Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 15 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 14

 

Richard não imaginou que seria tão fácil encontrar a família de Nnaemeka, mas quando chegou a Obosi e parou na igreja anglicana para perguntar, o professor lhe disse que eles moravam um pouco mais abaixo, na mesma rua, numa casa sem pintura, ladeada de palmeiras. O pai de Nnaemeka era miúdo e albino, cor de cobre, olhos de um amêndoa acinzentado que se iluminaram assim que Richard falou em ibo. Era tão diferente do enorme inspetor de pele escura que encontrara na alfândega do aeroporto que, durante alguns momentos, achou que entrara na casa errada, que aquele não era o pai de Nnaemeka. Mas o velho abençoou a noz-de-cola numa voz tão parecida com a de Nnaemeka que Richard voltou imediatamente ao saguão do aeroporto naquela tarde abafada, e à conversa irritante do rapaz até que as portas se abriram e os soldados entraram.

“Aquele que traz a noz-de-cola traz vida. O senhor e os seus viverão, e eu e os meus viveremos. Que a águia pouse e que a pomba pouse, e, se algum dos dois decretar que o outro não pode pousar, não será bom para ele. Que Deus abençoe essa noz-de-cola em nome de Jesus.”

“Amém”, disse Richard. Já podia ver outras semelhanças. Os gestos daquele senhor, ao quebrar a noz-de-cola em cinco gomos, eram estranhamente parecidos com os de Nnaemeka, assim como o formato da boca, com o lábio inferior protuberante. Richard esperou até terem terminado de chupar a noz-de-cola, até a mãe de Nnaemeka aparecer, vestida de preto, para dizer: “Eu vi o filho de vocês no aeroporto de Kano, no dia que aconteceu. Conversamos um pouco. Ele falou de vocês e da família”. Richard calou-se uns momentos, perguntando-se se os pais preferiam escutar que o filho tinha permanecido estóico, diante da morte, ou se gostariam de ouvir que ele havia lutado para não morrer, que avançara em direção à arma. “Ele me contou que a avó dele de Umunnachi era uma respeitada herbalista, conhecida em várias partes por ter achado o remédio da malária, e foi por causa dela que, no começo, ele desejou ser médico.”

“É verdade, isso”, disse a mãe de Nnaemeka.

“Ele só tinha boas palavras para dizer sobre a família”, acrescentou Richard. Escolhia suas palavras em ibo cuidadosamente.

“Claro que ele só tinha boas palavras sobre a família.” O pai de Nnaemeka lançou um olhar demorado para Richard, como se não compreendesse por que ele dissera o que todos já sabiam.

Richard remexeu-se no banco. “Vocês fizeram um enterro?”, perguntou, para logo em seguida desejar não ter feito a pergunta.

“Fizemos”, disse o pai de Nnaemeka; fixou os olhos na tigela esmaltada que continha o último gomo de noz-de-cola. “Esperamos ele voltar do Norte, e ele não veio, de modo que fizemos o enterro. Pusemos o caixão vazio no túmulo.”

“Vazio não”, disse a mãe de Nnaemeka. “Não foi você mesmo que pôs aquele velho livro que ele costumava ler na época do concurso para o serviço público?”

Ficaram em silêncio. Ciscos de poeira nadavam na fatia de sol que entrava pela janela.

“O senhor deve levar o último gomo de noz-de-cola com o senhor”, disse o pai de Nnaemeka.

“Obrigado.” Richard pôs o gomo no bolso.

“Quer que eu mande as crianças até o carro?”, perguntou a mãe de Nnaemeka. Era difícil dizer como ela era, com o lenço negro que cobria todo o cabelo e boa parte da testa.

“Até o carro?”

“Isso. O senhor não nos trouxe coisas?”

Richard abanou a cabeça. Devia ter levado cará e bebida. Era, afinal de contas, uma visita de condolências, e ele sabia como as coisas tinham de ser feitas. Perdera-se em si mesmo, achara que só sua ida seria suficiente, que ele seria o anjo magnânimo que levaria aos pais os últimos momentos do filho, e, ao fazê-lo, aliviaria a dor de ambos e se redimiria. Porém, para os pais de Nnaemeka, Richard era apenas mais um entre os que tinham ido dar os pêsames. Sua visita não fazia a menor diferença para a única realidade que importava: o filho deles se fora.

Levantou-se para partir, sabendo que também nada mudara para ele; continuaria sentindo as mesmas coisas que sentia desde que saíra de Kano. Algumas vezes, torcia para enlouquecer, ou para que a memória desaparecesse de todo, mas, em vez disso, tudo assumia uma transparência tenebrosa e bastava fechar os olhos para rever os corpos estrebuchando no chão do aeroporto, para se lembrar da intensidade dos berros. Sua mente permanecia lúcida. Lúcida o suficiente para escrever respostas tranquilas às frenéticas cartas de tia Elizabeth, dizendo que estava bem, que não planejava voltar à Inglaterra, pedindo a ela que parasse de mandar edições em frágil papel aéreo contendo artigos sobre os pogroms nigerianos, com trechos sublinhados a lápis. Os artigos o irritavam. “Antigos ódios tribais”, escrevera o Herald, “eram o motivo desses massacres. A revista Time saiu com uma matéria intitulada MAN MUST WHACK, frase escrita no pára-choque de algum caminhão nigeriano. Só que o jornalista tomou a palavra whack no sentido literal, de golpear, surrar, e se pôs a explicar que os nigerianos eram tão naturalmente propensos à violência que chegavam a escrever sobre a necessidade dela nos pára-choques dos caminhões de passageiro. Richard mandou uma carta enfezada à Time. No inglês crioulo dos nigerianos, escreveu ele, whack significa comer, O HOMEM TEM DE COMER. Ao menos o Observer fora mais habilidoso quando escreveu que, se a Nigéria sobrevivera ao massacre dos ibos, sobreviveria a qualquer coisa. Porém havia um vazio em todos os relatos, ecos de irrealidade. De modo que Richard começou a escrever um longo artigo sobre os massacres. Sentado à mesa de jantar da casa de Kainene, enchia longas folhas de papel sem pauta. Tinha levado Harrison junto para Port Harcourt e, enquanto trabalhava, escutava o empregado falando com Ikejide e Sebastian. “Vocês não sabe como faz bolo de chocolate alemão?” Uma risada. “Vocês não sabe como faz torta de ruibarbo?” Outra risada desdenhosa.

Richard começou escrevendo sobre o problema dos refugiados, provocado pelos massacres, sobre os comerciantes que largaram suas lojas no Norte, professores universitários que deixaram suas faculdades, funcionários públicos que abandonaram seus postos nos ministérios. Lutava para concluir o último parágrafo.

É imperativo lembrar que o primeiro massacre do povo ibo, ainda que em escala

muitíssimo menor do que a ocorrida recentemente, foi em 1945. A carnificina de então

foi precipitada pelo governo colonialista britânico, que culpou os ibos por uma greve

nacional, mandou fechar os jornais em língua ibo e, de maneira geral, incentivou o

sentimento antiibo. A noção, portanto, de que as matanças recentes são fruto de um ódio

“antiquíssimo” é enganosa. As tribos do Norte e do Sul mantêm contato há muito tempo,

pelo menos desde o século IX, como atestam as magníficas contas encontradas no sítio

histórico de Igbo-Ukwu. Não há dúvida de que os dois grupos guerrearam e fizeram

escravos, mas não se massacraram dessa forma. Se isso é ódio, então é um ódio bem

recente. E foi causado, basicamente, pelas políticas informais de dividir e dominar

impostas durante o período colonialista britânico. Políticas que manipularam as

diferenças entre as tribos e garantiram que a união jamais se concretizaria, o que tornou

muito mais prática a governança de um país tão grande.

Quando deu o artigo para Kainene examinar, ela leu tudo cuidadosamente, com os olhos franzidos, e depois disse: “Bem feroz”.

Richard não tinha certeza do significado de bem feroz, assim como não sabia se ela tinha gostado do que lera. E queria muito que Kainene aprovasse. A aura de distância que a envolvia voltara, depois da visita a Olanna, em Nsukka. Tinha posto uma foto dos parentes assassinados na sala — Arize rindo, vestida de noiva, tio Mbaezi exuberante, num terno justo, junto a uma solene tia Ifeka, de panos estampados —, mas Richard não comentou nada, nem falou de Olanna. Muitas vezes, Kainene se calava em meio a uma conversa e, quando isso acontecia, ele a deixava em paz; às vezes, invejava a capacidade de mudança que ela exibira depois dos massacres.

“O que você achou do artigo?”, perguntou, e, antes que ela pudesse responder, perguntou o que de fato queria saber. “Você gostou? O que sentiu a respeito?”

“Acho que parece excessivamente formal e pomposo”, disse ela. “Mas o que sinto a respeito é orgulho. Sinto orgulho.”

Richard enviou-o ao Herald. Ao receber a resposta, duas semanas depois, rasgou a carta, depois de lê-la. A imprensa internacional estava, em suma, saturada de relatos de violência na África, e a matéria de Richard era especialmente morna e pedante, escrevera o subeditor, mas quem sabe Richard pudesse fazer um artigo enfocando o lado humano? Contando se por acaso eles entoavam alguma reza tribal, enquanto executavam os assassinatos, por exemplo. Se eles comiam partes do corpo, como faziam no Congo. Haveria uma maneira de tentar entender, de fato, a mente desses povos?

Richard engavetou seu artigo. Assustava-se de ainda dormir bem, à noite, de ainda se sentir calmo ao aspirar o perfume das folhas de laranjeira, de ver a calma turquesa do mar, de ainda ter sentimentos.

“Eu continuo vivo. A vida não mudou”, disse ele a Kainene. “Eu devia reagir; as coisas deviam ser diferentes.”

“Você não pode escrever um roteiro mental e depois se forçar a seguir o que está lá. Você tem que relaxar, Richard”, disse ela, baixinho.

Mas ele não conseguia relaxar. Não acreditava que a vida fosse igual para as outras pessoas que testemunharam os massacres. Seu medo aumentou ao pensar que, talvez, não tivesse sido mais que um espectador distante. Não temera pela própria vida, de modo que os massacres se tornaram algo externo, fora dele; vira tudo através das lentes remotas da certeza de estar seguro. Mas não podia ser; Kainene não estaria a salvo se estivesse lá.

Começou a escrever sobre Nnaemeka e sobre o cheiro adstringente de bebidas alcoólicas misturado com o de sangue fresco, no saguão daquele aeroporto onde o garçom jazia com a cara estourada por um tiro, mas parou, porque as frases eram risíveis. Melodramáticas demais. Soavam exatamente como os artigos da imprensa internacional, como se a matança nunca tivesse acontecido e, ainda que tivesse, não houvesse sido daquele jeito. O peso do eco de algo irreal afundava cada palavra; ele se lembrava com clareza de tudo o que acontecera no aeroporto, mas, para escrever sobre isso, teria que imaginar de novo, e não tinha certeza se conseguiria.

No dia em que a secessão foi anunciada, ele estava com Kainene na varanda; ouviu a voz de Ojukwu no rádio e, depois, a abraçou. De início, achou que estavam ambos tremendo, até que recuou um pouco para olhar em seu rosto e percebeu que Kainene estava absolutamente imóvel. Só ele tremia.

“Feliz independência”, disse ele.

“Independência”, disse ela, antes de acrescentar: “Feliz independência.”

Ele queria pedi-la em casamento. Era um novo começo, um novo país, o novo país deles. E não só porque a secessão era justa, tendo em vista tudo que os ibos aguentaram, como também pelas possibilidades que Biafra teria para ele. Ele seria biafrense de um jeito que jamais poderia ter sido nigeriano — estava ali desde o início; tinha partilhado o parto. Faria parte. E repetiu Case comigo, Kainene várias vezes na cabeça, mas não conseguiu dizer em voz alta. No dia seguinte, voltou para Nsukka com Harrison.

 

Richard gostava de Phyllis Okafor. Gostava da verve das enormes perucas, do sotaque arrastado de sua Mississippi natal, bem como da armação severa dos óculos, que disfarçava o calor de seus olhos. Desde que parara de ir à casa de Odenigbo, passava quase todas as noites com ela e o marido, Nnanyelugo. Era como se ela soubesse que ele tinha perdido a vida social, e o convidava com insistência para ir ver apresentações no teatro de arte, assistir a palestras públicas e para jogar squash. De modo que, quando ela o convidou para ir ao seminário “Caso haja guerra” que a associação das mulheres da universidade estava organizando, Richard aceitou. Era uma boa idéia, preparar-se para o pior, claro, mas nunca haveria uma guerra. Os nigerianos deixariam Biafra em paz; não lutariam com um povo já alquebrado pelos massacres. Ficariam felizes de se livrar dos ibos, de todo modo. Richard tinha certeza disso. Já como reagiria se topasse com Olanna no seminário, era questão duvidosa. Fora fácil evitá-la até o momento; em quatro anos, passara por ela de carro umas duas vezes, nunca mais frequentara as quadras de tênis, nem o clube, e também não fazia mais compras na Eastern Shop.

Parou ao lado de Phyllis, na entrada, e examinou o salão. Olanna estava sentada na frente, com Baby no colo. Seu rosto, voluptuosamente belo, lhe parecia familiar, assim como o vestido azul de gola com babado, como se tivesse visto um e outro havia muito pouco tempo. Desviou a vista e não conseguiu conter o alívio de ver que Odenigbo não fora. O auditório estava cheio. A mulher que falava no palco repetiu as mesmas palavras várias vezes. “Embrulhem o diploma em sacos impermeáveis e não se esqueçam de que essa é a primeira coisa que vocês vão levar, se tiverem de evacuar. Embrulhem o diploma em sacos impermeáveis...”

Mais gente falou. Depois terminou. As pessoas se juntaram, rindo, conversando e trocando mais dicas “caso haja uma guerra”. Richard sabia que Olanna estava por perto, falando com um sujeito barbado que ensinava música. Virou-se, como quem não quer nada, para escapulir dali, e já estava perto da porta quando ela apareceu a seu lado.

“Olá, Richard. Kedu?”

“Estou bem.” A pele de seu rosto parecia muito retesada. “E você?”

“Nós estamos bem”, disse Olanna. Seus lábios tinham um leve brilho rosa de batom. Richard não deixou de notar o uso do plural. Não sabia se ela se referia a si e à filha, ou a si e a Odenigbo, ou, talvez, aquele nós tivesse a intenção de sugerir que ela havia entendido o que acontecera entre eles e o que isso acarretara para seu relacionamento com Kainene.

“Baby, você já cumprimentou o Richard?”, perguntou Olanna, olhando para baixo, para a criança, cuja mão estava enganchada na sua.

“Boa tarde”, disse Baby, em voz alta.

Richard agachou-se e tocou em seu rosto. Havia uma tranquilidade em volta dela que a fazia parecer mais velha e mais sábia que os seus quatro anos. “Olá, Baby.”

“Como vai a Kainene?”, perguntou Olanna.

Richard fugiu de seu olhar, inseguro de qual expressão assumir. “Está bem.”

“E seu livro, como vai?”

“Vai bem, obrigado.”

“Ainda se chama O cesto de mãos?”

Richard gostou que ela não tivesse esquecido. “Não.” Calou-se e tentou não pensar no que acontecera com aquele manuscrito, nem nas chamas que deviam tê-lo consumido com tanta rapidez. “Agora o nome é Nos tempos dos vasos de cordas.”

“Título interessante”, sussurrou Olanna. “Espero que não haja guerra, mas o seminário foi bem útil, você não achou?”

“Foi.”

Phyllis aproximou-se, cumprimentou Olanna e, depois, puxou o braço de Richard. “Estão dizendo que Ojukwu está vindo! Ojukwu está vindo!” Do saguão, lá fora, vinha um ruído de vozes falando alto.

“Ojukwu?”, perguntou Richard.

“Ele mesmo!” Phyllis caminhava na direção da porta. “Você sabia que outro dia ele fez uma visita surpresa ao campus de Enugu? Parece que agora chegou a nossa vez!”

Richard seguiu-a e saíram da sala. Uniram-se a um punhado de catedráticos parados ao lado da estátua de um leão; Olanna desaparecera.

“Ele está na biblioteca, agora”, disse alguém.

“Não, ele está no prédio da diretoria.”

“Não, ele quer falar com os estudantes. Está no prédio da administração.”

Alguns já dirigiam rapidamente para o bloco da administração, e Phyllis e Richard foram atrás. Estavam perto das acácias-da-sombra que tinham sido plantadas ao longo da entrada para carros quando Richard viu o homem de barba, numa farda austera, elegante e acinturada, marchando pelo corredor. Alguns repórteres correram para alcançá-lo, erguendo gravadores como se fossem oferendas. Os alunos, tantos que Richard se perguntou como é que tinham se reunido tão rápido, começaram a entoar. “Poder!” Poder!” Ojukwu desceu as escadas e parou sobre uns blocos de cimento que havia no gramado. Ergueu as mãos. Tudo nele cintilava, sua barba bem cuidada, seu relógio, seus ombros largos.

“Vim lhes fazer uma pergunta”, disse. Sua voz, com sotaque de Oxford, era surpreendentemente macia; não tinha o timbre que adquiria pelo rádio, e era um pouco teatral, um pouco comedida demais. “O que vamos fazer? Vamos ficar calados e deixar que eles nos forcem a voltar a ser parte da Nigéria de novo? Devemos ignorar os milhares de irmãos e irmãs mortos no Norte?”

“Não! Não!” Os estudantes estavam enchendo o imenso pátio, esparramando-se pelo gramado e pela entrada de carros. Muitos professores pararam o carro na rua e se uniram a eles. “Poder! Poder!”

Ojukwu ergueu de novo as mãos e todos fizeram silêncio. “Se eles declararem guerra, quero que saibam que talvez seja uma longa guerra. Uma longa guerra. Vocês estão preparados? Nós estamos preparados?”

“Estamos! Estamos! Ojukwu, nye anyi egbe! Dê armas para nós! Iwe dianyi n’obi! Há ódio em nosso coração!”

E não pararam mais de entoar — dê armas para nós, há ódio em nosso coração, dê armas para nós. O ritmo era impetuoso. Richard deu uma olhada para Phyllis, que suspendia o punho cerrado enquanto gritava, depois olhou por uns instantes para quem estava em volta, todos concentrados e atentos ao momento, antes de começar ele também a acenar e cantar. “Ojukwu, dê armas para nós! Ojukwu, nye anyi egbe!”

Ojukwu acendeu um cigarro e atirou-o no gramado. O cigarro queimou alguns instantes antes de Ojukwu estender a perna e esmagá-lo sob uma bota negra brilhante. “Até a grama vai lutar por Biafra”, disse.

 

Richard contou a Kainene que havia ficado encantado com Ojukwu, mesmo que o homem já mostrasse sinais de calvície precoce, fosse vagamente histriônico e usasse um anel espalhafatoso no dedo. Contou a ela sobre o seminário. Depois se perguntou se deveria dizer a ela que tinha cruzado com Olanna. Estavam sentados na varanda. Kainene descascava uma laranja com a faca, e a casca fina caía num prato no chão.

“Eu vi Olanna”, disse ele.

“Viu?”

“No seminário. A gente se cumprimentou e ela perguntou de você.”

“Sei.” A laranja escorregou-lhe da mão, ou talvez Kainene tenha jogado a fruta no chão, porque ficou onde caiu, no chão de cerâmica da varanda.

“Desculpe. Achei que devia contar.”

Levantando-se, Richard pegou a laranja e deu para ela, mas ela não aceitou. Ergueu-se e foi até a balaustrada.

“A guerra está chegando. Port Harcourt está enlouquecida.”

Kainene olhava para o horizonte distante, como se pudesse de fato ver a cidade e suas festas loucas, excessivas, seus relacionamentos frenéticos, seus carros andando à toda. Um pouco antes, nessa mesma tarde, uma moça muito bem-vestida se aproximara de Richard, na estação ferroviária, e pegara na sua mão. “Venha até minha casa. Nunca fiz com um homem oynbo, antes, mas agora quero tentar de tudo!”, disse ela, rindo, embora o desejo delirante em seus olhos fosse sério o bastante. Sacudindo a mão até se ver livre dela, fora embora, curiosamente triste de pensar que ela acabaria indo com um outro estranho para a cama. Era como se os habitantes da cidade, com seus pinheiros altos e sibilantes, quisessem agarrar o que fosse possível, antes que a guerra lhes roubasse todas as escolhas.

Richard levantou-se e foi ter com Kainene.

“Não vai haver guerra.”

“Como foi que ela perguntou de mim?”

“Ela disse: Como vai Kainene?”

“E você disse que eu estava bem?”

“Disse.”

Kainene não falou mais sobre o assunto; ele não esperava que ela falasse.