Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 28 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 27

 

Richard estava à mesa de jantar quando a campainha tocou. Reduziu o volume do rádio e rearrumou as folhas de papel antes de ir abrir a porta. Lá estava Harrison, com a testa, o pescoço, os braços e as pernas por baixo do short cáqui envoltos em ataduras ensanguentadas.

Richard quase teve uma vertigem com toda aquela umidade vermelha. “Harrison! Meu bom Deus. O que houve com você?”

“Boa tarde, patrão.”

“Atacaram você?”, perguntou Richard.

Harrison entrou, pôs a sacola em frangalhos no chão e começou a rir. Richard olhava para ele. Quando ergueu as mãos para desamarrar a atadura sanguinolenta da cabeça, Richard disse: “Não, não, não precisa fazer isso, Harrison. Não precisa mesmo. Vou chamar o motorista agora mesmo. Vamos levá-lo ao hospital”.

Harrison arrancou a atadura. Sua cabeça não tinha marca nenhuma; não havia cortes, nada que mostrasse de onde viera o sangue.

“É beterraba, sah”, disse Harrison, rindo de novo.

“Beterraba?”

“Isso mesmo, sah.”

“Você quer dizer que não é sangue?”

“Não, sah.” Harrison recuou um pouco na sala e foi postar-se num canto, mas Richard o convidou a sentar. Ele se acomodou na beirada de uma cadeira. O sorriso sumiu de seu rosto quando começou a falar.

“Estou vindo da minha cidade, sah. Não espalho para ninguém que nossa aldeia vai cair logo, para que não dizem que sou sabotador. Mas todo mundo está sabendo que os vândalos vêm chegando. Dois dias atrás a gente ouve as bombas, mas o conselho do povoado estão dizendo que são os nossos, exercitando. Por isso levei minha família e as nossas cabras para a fazenda de dentro. Depois peguei aqui para Port Harcourt porque não estou sabendo o que houve com o patrão. Até enviei recados pelo motorista do professor Blyden faz muitas semanas já.”

“Não recebi recado nenhum.”

“Sujeito idiota”, resmungou Harrison, antes de continuar. “Eu mergulho os panos na água de beterraba, amarro feito atadura e digo que sobrevivo ao ataque aéreo. É só assim que o pessoal da milícia me deixa entrar no caminhão. Só homem com ferimentos segue junto com mulher e criança.”

“E o que aconteceu em Nsukka? Como é que saiu de lá?”

“Faz muitos meses isso, sah. Quando ouvi bomba estourar, empacoto as coisas e enterro a caixa do mãoscrito no jardim, perto daquela florzinha pequena que Jomo plantou da última vez.”

“Você enterrou o manuscrito?”

“Enterrei, sah, porque senão eles leva de mim na estrada.”

“Sim, claro”, disse Richard. Era descabido esperar que Harrison tivesse trazido Nos tempos dos vasos de cordas consigo. “E então, como é que tem se virado?”

Harrison abanou a cabeça. “A fome é ruim, sah. Meu povo está vigiando bode.”

“Vigiando bode?”

“Para ver o que eles come, e, depois de ver, eles ferve as mesmas folhas e dá para os filhos tomar. Impede as crianças de pegar kwashiorkor.”

“Entendo”, disse Richard. “Agora vá para o Alojamento dos Criados e tome um banho.”

“Pois não, sah.” Harrison se levantou.

“E quais são seus planos, agora?”

“Sah?”

“Planeja voltar para sua aldeia natal?”

Harrison mexeu na atadura do braço, grossa de sangue falso. “Não, sah. Estou esperando a guerra acabar e cozinhando para o patrão.”

“Claro”, disse Richard. Ainda bem que dois dos empregados de Kainene tinham se alistado no exército e só restara Ikejide.

“Mas, sah, estão dizendo que Port Harcourt cai logo. Os vândalos vêm vindo com muito navio britânico. Já estão bombardeando os arredores de Port Harcourt, agora.”

“Vá tomar um banho, Harrison.”

“Pois não, sah.”

Depois que Harrison saiu da sala, Richard aumentou o volume do rádio. Gostava da cadência da voz de entonação árabe que falava na Rádio Kaduna, mas não da certeza jubilosa com que dizia “Port Harcourt foi liberada! Port Harcourt foi liberada!”. Estavam falando da queda de Port Harcourt havia dois dias, já. Assim como a rádio de Lagos, embora com um pouco menos de inflexão jubilosa. A BBC também havia anunciado que a queda iminente de Port Harcourt seria a queda de Biafra; Biafra perderia seu porto marítimo, seu aeroporto, seu controle sobre o petróleo.

Richard abriu a tampa de bambu de uma garrafa sobre a mesa e se serviu. O líquido rosado espalhou um calor agradável por todo seu corpo. Emoções reviraram em seu cérebro — alívio de ver Harrison vivo, decepção de saber que seu manuscrito estava enterrado em Nsukka, ansiedade sobre o destino de Port Harcourt. Antes de se servir de uma segunda dose, leu o rótulo da garrafa: REPUBLIC OF BIAFRA, RESEARCH AND PRODUCTION DIRECTORATE, NENE SHERRY, 45%. Bebeu lentamente. Madu levara duas, em sua última visita, brincando que fazer bebida em casa e colocar em velhas garrafas de cerveja era parte da mobilização para a vitória.

“O pessoal do RAP diz que Ojukwu toma isso, se bem que eu duvide”, disse ele. “Eu só bebo os transparentes, porque não confio muito nessa cor.”

A irreverência de Madu, chamando Sua Excelência apenas de Ojukwu, sempre incomodava Richard, entretanto não disse nada, porque não queria ver de novo aquele mesmo sorrisinho afetado com que Madu dizia a Kainene: “Nós estamos enchendo o tanque com uma mistura de querosene e dendê”, ou “Nós aperfeiçoamos a ogbunigwe voadora”, ou “Nós fizemos um tanque com peças usadas”. O nós dele vinha sempre cercado de exclusão. A ênfase proposital e a voz gutural significavam que Richard não era parte do nós; uma visita não poderia ter as mesmas liberdades dos donos da casa.

Por isso mesmo, algumas semanas antes Richard ficara perplexo com a informação de Kainene: “Madu gostaria que você escrevesse para o Diretório de Propaganda. Ele vai lhe conseguir um passe especial e gasolina para poder circular. Eles vão mandar seus artigos para o pessoal de relações públicas no exterior”.

“Por que eu?”

Kainene deu de ombros. “Por que não?”

“O cara me odeia.”

“Não seja tão dramático. Acho que eles querem alguém íntimo e com experiência para contar mais coisas, além de quantos biafrenses foram mortos.”

De início, a palavra íntimo deixou Richard emocionado. Mas logo as dúvidas começaram a se insinuar; íntimo fora o termo usado por Kainene, e não por Madu. Madu o enxergava como um estrangeiro e talvez por isso imaginou que seria uma boa pessoa para ocupar o cargo. Quando ligou, perguntando se Richard queria o cargo, Richard disse não.

“Já pensou a respeito?”, perguntou Madu.

“Você não teria me oferecido se eu não fosse branco.”

“Claro que ofereci porque você é branco. Eles vão levar mais a sério o que você escrever por ser um branco. Escute, a verdade é que esta não é a sua guerra. Esta não é a sua causa. Seu governo tira você daqui assim que solicitar. De modo que não basta carregar galhos murchos e gritar poder, poder para mostrar apoio a Biafra. Se quer mesmo contribuir, a forma de fazê-lo é escrever para nós. O mundo precisa saber o que está acontecendo, eles não podem simplesmente continuar calados enquanto nós morremos. Eles acreditarão num branco que mora em Biafra e que não é jornalista profissional. Você pode dizer a eles que continuamos firmes e triunfantes, mesmo com os Mig-17 nigerianos, os II-28 e os Delfins L-29 pilotados por russos e egípcios nos bombardeando todos os dias, mesmo que alguns simplesmente usem aviões de transporte e descarreguem sem piedade as bombas em cima de mulheres e crianças, mesmo que britânicos e soviéticos tenham formado uma aliança maldita para dar mais e mais armas à Nigéria, mesmo com a recusa dos americanos em ajudar, mesmo só podendo fazer transportes à noite, sem luz nenhuma, porque os nigerianos derrubam qualquer avião de ajuda durante o dia...”

Madu calou-se uns instantes, para recobrar o fôlego, e Richard disse: “Certo, eu aceito”. Eles não podem simplesmente continuar calados enquanto nós morremos ressoava em sua cabeça.

Seu primeiro artigo foi sobre a queda de Onitsha. Escreveu que os nigerianos tinham tentando diversas vezes tomar essa antiga cidade, mas que os biafrenses lutaram bravamente, que centenas de romances populares haviam sido publicados ali, antes da guerra, que a grossa e densa fumaça da ponte em chamas que cruzava o Níger subira como uma elegia desafiadora. Descreveu a igreja católica da Santíssima Trindade, onde soldados da Segunda Divisão da Nigéria haviam defecado no altar, antes de matar duzentos civis. Citou uma testemunha muito tranquila: “Os vândalos são um povo que caga em cima de Deus. Nós havemos de vencê-los”.

Enquanto escrevia o artigo, sentiu-se de novo um colegial, escrevendo cartas para tia Elizabeth sob a vigilância do diretor. Richard lembrava-se dele claramente, da pele manchada, de como chamava ciência de “porcaria”, de como comia seu mingau andando pelo refeitório, dizendo que era assim que faziam os homens de bem. Richard continuava sem saber o que mais detestava, se ver forçado a escrever cartas para casa, ou ter a sessão epistolar monitorada. Assim como não sabia o que odiava mais, no momento, a idéia de Madu como seu monitor ou perceber que importava e muito o que Madu achava dele. Alguns dias depois de ter escrito o primeiro artigo, chegou um bilhete dele. O artigo saiu muito bom (quem sabe um pouco menos rebuscado, no próximo?) e já foi enviado para a Europa. A letra dele era enrolada, difícil de decifrar, e, no papel timbrado, o NIGERIANO de EXÉRCITO NIGERIANO fora riscado e BIAFRENSE fora escrito apressadamente por cima, em letras de fôrma. Porém as palavras de Madu convenceram Richard de que tomara a decisão correta. Imaginava-se como um jovem Winston Churchill, cobrindo as atividades de Kitchener na batalha de Omdurman, travada entre armas superiores contra as inferiores, se bem que, ao contrário de Churchill, Richard estivesse do lado do vencedor moral.

Semanas depois, após muitos outros artigos, sentia-se parte de tudo. Agradava-o o novo respeito nos olhos do motorista, saltando do carro para lhe abrir a porta, embora Richard tivesse dito que não era preciso. Ficou feliz com a rapidez com que os olhares de suspeita dos defensores civis ao ver seu passe especial de trabalho se transformavam em amplos sorrisos quando ele os cumprimentava em ibo, com a rapidez com que todos se dispunham a responder suas perguntas. Satisfazia-se com a superioridade que adotava diante de jornalistas estrangeiros, quando resolvia falar vagamente sobre os antecedentes da guerra — sobre as implicações da greve nacional, do censo e do caos na Região Ocidental —, sabendo perfeitamente que eles não tinham idéia do que ele falava.

Porém seu grande prazer procedia do encontro com Sua Excelência. Foi durante uma apresentação de uma peça em Owerri. Um reide aéreo explodira todas as janelas do teatro e a brisa noturna levava embora algumas das palavras dos atores. Richard sentou-se poucas fileiras atrás de Sua Excelência e, depois da peça, um dos bambambãs do Diretório de Mobilização o apresentou. O sólido aperto de mão e o “Obrigado pelo bom trabalho que vem fazendo” em voz suave, com sotaque de Oxford, o deixaram confiante. Ainda que tivesse achado a peça política um tanto óbvia demais, não disse nada. Concordou com Sua Excelência: o espetáculo fora maravilhoso, simplesmente maravilhoso.

Richard podia ouvir os barulhos de Harrison na cozinha. Sintonizou a Rádio Biafra até terminar a declaração de que o inimigo estava acuado em Oba e depois desligou. Serviu uma dose menor e releu sua última frase. Estava escrevendo sobre o Comando das Forças Especiais, sobre a popularidade de seus soldados, adorados pelos civis, porém a aversão que sentia pelo comandante, um mercenário alemão, tornava o texto artificial. O artigo estava pomposo. O xerez havia aguçado sua ansiedade, em vez de embotá-la. Levantou-se, apanhou o telefone e ligou para Madu.

“Richard”, disse Madu. “Que sorte. Acabei de entrar.”

“Tem alguma novidade sobre Port Harcourt?”

“Novidade?”

“A cidade não está ameaçada? Tem havido ataques a bomba em Rumuokwurusi, certo?”

“É verdade, temos informações seguras de que alguns sabotadores se apossaram de umas bombas. Mas você acha mesmo que se os vândalos estivessem assim tão perto o bombardeio contra nós seria tão fraco?”

O tom de quem está achando a pergunta engraçada fez Richard se sentir um tolo. “Desculpe a amolação. É que eu pensei...” E deixou que a voz fosse sumindo.

“Não tem de quê. Cumprimente Kainene por mim, quando ela voltar”, disse Madu, antes de desligar.

Richard terminou a bebida e estava prestes a servir mais uma dose, mas resolveu que era melhor não. Fechou a garrafa de novo com a tampa de bambu e saiu para a varanda. O mar estava calmo. Espreguiçou-se e passou a mão pelo cabelo, como se para espantar os maus pressentimentos. Se Port Harcourt caísse, perderia a cidade que aprendera a amar, a cidade em que amava; perderia um pouco de si. Porém Madu devia estar certo. Ele não negaria informações sobre uma cidade prestes a cair, ainda mais a cidade onde Kainene vivia. Se tinha dito que Port Harcourt não estava ameaçada, então não estava.

Richard olhou para seu reflexo embaciado na porta de vidro. Estava bronzeado e o cabelo parecia mais cheio, um tanto despenteado; lembrou-se das palavras de Rimbaud: Eu é um outro.

 

Kainene deu risada quando Richard lhe contou sobre as beterrabas. Depois tocou em seu braço e disse: “Não se preocupe, se ele pôs o manuscrito numa caixa, vai ficar a salvo dos cupins”. Tirou a roupa de trabalho e estirou-se languidamente na cama; Richard admirou a graça esbelta das costas arqueadas. Sentiu o turbilhão do desejo, mas esperaria pela noite, depois de terem jantado, depois de terem recebido alguma visita, depois que Ikejide tivesse se retirado. Iriam para a varanda, ele afastaria a mesa, poria um tapete macio e deitaria com as costas nuas no chão. Quando ela montasse nele, seguraria seus quadris, olharia para o céu noturno e, por alguns momentos, teria certeza do significado da bem-aventurança. Esse era o novo ritual deles, desde que a guerra começara, e por esse único motivo se sentia grato à guerra.

“Colin Williamson deu uma passada no meu escritório hoje”, disse Kainene.

“Não sabia que ele tinha regressado”, falou Richard, e o rosto bronzeado de Colin lhe voltou à mente, assim como o lampejo dos dentes manchados enquanto discorria, vezes demais, sobre sua saída da BBC porque os editores apoiavam a Nigéria.

“Ele trouxe uma carta da minha mãe”, disse Kainene.

“Da sua mãe?”

“Ela leu a reportagem dele no Observer, entrou em contato com ele e perguntou se ele pretendia voltar a Biafra, e se poderia entregar uma carta para a filha, em Port Harcourt. Ela ficou muito espantada quando Colin disse que nos conhecia.”

Richard amou o jeito como ela disse “nos”. “Eles estão bem?”

“Claro que estão; não tem ninguém bombardeando Londres. Ela diz que tem pesadelos, que Olanna e eu morremos, que reza muito e que estão envolvidos com a Campanha Salve Biafra, em Londres — o que deve significar que enviaram uma pequena doação.” Kainene parou de falar e estendeu o envelope. “Ela grudou algumas libras esterlinas no forro de um cartão de um jeito muito esperto. Fiquei impressionada. Mandou um para Olanna, também.”

Ele leu a carta rapidamente. Lembranças a Richard era a única referência a ele, no final do papel azul. Queria perguntar a Kainene como pretendia entregar a carta a Olanna, mas ficou quieto. O silêncio fora pondo o assunto Olanna num relicário a cada mês, cada ano que atravessavam sem tocar no nome dela. Quando Kainene recebeu as três cartas que a irmã escrevera no começo da guerra, não fez menção. E não respondera.

“Vou mandar alguém até Umuahia na semana que vem para entregar a carta de Olanna”, disse ela.

Richard devolveu-lhe a carta. O silêncio estava se coagulando.

“Os nigerianos não param de falar de Port Harcourt”, disse ele.

“Eles não vão tomar Port Harcourt. Nosso melhor batalhão está aqui.” Kainene falou com voz casual, porém havia uma nova cautela em seus olhos, a mesma que exibira ao lhe dizer, meses atrás, que queria comprar uma casa inacabada em Orlu. Dissera que era melhor ter imóveis que dinheiro no banco, mas ele suspeitava que, para Kainene, se tratava de uma rede de segurança para o caso de Port Harcourt cair. Para ele, pensar na possibilidade de Port Harcourt cair era uma blasfêmia. Em nenhum dos fins de semana em que foram ver se os operários não estavam roubando material, falou em morar em Orlu, como se numa tentativa de se absolver da blasfêmia.

Richard também não queria mais viajar. Queria guardar Port Harcourt com sua presença; desde que estivesse ali, achava ele, nada aconteceria. Porém o pessoal de relações públicas da Europa tinha pedido um artigo sobre a pista de pouso em Uli, de modo que saiu, muito a contragosto, bem cedo na manhã seguinte, assim estaria de volta antes do meio-dia, horário em que os aviões nigerianos descarregavam suas armas sobre qualquer veículo que estivesse rodando nas estradas principais. Na estrada para Okigwe, havia uma enorme cratera deixada por uma bomba. O motorista desviou e Richard teve uma sensação já conhecida de mau agouro, porém seus pensamentos ficaram mais leves ao se aproximar de Uli. Era sua primeira visita ao único elo de Biafra com o mundo exterior, essa maravilha de pista de pouso onde comida e armas se esquivavam dos bombardeiros nigerianos. Saltou do carro, olhou para a faixa de asfalto com um matagal denso de ambos os lados e pensou nas pessoas que faziam tanto com tão pouco. Um jato minúsculo estava parado na outra ponta. O sol da manhã era quente; três homens espalhavam folhas de palmeira na pista, trabalhando rápido, suando, empurrando carrinhos cheios até a boca de folhas de palmeira. Richard aproximou-se para dizer “Muito bem, jisienu ike”.

Um oficial saiu do prédio inacabado e apertou a mão de Richard. “Não escreva demais, não! Não entregue nossos segredos”, brincou ele.

“Claro que não”, disse Richard. “Posso entrevistá-lo?”

O homem deu um sorriso largo, flexionou os ombros e disse: “Bem, eu sou o encarregado da alfândega e da imigração”. Richard escondeu um sorriso; as pessoas sempre se sentiam importantes quando pedia para entrevistá-las. Conversaram na pista mesmo e, pouco depois de o encarregado da alfândega ter voltado ao prédio, saiu lá de dentro um sujeito alto e loiro. Richard o reconheceu: era o conde Von Rosen. Parecia mais velho do que o retrato que Richard tinha visto, mais perto dos setenta que dos sessenta anos, mas envelhecia de forma elegante; dava passadas longas e tinha o queixo firme.

“Disseram que você passaria por aqui e pensei em lhe dar um alô”, disse ele, com um cumprimento tão inabalável quanto seus olhos verdes. “Acabei de ler um artigo excelente seu, sobre a Brigada de Garotos Biafrenses.”

“É um prazer conhecê-lo, conde Von Rosen”, disse Richard. E era mesmo um prazer. Desde o momento em que lera a respeito desse aristocrata sueco que bombardeava alvos nigerianos com seu pequeno avião, tinha vontade de conhecê-lo.

“Homens notáveis”, disse o conde, dando uma olhada no pessoal que garantia que, lá do alto, a faixa negra de asfalto seria tida como mato. “País extraordinário.”

“De fato”, disse Richard.

“Gosta de queijo?”, perguntou o conde.

“Queijo? Gosto. Claro que gosto.”

O conde enfiou a mão no bolso e tirou lá de dentro um pequeno pacote. “Um cheddar excelente.”

Richard pegou e tentou esconder a surpresa. “Obrigado.”

O conde remexeu de novo no bolso e Richard ficou preocupado, achando que ele fosse tirar mais um pedaço de queijo. Mas ele puxou um par de óculos escuros e colocou-os no rosto. “Disseram-me que sua mulher é uma ibo muito rica, uma das pessoas que ficaram aqui para lutar pela causa.”

Richard nunca tinha visto a questão dessa perspectiva, a de Kainene ter ficado para lutar pela causa, mas sentiu-se satisfeito que o conde houvesse escutado isso, e escutado, também, que Kainene e ele eram casados. Sentiu um súbito e feroz orgulho de Kainene. “É. Ela é uma mulher extraordinária.”

Houve um silêncio. A intimidade do queijo ofertado pedia um gesto de reciprocidade, de modo que Richard abriu sua agenda e mostrou ao conde primeiro uma foto de Kainene, tirada à beira da piscina, com um cigarro na boca, e depois a foto do vaso de cordas.

“Eu me apaixonei pela arte de Igbo-Ukwu e depois por ela”, disse.

“Belos, ambos”, disse o conde, antes de tirar os óculos para examinar as fotos.

“Vai sair em missão hoje?”, perguntou Richard.

“Vou.”

“Por que o senhor faz isso?”

Ele pôs os óculos de novo. “Eu trabalhei com os freedom fighters da Etiópia e, antes disso, levava suprimentos para o gueto de Varsóvia”, disse ele, com um leve sorriso, como se isso respondesse a pergunta. “Agora preciso ir andando. Para continuar fazendo um bom trabalho.”

Richard ficou olhando o conde se afastar, um fidalgo de costas eretas, tão diferente do mercenário. “Eu gosto dos biafrenses”, lhe tinha dito o alemão de cara vermelha. “Muito diferentes dos malditos cafres do Congo.” Falara isso para Richard na sua casa, no meio do mato, bebendo de uma garrafa enorme de uísque e vendo seu filho adotivo — um garoto biafrense bonito — brincar com velhos estilhaços no chão. Richard havia se irritado com o desprezo afetuoso com que tratava a criança, e com a exceção que abria aos biafrenses. Era como se o mercenário achasse que, finalmente, encontrara uma gente negra de quem podia gostar. O conde era diferente. Richard espiou o jato minúsculo uma última vez, antes de subir no carro.

Na volta, nos arredores de Port Harcourt, escutou o matraquear distante de armas. O ruído não demorou a parar. Mas ele ficou preocupado. E quando Kainene sugeriu que fossem para Orlu no dia seguinte, procurar um carpinteiro para a casa nova, o desejo de Richard era de que não precisassem ir. Dois dias seguidos longe de Port Harcourt o deixavam preocupado.

 

A casa nova era rodeada de cajueiros. Richard lembrava-se de que parecia abandonada quando Kainene comprou — semi-acabada, com camadas de mofo verde nas paredes sem pintura —, e de que havia moscas e abelhas amontoadas sobre os cajus caídos, o que lhe deu náuseas. O dono tinha sido o diretor da escola secundária comunitária, que ficava um pouco mais abaixo, na mesma rua. Como a escola tinha sido transformada em campo de refugiados e como sua mulher morrera, resolveu ir para o interior com suas cabras e seus filhos. E repetia: “Esta casa está fora do alcance das bombas, completamente fora do alcance das bombas”, até que Richard começou a se perguntar como é que ele poderia saber de onde os nigerianos iriam disparar. Havia um charme discreto naquela casinha térrea, Richard admitiu isso, quando foram vistoriar os aposentos recém-pintados. Kainene havia contratado dois carpinteiros no campo de refugiados, fizera desenhos numa folha de papel e, já no carro, dissera a Richard: “Não sei não se eles são capazes de fazer uma mesa decente”.

Escutaram um apito estridente ao deixar Orlu. O motorista parou de supetão, no meio da estrada, todos saltaram do carro e foram se esconder no mato denso. Algumas mulheres, que estavam andando na estrada, correram também, olhando para cima enquanto escapavam, torcendo o pescoço. Era a primeira vez que Richard procurava um abrigo junto com Kainene; ela estava deitada no chão, ao lado dele, com o corpo rígido. Os ombros se tocavam. O motorista estava um pouco atrás. O silêncio era absoluto. Um farfalhar alto, ali por perto, deixou Richard tenso, até que apareceu um lagarto de cara vermelha entre as pedras. Eles esperaram um bom tempo, e finalmente se levantaram quando ouviram um carro acelerando e vozes alteradas por perto. “Meu dinheiro se foi! Meu dinheiro se foi!” Havia um mercado a poucos metros dali. Alguém tinha roubado a banca da comerciante, enquanto ela se abrigava. Richard podia vê-la, assim como algumas outras mulheres nas barracas, gritando e gesticulando. Era difícil acreditar no silêncio absoluto que reinara alguns minutos antes, e no florescimento prodigioso dos mercados no meio do mato, depois que os nigerianos bombardearam o mercado a céu aberto de Agwu.

“Alarme falso é pior que o de verdade”, disse o motorista.

Kainene espanou-se toda, com cuidado, mas o chão estava molhado e a lama grudara nas roupas; seu vestido azul parecia ter sido desenhado com manchas cor de chocolate. Os dois entraram no carro e continuaram a viagem. Richard pressentiu a raiva de Kainene.

“Olha lá aquela árvore”, disse ele, apontando. A árvore tinha sido dividida ao meio, num único talho, dos galhos para baixo. Uma das metades ainda estava de pé, meio torta, ao passo que a outra caíra no chão.

“Parece recente”, disse Kainene.

“Meu tio foi piloto na guerra. Ele bombardeou a Alemanha. É estranho pensar nele fazendo uma coisa dessa.”

“Você nunca falou sobre ele.”

“Morreu. Foi derrubado.” Richard calou-se uns instantes. “Vou escrever sobre os nossos novos mercados no mato.”

O motorista havia parado numa barreira. Um caminhão, transportando sofás, prateleiras e mesas, estava parado no acostamento, e um homem, ao lado do veículo, conversava com uma jovem defensora civil de calça cáqui e sapatos de lona. Ela o largou para ir espiar a cara de Richard e Kainene. Pediu ao motorista para abrir o porta-malas, olhou dentro do porta-luvas, depois estendeu a mão para a bolsa de Kainene.

“Se eu tivesse uma bomba, não esconderia na minha bolsa”, murmurou Kainene.

“O que a senhora disse?”, perguntou a jovem.

Kainene calou-se. A moça olhou a bolsa com todo o cuidado. E tirou lá de dentro um pequeno rádio. “O que é isso? Um transmissor?”

“Não é um transmissor. É um rá-di-o”, disse Kainene, com uma lentidão irônica. A jovem examinou o passe especial de trabalho dos dois e ajustou a boina. “Desculpe, senhora. Mas temos muitos sabotadores que usam aparelhos estranhos para transmitir para a Nigéria. Vigilância é nossa palavra de ordem!”

“Por que vocês pararam aquele homem do caminhão?”, perguntou Kainene.

“Estamos mandando todo mundo que esteja retirando mobília voltar para casa.”

“Por quê?”

“Uma evacuação assim pode causar pânico na população civil.” Falava como alguém recitando algo decorado. “Não há motivo para alarme.”

“Mas e se a cidade onde ele mora estiver prestes a ser invadida? Sabe de onde ele é?”

A jovem endireitou o corpo. “Bom dia, senhora.”

Assim que o motorista ligou o carro, Kainene disse: “É uma grande piada, não é?”

“O quê?”, perguntou Richard, embora já soubesse o que ela queria dizer.

“Esse medo que estamos inculcando no nosso povo. Bombas no sutiã das mulheres! Bombas em latas de leite infantil! Sabotadores por toda parte! Vigiem seus filhos porque eles podem estar trabalhando para a Nigéria!”

“Isso é normal, em tempos de guerra.” Às vezes, Richard gostaria que ela fosse um pouco menos sarcástica. “É importante que todos saibam que há sabotadores entre nós.”

“Os únicos sabotadores que temos são aqueles que Ojukwu inventou para poder imobilizar os adversários e aqueles cujas mulheres ele cobiça. Eu não contei a você sobre um sujeito de Onitsha que comprou todo o cimento que tínhamos na fábrica, pouco depois de os refugiados começarem a voltar? Ojukwu tem um caso com a mulher dele e acabou de mandar prender o sujeito, sem acusação nenhuma.”

Kainene batia a sola do pé no chão do carro. Sempre tinha o jeito de Madu quando falava de Sua Excelência. Porém Richard não se deixava convencer por esse desdém que tinha começado no dia em que Madu se queixou de que Sua Excelência o preterira e nomeara alguém mais novo como oficial comandante. Se Sua Excelência não tivesse preterido Madu, talvez Kainene fosse menos crítica.

“Sabe quantos oficiais ele já meteu na prisão? Ele tem tanta desconfiança dos próprios oficiais que está usando civis para comprar armas. Madu contou que eles acabaram de comprar uns lamentáveis fuzis de ferrolho na Europa. Na verdade, depois que Biafra estiver estabelecida, vamos ter de tirar Ojukwu do poder.”

“E substituí-lo por quem, por Madu?”

Kainene riu e ele ficou lisonjeado e surpreso que tivesse gostado de seu sarcasmo. Seus maus presságios voltaram, um ronco surdo no estômago, assim que se aproximaram de Port Harcourt.

“Pare para podermos comprar akara e peixe frito”, disse Kainene ao motorista, e até o gesto dele, de pisar no freio, deixou Richard nervoso.

Quando chegaram em casa, Ikejide avisou que Madu ligara quatro vezes.

“Espero que não haja nada errado”, disse Kainene, abrindo o embrulho de jornal, manchado de óleo, onde estavam o peixe frito e os bolinhos de feijão. Richard pegou um akara ainda quente, soprou e disse consigo mesmo que Port Harcourt estava a salvo. Não havia nada errado. O telefone tocou, ele atendeu e o coração acelerou ao ouvir a voz de Madu.

“Como estão vocês? Algum problema?”, perguntou Madu.

“Não. Por quê?”

“Surgiram uns boatos de que a Grã-Bretanha forneceu cinco navios de guerra para a Nigéria, de modo que alguns jovens resolveram pôr fogo em lojas e casas de britânicos em toda a cidade, hoje. Eu queria ter certeza de que vocês não foram incomodados. Posso mandar um ou dois dos meus homens para patrulhar a casa de vocês.”

De início, Richard ficou irritado de pensar que ainda era considerado um estrangeiro, alguém a ser atacado, depois se sentiu agradecido com a preocupação de Madu.

“Nós estamos bem”, disse. “Acabamos de voltar de Orlu, fomos ver a casa.”

“Ah, que bom. Me avise se houver algum desdobramento.” Madu calou-se, falou com alguém numa voz abafada, e voltou ao telefone. “Você deveria escrever sobre o que o embaixador francês disse ontem.”

“Sim, claro.”

“Disseram-me que os biafrenses lutavam como heróis, mas agora sei que os heróis lutam como os biafrenses”, entoou Madu com orgulho, como se o elogio tivesse sido dado a ele, pessoalmente, e quisesse que Richard ficasse sabendo.

“Sim, claro”, disse Richard de novo. “Port Harcourt está segura, não está?”

Houve uma pausa do outro lado da linha. “Alguns sabotadores foram presos e todos eles eram de minorias não ibo. Não entendo por que essa gente insiste em ajudar o inimigo. Mas nós venceremos. Kainene está aí?”

Richard entregou o telefone a ela. Que sacrilégio, algumas pessoas acharem que podiam trair Biafra. Lembrou-se dos homens com quem tinha conversado num banco em Owerri, um deles ijo, o outro efik, que disseram que os ibos iriam dominar tudo depois que Biafra estivesse estabelecida. Richard respondera que um país nascido das cinzas da injustiça abominaria a prática da injustiça. Quando lhe deram uma olhada duvidosa, ele mencionou o general do exército que era efik, o diretor que era ijo, e os soldados de outras minorias que lutavam com tanto brilho pela causa. Ainda assim, não pareceram convencidos.

 

Richard ficou em casa nos dias seguintes. Escreveu sobre os mercados espalhados pela mata e passou horas na varanda, olhando para a rua, como se esperasse um bando de jovens avançar em direção à casa portando tochas acesas. Kainene tinha visto uma das casas incendiadas, a caminho do trabalho. Uma tentativa sem muito ímpeto, segundo ela; só tinham conseguido enegrecer as paredes. Richard queria ver essa casa, escrever a respeito dela e, talvez, ligar o fato à queima das efígies de Wilson e Kosygin, que vira havia pouco, em campos governistas, mas aguardou uma semana até se certificar de que era seguro ser um britânico à solta nas ruas, e então saiu um dia bem cedo, com a intenção de fazer um passeio pela cidade.

Ficou espantado de ver uma nova barreira na avenida Aggrey, e ainda mais espantado de ver que estava sendo vigiada por soldados. Talvez por causa das casas incendiadas. A avenida estava deserta, todos os ambulantes que vendiam amendoins, jornais e peixe frito tinham sumido. Havia um soldado no meio da avenida, balançando a arma para quem se aproximava, fazendo gestos para que voltassem. O motorista parou e Richard estendeu o passe. O soldado ignorou o passe e manteve a arma balançando. “Voltem! Voltem!”

“Bom dia”, começou Richard. “Eu sou Richard Churchill e vou...”

“Voltem ou eu atiro! Ninguém vai sair de Port Harcourt! Não há motivo para alarme!”

O soldado segurava a arma com dedos irrequietos. O motorista fez meia-volta. Os maus presságios de Richard se transformaram em pedrinhas nas narinas, mas ainda assim conseguiu fazer uma voz normal quando chegou em casa e contou a Kainene o que tinha havido.

“Tenho certeza de que não é nada”, disse. “Há tantos rumores circulando, o exército quer impedir o pânico.”

“Sem dúvida eles encontraram um jeito perfeito de fazer isso”, disse Kainene, com a expressão preocupada de novo. Estava colocando alguns papéis numa pasta. “Devíamos ligar para Madu e ver o que está havendo.”

“Também acho”, disse Richard. “Bom, eu vou fazer a barba. Não tive tempo de me barbear antes de sair.”

Escutou a primeira explosão do banheiro. Continuou passando o pincel no queixo. E vieram outras: bum, bum, bum. As janelas espatifaram e os cacos de vidro tilintaram ao cair no chão. Alguns vieram parar perto de seu pé.

Kainene abriu a porta do banheiro. “Pedi ao Harrison e ao Ikejide que ponham algumas coisas no carro”, disse ela. “Vamos deixar o Ford aqui e sair no Peugeot.”

Richard virou-se, olhou para ela e sentiu vontade de chorar. Gostaria de se sentir tão calmo quanto ela, que suas mãos não tremessem tanto na hora em que foi lavá-las. Pegou o creme de barba, os sabonetes dela, algumas esponjas e jogou tudo num saco.

“Richard, acho melhor nos apressarmos, o barulho das bombas parece perto”, disse Kainene, e, de novo, escutaram uma série de bum, bum, bum. Ela estava pondo algumas coisas dela e dele numa mala. As gavetas onde estavam suas camisas e suas cuecas foram puxadas; ela fazia a mala com método e rapidez. Ele passou a mão sobre seus livros enfileirados na estante e começou a procurar as folhas onde tinha feito anotações sobre a ogbunigwe, as fantásticas minas terrestres feitas pelos biafrenses. Deixara sobre a mesa, tinha certeza disso. Olhou dentro das gavetas.

“Você viu meus papéis?”, perguntou.

“Vamos ter de enfrentar o ataque principal, antes que eles avancem mais, Richard”, disse Kainene, enfiando dois envelopes gordos na bolsa.

“O que são esses envelopes?”, perguntou ele.

“Dinheiro para emergências.”

Harrison e Ikejide entraram e começaram a arrastar as duas malas até o carro. Richard escutou o trovejar dos aviões logo acima. Não podia ser. Nunca houvera um reide aéreo em Port Harcourt, e não fazia sentido que fosse haver um agora, quando a cidade estava prestes a cair, com os vândalos atirando ali perto. Mas o som era inconfundível, e quando Harrison gritou “Avião inimigo, sah!”, suas palavras pareceram redundantes.

Richard correu para Kainene, mas ela já estava fugindo do quarto, e ele foi atrás. Ela disse: “Venham para o pomar!”, quando passou correndo por Harrison e Ikejide, agachados sob a mesa da cozinha.

Lá fora, o ar estava úmido. Richard olhou para cima e viu dois aviões voando bem baixo, com uma eficiência agourentamente aerodinâmica de formas, deixando um rastro de linhas prateadas no céu. O medo espalhou incapacidade por todo o corpo de Richard. Deitados lado a lado sob as laranjeiras, ele e Kainene esperaram calados. Harrison e Ikejide tinham saído correndo de casa; Harrison atirou-se no chão, de barriga, enquanto Ikejide continuou correndo, o corpo meio arqueado para a frente, os braços balançando, a cabeça oscilando. Então veio o assobio frio de um morteiro cruzando os ares, o estrondo da aterrissagem e o barulho da explosão. Richard apertou Kainene contra si. Um estilhaço do tamanho de um punho fechado passou raspando. Ikejide ainda estava correndo e, enquanto Richard desviava o olhar um instante, a cabeça de Ikejide desapareceu. O corpo ainda corria, arqueado de leve para a frente, os braços balançando, mas não havia cabeça. Havia apenas um pescoço ensanguentado. Kainene gritou. O corpo caiu perto de seu longo carro americano, os aviões recuaram e sumiram, e todos eles continuaram deitados por longos minutos, até que Harrison se levantou e disse: “Vou buscar saco”.

Voltou com uma sacola de ráfia. Richard não olhou quando Harrison pegou a cabeça de Ikejide e colocou na sacola. Mais tarde, segurando Ikejide pelos tornozelos ainda quentes, com Harrison segurando pelos punhos, foram até a cova rasa aberta no fundo do pomar, mas Richard não olhou direto para o morto nem uma vez.

Kainene sentou-se no chão, olhando os dois.

“Você está bem?”, perguntou Richard. Ela não respondeu. Havia um estranho vazio em seu olhar. Richard não sabia ao certo o que fazer. Sacudiu-a suavemente, porém o olhar vazio continuou, de modo que foi até uma torneira e jogou um balde de água fria nela.

“Pare com isso, pelo amor de Deus”, disse ela, levantando-se. “Você molhou meu vestido.”

Ela tirou um outro da mala e trocou de roupa na cozinha, antes de partirem para Orlu. Ela não estava mais com pressa; pausadamente, endireitou o decote e alisou o corpete amassado com as mãos. A confusão de sons mexia com os nervos de Richard, enquanto dirigia — o bum-bum-bum dos morteiros, o estampido rápido dos tiros —, e a qualquer momento esperava ver um soldado nigeriano fazendo sinal para que parassem, disparando contra eles ou jogando uma granada no carro. Não aconteceu nada. As estradas estavam lotadas. As barreiras haviam sumido. Do assento traseiro, Harrison disse, num sussurro intimidado: “Eles estão usando tudo que podem para ocupar Port Harcourt”.

Kainene disse muito pouco quando chegaram a Orlu e não viram nem carpinteiros nem móveis; os homens tinham sumido com o adiantamento. Ela simplesmente andou até o campo de refugiados, um pouco mais à frente, na mesma rua, encontrou outro carpinteiro, um sujeito de pele murcha que quis ser pago com comida. Nos dias seguintes, permaneceu boa parte do tempo em silêncio, retraída, sentada junto com Richard na varanda, vendo o carpinteiro serrar, pregar e lixar.

“Por que você não quer dinheiro?”, perguntou Kainene para ele.

“E o que eu vou comprar com dinheiro?”, perguntou ele de volta.

“Você deve ser bem tolo”, respondeu Kainene. “Tem muita coisa que se pode comprar com dinheiro.”

“Não nesta Biafra.” E deu de ombros. “Me pague com garri e arroz.”

Kainene não retrucou. O cocô de uma ave caiu no chão da varanda, Richard apanhou uma folha de cajueiro e limpou a sujeira.

“Você sabia que Olanna viu uma mãe levando a cabeça do filho?”, perguntou Kainene.

“Sabia”, disse Richard, embora não soubesse. Kainene nunca lhe contara nada sobre a experiência da irmã durante os massacres.

“Eu quero vê-la.”

“Você devia ir.” Richard respirou fundo, para se equilibrar, e olhou fixo para uma das cadeiras já terminadas. Era feia, toda de ângulos pontiagudos.

“Como é que os estilhaços conseguiram cortar a cabeça de Ikejide fora?”, perguntou Kainene, como se estivesse pedindo para que ele desmentisse tudo. Richard bem que gostaria de poder desmenti-la. À noite, ela chorava. Contou que queria sonhar com Ikejide, mas acordava todo dia de manhã com a nítida imagem do corpo correndo sem cabeça, ao passo que, no terreno mais seguro e embaçado dos sonhos, se via fumando um cigarro com uma elegante piteira de ouro.

Uma caminhonete entregou sacos de garri e Kainene disse a Harrison para não pôr a mão em nada, porque eram do campo de refugiados. Ela era a nova fornecedora de comida.

“Vou eu mesma distribuir a comida aos refugiados, e pedir ao Centro de Pesquisa Agrícola um pouco de bosta”, disse ela a Richard.

“Bosta?”

“Esterco. Podemos começar a plantar no campo. Podemos fazer nossa própria proteína, feijão de soja, akidi.”

“Ah.”

“Tem um homem de Enugu com um talento fantástico para fabricar cestos e luminárias de palha. Vou pedir para que ensine aos outros. Podemos até lucrar com isso. Podemos realizar algo significativo, aqui! E vou pedir à Cruz Vermelha que nos mande um médico toda semana.”

Havia um vigor quase maníaco nela, na forma como saía todos os dias para o campo de refugiados, na exaustão sombreando seus olhos quando voltava para casa, à noite. Kainene não falava mais em Ikejide. Em vez disso, falava sobre vinte pessoas morando no espaço que era para uma só, dos garotos que brincavam de Guerra, das mulheres que davam de mamar a seus filhos e do altruísmo dos padres da Congregação do Espírito Santo, os padres Marcel e Jude. Mas era sobre Inatimi que Kainene mais falava. Inatimi pertencia à Organização dos Freedom Fighters de Biafra, perdera a família toda nos massacres e muitas vezes se infiltrava em campo inimigo. Estava ali para educar os refugiados.

“Ele considera importante que o povo ache nossa causa justa e que entenda por quê. Eu disse para ele não se preocupar em ensinar sobre federalismo, o acordo de Aburi e essas coisas todas. Eles nunca vão entender. Alguns não têm nem o curso primário. Mas Inatimi não me dá ouvidos e continua gastando tempo em conversas com pequenos grupos.” Kainene parecia admirá-lo, e o fato de não ser levada em conta era mais uma prova do heroísmo de Inatimi. Richard se ressentia. Na sua cabeça, Inatimi tornou-se perfeito, corajoso, resistente, intrépido e sensibilizado com tanto sofrimento. Quando finalmente o conheceu, quase caiu na risada na frente do homenzinho espinhento com um nariz que era uma batata. Mas pôde ver na hora que o deus de Inatimi era Biafra. Ele tinha uma fé ardente na causa.

“Quando perdi a família, todos eles, não sobrou ninguém, foi como se eu tivesse nascido de novo”, disse Inatimi para ele, no seu jeito calmo. “Eu me tornei uma nova pessoa porque não tinha mais família para me lembrar de quem eu era.”

Os padres também não tinham nem um pouco a ver com a imagem que Richard fizera deles. Ficou surpreso com seu temperamento tranquilo. Quando lhe disseram: “Estamos espantados com o bom trabalho que Deus está fazendo aqui”, Richard quis perguntar por que Deus permitira a guerra, para começo de conversa. No entanto, a fé deles o emocionou. Se Deus podia fazê-los genuinamente preocupados com os refugiados, então Deus era um conceito que valia a pena manter.

Richard conversava com o padre Marcel sobre Deus na manhã em que a médica chegou. Seu Morris Minor coberto de pó tinha cruz vermelha pintado em vermelho, na carroceria. Antes mesmo de ter dito “Eu sou a doutora Inyang”, com um aperto de mão desembaraçado, Richard já sabia que ela era de uma das tribos minoritárias. Orgulhava-se de sua habilidade em reconhecer os ibos. Não tinha nada a ver com a forma como eles eram, fisicamente; era uma questão de afinidade, mais nada.

Kainene levou a dra. Inyang direto para a sala dos doentes, que ficava na classe mais ao fundo da ala. Richard foi atrás; observou Kainene falar sobre os refugiados deitados em catres de bambu. Uma jovem grávida sentou-se, segurando o peito, e começou a tossir, uma tosse interminável que vinha lá do fundo e era dolorosa de ouvir.

A médica debruçou-se sobre ela com o estetoscópio e perguntou com voz suave, num inglês crioulo, como estava passando.

Primeiro a grávida recuou, depois cuspiu com uma intensidade tão cruel que até a testa se franziu. A mancha esbranquiçada de saliva caiu no queixo da doutora.

“Sabotadora!”, disse a grávida. “São vocês, os não-ibos, que estão mostrando o caminho para o inimigo! Hapu m! Foram vocês que mostraram a eles o caminho até a minha cidade!”

A mão da dra. Inyang continuava no queixo — estava surpresa demais para limpar a saliva. O silêncio engrossou com a incerteza. Kainene aproximou-se e estapeou a grávida duas vezes, dois tabefes, um atrás do outro, na cara.

“Somos todos biafrenses! Anyincha bu Biafra!”, disse Kainene. “Entendeu bem? Somos todos biafrenses!”

A mulher grávida deitou-se de novo.

Richard ficou espantado com a violência de Kainene. Havia algo de quebradiço nela, e ele temia que ela fosse se partir ao meio com o menor toque; tinha se atirado com tanto ímpeto nisso, no apagar da memória, que terminaria sendo destruída.