou ela.
“Estou meio apressado, infelizmente. Tenho que tomar o trem.”
“Você está indo para Port Harcourt para ver Kainene?” Olanna se perguntou por que tinha feito a pergunta. Era óbvio o bastante.
“Estou. Eu vou todo fim de semana.”
“Diga um olá meu para ela.”
“Pode deixar.”
“Eu falei com ela na semana passada.”
“Pois é. Ela mencionou o telefonema.” Richard continuava no mesmo lugar. Deu uma olhada nela e desviou rapidamente a vista, e Olanna viu o rubor lhe subir pelo rosto. Já vira o mesmo tipo de olhar vezes demais para não perceber que ele a achava bela.
“Como está indo o livro?”
“Muito bem. É incrível, de fato, o cuidado com que foram feitos os enfeites, todos eram considerados arte; não foi nenhum acidente... Mas não quero aborrecê-la.”
“Mas não está me aborrecendo.” Olanna sorriu. Gostava da timidez dele. E não queria que ele fosse embora, não ainda. “Você quer que o Ugwu lhe traga um pouco de chin-chin? Está uma delícia; ele fez hoje de manhã.”
“Não, obrigado. Eu preciso ir.” Mas não se mexeu. Afastou o cabelo do rosto e o cabelo caiu de novo na testa.
“Certo, então. Bom, faça uma boa viagem.”
“Obrigado.” Mas continuou no mesmo lugar.
“Você vai dirigindo? Não, claro, agora lembrei. Você vai tomar o trem.” Ela deu uma risada desajeitada.
“É, eu vou tomar o trem.”
“Faça uma boa viagem.”
“Certo. Então é isso.”
Olanna o viu partir e, muito tempo depois que o carro tinha feito a manobra e saído, continuava na porta, vendo um pássaro de peito vermelho-sangue andar no gramado.
Pela manhã, Odenigbo tinha mania de despertá-la levando o dedo dela até a boca. Olanna abriu os olhos; viu a luz esfumaçada da alvorada através das cortinas.
“Se você não quer se casar comigo, nkem, então vamos ter um filho”, disse ele.
O dedo abafava a voz dele, de modo que tirou a mão e sentou-se na cama, para olhá-lo, seu peito largo, seus olhos inchados de sono, queria ver se havia entendido direito.
“Vamos ter um filho”, disse ele de novo. “Uma menina, igualzinha a você, e nós podemos chamá-la de Obianuju, porque ela vai nos completar.”
Olanna queria dar um tempo até o cheiro da visita da mãe se dissipar, antes de lhe dizer que queria ter um filho, e lá estava ele, dando voz a seu desejo antes mesmo dela. Olhou-o espantada. Isso era amor: uma corrente de coincidências que iam juntando significado e se tornavam milagres. “Ou um menino”, disse ela por fim.
Odenigbo a puxou e eles ficaram deitados lado a lado, sem se tocar. Ela escutou o cou-cou-cou rascante dos melros que comiam os papaias do jardim.
“Vamos pedir para o Ugwu trazer o café aqui”, disse ele. “Ou será que este é um dos seus domingos de fé?” Ele sorria seu sorriso gentilmente indulgente e ela estendeu a mão, para contornar o lábio inferior e a penugem por baixo. Ele gostava de mexer com ela e dizer que religião não era serviço social; Olanna só ia à igreja para as reuniões da Irmandade de São Vicente de Paula e, nessas ocasiões, levava Ugwu; juntos, circulavam de carro pelas trilhas de terra das aldeias mais próximas, oferecendo cará, arroz e roupas usadas.
“Hoje eu não vou”, disse ela.
“Ótimo. Temos muito trabalho a fazer.”
Olanna fechou os olhos porque Odenigbo estava montado nela e, quando se mexeu, lânguido de início, depois com vigor, ele sussurrou: “Nós vamos ter um filho brilhante, nkem, um filho brilhante”, e ela concordou, vamos, vamos. Mais tarde, sentiu-se feliz de saber que parte do suor em seu corpo era dele e parte do suor no corpo dele era dela. Toda vez que ele saía dela, Olanna apertava as pernas bem juntas, com os tornozelos cruzados, e respirava fundo, como se o movimento dos pulmões pudesse apressar a concepção. Porém não tinham concebido um filho e ela sabia disso. A súbita idéia de que pudesse haver algo de errado com seu corpo enrodilhou-se em torno dela e a enfraqueceu.