Meio Sol Amarelo
Capítulo 26
Ugwu odiava a comida doada pelo centro assistencial. O arroz era muito graúdo, não tinha a menor semelhança com os grãos miúdos e esguios de Nsukka, o fubá nunca ficava lisinho depois de misturado à água quente, e o leite em pó terminava sempre numa maçaroca no fundo da xícara. Ele até estremeceu ao tirar um pouco de gema de ovo da panela. Era difícil imaginar aquele pó insípido saindo do ovo posto por uma galinha de verdade. Mas despejou na massa e mexeu. Lá fora, uma panela cheia até a metade com areia branca estava no fogo; ele daria mais alguns minutos, até ficar bem quente, antes de pôr a massa dentro. Ficara um pouco incrédulo quando a professora Muokelu ensinou a Olanna esse método de assar; conhecia o suficiente das idéias da professora — o sabão que Olanna fazia em casa, uma pasta entre o negro e o marrom que parecia diarréia de criança, tinha vindo dela, afinal de contas. Porém a primeira massa que Olanna assou saiu boa; ela riu e disse que seria ambicioso demais chamar aquilo de bolo, a mistura de farinha, óleo e gema desidratada de ovo, mas ao menos tinham usado bem a farinha.
A Cruz Vermelha irritava Ugwu; o mínimo que podiam fazer era perguntar aos biafrenses qual era seu prato preferido, em vez de ficar mandando tanta farinha insossa. Quando abriu um outro centro assistencial, um ao qual Olanna ia com um rosário no pescoço, porque a professora Muokelu disse que o pessoal do Caritas era mais generoso com os católicos, torcia para que a comida fosse melhor. Mas o que ela trouxe de volta, ele já conhecia: o peixe salgado, ainda mais salgado, e ela cantando, com cara de quem tinha achado divertido, a música que as mulheres cantavam no centro.
Caritas, obrigada,
Caritas, si anyi taba okporoko
na kwashiorkor ga-ana
Mas não cantava nos dias em que voltava sem nada. Sentava-se na varanda, olhava para o telhado de sapê e dizia: “Você se lembra, Ugwu, dos tempos em que a gente jogava fora sopa com carne depois de um dia na geladeira?”.
“Lembro, mah”, dizia Ugwu. Se ao menos pudesse ir ele mesmo até o centro assistencial. Desconfiava que Olanna, com sua impecável lisura de inglesa, ficava esperando a vez até ter acabado tudo. Só que não podia ir porque ela não o deixava sair na rua durante o dia. Histórias de recrutamento forçado circulavam por toda parte. Ugwu não duvidava da existência de um garoto da mesma rua que tinha sido arrastado durante a tarde e, à noite, levado, de cabeça raspada e nenhum treinamento, direto para o front. Mas achava que Olanna estava reagindo com excesso de zelo. Claro que ainda podia ir até o mercado. Claro que não precisava acordar antes de o sol nascer para ir buscar água.
Ouviu vozes na sala. Special Julius tinha uma voz quase tão alta quanto a do Patrão. Iria desenformar o bolo, depois capinaria a hortinha de verduras retorcidas, ou talvez sentasse sobre a pilha de tijolos para ver se Eberechi saía de casa, momento em que gritaria “Vizinha, como vai você?”, fazendo um aceno, já imaginando a hora em que agarraria seu traseiro. Surpreendia-se com a felicidade em que ficava toda vez que ela o cumprimentava. O bolo saíra bem torradinho do lado de fora e úmido e macio por dentro. Ugwu cortou fatias bem finas e levou em pratinhos. Special Julius e Olanna estavam sentados, ao passo que o Patrão, de pé, gesticulava, falando sobre a última vila que havia visitado, onde os moradores sacrificaram um bode no altar de oyi para manter os vândalos longe.
“Um bode inteiro! Toda aquela proteína desperdiçada!”, disse Special Julius, rindo.
O Patrão não deu risada. “Não, não, nunca devemos subestimar a importância psicológica de coisas assim. Nunca devemos dizer a eles que comam o bode, em vez de sacrificá-lo.”
“Ah, um bolo!”, disse Special Julius. Ignorando o garfo, enfiou a fatia inteira na boca. “Muito bom, muito bom. Ugwu, você tem que ensinar o pessoal lá de casa, porque tudo que eles fazem com farinha de trigo é chin-chin, todo dia é chin-chin, chin-chin, e daqueles duros, sem gosto nenhum! Meus dentes estão acabando.”
“Ugwu é maravilhoso em tudo”, disse Olanna. “Ele poria até aquela mulher do bar Sol Nascente no chinelo.”
O professor Ekwenugo bateu na porta aberta e entrou. Suas mãos estavam envoltas em ataduras cor de creme.
“Dianyi, o que aconteceu com você?”, perguntou o Patrão.
“Queimei um pouquinho”, disse o professor Ekwenugo, olhando para as mãos enfaixadas como se só nesse momento tivesse percebido que não tinha mais a unha afilada e comprida para se coçar. “Estamos montando algo muito importante.”
“Por acaso vai ser nosso primeiro bombardeiro, um jato biafrense?”, perguntou Olanna, só para amolar.
“Algo muito importante que vai se revelar com o tempo”, disse o professor Ekwenugo, com um sorriso de mistério. Comia o bolo sem muito jeito; pedaços caíam antes de chegar à boca.
“Deveria ser uma máquina de detectar sabotadores”, disse o Patrão. “Isso mesmo! Malditos sabotadores.” Special Julius fez o ruído de quem cospe. “Eles entregaram Enugu. Como é que você pode deixar uma população civil defendendo a capital só com machados? Foi por esse motivo também que perderam Nsukka, porque se retiraram sem motivo nenhum. E não tinha um comandante que era casado com uma hauçá? Ela pôs remédio na comida dele.”
“Nós vamos retomar Enugu”, disse o professor Ekwenugo.
“Como é que nós vamos retomar Enugu se os vândalos já estão ocupando a cidade?”, disse Special Julius. “Eles estão pilhando até os assentos de privada! Assentos de privada! Um homem que escapou de Udi me contou. E eles escolhem as melhores casas e forçam as esposas e as filhas a abrir as pernas e cozinhar para eles.”
Imagens de sua mãe, de Anulika e de Nnesinachi esparramadas debaixo de um soldado hauçá sujo e queimado de sol vieram tão nitidamente à mente de Ugwu que ele estremeceu. Saiu e foi sentar-se nos blocos de concreto, querendo desesperadamente voltar para casa nem que fosse só por um minuto, para ter certeza de que não havia acontecido nada com elas. Talvez os vândalos já estivessem lá, de posse da casa da tia, a que tinha teto de zinco. Ou quem sabe a família fugira com as cabras e galinhas, como toda essa gente que chegava a Umuahia. Os refugiados. Ugwu via o pessoal chegando, cada vez mais, todo dia novos rostos nas ruas, na fonte pública, no mercado. Mulheres batendo na porta a todo momento, perguntando se haveria algum trabalho que pudessem fazer em troca de comida. Apareciam com os filhos, magros e nus.
As vezes, Olanna lhes dava garri misturado com água fria, antes de dizer que não tinha trabalho a oferecer. A professora Muokelu recebera uma família de oito pessoas, todos parentes. Ela levava as crianças para brincar com Baby e, todas as vezes, assim que elas saíam, Olanna pedia a Ugwu para ver se não tinha piolho nenhum no cabelo da menina. Os vizinhos alojavam os parentes. Os primos do Patrão vieram por algumas semanas, e dormiram na sala, até irem para o exército. Havia tanta gente fugindo, cansada e sem teto, que Ugwu não ficou nem um pouco surpreso quando, uma tarde, Olanna chegou em casa e disse que o Grupo Escolar de Akwakuma iria ser transformado num campo de refugiados.
“Eles já trouxeram camas de bambu e utensílios de cozinha. E o novo diretor de Mobilização deve vir na semana que vem.” Ela parecia cansada. Abriu uma panela no fogão e olhou para as fatias de mandioca cozida.
“E as crianças, mah?”
“Perguntei à diretora se elas poderiam ser transferidas, mas ela olhou para mim e riu. Nós somos a última escola que resta. Todas as outras de Umuahia já se tornaram acampamentos de refugiados ou campos de treinamento.” Olanna tampou a panela. “Vou organizar umas aulas aqui no quintal.”
“Com a professora Muokelu?”
“Exato, e com você também, Ugwu. Você vai ensinar uma das classes.”
“Claro, mah.” A idéia o deixava emocionado e lisonjeado. “Mah?”
“Sim?”
“A senhora acha que os vândalos estão na minha cidade?”
“Claro que não”, respondeu Olanna, com rispidez. “Sua cidade natal é pequena demais. Se eles forem ficar em algum lugar, vai ser na universidade.”
“Mas se pegarem a estrada de Opi até Nsukka...”
“Eu já disse que sua cidade natal é pequena demais! Eles não têm o menor interesse em ficar lá. Não há nada no seu povoado, entende? É só mato, mais nada.”
Ugwu olhou para ela, e ela para ele. O silêncio era pesado e acusador.
“Vou vender meu sapato marrom para Mama Onitsha e vou fazer um lindo vestido para Baby”, disse ela por fim, e Ugwu achou sua voz meio forçada.
Começou a lavar a louça.
Ugwu viu o Mercedes-Benz negro deslizando pela avenida; a palavra diretor escrita na placa metálica de licenciamento reluzia ao sol. Perto da casa de Eberechi, o carro diminuiu a velocidade, brilhante e enorme, e Ugwu torceu para que ele parasse e o motorista lhe perguntasse onde era a escola primária, para poder dar uma boa espiada no painel de controle. Mas o carro não só passou por ele como entrou no compound e estacionou. Um ordenança vestido com uma farda engomada saltou para abrir a porta traseira antes mesmo que o carro parasse por completo. Fez continência quando o diretor desembarcou.
Era o professor Ezeka. Não parecia mais tão alto como a lembrança que Ugwu tinha dele; engordara um pouco e o pescoço fino engrossara. Ugwu olhava de boca aberta. Havia algo de elegante e novo nele, no bom corte do terno, porém a expressão altiva era a mesma, assim como a voz roufenha. “Meu jovem, o seu patrão está?”
“Não está, sah”, disse Ugwu. Em Nsukka, o professor Ezeka o chamava de Ugwu; agora, era como se não o reconhecesse. “Ele foi trabalhar, sah.”
“E a sua patroa?”
“Foi até o centro assistencial, sah.”
O professor Ezeka fez um gesto para que o ordenança lhe trouxesse uma folha de papel, rabiscou um recado e entregou-o a Ugwu. Sua caneta de prata rebrilhava. “Diga a eles que o diretor de Mobilização passou por aqui.”
“Pois não, sah.” Ugwu lembrou-se do exame meticuloso que ele fazia dos copos, em Nsukka, das pernas finas sempre cruzadas, discordando do Patrão. Depois que o carro desceu a rua bem lentamente, como se o motorista soubesse que havia inúmeras pessoas observando, Eberechi atravessou e foi falar com Ugwu. Usava aquela sua saia justa que modelava as nádegas numa redondez perfeita.
“Vizinho, como vai?”, perguntou ela.
“Estou bem. E você?”
Eberechi encolheu os ombros para dizer que ia mais ou menos. “Aquele homem que acabou de sair era mesmo o diretor de Mobilização?”
“O professor Ezeka?”, disse Ugwu, com ar despreocupado. “Era sim, nós o conhecíamos bem, em Nsukka. Ele costumava vir nos visitar todo dia e tomar minha sopa de pimenta.”
“Ah!” Ela riu, de olho esbugalhado. “Ele é um bambambã. Ihukwara moto? Você viu o carro?”
“Chassi original importado.”
Ficaram calados algum tempo. Ele nunca tinha tido uma conversa assim tão longa com ela, e também nunca a vira tão de perto. Era difícil evitar que os olhos descessem até a magnífica curva das nádegas. Fez um esforço danado para se concentrar no rosto, nos olhos grandes, nas espinhas na testa, no cabelo trançado em torno de pauzinhos revestidos. Ela também olhava para ele e Ugwu bem que gostaria de não estar usando a calça furada no joelho.
“Como vai a menina?”, perguntou ela.
“Baby está ótima. Está dormindo.”
“Você vai ajudar a reconstruir o telhado da escola?”
Ugwu sabia que um fornecedor do exército doara algumas folhas de zinco para substituir o telhado que explodira, e alguns voluntários estavam camuflando o local com folhas de palmeira. Mas ele não planejara fazer parte da equipe.
“Vou, vou sim”, disse ele.
“Então a gente se vê”, disse ela.
“Até mais.” Ugwu esperou até ela se virar para poder ficar olhando sua retirada.
Quando Olanna voltou, com a cesta vazia, leu o recado do professor Ezeka com um meio sorriso no rosto. “Pois é, soubemos ontem que ele foi nomeado o novo diretor. Tão típico dele, escrever um bilhete desses.”
Ugwu tinha lido o bilhete — Odenigbo e Olanna, passei para cumprimentá-los. Volto de novo na semana que vem, se esse meu tedioso emprego permitir. Ezeka —, mas assim mesmo perguntou: “Típico, mah?”
“Ah, ele sempre se sentiu um pouco acima de todos.” Olanna largou o bilhete sobre a mesa. “O professor Achara vai nos ajudar a conseguir alguns livros, carteiras e quadros-negros. Muitas mulheres me disseram que vão mandar os filhos para estudar conosco, na semana que vem.” Ela parecia emocionada.
“Isso é muito bom, mah.” Ugwu mexeu os pés. “Eu vou lá ajudar a pôr telhado na escola. Volto a tempo de fazer a comida de Baby.”
“Ah”, disse Olanna.
Ugwu sabia que ela estava pensando no recrutamento forçado. “Eu acho importante ajudar em algo como isso, mah”, disse ele.
“Claro que sim. Claro, você tem que ajudar. Mas, por favor, tome cuidado.”
Ugwu viu Eberechi na hora; estava com alguns homens e mulheres, debruçada sobre uma pilha de folhas de palmeira, cortando, trançando e passando para um homem numa escada de madeira.
“Vizinho!”, disse ela. “Andei contando para todo mundo que seu pessoal conhece o diretor pessoalmente.”
Ugwu sorriu e disse um boa-tarde geral. Os homens e mulheres murmuraram boa tarde, ehe, kedu e nno com o respeito admirado que vinha de saber quem ele conhecia. De repente, sentiu-se importante. Alguém lhe deu um facão. Havia uma mulher sentada na escada, moendo sementes de melão, algumas meninas pequenas jogando cartas sob a mangueira, e um homem entalhando um bastão cujo cabo era a reprodução cuidadosa do rosto barbado de Sua Excelência. Havia um cheiro de podre no ar.
“Imagine viver num lugar desses.” Eberechi debruçou-se bem para ele, para cochichar. “E virão muitos mais, agora que Abakaliki caiu. Você sabe que, desde que Enugu caiu, acomodação tem sido um dos maiores problemas. Tem gente que trabalha nos diretórios dormindo no próprio carro.”
“Isso é verdade”, concordou Ugwu, embora não soubesse se era realmente verdade. Adorava o fato de ela estar falando com ele, adorava a simpatia que ela irradiava. Começou a aparar algumas folhas com golpes firmes. Numa das salas, alguém ligou o rádio: valentes soldados biafrenses estavam terminando a operação de limpeza de focos remanescentes num setor cujo nome Ugwu não ouviu direito.
“Nossos rapazes estão mostrando a eles o que é bom!”, disse a mulher que moía sementes de melão.
“Biafra vai ganhar essa guerra, Deus escreveu isso no céu”, disse um homem com uma barba entrelaçada num único fio afilado.
Eberechi riu e cochichou para Ugwu: “Nasceu no mato. Não sabe que é Bi-afra e não Ba-iafra.”
Ugwu riu também. Gordas formigas negras circulavam pelas folhas de palmeira e Eberechi gritou, com ar indefeso, quando uma delas subiu em seu braço. Ugwu espantou-a com a mão e sentiu a umidade morna de sua pele. Ela queria que ele a tocasse; não tinha cara de ser do tipo que se assusta com uma formiga.
Umas das mulheres trazia um menino atado nas costas. Ajustou o xale que o segurava e disse: “Estávamos voltando do mercado quando descobrimos que os vândalos haviam ocupado o cruzamento e estavam disparando para dentro da aldeia. Não podíamos ir para casa. Tivemos que voltar e fugir. Eu só tinha este xale, uma blusa e os trocados que consegui vendendo pimenta. Não sei onde estão meus outros dois filhos, os que eu deixei em casa para ir ao mercado.” Ela começou a chorar. A brusquidão das lágrimas, a forma como jorraram dos olhos, deixaram Ugwu espantado.
“Mulher, para de chorar”, disse o homem da barba trançada, com rispidez.
A mulher continuou a chorar. A criança também.
Quando Ugwu foi levar um lote de folhas de palmeira até a escada, não resistiu e olhou para uma das classes. Panelas, esteiras de dormir, latas e camas de bambu atravancavam o espaço todo, de tal forma que parecia ter sido sempre um abrigo para grupos disparatados de gente sem lugar para ir, e não uma sala de aula. Um cartaz colorido na parede dizia: NO CASO DE REIDE AÉREO, NÃO ENTRE EM PÂNICO. SE VIR O INIMIGO, DÊ CABO DELE. Uma outra mulher, com um bebê atado nas costas, lavava mandioca descascada numa água imunda. O rosto de seu filho era todo enrugado. Ugwu quase sufocou quando chegou perto e percebeu que o cheiro podre vinha da água: ela tinha sido usada para deixar a mandioca de molho, talvez durante dias, e estava sendo reutilizada. O cheiro era horrível, enchia as narinas, era um cheiro de privada suja, de feijão rançoso e de ovo cozido estragado.
Ugwu prendeu a respiração e voltou para suas folhas de palmeira. A mulher que chorava amamentava o filho num seio caído.
“Nossa cidade não teria caído se não fosse o trabalho dos sabotadores!”, disse o homem com a barba trançada. “Eu era defensor civil. Sei quanta gente infiltrada havia entre nós, e todas do povo rivers. O que estou querendo dizer a vocês é que não podemos mais confiar nessas minorias que não falam ibo.” Calou-se uns momentos e virou a cabeça, ao ouvir o grito de alguns meninos que brincavam de guerra no meio do compound da escola. Pareciam ter entre dez e onze anos de idade, usavam folhas de bananeira na cabeça e empunhavam armas feitas de bambu. A mais longa pertencia ao comandante do lado biafrense, um menino alto, sério, com os ossos da face bem marcados. “Avancem!”, gritou ele.
Os meninos investiram, agachados.
“Fogo!”
Eles atiraram pedras com gestos amplos dos braços e, depois, agarrados às armas, correram na direção dos outros meninos, do lado nigeriano, os perdedores.
O homem da barba começou a aplaudir. “Esses meninos são maravilhosos! É só dar algumas armas para eles que os vândalos saem correndo.”
Outras pessoas bateram palmas e ovacionaram os meninos. As folhas de palmeira ficaram esquecidas por um tempo.
“Vocês sabiam que eu tentei entrar para o exército quando essa guerra começou?”, disse o homem da barba. “Fui a tudo quanto é posto, mas eles me rejeitaram por causa de minha perna, de modo que tive de me alistar como defensor civil.”
“E o que tem de errado com a sua perna?”, perguntou a mulher que moía semente de melão.
Ele ergueu a perna. Metade do pé se fora e o que restou mais parecia um pedaço murcho de cará velho. “Perdi no Norte”, disse ele.
No silêncio que se seguiu, o estalar das folhas de palmeira parecia alto demais. De uma das salas de aula surgiu uma mulher dando tapas na cabeça de uma criança. “Quer dizer que você quebrou só um dos pratos? Então vai lá e quebra todos os pratos. Quebra! Kuwa ha! Nós temos um monte, não temos? Nós trouxemos todos os pratos que tínhamos, não é? Vai, quebra!”, disse ela. A menina correu para a mangueira. Antes que a mãe entrasse de novo na sala de aula, parou um pouco onde estava, xingando, resmungando que os espíritos que tinham mandado a filha quebrar seus poucos pratos não conseguiriam o que queriam.
“E por que a menina não pode quebrar um prato? Onde foi parar a comida que era para ser comida dentro dele?”, disse a mulher que amamentava, com voz amarga, ainda fungando. Todos riram e Eberechi, debruçando-se para Ugwu, sussurrou que o homem da barba tinha mau hálito, e que devia ser por isso que não fora aceito no exército. Ugwu só queria apertar seu corpo no dela.
Saíram juntos e ele olhou para trás, para se certificar de que todos haviam reparado que estavam juntos. Um soldado com a farda e o capacete do Exército Biafrense passou por eles, falando um inglês crioulo todo estropiado, que quase não fazia sentido, com voz muito alta. E oscilava ao andar, como se fosse cair de lado. Tinha um braço inteiro e o outro era um cotó que parava no cotovelo. Eberechi o observava.
“O pessoal dele não sabe de nada”, disse ela, baixinho.
“Do quê?”
“O pessoal acha que ele está bem e lutando pela nossa causa.”
O soldado gritava “Não desperdicem balas! Estou dizendo que é um vândalo para cada ala, efeito imediato!”, enquanto os garotos se juntavam em volta, atazanando, rindo, dando-lhe títulos disso e daquilo.
Eberechi andava um pouco mais rápido. “Meu irmão se alistou logo no começo.”
“Eu não sabia.”
“É. Ele só voltou para casa uma vez. Todo mundo da rua saiu para cumprimentá-lo, e as crianças brigaram para tocar na sua farda.”
Ela não disse mais nada, até chegarem em frente à casa dela e ela se virar. “Que o dia amanheça”, disse ela.
“A gente se vê amanhã”, disse Ugwu. Gostaria de ter dito mais.
Ugwu arrumou três bancos na varanda, para a classe de Olanna, e dois na entrada do compound para a professora Muokelu; para sua própria classe, com os alunos mais novinhos, colocou dois bancos perto da pilha de tijolos de concreto.
“Nós vamos dar aula de matemática, inglês e educação cívica todos os dias”, falou Olanna para Ugwu e para a professora Muokelu um dia antes do início das aulas. “Temos de garantir que, quando a guerra tiver terminado, todos estejam preparados para entrar numa escola regular. Vamos ensiná-los a falar um inglês perfeito, e um ibo perfeito, como Sua Excelência. Vamos ensinar a eles a ter orgulho de nossa grande nação.”
Observando a patroa, Ugwu se perguntava se ela estaria de fato com os olhos lacrimejando ou se era simplesmente o brilho do sol. Ele queria aprender tudo o que pudesse com ela e a professora Muokelu, queria ser um professor excelente, para mostrar a ela que era capaz. Estava arrumando seu quadro-negro contra um tronco de árvore, no primeiro dia de aula, quando uma mulher, uma parente de Special Julius, chegou com a filha. Ela olhou fixo para Ugwu.
“Esse aí é professor também?”, perguntou ela a Olanna.
“É.”
“Mas ele não é o empregado de vocês?” A voz dela era aguda. “Desde quando os empregados começaram a ensinar, bikokwa?”
“Se não quer que sua filha aprenda, leve-a para casa”, disse Olanna.
A mulher puxou a criança pela mão e foi embora. Ugwu tinha certeza de que Olanna iria olhá-lo com uma solidariedade que o deixaria mais irritado do que as palavras da outra. Mas ela deu de ombros e disse: “Já vão tarde. A filha dela tem piolho. Eu vi as lêndeas no cabelo da menina”.
Outros pais foram diferentes. Olhavam para Olanna, para seu lindo rosto, para o preço ínfimo que cobrava e para seu inglês impecável com uma atenção reverente. Eles traziam óleo, cará e garri. Uma mulher que negociava por trás da linha inimiga levou uma galinha. Um fornecedor do exército levou dois de seus filhos e uma caixa de livros — para os principiantes, seis exemplares de Chike and the river, e oito exemplares simplificados de Orgulho e preconceito; ao abrir a caixa, Olanna lhe deu um abraço, e Ugwu se ressentiu com o prazer sobressaltado e malicioso que viu no rosto do homem.
Depois da primeira semana, Ugwu já estava convencido de que a professora Muokelu sabia muito pouco. Ela fazia contas de dividir muito simples com insegurança, falava num resmungo baixo quando lia, como se tivesse medo das frases, e ralhava com os alunos por errar alguma coisa, sem nunca dizer qual era o jeito correto. De modo que Ugwu passou a espiar apenas Olanna. “Pronunciem! Pronunciem!”, dizia Olanna aos alunos, a voz subindo de tom. “Se-tle. Se-tle. A palavra não tem nenhum R!” Como fazia todo mundo ler em voz alta todos os dias, Ugwu começou a pedir que sua classe também recitasse palavras simples em voz alta. Baby em geral era quem começava. Era a mais nova, não tinha nem seis anos, numa classe de crianças de sete anos, mas lia de forma impecável palavras como cat, pan, bed, com um sotaque que era como o de Olanna. Só não se lembrava de chamá-lo de professor, como todas as outras crianças, e ele tinha que disfarçar para não rir, quando ela dizia “Ugwu!”.
No final da segunda semana, depois que as crianças se foram, a professora Muokelu convidou Olanna a sentar com ela na sala de estar. Puxou as pontas de seu bubu longo demais e enfiou entre as pernas.
“Eu tenho doze pessoas para alimentar”, disse. “Isso sem contar os parentes do meu marido que acabaram de chegar de Abakaliki. Meu marido voltou da guerra com uma perna só. Fazer o quê? Vou tentar um ataque afia para ver se consigo comprar sal. Não vou poder mais lecionar.”
“Entendo”, disse Olanna. “Mas será que precisa fazer parte do pessoal que compra em território inimigo?”
“E o que restou para comprar em Biafra? Eles nos bloquearam kpam-kpam.”
“Mas como é que você vai?”
“Tem uma mulher que eu conheço. Ela fornece garri para o exército, de modo que eles dão ao caminhão dela uma escolta militar. Esse caminhão vai nos levar até Ufuma e, dali, a gente atravessa a fronteira onde ela é mais aberta, em Nkwerre-Inyi.”
“E quanto tempo leva essa caminhada?”
“Devem ser uns vinte e cinco, trinta quilômetros. Nós vamos levar moeda nigeriana para comprar sal e garri, e depois voltamos para o caminhão.”
“Por favor, tenha cuidado, minha irmã.”
“Tem muita gente fazendo o mesmo e nada aconteceu com eles.” Ela se levantou. “Ugwu vai ter de pegar a minha classe. Mas eu sei que ele consegue.”
Da mesa de jantar, onde estava dando garri e sopa para Baby, Ugwu fingiu não ter escutado.
Ele assumiu a classe dela no dia seguinte. Adorou o brilho de reconhecimento no olhar das crianças quando explicou o significado de uma palavra, adorou o jeito firme como o Patrão falou para Special Julius: “Minha mulher e Ugwu estão mudando a face da próxima geração de biafrenses com sua pedagogia socrática!”. E amou, mais que tudo, o jeito gozador como Eberechi o chamou de professor. Ela havia ficado impressionada. Quando a via parada na porta de casa, assistindo, ele impostava a voz e pronunciava tudo com mais cuidado ainda. Ela começou a aparecer depois das aulas. Sentava no quintal com ele, brincava com Baby ou ficava vendo Ugwu capinar a horta. Às vezes, Olanna lhe pedia para levar um pouco de milho até a moagem, que ficava no fim da rua.
Ugwu roubou um pouco do leite e do açúcar que o Patrão tinha levado do diretório para casa, pôs numas latas velhas e deu para ela. Ela disse obrigada, mas não ficou muito impressionada, e, por isso, numa tarde abafada, ele entrou sem ser notado no quarto de Olanna e despejou um pouco de talco numa folha de papel dobrado. Tinha de impressioná-la. Eberechi deu uma cheirada, passou um pouco no pescoço e disse: “Eu não pedi nenhum talco para você”.
Ugwu riu. Sentia-se, pela primeira vez, totalmente à vontade na presença dela. Ela lhe contou sobre os pais, que a empurraram para o quarto de um oficial do exército, e ele escutou como se nunca houvesse escutado isso antes.
“Ele tinha um barrigão”, disse ela, mantendo um tom remoto. “Acabou rapidinho e depois me disse para deitar em cima dele. Pegou no sono e eu quis me mexer, mas ele acordou e me disse para ficar onde estava. Não consegui dormir, de modo que passei a noite inteira vendo a saliva dele escorrer pelo canto da boca.” Ela hesitou. “Ele nos ajudou. Pôs meu irmão para trabalhar em serviços essenciais, no exército.”
Ugwu desviou a vista. Sentia-se bravo por ela ter passado pela provação, e bravo consigo porque a história envolvia imaginá-la nua e isso o excitava. Nos dias seguintes, só pensava em Eberechi na cama, a seu lado, de como a experiência seria diferente da do coronel. Ele a trataria com o respeito que ela merecia e só faria o que ela gostasse, apenas o que ela quisesse que fizesse. Mostraria a ela as posições que tinha visto no Manual conciso para casais, que o Patrão tinha em Nsukka. O livro fininho estava espremido num canto empoeirado da estante do escritório, e Ugwu o viu pela primeira vez enquanto fazia a limpeza; folheou-o às pressas, passando pelos diagramas desenhados a lápis que, de alguma forma, se tornaram mais excitantes por serem irreais. Mais tarde, percebeu que o Patrão provavelmente nem se lembrava mais que o livro existia, de modo que levou para o Alojamento dos Criados para estudá-lo à noite. Tinha pensado em tentar algumas das posições com Chinyere, mas nunca tentou — havia alguma coisa no silêncio metódico de suas visitas noturnas que tornava qualquer novidade impossível. Gostaria muito de ter levado o livro com ele, quando saíram de Nsukka. Queria se lembrar de alguns detalhes mais especiais, o que a mulher fazia das mãos na posição lateral-por-trás, por exemplo. Procurou no quarto do Patrão e se sentiu um tolo, porque sabia que não havia como o Manual conciso para casais estar ali. Depois sentiu uma profunda tristeza ao ver os poucos livros que havia sobre a mesa, e na casa toda.
Ugwu estava preparando o café-da-manhã de Baby e o Patrão tomava banho quando Olanna começou a berrar da sala. O volume do rádio estava no máximo. Ela correu lá para fora, para a casinha, levando o rádio na mão. “Odenigbo! Odenigbo! A Tanzânia nos reconheceu!”
O Patrão saiu com seus panos úmidos mal amarrados em volta da cintura, o peito coberto por pêlos negros lustrosos. Seu rosto sorridente, sem os óculos grossos, parecia engraçado. “Gini? O quê?”
“A Tanzânia reconheceu nossa existência!”, disse Olanna de novo.
“O quê?”, disse o Patrão, enquanto se abraçavam e se beijavam na boca, os rostos tão perto que pareciam estar inalando o hálito um do outro.
Depois o Patrão pegou o rádio e sintonizou. “É melhor ter certeza disso. Vamos ouvir nas outras rádios.”
A Voz da América noticiava a mesma coisa, assim como a rádio francesa, que Olanna traduziu para ele: a Tanzânia era o primeiro país a reconhecer a existência da nação independente de Biafra. Finalmente, Biafra existia. Ugwu fez cócegas em Baby e ela riu.
“Nyerere vai ficar na história como um homem autêntico”, disse o Patrão. “Claro que há muitos outros que querem nos reconhecer, mas que não podem por causa dos Estados Unidos. Eles é que são o grande empecilho!”
Ugwu não sabia muito bem como os americanos podiam ser os culpados por outros países não reconhecerem Biafra — para ele, a culpa era da Grã-Bretanha —, mas repetiu as palavras do Patrão para Eberechi, naquela tarde, com autoridade, como se fossem dele. Estava quente e ele a encontrou dormindo numa esteira, na sombra da varanda.
“Eberechi, Eberechi”, disse ele.
Ela sentou com aquele olhar avermelhado e magoado de quem foi acordado de repente. Mas sorriu, ao ver que era ele. “Professor, já acabou por hoje?”
“Está sabendo que a Tanzânia nos reconheceu?”
“Estou, estou.” Esfregou os olhos e riu, um som feliz que deixou Ugwu mais feliz ainda.
“Os Estados Unidos são o motivo de outros países não estarem nos reconhecendo; eles são o grande empecilho”, disse ele.
“Pois é”, disse ela. Estavam sentados lado a lado, na escada. “Tivemos boas notícias em dobro, hoje. Minha tia foi indicada para ser a representante provincial da Caritas. E disse que vai me dar um trabalho no centro assistencial de São João. O que significa que vou conseguir um pouco mais de caldo de peixe!”
Ela estendeu o braço e beliscou de leve a pele do pescoço de Ugwu, apenas uma leve pressão dos dedos. Ele olhou para ela. Não queria apenas apertar as nádegas nuas dela, queria acordar a seu lado e saber que dormiriam juntos todos os dias, queria falar com ela e escutá-la rir. Eberechi não tinha nada de Chinyere — uma simples conveniência afetiva —, era mais uma Nnesinachi real, alguém de quem gostava pelo que fora dito e feito, e não pelo que imaginava que ela diria ou faria. Ele estava transbordando de reconhecimento e queria dizer a ela, infinitas vezes, que a amava. Ugwu amava Eberechi. Mas não disse nada. Sentados na escada, elogiaram a Tanzânia e sonharam com caldo de peixe, ziguezagueando de um assunto a outro até que um Peugeot 403 passou a toda pela rua. Depois o carro deu ré, com os pneus aos guinchos, como se o motorista quisesse impressionar, e parou na frente da casa. Na carroceria, em letras grosseiras e vermelhas, estava escrito EXÉRCITO DE BIAFRA . Saltou um soldado de dentro do carro, segurando uma arma e trajando uma farda tão elegante que os vincos do ferro ainda estavam visíveis, na frente. Eberechi levantou-se e foi até ele.
“Boa tarde”, disse ela.
“Você é Eberechi?”
Ela fez que sim de cabeça. “É sobre o meu irmão? Aconteceu alguma coisa com ele?”
“Não, não.” Havia um quê de malícia no olhar de esguelha do soldado que desagradou Ugwu imediatamente. “O major Nwogu está chamando você. Está no bar, logo aí na frente.”
“Ah!” Eberechi deixou a boca aberta, a mão no peito. “Estou indo. Estou indo.” Virou-se e entrou correndo em casa. Ugwu sentiu-se traído pela emoção da moça. O soldado não tirava os olhos dele.
“Boa tarde”, disse Ugwu.
“Quem é você?”, perguntou o soldado. “Um civil desocupado?”
“Sou professor.”
“Professor? Onye nkuzi?” Ele balançava o fuzil para trás e para a frente.
“Isso mesmo”, respondeu Ugwu, em inglês. “Nós organizamos aulas para crianças da vizinhança e ensinamos aos jovens os ideais da causa biafrense.” Esperava que seu inglês soasse como o de Olanna; também torcia para que a afetação toda dele impedisse o soldado de fazer mais perguntas.
“Que aulas?”, perguntou o soldado, num quase resmungo. Ele parecia ao mesmo tempo impressionado e inseguro.
“Nós nos concentramos em educação cívica, matemática e inglês. O diretor de Mobilização patrocinou nosso projeto.”
O soldado continuava olhando fixo para Ugwu.
Eberechi saiu às pressas da casa; no rosto, uma fina camada de pó branco, as sobrancelhas escurecidas com lápis, a boca, um rasgo vermelho.
“Vamos embora”, disse para o soldado. Depois se curvou e sussurrou para Ugwu: “Eu vou indo. Se eles procurarem por mim, por favor diga que fui buscar alguma coisa na casa de Ngozi”.
“Certo, senhor professor! A gente se vê!”, disse o soldado, e Ugwu pensou ter visto uma centelha de triunfo nos olhos dele, daquele idiota analfabeto. Era difícil, para ele, vê-los indo embora; resolveu examinar as unhas. O misto de mágoa, perplexidade e constrangimento o enfraqueceu. Não conseguia acreditar que ela acabara de lhe pedir para mentir por ela, enquanto corria para se encontrar com um homem a quem nunca fizera menção. Sentiu as pernas rígidas ao atravessar a rua. Tudo o que fez durante o resto do dia veio colorido com uma tinta amarga, e ele pensou, mais de uma vez, em ir até o bar para ver o que estava acontecendo.
Estava escuro quando ela bateu na porta de trás.
“Sabe que eles já rebatizaram o Sol Nascente de Bar Tanzânia?”
Ele olhou para ela e não disse nada.
“As pessoas estavam tocando música da Tanzânia e dançando, e um comerciante chegou e pediu frango e cerveja para todo mundo”, disse ela.
O ciúme de Ugwu era visceral; grudara em seu pescoço e ameaçava estrangulá-lo.
“Cadê a tia Olanna?”, perguntou ela.
“Está lendo para Baby”, Ugwu ainda conseguiu responder. Ele queria sacudi-la até ela contar toda a verdade do que acontecera durante a tarde, o que tinha feito com o homem, por que o batom sumira de sua boca.
Eberechi deu um suspiro. “Tem um pouco de água? Estou com sede. Tomei cerveja, hoje.”
Ugwu não achava certo aquele seu comportamento descontraído, à vontade. Serviu um pouco de água numa xícara e ela tomou devagar.
“Encontrei o major algumas semanas atrás; ele me deu uma carona, quando fui a Orly, mas nem sequer me passou pela cabeça que fosse se lembrar de mim. É um homem tão simpático.” Eberechi calou-se uns momentos. “Disse a ele que você é meu irmão. Ele disse que garante que ninguém vai chegar aqui recrutando você.” Ela parecia orgulhosa do que tinha conseguido, mas, para Ugwu, era como se ela estivesse arrancando seus dentes de propósito, um a um.
Deu as costas para ela. Não precisava de favores da amante dele. “Eu preciso lavar a louça”, disse ele, rígido.
Ela tomou mais uma xícara de água e disse: “Ngwanu, que o dia amanheça”, e foi embora.
Ugwu parou de ir à casa de Eberechi. Ignorou seus cumprimentos, ficou com raiva dos olhares espantados dela e das perguntas. “O que foi, Ugwu? O que eu fiz para ofendê-lo?” Por fim, ela parou de falar com ele e de lhe fazer perguntas. Ugwu não ligou. No entanto, no dia em que ouviu um carro passando, correu para ver se era o Peugeot 403 do EXÉRCITO DE BIAFRA que passara. Ele a via sair pela manhã e achava que talvez ela e o major tivessem arrumado um lugar regular para se encontrar, até que um dia Eberechi apareceu à tarde para dar um pouco de caldo de peixe a Olanna. Ele abriu a porta e pegou o pequeno pacote sem dizer uma palavra.
“Uma moça tão boa, ezigbo nwa”, disse Olanna. “Deve estar se saindo muito bem naquele centro assistencial.”
Ugwu não disse nada. O afeto de Olanna o ofendia, assim como o jeito como Baby perguntava quando tia Eberechi viria brincar com ela. Queria que elas se sentissem traídas também, com raiva, como ele. Iria contar a Olanna o que tinha acontecido. Verdade que nunca antes tinha conversado coisas assim tão pessoais com ela, mas achava que podia. Planejou tudo com cuidado para a sexta-feira, o dia em que o Patrão ia ao Bar Tanzânia com Special Julius, depois do trabalho. Olanna levara Baby para visitar a professora Muokelu, e, enquanto esperava a volta, Ugwu capinou o quintal, preocupado com a falta de substância de sua história. Olanna riria dele, naquele seu jeito paciente de rir do Patrão, quando ele dizia algo ridículo. Eberechi nunca tinha mencionado nenhum sentimento especial por ele, afinal de contas. Mas certamente não poderia fingir que não sabia o que ele sentia por ela. Fora muita insensibilidade da parte dela jogar o amante do exército na cara dele, assim sem mais nem menos, mesmo que não sentisse nada por Ugwu.
Preparou o espírito e entrou ao ouvir Olanna. Elas estavam na sala, Baby sentada no chão, desembrulhando algo envolto num velho jornal.
“Bem-vinda, mah”, disse Ugwu.
Olanna virou-se para olhá-lo, e o vazio de seu olhar o espantou. Havia algo errado. Talvez tivesse descoberto que ele tinha dado um pouco do leite condensado a Eberechi. Mas os olhos dela estavam ocos demais, rasos demais, para ser apenas raiva por causa de um pouco de leite roubado semanas atrás. Havia alguma coisa muito errada. Será que Baby estava doente de novo? Ugwu deu uma olhada para a criança, ocupada com o invólucro de jornal. Sentiu um aperto no estômago, com a perspectiva de más notícias.
“Mah? Aconteceu alguma coisa?”
“A mãe do seu Patrão morreu.”
Ugwu aproximou-se mais, porque as palavras de Olanna haviam se solidificado, se tornado objetos suspensos, flutuando acima de seu alcance. Ele levou alguns momentos para entender.
“O primo dele mandou o recado”, disse Olanna. “Ela foi baleada em Abba.”
“Hei!” Ugwu pôs as mãos na cabeça e lutou para se lembrar de como era Mama, na última vez em que a vira, perto da árvore de noz-de-cola, recusando-se a deixar sua casa. Mas não conseguia vê-la. Em vez disso, lembrava-se de uma imagem meio borrada dela na cozinha, em Nsukka, abrindo uma pimenta. Seus olhos se encheram de lágrimas. Perguntou-se quantas outras calamidades seria obrigado a saber. Talvez os vândalos hauçás tivessem ficado para trás em seu povoado; talvez tivessem matado sua própria mãe.
Quando o Patrão chegou em casa e foi para o quarto, Ugwu não sabia direito se deveria ir até lá ou esperar até ele sair. Resolveu esperar. Acendeu o fogão a querosene e misturou o mingau de Baby. Bem que gostaria de ter se ressentido menos com o cheiro forte das sopas de Mama.
Olanna entrou na cozinha.
“Por que está usando o fogão a querosene?”, berrou ela. “I na-ezuzu ezuzu? Você é burro? Já não disse que temos que economizar querosene?”
Ugwu ficou perplexo. “Mas, mah, a senhora disse que eu devia fazer a comida de Baby no fogão.”
“Eu nunca disse isso! Saia e vá acender o fogo!”
“Desculpe, mah.” Mas ela tinha dito isso de fato; só Baby comia três vezes ao dia agora — eles três faziam só duas refeições —, e Olanna lhe pedira para cozinhar a comida dela no fogão a querosene porque o cheiro da fumaça fazia Baby tossir.
“Você sabe quanto custa o querosene? Só porque você não paga pelas coisas que usa acha que pode fazer o que quiser com elas? Por acaso o lume de lenha não é um grande luxo, lá no lugar de onde você vem?”
“Desculpe, mah.”
Olanna sentou-se num bloco de concreto, no quintal. Ugwu fez fogo e terminou o jantar de Baby. Estava consciente do olhar dela em cima dele.
“Seu patrão não quer falar comigo”, disse ela.
O longo silêncio que se seguiu encheu Ugwu com uma sensação profundamente incômoda de intimidade; ela nunca tinha comentado nada assim sobre o Patrão, até o momento.
“Sinto muito, mah”, disse ele, sentando-se a seu lado; queria pôr a mão em suas costas, para confortá-la, mas não poderia fazer isso, de modo que deixou a mão suspensa, a poucos centímetros de tocá-la, até que ela soltou um suspiro, levantou e entrou.
O Patrão saiu para ir à casinha.
“A patroa me contou o que houve, sah”, disse Ugwu. “Ndo. Eu sinto.”
“Sim, sim”, disse o Patrão, passando rápido por ele.
Para Ugwu, fora inadequada a troca de palavras entre os dois; sentia que a morte de Mama exigia mais palavras, mais gestos, mais tempo partilhado entre os dois. Porém o Patrão mal olhara para ele. E quando Special Julius passou mais tarde para dizer ndo, o Patrão foi igualmente rápido e ríspido.
“É certo que temos de esperar baixas. A morte é o preço de nossa liberdade”, disse ele, e, súbito, levantou-se e voltou para o quarto, deixando Olanna balançando a cabeça para Special Julius, os olhos cheios d’água.
Ugwu achou que o Patrão ficaria em casa, no dia seguinte, mas ele tomou banho mais cedo ainda do que costumava. Não tocou no chá nem nas fatias de cará da noite anterior que Ugwu aquecera para ele. Não enfiou a camisa dentro da calça.
“Você não pode cruzar a Biafra-Dois, Odenigbo”, disse Olanna, seguindo-o até o carro. O Patrão arrancou as folhas de palma empilhadas sobre a carroceria. Olanna continuou dizendo algo que Ugwu não conseguiu escutar, enquanto o Patrão abria o capô em silêncio. Depois entrou no carro e saiu, com um leve aceno de mão. Olanna correu pela rua. Ugwu pensou, por um momento absurdo, que ela estava perseguindo o carro do Patrão, mas ela voltou e disse que tinha pedido a Special Julius para segui-lo e trazê-lo de volta.
“Ele diz que tem que ir enterrá-la. Mas as estradas estão ocupadas. As estradas estão ocupadas”, disse ela. Seus olhos não se desviavam da entrada do compound. A cada som que escutava — um caminhão passando, um pássaro cantando, o grito de uma criança —, deixava correndo o banco da varanda para olhar a rua. Um grupo de pessoas armadas com facões passou em frente da casa, cantando. O líder deles tinha um braço só.
“Professora! Muito bem!”, disse um deles, quando viu Olanna. “Estamos à procura dos traidores! Vamos expulsar todos os infiltrados!”
Na hora em que passaram por ela, Olanna saltou do banco e gritou: “Por favor, fiquem de olho para ver se vêem meu marido num Opel azul”.
Um deles se virou e acenou para ela, com um olhar meio perplexo.
Ugwu sentia o calor da tarde ensolarada mesmo debaixo da proteção do sapê. Baby brincava descalça no jardim da frente. O longo carro americano de Special Julius parou e Olanna deu um salto.
“Ele não voltou ainda?”, perguntou Special Julius do carro.
“Você não o viu?”, disse Olanna.
Special Julius parecia preocupado. “Mas quem foi que pôs na cabeça de Odenigbo que ele podia passar por estradas ocupadas? Quem foi que lhe disse isso?”
Ugwu queria que ele se calasse. Ele não tinha o direito de criticar o Patrão, e, em vez de ficar ali sentado usando aquela sua túnica feia, podia dar meia-volta e ir procurar direito.
Depois que Special Julius foi embora, Olanna sentou-se, curvou o corpo e pôs a cabeça entre as mãos.
“Quer um pouco de água, mah?”, perguntou Ugwu.
Ela balançou a cabeça. Ugwu viu o sol despencando. A escuridão chegou de forma rápida, brutal; não havia mudança gradual do claro para o escuro.
“O que eu faço?”, perguntou Olanna. “O que eu faço?”
“O Patrão volta, mah.”
Porém o Patrão não voltou. Olanna sentou-se na varanda até depois da meia-noite, com a cabeça encostada na parede.