Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 29 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 28

 

Olanna teve um sonho feliz. Não lembrava mais dele, mas sabia que fora bom, de modo que acordou acalentando a idéia de que ainda podia ter sonhos felizes. Queria que Odenigbo não tivesse ido trabalhar para poder lhe contar e acompanhar com os olhos seu sorriso de tolerância gentil, um sorriso que dizia que não era preciso concordar com ela para acreditar nela. Só que esse sorriso sumira desde a morte da mãe, desde que ele fizera a tentativa de ir a Abba e voltara agarrado a uma sombra; agora, Odenigbo saía para o trabalho logo cedo e, antes de voltar para casa, parava no Bar Tanzânia. Se ao menos não tivesse tentado cruzar as estradas ocupadas, não estaria tão dilacerado, tão distante; sua dor não carregaria o fardo do fracasso. Olanna nunca deveria tê-lo deixado ir. Porém Odenigbo mostrara uma determinação calmamente hostil, como se achasse que ela não tinha o direito de impedi-lo. Suas palavras — “Tenho de enterrar o que os urubus deixaram para trás” — haviam escavado um fosso que Olanna não sabia como atravessar. Antes de ele entrar no carro e partir, ela havia dito: “Alguém enterrou sua mãe”.

E mais tarde, sentada na varanda, esperando por ele, odiou-se por não ter achado palavras melhores. Alguém enterrou sua mãe. Soava tão banal. O que ela quis dizer é que certamente o primo Aniekwena enterrara a mãe de Odenigbo. O recado de Aniekwena, enviado por um soldado de folga, fora breve: Abba estava ocupada, ele tinha se infiltrado na cidade para tentar tirar algumas coisas, e encontrara Mama morta a tiros perto do muro do compound. Olanna não entrara em detalhes, porém presumia que o primo abrira uma cova para enterrá-la. Não iria deixá-la ali, apodrecendo no chão.

Ela não se lembrava mais das horas que esperou, até Odenigbo voltar, mas se lembrava da sensação de cegueira, como se estivessem pondo lenços frios em cima de seus olhos. Às vezes ficava preocupada com a possibilidade de Baby, Kainene ou Ugwu morrerem, e admitia, vagamente, a chance de dores futuras, mas nunca concebera a idéia de que Odenigbo pudesse morrer. Jamais. Ele era a constante de sua vida. Quando ele voltou, muito depois da meia-noite, com os sapatos cobertos de lama, Olanna entendeu que ele jamais seria o mesmo homem. Odenigbo pediu a Ugwu um copo de água e disse a ela, em voz calma: “Eles não paravam de me mandar voltar, de modo que escondi o carro e resolvi ir a pé. No fim, um oficial biafrense me apontou uma arma e disse que iria atirar e poupar os vândalos da amolação se eu não mudasse de idéia”.

Segurando Odenigbo bem perto, Olanna soluçava. O alívio vinha tingido de desolação.

“Eu estou bem, nkem”, disse ele. Mas nunca mais acompanhou o Corpo de Ativistas até as povoações vizinhas, nem voltou mais para casa com os olhos brilhantes. Em vez disso, ia ao Bar Tanzânia todos os dias e entrava em casa com um ricto taciturno na boca. Quando falava, era para dizer das pesquisas ainda não publicadas que tinham ficado em Nsukka, de como elas eram quase suficientes para torná-lo um catedrático pleno, e sabe Deus o que os vândalos tinham feito com elas. Olanna queria que ele conversasse de verdade, que a ajudasse a ajudá-lo na dor, mas toda vez que lhe dizia isso, ele respondia: “É tarde demais, nkem”. Olanna não sabia ao certo qual era o significado disso. Pressentia as camadas de dor — Odenigbo jamais saberia como sua mãe morrera e estaria sempre lutando contra velhos ressentimentos —, porém não existia um elo entre o sofrimento deles. Às vezes, perguntava se isso seria uma falha sua, mais que dele, se por acaso lhe faltavam forças para obrigá-lo a incluí-la na dor que sentia.

Okeoma foi visitá-los para oferecer os pêsames.

“Soube do que aconteceu”, disse ele, quando Olanna abriu a porta. Ela o abraçou, olhou para o volume irregular e inchado da cicatriz que corria do queixo ao pescoço, e pensou em como se espalhavam rápido as notícias de morte.

“Ele não tem falado comigo, não de verdade”, disse ela. “E o que me diz não faz sentido.”

“Odenigbo nunca soube ser fraco. Seja paciente com ele.” Okeoma falou isso num quase murmúrio, porque Odenigbo havia aparecido. Depois de se abraçarem e baterem um nas costas do outro, Okeoma olhou para o amigo.

“Ndo”, disse ele. “Sinto muito.”

“Acho que ela deve ter ficado espantada quando levou os tiros”, disse Odenigbo. “Mama nunca entendeu direito que estávamos numa guerra e que sua vida corria perigo.”

Olanna olhava fixo para ele.

“O que aconteceu, aconteceu”, disse Okeoma. “Você tem que ser forte.”

Um silêncio breve e desenxabido caiu sobre a sala.

“Julius trouxe um vinho de palma para nós”, disse Odenigbo, por fim. “Você sabe que hoje em dia eles misturam muita água, mas este saiu muito bom.”

“Eu tomo depois. Cadê aquela garrafa de uísque White Horse que você reserva para ocasiões especiais?”

“Está quase no fim.”

“Então traz que eu acabo”, disse Okeoma.

Odenigbo pegou a garrafa e eles ficaram na sala, com o rádio ligado em volume baixo e o aroma da sopa de Ugwu no ar.

“Meu comandante bebe isso como se fosse água”, disse Okeoma, sacudindo a garrafa para ver quanto restava.

“E como vai ele, o seu comandante, o mercenário branco?”, perguntou Odenigbo.

Okeoma lançou um olhar de desculpas para Olanna, antes de dizer: “Ele joga as moças no chão a céu aberto, onde todos possam enxergá-lo, e faz ali mesmo com elas, segurando o dinheiro na mão o tempo todo.” Okeoma tomou o uísque no gargalo e fez careta por alguns instantes. “Nós podíamos ter retomado Enugu com facilidade, se o homem escutasse, mas ele acha que conhece mais da nossa própria terra do que nós. Ele começou a comandar os caminhões de auxílio aos refugiados. E ameaçou Sua Excelência na semana passada, dizendo que iria largar o cargo se não recebesse o que combinou.”

Okeoma deu mais um gole na garrafa.

“Dois dias atrás, eu saí à paisana e um soldado me parou na estrada, me acusando de desertor. Eu avisei o sujeito para nunca mais tentar nada parecido, caso contrário eu lhe mostraria por que os comandos são diferentes dos soldados regulares. Escutei o sujeito dando risada quando me afastei. Já pensou? Antes, ele não teria a ousadia de rir de um comando. Se nós não nos reorganizarmos logo, vamos perder toda a credibilidade.”

“Aliás, por que pagar um branco para lutar a nossa guerra?” Odenigbo recostou-se na cadeira. “Existem muitos de nós capazes de lutar de verdade, porque estamos dispostos a dar a vida por Biafra.”

Olanna levantou-se. “Vamos comer”, disse. “Desculpe a nossa sopa não ter carne, Okeoma.”

“Desculpe a nossa sopa não ter carne”, imitou Okeoma. “Por acaso isto aqui é um açougue? Eu não vim esperando carne.”

Ugwu pôs os pratos de garri na mesa.

“Por favor, tire a sua granada enquanto comemos, Okeoma”, disse Olanna.

Ele desprendeu a granada do cinto e colocou-a num canto. Comeram em silêncio, por um tempo, moldando o garri em bolinhas, mergulhando na sopa, engolindo.

“Que cicatriz é essa?”, perguntou Olanna.

“Não é nada de mais”, disse Okeoma, passando a mão de leve sobre ela. “Parece mais grave do que é na verdade.”

“Você devia se unir à Liga dos Escritores Biafrenses”, continuou ela. “Devia ser um dos que vão para fora, defender nossa causa.”

Okeoma começou a balançar a cabeça antes mesmo de Olanna terminar de falar. “Sou um soldado”, disse ele.

“Ainda escreve?”, perguntou ela.

Ele balançou a cabeça de novo.

“Mas não tem nem um poema para nós? Um na memória?”, perguntou ela, com uma voz que pareceu desesperada até para ela mesma.

Okeoma engoliu uma bolinha de garri, o pomo-de-adão subindo e descendo. “Não”, disse ele. Virou-se para Odenigbo. “Soube o que nossos canhões fizeram com os vândalos no setor de Onitsha?”

Depois do almoço, Odenigbo foi para o quarto. Okeoma terminou o uísque, depois tomou um copo atrás do outro de vinho de palma, até adormecer na cadeira. A respiração era entrecortada; ele resmungava e, por duas vezes, agitou os braços, como se para espantar algum atacante invisível. Olanna bateu em seu braço para acordá-lo.

“Kunie. Venha deitar aqui dentro”, disse ela.

Ele abriu uns olhos vermelhos espantados. “Não, não, eu não estou dormindo de fato.”

“Olha só pra você. Totalmente apagado.”

“De jeito nenhum.” Okeoma abafou um bocejo. “Eu tenho um poema na cabeça.” Sentou-se, endireitou as costas e começou a recitar. Sua voz parecia diferente. Em Nsukka, lia as poesias de uma forma dramática, como se estivesse convencido de que a arte importava mais que qualquer outra coisa. Agora, lia com um tom de caçoada, ainda que involuntária, mas assim mesmo caçoada.

Castanha

Com o fulgor das escamas de uma sereia,

Ela surge,

Trazendo a madrugada de prata;

E o sol a serve,

A sereia

Que nunca será minha.

“Odenigbo teria dito, ‘A voz de uma geração!’”, disse Olanna.

“E você, diria o quê?”

“A voz de um homem.”

Okeoma sorriu timidamente, e ela se lembrou de como Odenigbo gostava de amolá-la, dizendo que Okeoma estava secretamente apaixonado por ela. O poema era sobre ela, e ele queria que ela soubesse. Sentaram-se, sem falar, até que os olhos dele começaram a se fechar e, pouco depois, Okeoma roncava com regularidade. Olhando para ele, Olanna se perguntou com que estaria sonhando. Ele ainda dormia, resmungando a todo momento e mexendo a cabeça de um lado a outro, quando o professor Achara chegou, à noite.

“Ali, o amigo de vocês que serve no comando está aqui”, disse ele. “Por favor, chame Odenigbo. Vamos todos sentar lá fora.”

Sentaram-se no banco da varanda. O professor Achara não parava de cruzar e descruzar as mãos, olhando para o chão.

“Vim falar de uma coisa complicada”, disse ele.

O medo apertou o peito de Olanna: tinha acontecido alguma coisa com Kainene e eles haviam enviado o professor Achara como emissário. Queria que ele fosse embora rápido, sem dizer nada, porque o que ela não soubesse não a magoaria.

“O que foi?”, perguntou Odenigbo, bruscamente.

“Eu tentei fazer o dono mudar de idéia. Fiz tudo que estava a meu alcance. Mas ele se recusou. Quer que vocês vaguem a casa em duas semanas.”

“Acho que não entendi direito”, disse Odenigbo.

Mas Olanna tinha certeza de que ele entendera perfeitamente. Estavam sendo despejados porque o dono da casa encontrara alguém disposto a pagar duas vezes mais, ou quem sabe três vezes mais que eles.

“Eu sinto muito, Odenigbo. Em geral, ele é um homem bastante razoável, mas eu imagino que os tempos tiraram um pouco da capacidade de raciocínio de todos nós.”

Odenigbo soltou um suspiro.

“Vou ajudar vocês a encontrar uma nova casa”, disse o professor Achara.

 

Tiveram sorte de arrumar um quarto, agora que Umuahia estava repleta de refugiados. Era uma língua comprida de prédio, com nove quartos, lado a lado, todos com uma porta abrindo para uma estreita varanda comum. A cozinha ficava numa ponta e o banheiro, na outra, perto de uma touceira de bananeiras. O quarto deles era perto do banheiro e, no primeiro dia, Olanna olhou e não conseguiu imaginar como iria viver ali com Odenigbo, Baby e Ugwu, como iria comer, se vestir e fazer amor num único quarto. Odenigbo se apressou em separar uma área de dormir, pondo uma cortina fina na parede, e, mais tarde, olhando para o fio desconjuntado que ele amarrara aos pregos, lembrou-se do quarto de tio Mbaezi e de tia Ifeka, em Kano, e começou a chorar.

“A gente consegue alguma coisa melhor em breve”, disse Odenigbo, e ela confirmou com a cabeça, sem lhe dizer que não estava chorando por causa do quarto.

Mama Oji vivia no quarto pegado. Tinha um rosto duro e piscava tão pouco que Olanna fico sem graça com o olhar esbugalhado dela na primeira vez em que conversaram.

“Bem-vinda, nno”, disse ela. “Seu marido não veio?”

“Está no trabalho”, disse Olanna.

“Eu queria vê-lo antes das outras; é sobre meus filhos.”

“Seus filhos?”

“O senhorio o chamou de doutor.”

“Ah, não. É que ele tem um doutorado.”

A falta de compreensão nos olhos gelados de Mama Oji abriu um buraco nela.

“Ele é doutor de livros”, disse, “não de gente doente.”

“Ah.” A expressão de Mama Oji não mudou. “Meus filhos têm asma. Três já morreram, desde o início da guerra. Sobraram três.”

“Sinto muito. Ndo”, disse Olanna.

Mama Oji deu de ombros e, depois, contou a ela que todos os vizinhos eram ladrões consumados. Se ela deixava uma lata de querosene na cozinha, encontrava a lata vazia na volta. Se deixava o sabonete no banheiro, ele sumia. Quando pendurava as roupas no varal, ficava de olho, senão elas saíam voando.

“Tenha muito cuidado”, disse ela. “E tranque a porta até mesmo quando sair para urinar.”

Olanna agradeceu e desejou, para o bem dela, que Odenigbo fosse de fato um médico. Agradeceu também às outras vizinhas que vieram até a porta para cumprimentá-la e mexericar. Havia gente demais no quintal; uma família de dezesseis pessoas vivia no quarto pegado ao de Mama Oji. O chão do banheiro era pegajoso de tanta sujeira lavada de tantos corpos, e a privada tinha o cheiro de muita gente estranha. Nas noites úmidas, quando os odores se fixavam pesadamente no ar, Olanna queria um ventilador, queria eletricidade. A casa em que moravam antes, em outra parte da cidade, tinha eletricidade até as oito horas da noite, mas ali não havia nada. Ela comprara lamparinas a óleo, feitas de lata de leite. Sempre que Ugwu acendia uma, Baby dava um grito agudo e fugia dos saltos da chama nua. Olanna observava e agradecia o fato de a menina não encarar mais uma mudança, mais uma nova vida, com sentimentos confusos; grata por ela brincar com a nova amiguinha Adanna todos os dias, berrando “Vamos nos abrigar!” — elas riam e se escondiam entre as folhas das bananeiras, para evitar aviões imaginários. Porém Olanna se preocupava, não queria que Baby pegasse o sotaque matuto de Adanna, uma doença qualquer com os furúnculos meio líquidos que ela tinha nos braços, ou as pulgas de Bingo, o cachorro magricela da menina.

No primeiro dia em que Olanna e Ugwu cozinharam, a mãe de Adanna entrou na cozinha comunitária, esticou uma tigela esmaltada e disse: “Por favor, me dê um pouco de sopa”.

“Não, nós não temos o suficiente para dar”, disse Olanna. Depois lembrou-se do único vestido de Adanna, feito com um saco de farinha doada, ainda com o FARINH nas costas, o A comido pela costura, e tirou umas conchas da sopa rala, sem carne, para pôr na tigela esmaltada. No dia seguinte, Mama Adanna entrou e pediu um pouco de garri, e Olanna lhe deu meia xícara. No terceiro dia, ela apareceu quando a cozinha estava cheia de mulheres, e, de novo, pediu sopa.

“Pare de dar sua comida a ela!”, gritou Mama Oji. “Isso é o que ela faz com toda nova inquilina. Ela devia ir plantar mandioca para alimentar a família, e parar de perturbar as pessoas! Afinal, ela nasceu aqui em Umuahia! Não é uma refugiada como nós! Como é que ela pode sair por aí implorando comida para uma refugiada?” Mama Oji soltou um sibilo alto de desaprovação e, depois, continuou moendo os frutos da palmeira em sua mó. O feitio eficaz daquele rosto sem carnes fascinava Olanna. Nunca tinha visto Mama Oji sorrir.

“Mas não foram vocês, refugiados, que acabaram com a nossa comida?”, disse Mama Adanna.

“Vê se fecha essa sua boca malcheirosa!”, disse Mama Oji. E Mama Adanna calou-se prontamente, como se soubesse que não havia como vencer a rapidez estridente de Mama Oji, o seu interminável borbotão de palavras, a sua prontidão em pronunciá-las.

À noite, quando Mama Oji brigava com o marido, sua voz cruzava todo o quintal. “Sua ovelha castrada! Você se diz homem, no entanto desertou do exército! Deixa só eu escutar você repetir essa história de que foi ferido em batalha! Se você abrir essa sua boca imunda mais uma vez, eu vou chamar os soldados e vou mostrar a eles onde está escondido!”

Seus acessos eram parte da rotina do lugar. Assim como as rezas em voz muito alta do pastor Ambrose, andando de um lado para outro. E também um piano tocando no quarto mais próximo da cozinha. Olanna ficou espantada ao ouvir pela primeira vez os acordes melancólicos, uma música tão pura e tocada com tamanha confiança que deixava o ar carregado, imobilizava as bananeiras.

“Essa é Alice”, disse Mama Oji. “Ela veio para cá quando Enugu caiu. Antes ela nem falava com ninguém. Pelo menos agora responde quando alguém lhe dá bom-dia. Mora sozinha naquele quarto. Nunca sai de lá, e nunca cozinha. Ninguém sabe o que ela come. Da última vez que saímos para fazer uma varredura, ela se sentiu importante demais para ir junto. Todo mundo do compound foi, mas ela nem saiu do quarto. Algumas mulheres até ameaçaram ir falar com as milícias.”

A música continuava flutuando em volta. Parecia ser Beethoven, mas Olanna não tinha certeza. Odenigbo saberia. Depois a música se tornou mais rápida, com uma urgência raivosa que foi subindo, subindo, até parar. Alice saiu do quarto. Era uma moça miúda, de ossinhos pequenos, e Olanna se sentiu desajeitada, grande demais, só de olhar para ela; havia qualquer coisa de infantil em sua pele clara, quase translúcida, e nas mãos diminutas.

“Boa tarde”, disse Olanna. “Eu sou Olanna. Nós acabamos de mudar para aquele quarto.”

“Bem-vinda. Eu vi sua filha.” O aperto de mão de Alice era fraco, como se tratasse tudo a seu respeito com o máximo de cuidado, como se nunca se esfregasse com muito vigor.

“Você toca tão bem”, disse Olanna.

“Ah, não, não sou muito boa.” Alice balançou a cabeça. “De onde você é?”

“Da Universidade de Nsukka. E você?”

Alice hesitou. “Eu vim de Enugu.”

“Tínhamos alguns amigos, lá. Você conhecia alguém do Colégio Nigeriano de Artes?”

“Ah, o banheiro vagou.” Virou-se e saiu apressada. Sua brusquidão surpreendeu Olanna. Quando saiu, passou com um vago acenar de cabeça e foi para o quarto. Logo, Olanna voltou a ouvir o piano, uma peça alongada e lenta, e sentiu vontade de ir até lá, abrir a porta e ficar vendo Alice tocar.

Pensava com frequência em Alice, na delicadeza de sua pequenez, na sua beleza, na força inacreditável de seu piano. Quando juntava Baby, Adanna e algumas outras crianças no quintal do compound, e lia para elas, torcia para que um dia Alice saísse e viesse lhe fazer companhia. Perguntava-se se Alice gostaria de música High Life. Queria conversar com Alice sobre música, artes e política. Mas ela só saía do quarto para ir correndo ao banheiro, e não respondia quando Olanna batia em sua porta. “Eu devia estar dormindo”, dizia depois, mas nunca convidava Olanna para voltar uma outra hora.

Por fim, encontraram-se de novo no mercado. Era pouco depois do alvorecer, o ar estava ainda denso de orvalho, e Olanna vagava no frescor úmido da folhagem verde, contornando as raízes mais grossas. Pechinchou calma e sistematicamente com um vendedor, na hora de comprar mandioca de casca rosada, que pensava ser venenosa porque o rosa era vivo demais, até o dia em que a professora Muokelu lhe garantiu que não. Uma ave gritou de uma árvore próxima. De vez em quando, caía uma folha no chão. Ela parou diante de uma mesa com pedaços cinzentos de frango cru, e imaginou-se agarrando alguns e correndo o quanto pudesse. Se comprasse o frango, não sobraria dinheiro para mais nada. De modo que comprou quatro caracóis de tamanho médio, em vez do frango. Os menorezinhos, de concha em espiral, eram mais baratos, e enchiam os cestos até o alto, mas não poderia comprá-los, não poderia pensar neles como comida; sempre tinham sido, para ela, um brinquedo para as crianças do interior. Estava indo embora quando viu Alice.

“Bom dia, Alice”, disse ela.

“Bom dia.”

Olanna fez menção de lhe dar um pequeno abraço, o abraço de praxe das pessoas conhecidas, mas Alice estendeu a mão num cumprimento formal, como se não fossem vizinhas.

“Não consigo achar sal em parte alguma, sal nenhum”, disse Alice. “E as pessoas que nos puseram nessa situação têm todo o sal do mundo.”

Olanna ficou surpresa; claro que ela não iria encontrar sal ali; não havia praticamente sal em lugar algum. Alice tinha um ar preciso e miúdo dentro do vestido acinturado de lã, que Olanna imaginava pendurado em alguma loja londrina. Nada nela lembrava uma biafrense num mercado no meio do mato ao alvorecer.

“Disseram que os nigerianos estão atacando Uli sem parar, e que nenhum avião de socorro consegue aterrissar há uma semana”, disse Alice.

“É, também ouvi dizer isso. Está indo para casa?”

Alice desviou o olhar e fitou a mata densa. “Não agora.”

“Eu espero você, assim podemos voltar juntas.”

“Não se incomode. Até mais.”

Alice virou e voltou para o amontoado de barracas, o passinho requintado e planejado, como se uma pessoa desinformada lhe tivesse ensinado a andar “como uma lady”. Olanna ficou observando, e se perguntando o que haveria por baixo da superfície. Antes de voltar para casa, parou no centro assistencial para ver se havia alguma comida, se algum avião conseguira finalmente pousar. O compound do centro estava deserto e ela deu uma olhada pelo portão trancado. Havia um cartaz meio rasgado preso à parede. Alguém riscara com carvão o WCC: WORLD COUNCIL OF CHURCHES, Conselho Mundial das Igrejas, e escrevera por cima WCC: WAR CAN CONTINUE, a guerra pode continuar.

Ela estava perto do posto de moagem de milho quando uma mulher saiu correndo para a rua, chorando, seguindo dois soldados que puxavam um menino alto. “Eu disse que vocês podiam me levar!”, gritou ela. “Me levem, em vez dele! Já não sacrificamos Abuchi? Chega!” Os soldados não fizeram caso e o garoto manteve a postura ereta, como alguém que não confia muito em si e não quer dar uma última olhada na mãe.

Olanna pôs-se de lado para dar passagem a eles e, quando em casa, ficou furiosa de ver Ugwu no portão do quintal, falando com alguns vizinhos mais velhos. Qualquer soldado numa missão de recrutamento o veria ali.

“Bia nwoke m, tem alguma coisa errada dentro da sua cabeça? Eu já não disse para você não ficar aqui?”, perguntou com voz sibilante.

Ugwu pegou o cesto das mãos dela e resmungou: “Desculpe, mah”.

“Cadê a Baby?”

“No quarto de Adanna.”

“Me dá a chave.”

“O Patrão está lá dentro, mah.”

Olanna deu uma olhada no relógio, embora não houvesse necessidade disso. Era cedo demais para Odenigbo estar em casa. Ele estava sentado na cama, as costas curvadas, sacudindo os ombros em silêncio.

“O gini? O que foi?”, perguntou ela.

“Não foi nada.”

Olanna aproximou-se dele. “Ebezi na, pare de chorar”, murmurou ela. Mas não queria que parasse. Queria que ele chorasse, e chorasse, até desalojar a dor que lhe entupia a garganta, até enxaguar aquela mágoa sombria. Aninhou-o nos braços e, aos poucos, o corpo dele foi relaxando. Ele a abraçou. Os soluços ficaram audíveis. Odenigbo a fazia pensar em Baby; ele chorava como a filha.

“Eu nunca fiz o bastante por ela”, disse por fim.

“Tudo bem”, sussurrou Olanna. Também ela gostaria de ter tentado um pouco mais com a mãe dele, antes de se conformar com um ressentimento fácil. Havia tanta coisa que não teria dito, se pudesse.

“Nós nunca nos lembramos efetivamente da morte”, disse Odenigbo. “A razão de vivermos como vivemos é que nunca nos lembramos de que vamos morrer. E todos vamos morrer.”

“Exato”, disse Olanna; Odenigbo tinha os ombros caídos.

“Mas quem sabe é justamente esse o sentido de estarmos vivos? Para negar a morte?”, perguntou ele.

Olanna o aninhou mais ainda.

“Andei pensando no exército, nkem. Talvez eu devesse me unir à nova brigada das Forças Especiais de Sua Excelência.”

Olanna não disse nada por um tempo. Sentiu ímpetos de arrancar a nova barba, puxar seu cabelo, tirar sangue de Odenigbo. “Então acho melhor você encontrar uma árvore bem resistente e uma corda. É uma maneira mais fácil de se suicidar”, disse ela.

Ele recuou um pouco para olhá-la, mas Olanna manteve o olhar afastado, ligou o rádio, aumentou o volume e encheu o quarto com o som de uma música dos Beatles; não queria mais discutir aquela vontade de entrar para o exército.

“Devíamos construir um bunker”, disse ele, indo para a porta. “Isso mesmo, nós certamente precisamos de um abrigo antiaéreo aqui.”

O olhar vítreo e raso, os ombros caídos, essas coisas deixavam Olanna preocupada. Mas, se precisava fazer alguma coisa, melhor que fosse a construção de um abrigo do que ir para o exército.

Lá fora, Odenigbo conversava com Papa Oji e alguns outros homens parados na entrada do compound.

“Não está vendo aquelas bananeiras ali?”, perguntou Papa Oji. “Em todos os ataques aéreos que sofremos, foi ali que a gente se escondeu, e nada aconteceu com a gente. Não precisamos de abrigo nenhum. As bananeiras absorvem as balas e as bombas.”

Os olhos de Odenigbo estavam tão gelados quanto a sua resposta. “O que um desertor do exército sabe sobre abrigo antiaéreo?”

Deixou os homens ali parados e, momentos depois, ele e Ugwu começaram a mapear o terreno e a escavar uma área atrás do prédio. Os rapazes não demoraram a ir ajudar, e, quando o sol se pôs, os mais velhos também aderiram, inclusive Papa Oji. Olanna ficou vendo as pessoas trabalharem e se perguntou o que achariam de Odenigbo. Quando os outros homens faziam alguma piada, e riam, ele não fazia coro. Só falava a respeito do trabalho. Não, mba, leva um pouco mais para lá. Isso, vamos segurar aí. Não, muda um pouquinho. A camiseta suada grudou em seu corpo, e Olanna reparou, pela primeira vez, quanto peso havia perdido, como parecia murcho seu peito.

Nessa noite, deitou-se com o rosto contra o dele. Odenigbo não lhe contara por que tinha ficado em casa, chorando pela mãe. No entanto, fosse qual fosse o motivo, Olanna torcia para que o choro desfizesse alguns dos nós cegos que ele tinha lá dentro. Beijou seu pescoço e sua orelha de um jeito que sempre fazia Odenigbo puxá-la mais para perto, quando Ugwu dormia na varanda. Mas ele afastou sua mão e disse: “Estou cansado, nkem”. Olanna nunca o ouvira dizer isso antes. Odenigbo cheirava a suor velho e ela sentiu uma saudade repentina e doída daquele frasco de Old Spice deixado em Nsukka.

Nem mesmo o milagre ocorrido em Abagana conseguiu desfazer os nós. Num outro momento, teriam comemorado como se tivesse sido um triunfo pessoal deles. Teriam se abraçado, se beijado, e ela teria sentido as cócegas que a nova barba fazia em seu rosto. Mas, ao ouvir as primeiras notícias no rádio, ele disse apenas: “Excelente, excelente”, e, mais tarde, acompanhou as danças dos vizinhos com fisionomia impassível.

Mama Oji começou a cantar, “Onye ga-enwe mmeri?”, e as outras mulheres respondiam “Biafra ga-enwe mmeri, igba!”, formando uma roda que gingava com movimentos graciosos, batendo o pé com força toda vez que diziam igba!. Nuvens de pó subiam e desciam. Olanna foi se juntar a elas, incentivada pelas palavras — Quem vai vencer? Biafra vai vencer, igba! —, querendo que Odenigbo parasse de ser um mero observador de fisionomia vazia, querendo que ele se mexesse.

“Olanna dança como os brancos!”, disse Mama Oji, rindo. “Seu traseiro não mexe de jeito nenhum!”

Era a primeira vez que Olanna via Mama Oji rindo. Os homens contavam e recontavam a notícia — alguns diziam que as forças biafrenses tinham emboscado e posto fogo numa coluna de cem veículos, ao passo que outros falavam que tinham sido mil tanques e caminhões destruídos —, mas numa coisa todos estavam de acordo: se o comboio tivesse chegado ao destino, Biafra estaria terminada. Os rádios foram ligados no volume mais alto e postos na varanda, em frente aos quartos. A notícia era transmitida com frequência e, cada vez que terminava, os vizinhos se uniam para entoar Salvar Biafra para o mundo livre é uma tarefa que tem de ser feita!. Até Baby conhecia as palavras. E ela as repetia, fazendo carinho na cabeça de Bingo. Alice fora a única vizinha que não saíra do quarto, e Olanna se perguntava o que estaria fazendo.

“Alice acha que é boa demais para nós”, disse Mama Oji. “Olhe só para você. Não disseram que você é filha de um bambambã? Mas você trata as pessoas como pessoas. Quem ela acha que é?”

“Talvez esteja dormindo.”

“Dormindo uma ova. Essa tal de Alice é uma sabotadora. Está escrito na cara dela. Trabalha para os vândalos.”

“Desde quando eles vêm com a palavra escrita na cara?”, perguntou Olanna, achando graça.

Mama Oji deu de ombros, como se não fizesse a menor diferença convencer Olanna de algo do qual tinha certeza absoluta.

O motorista do professor Ezeka chegou horas depois, quando o quintal estava mais vazio e mais calmo. Ele entregou a Olanna um bilhete e, depois, deu a volta, abriu o porta-malas e tirou lá de dentro duas caixas. Ugwu correu para dentro com elas.

“Obrigada”, disse Olanna. “Dê meus cumprimentos a seu patrão.”

“Pois não, mah.” E continuou ali, imóvel.

“Tem mais alguma coisa?”

“Por favor, mah, eu tenho que esperar até a senhora verificar se está tudo em ordem.”

“Ah.” Com sua caligrafia rebuscada, Ezeka fizera uma lista de tudo o que enviara na frente do papel. Por favor certifique-se de que o motorista não mexeu em nada estava escrito no verso do papel. Olanna entrou para contar as latas de leite em pó, o chá, os biscoitos, a lata de Ovomaltine, as sardinhas, os pacotes de açúcar, os saquinhos de sal — e não conteve um grito sufocado quando viu o papel higiênico. Pelo menos Baby não teria que usar jornal velho por uns tempos. Escreveu um rápido e efusivo bilhete de agradecimento e deu ao motorista; se por acaso Ezeka tinha feito isso para provar uma vez mais o quanto era superior, isso não estragara o prazer de Olanna. O prazer de Ugwu parecia ainda maior que o dela.

“Isso está como em Nsukka, mah!”, disse ele. “Olha só as sardinhas!”

“Por favor, ponha um pouco de sal num saquinho. Um quarto desse pacote.”

“Mah? Para quem é?” Ugwu parecia desconfiado.

“Para Alice. E não diga aos vizinhos o que recebemos. Se eles perguntarem, diga que um velho amigo mandou livros ao seu patrão.”

“Certo, mah.”

Olanna sentiu o olhar reprovador de Ugwu atrás dela enquanto levava o saquinho até o quarto de Alice. Não houve resposta quando bateu. Já havia se virado para ir embora quando Alice abriu.

“Um amigo nosso nos deu algumas provisões”, disse Olanna, estendendo o saco de sal.

“Hei! Eu não posso ficar com tudo isso”, disse Alice, estendendo a mão e pegando o sal. “Obrigada. Muito, muito obrigada!”

“Fazia tempo que não o víamos. Foi uma surpresa para nós.”

“E foi se incomodar comigo. Não devia ter feito isso.” Alice estava segurando o sal contra o peito. Seus olhos estavam sombreados e pequenas veias esverdeadas deixavam um rastro na pele clara; Olanna se perguntou se ela não estaria doente.

Porém Alice parecia diferente, com a pele bem mais bonita, à noite, quando saiu do quarto e sentou-se ao lado de Olanna, no chão da varanda, de pernas estendidas. Talvez tivesse posto um pouco de pó. Seus pés eram minúsculos. Cheirava a um creme hidratante conhecido. Mama Adanna passou por elas e disse: “Ah! Alice, nós nunca tínhamos visto você aqui fora!”, e os lábios de Alice se moveram de leve num sorriso. O pastor Ambrose rezava perto das bananeiras. Sua túnica vermelha de manga comprida rebrilhava sob o sol poente. “Jeová, meu Senhor, destrói os vândalos com o fogo do Espírito Santo! Jeová, meu Senhor, luta por nós!”

“Deus está lutando pela Nigéria”, disse Alice. “Deus sempre luta ao lado de quem tem mais armas.”

“Deus está do nosso lado!” Olanna se espantou com a rispidez da própria voz. Alice levou um susto e, de algum lugar atrás da casa, Bingo uivou.

“Eu só acho que Deus está do lado justo”, acrescentou Olanna, com brandura.

Alice espantou um mosquito. “Ambrose está fingindo ser um pastor para evitar o exército.”

“É verdade, ele está fingindo.” Olanna sorriu. “Conhece aquela igreja esquisita na avenida Ogui, em Enugu? Ele parece um daqueles pastores.”

“Eu na verdade não sou de Enugu.” Alice encolheu as pernas. “Sou de Asaba. Saí de lá depois de terminar o Colégio de Formação de Professores e fui para Lagos. Eu trabalhava em Lagos, antes da guerra. Conheci um coronel do exército e, em poucos meses, ele me pediu em casamento, só que não me falou que já era casado e que a mulher dele estava no exterior. Eu engravidei. E ele sempre adiando o dia de ir a Asaba para as cerimônias tradicionais. Porém acreditei nele, quando disse que andava ocupado, sob pressão, com tudo que estava acontecendo no país. Depois que eles mataram os oficiais ibos, ele fugiu e eu fui para Enugu com ele. Tive meu filho lá. Estávamos juntos em Enugu quando a mulher dele voltou, pouco antes do começo da guerra, e ele me deixou. Aí meu filho morreu. Depois Enugu caiu. E cá estou eu.”

“Eu sinto muito.”

“Eu sou uma burra. Fui eu que acreditei em todas as mentiras que ele me contou.”

“Não diga isso.”

“Você tem sorte. Tem marido e uma filha. Não sei como você consegue manter tudo equilibrado, ensinar as crianças e tudo o mais. Bem que eu gostaria de ser como você.”

A admiração de Alice a comoveu e espantou. “Não tem nada de especial a meu respeito”, disse Olanna.

O pastor Ambrose estava entrando em frenesi. “Demônio, eu acabo com você! Satã, eu bombardeio você!”

“Como é que vocês fizeram para sair de Nsukka?”, perguntou Alice. “Perderam muita coisa?”

“Tudo. Saímos às pressas.”

“Foi a mesma coisa comigo, em Enugu. Não sei por que eles não nos contam a verdade, para estarmos preparados. O pessoal do Ministério da Informação passeou de caminhonete pela cidade toda, divulgando pelos alto-falantes que estava tudo bem, que eram só os nossos rapazes fazendo exercícios de tiro. Se eles tivessem dito a verdade, muitos estariam mais bem preparados e não teriam perdido tanto.”

“Mas você trouxe seu piano.” Olanna não gostou da maneira como Alice disse eles, como se ela não estivesse do mesmo lado.

“Foi a única coisa que eu trouxe de Enugu. Ele me mandou dinheiro e uma caminhonete, para me ajudar, no próprio dia em que Unugu caiu. Sua consciência culpada estava fazendo hora extra. Mais tarde, o motorista me disse que ele e a mulher tinham se mudado para a cidade natal deles algumas semanas antes. Imagine!”

“Sabe onde ele está agora?”

“Não sei nem quero saber. Se algum dia eu vir aquele homem de novo, ezi okwu m, eu o mato com as próprias mãos.” Alice ergueu as mãos pequeninas. Estava falando em ibo pela primeira vez, e, no seu dialeto de Asaba, o F tinha som de W. “Quando penso no que passei por causa daquele homem. Desisti do meu emprego em Lagos, vivia mentindo para a minha família, cortei relações com as amigas que diziam que ele não falava a sério.” Ela se curvou para apanhar alguma coisa da areia. “E ele nem sequer conseguia.”

“O quê?”

“Ele saltava em cima de mim, gemia oh-oh-oh feito um bode, e pronto, acabava.” Ela ergueu um dedo. “Com uma coisinha assim pequenina. E depois sorria todo satisfeito, nem se interessava em me perguntar se eu sabia quando ele tinha começado e quando tinha parado. Homens! Os homens são uns imprestáveis!”

“Não, nem todos eles. Meu marido sabe como fazer, e com um que é assim.” Olanna ergueu o punho fechado. Elas riram e Olanna pressentiu haver entre elas uma ligação feminina, vulgar e deliciosa.

 

Olanna esperou Odenigbo voltar para casa para lhe contar sobre a nova amizade com Alice, e sobre o que conversara com ela. Queria que ele chegasse em casa e a puxasse com força, do jeito como havia um bom tempo não fazia. Porém, quando chegou em casa, do Bar Tanzânia, trazia um revólver. A arma de cano duplo, longa, negra e sombria, estava sobre a cama. “Gini bu ife a? O que é isso?”, perguntou Olanna.

“Alguém lá no diretório me deu. É bem velhinha. Mas é bom ter, só para garantir.”

“Eu não quero uma arma aqui.”

“Estamos em guerra. Tem arma para todos os lados.” Ele tirou a calça e amarrou um pano na cintura, antes de tirar a camisa.

“Conversei com a Alice, hoje.”

“Alice?”

“A vizinha que toca piano.”

“Ah, sim.” Ele estava olhando a cortina que dividia o quarto.

“Você parece cansado”, disse ela. O que queria dizer era: Você parece triste. Se ao menos tivesse um serviço mais interessante, se ao menos tivesse algo onde pudesse afogar os momentos de dor fazendo coisa melhor.

“Estou bem”, disse ele.

“Acho que você devia ir ver Ezeka. Pedir a ele que o ajude a conseguir uma transferência. Mesmo que não seja no diretório dele, ele deve ter alguma influência sobre os outros diretores.”

Odenigbo pendurou a calça num prego na parede.

“Você escutou o que eu disse?”, perguntou Olanna.

“Eu não vou pedir nada a Ezeka.”

Olanna reconheceu aquela expressão — ele estava desapontado. Ela se esquecera de que eles tinham altos ideais. Eram pessoas de princípio; não pediam favores de amigos em posição de prestígio.

“Você poderia servir Biafra muito melhor se trabalhasse em outro lugar, onde pudesse usar seu cérebro e seu talento”, disse ela.

Olanna deu uma olhada para a bagunça que era a casa e o lar deles — a cama, dois tubérculos de cará, o colchão encostado na parede suja, as caixas de papelão e os sacos empilhados num canto, o fogareiro a querosene que ela levava para a cozinha só quando necessário — e sentiu uma onda de repugnância, o ímpeto de correr e correr até que estivesse bem longe de tudo aquilo.

Dormiram de costas um para o outro. Odenigbo já tinha saído quando ela acordou. Olanna tocou no seu lado da cama, passou a mão pelo lugar que ocupara, saboreou os últimos instantes da mornidão amarfanhada que ainda restava no lençol. Iria ela mesma falar com Ezeka. Pediria a ele que fizesse alguma coisa por Odenigbo. Saiu para ir ao banheiro dizendo “Bom dia” e “Acordou bem hoje?” a vários vizinhos, no caminho. Baby estava com as crianças mais novas, todas amontoadas em volta das bananeiras, escutando Papa Oji contar a história de como derrubara um avião inimigo em Calabar, com a sua pistola. As outras crianças varriam o quintal e cantavam:

Biafra, kunie, buso Nigeria agha,

Anyi emelie ndi awusa.

Ndi na-amaro chukwu,

Tigbue fa, zogbue fa,

Nwelu nwude Gowon.

Quando parou a cantoria, as rezas do pastor Ambrose pareceram ainda mais altas. “Deus abençoe Sua Excelência! Que Deus dê forças à Tanzânia e ao Gabão! Que Deus destrua a Nigéria, a Grã-Bretanha, o Egito, a Argélia e a Rússia! Em nome de Jesus todo-poderoso!”

Algumas pessoas gritaram Amém! de seus quartos. O pastor Ambrose segurava a Bíblia no alto, como se algum milagre sólido fosse cair sobre ela, direto do céu, e gritava palavras sem sentido: ela baba ela baba ela baba.

“Pare de falar besteira, pastor Ambrose, e se aliste no exército! Como é que essa sua falação de línguas vai ajudar nossa causa?”, perguntou Mama Oji. Estava na porta do quarto com um dos filhos, a cabeça dele coberta com um pano fumegando. Quando ele ergueu a cabeça para respirar, Olanna viu o preparado de urina, óleos, ervas e sabe Deus o que mais que Mama Oji decidira misturar para curar o filho da asma.

“A noite foi muito ruim para ele?”, perguntou.

Mama Oji deu de ombros. “Foi ruim, mas não muito ruim.” Virou-se para o filho. “Quer levar uns tapas, antes de inalar isso? Por que está deixando evaporar tudo?”

Ele inclinou a cabeça na tigela de novo.

“Jeová vai destruir Gowon e Adekunle!”, gritou o pastor Ambrose. “Cala a boca e se alista no exército!”, disse Mama Oji.

Alguém gritou de um dos quartos. “Mama Oji, deixe o pastor em paz! Primeiro mande seu marido voltar para o exército de onde ele fugiu!”

“Ao menos ele foi!”, foi a resposta rápida de Mama Oji. “Enquanto o seu marido vive a vida de um covarde amedrontado na floresta de Ohafia, para que nenhum soldado o encontre.”

Baby apareceu, vindo de trás da casa, com o cachorro atrás. “Mami Ola! Bingo vê espíritos. Quando ele late, à noite, significa que está vendo espíritos.”

“Não existem espíritos, Baby”, respondeu Olanna.

“Existem sim.”

Olanna não gostava nem um pouco das coisas que Baby estava aprendendo por ali. “Quem lhe disse isso, foi Adanna?”

“Não, foi o Chukwudi.”

“Onde está Adanna?”

“Está dormindo. Está doente”, disse Baby, e começou a espantar as moscas que rondavam a cabeça de Bingo.

Mama Oji resmungou: “Eu tenho dito a Mama Adanna que a doença da filha não é malária. Mas ela continua dando folha de margosa para ela tomar, e não acontece nada. Se não tem mais ninguém aqui disposto a dizer, digo eu: o que Adanna tem é a Síndrome de Harold Wilson, ho-ha.”

“Síndrome de Harold Wilson?”

“Kwashiorkor. A menina está com kwashiorkor.”

Olanna caiu na gargalhada. Não sabia que haviam rebatizado kwashiorkor com o nome do primeiro-ministro britânico, mas sua alegria se dissipou quando entrou no quarto de Adanna. A menina estava deitada numa esteira, os olhos semifechados. Olanna tocou em seu rosto, com o dorso da mão, para ver se estava com febre, embora soubesse que ela não tinha febre. Teria percebido logo ao entrar; a barriga de Adanna estava inchada e a pele tinha um tom doentio, bem mais claro que poucas semanas antes.

“Essa malária é muito teimosa”, disse Mama Adanna.

“Ela está com kwashiorkor”, disse Olanna, em voz baixa.

“Kwashiorkor”, repetiu Mama Adanna, olhando para Olanna com olhos assustados.

“Você tem que encontrar pitu ou então leite.”

“Leite, kwa? De onde?”, perguntou Mama Adanna. “Mas a gente tem um remédio para isso, aqui perto. Mama Obike me disse outro dia mesmo. Eu vou buscar um pouco.”

“Feito do quê?”

“De folhas contra kwashiorkor”, disse Mama Adanna, já a caminho da porta.

Olanna ficou espantada com a rapidez com que ela se embrulhou nos panos e avançou pelo mato, do outro lado da rua. Voltou momentos depois, segurando um ramo de folhas estreitas. “Vou fazer um mingau, agora”, disse.

“Adanna precisa de leite”, disse Olanna. “Isso aí não vai curar o kwashiorkor.”

“Deixa Mama Adanna sossegada. As folhas contra kwashiorkor vão funcionar, desde que ela não ferva as folhas por muito tempo”, disse Mama Oji. “Além do mais, os centros não têm nada para oferecer. E será que você não ouviu dizer que todas as crianças de Nnewi morreram, depois de tomar o leite doado? Os vândalos tinham envenenado tudo.”

Olanna chamou Baby, levou-a para dentro e tirou sua roupa.

“O Ugwu já me deu banho”, disse a menina, com ar espantado.

“Claro que já, meu amor”, disse Olanna, examinando-a com cuidado. Sua pele continuava da cor do mogno, o cabelo ainda estava preto e, embora mais magra, sua barriga não estava inchada. Olanna desejava tanto que o centro assistencial ainda estivesse aberto, e que Okoromadu ainda trabalhasse por lá, mas o rapaz fora transferido para Orlu, depois que o Conselho Mundial de Igrejas deu seu posto a um dos muitos pastores que não tinham mais uma paróquia.

Mama Adanna cozinhava as folhas na cozinha. Olanna pegou uma lata de sardinha e um pouco do leite em pó da caixa que Ezeka lhe mandara e deu a ela. “Não diga a ninguém que eu lhe dei isso. E dê para Adanna pouco a pouco.”

Mama Adanna agarrou Olanna. “Obrigada, obrigada, muito obrigada. Eu não conto a ninguém.”

Mas deve ter contado, porque, quando Olanna saiu para ir ao escritório do professor Ezeka, mais tarde, Mama Oji gritou: “Meu filho tem asma e leite não vai matá-lo!”.

Olanna não tomou conhecimento.

 

Andou até a estrada principal e parou sob a sombra de uma árvore. Toda vez que passava um carro, ela fazia sinal para que parasse. Um soldado numa caminhonete enferrujada acabou parando. Ela viu o olhar malicioso dele antes mesmo de ter entrado e sentado a seu lado, de modo que exagerou no sotaque inglês, certa de que ele não entenderia tudo o que dissesse, e falou o trajeto todo, mencionando que seu carro e o motorista estavam no mecânico. Ele disse pouca coisa, até deixá-la diante do prédio do diretório. Ele não sabia quem ela era, ou quem ela conhecia.

A secretária com cara de gavião deu uma longa olhada em Olanna, desde a peruca cuidadosamente escovada até os sapatos, e falou: “O professor Ezeka não está!”.

“Então ligue para ele e diga que eu estou esperando. Meu nome é Olanna Ozobia.”

A secretária pareceu surpresa. “Como?”

“Será que vou ter de repetir?”, perguntou Olanna. “Tenho certeza de que o professor vai querer saber disso. Onde posso sentar, enquanto você disca?”

A secretária encarou Olanna e ela a encarou de volta, sem pestanejar. Depois a secretária fez um gesto sem dizer nada, na direção de uma cadeira, e pegou o fone. Meia hora depois, o motorista do professor Ezeka chegou para levá-la até a casa dele, enfurnada em uma estradinha de terra pouco conhecida.

“Pensei que alguém tão importante como o senhor estaria morando numa Área Reservada ao Governo, professor”, disse Olanna, depois de cumprimentá-lo.

“Claro que não. É um alvo fácil demais para as bombas.” Ele não mudara em nada. Continuava com a mesma superioridade maçante de antes, quando lhe pediu para esperar até terminar o que estava fazendo no escritório.

Olanna mal tinha tido a chance de conhecer a sra. Ezeka em Nsukka; ela era tímida e pouco instruída, o tipo de esposa que a aldeia escolhera para ele, disse Odenigbo, uma vez. Portanto, teve de fazer um esforço para esconder a própria surpresa quando ela entrou e abraçou-a duas vezes, naquele aposento espaçoso.

“É tão bom ver os velhos amigos! Nós só saímos em ocasiões formais, hoje um evento no palácio do governo, amanhã outro.” O pendente de ouro da sra. Ezeka, preso a uma corrente em volta do pescoço, ressaltava o decote. “Pamela! Venha cumprimentar a tia.”

A menina que veio até a sala, segurando uma boneca, era mais velha que Baby, quem sabe teria uns oito anos. Tinha o mesmo rosto bochechudo da mãe, e as fitas de cetim cor-de-rosa no cabelo balançavam.

“Boa tarde”, disse ela. Estava tirando a roupa da boneca, arrancando a saia do corpo de plástico.

“Como está você?”, perguntou Olanna.

“Bem, obrigada.”

Olanna afundou num sofá macio, forrado de vermelho. Havia uma casa de bonecas, com minúsculos e delicados pratos e xícaras, no meio da mesa.

“O que quer beber?”, perguntou a sra. Ezeka, com vivacidade. “Lembro que Odenigbo adorava um conhaque. Nós até temos um conhaque muito bom.”

Olanna olhou para ela. A sra. Ezeka não poderia se lembrar do que Odenigbo bebia porque nunca tinha ido à casa deles com o marido.

“Eu gostaria de um pouco de água gelada”, disse Olanna.

“Só água gelada?”, perguntou ela. “De qualquer forma, podemos tomar alguma outra coisa depois do almoço.” E chamou o criado.

Ele apareceu imediatamente, como se estivesse escutando atrás da porta. “Traga água gelada e Coca”, disse a sra. Ezeka.

Pamela começou a choramingar, ainda lutando com as roupas da boneca.

“Vamos, calma, deixe que eu faço para você”, disse a mãe. Depois se virou para Olanna. “Ela está tão inquieta nos últimos tempos. É que nós já devíamos ter partido na semana passada. Os dois mais velhos já foram. Sua Excelência nos deu permissão faz muito tempo. Era para termos ido num avião de socorro, mas eles não estão conseguindo pousar. Disseram que havia bombardeiros nigerianos demais em volta. Você pode imaginar uma coisa dessas? Ontem, nós esperamos em Uli, dentro daquele prédio inacabado que eles chamam de terminal, por mais de duas horas, e não pousou avião nenhum. Mas, com sorte, nós iremos no domingo. Vamos voar até o Gabão e, de lá, para a Inglaterra — com passaportes nigerianos, claro! Os britânicos se recusam a reconhecer Biafra!” A risada dela encheu Olanna com um ressentimento tão pontiagudo e tão penoso quanto a ponta de uma agulha.

O empregado trouxe a água numa bandeja de prata.

“Tem certeza de que a água está na temperatura certa?”, perguntou a sra. Ezeka. “Estava na geladeira nova ou na velha?”

“Na nova, mah, como a senhora me disse para fazer.”

“Quer um pedaço de bolo, Olanna?”, perguntou a sra. Ezeka, depois que o empregado saiu. “Foi feito hoje.”

“Não, obrigada.”

O professor Ezeka entrou, segurando umas pastas. “É só isso que vai tomar? Uma água?”

“Sua casa é surreal”, disse Olanna.

“Que escolha mais estranha de adjetivo, surreal”, disse o professor Ezeka.

“Odenigbo está muito infeliz no diretório onde trabalha. Será que não poderia transferi-lo para um outro cargo?” As palavras saíram lentas da boca de Olanna e ela percebeu então o quanto odiava ter de pedir a ele, o quanto queria acabar logo com aquilo e deixar a casa de tapetes vermelhos e sofás combinando, o aparelho de televisão e o aroma frutado do perfume da sra. Ezeka.

“Está tudo muito difícil, na verdade, muito difícil”, disse o professor Ezeka. “Os pedidos chegam de todas as partes.” Sentou-se, pôs as pastas no colo e cruzou as pernas. “Mas vou ver o que posso fazer.”

“Obrigada”, disse Olanna. “E mais uma vez obrigada pelas provisões.”

“Pegue um pedaço de bolo”, disse a sra. Ezeka.

“Não, eu não quero bolo.”

“Quem sabe depois do almoço.”

Olanna levantou-se. “Não posso ficar para o almoço. Tenho de ir. Eu dou aulas para algumas crianças, no quintal, e disse a elas para se reunir daqui a uma hora.”

“Ah, mas que coisa adorável de fazer”, disse a sra. Ezeka, acompanhando Olanna até a porta. “Se eu não estivesse prestes a ir para o exterior, até poderíamos ter feito algo juntas, também, pela mobilização para vencer a guerra.”

Olanna forçou os lábios para formar um sorriso.

“O motorista leva você de volta”, disse o professor Ezeka.

“Obrigada.”

Antes de entrar no carro, a sra. Ezeka a convidou para ir ver o bunker novo que o marido construíra; era resistente, feito de concreto.

“Imagine no que esses vândalos nos reduziram. Pamela e eu às vezes dormimos aqui, quando os bombardeios são demais”, disse a sra. Ezeka. “Mas havemos de sobreviver.”

“Claro”, disse Olanna, olhando fixo para o chão liso, para as duas camas, para o subterrâneo todo mobiliado.

Quando voltou, Baby estava chorando. O muco saía aguado do nariz. “Eles comeram o Bingo”, disse Baby.

“O quê?”

“A mãe de Adanna comeu o Bingo.”

“Ugwu, o que foi que houve?”, perguntou Olanna, pegando Baby no colo.

Ugwu deu de ombros. “Isso é o que está todo mundo dizendo por aí. Que Mama Adanna levou o cachorro para fora, já faz um tempo, e agora não responde quando alguém bate na porta e pergunta onde ele está. E acabou de cozinhar uma sopa com carne.”

Olanna fez Baby parar de chorar, enxugou os olhos e o nariz, e pensou por um momento no cachorro, com sua cabeça cheia de feridas.

 

Kainene apareceu no meio de uma tarde quente. Olanna estava na cozinha, pondo algumas mandiocas secas de molho, quando Mama Oji chamou: “Tem uma mulher num carro, perguntando por você!”.

Olanna saiu apressada da cozinha e parou ao ver a irmã perto das bananeiras. Parecia elegante, num vestido havana que ia só até o joelho.

“Kainene!” Olanna estendeu os braços de leve, insegura, e Kainene adiantou-se alguns passos; o abraço que trocaram foi curto, os corpos mal se tocaram, e Kainene recuou.

“Fui até sua casa antiga e alguém me disse para procurá-los aqui.”

“Nosso senhorio nos expulsou, não éramos bons para os negócios.” Olanna riu da piada fraca que fizera, mas Kainene não. Ela espiava o quarto. Olanna queria tanto que a irmã tivesse aparecido quando ainda estavam numa casa, queria não se sentir tão dolorosamente sem graça.

“Entre e sente.”

Olanna arrastou o banco da varanda para dentro e Kainene olhou desconfiada, antes de sentar e pôr as mãos sobre a bolsa de couro com o mesmo tom de terra de sua peruca bem arrumada. Erguendo a cortina divisória, Olanna sentou-se na beira da cama, alisando os panos. Elas não se olharam. O silêncio estava carregado de coisas por dizer.

“E então, como você está?”, perguntou Olanna, finalmente.

“As coisas estavam normais até Port Harcourt cair. Eu era fornecedora do exército e tínhamos licença para importar caldo de peixe. Agora estou em Orlu. Sou encarregada de um centro de refugiados lá.”

“Ah.”

“Você está me condenando em silêncio por lucrar com a guerra? Alguém tinha de importar o caldo de peixe, você sabe.” Kainene ergueu as sobrancelhas; eram pintadas, dois finos arcos fluidos. “Muitos fornecedores receberam e não entregaram. Pelo menos eu entrego.”

“Não, não, eu não estava pensando nada disso.”

“Estava sim.”

Olanna desviou o olhar. Havia coisas demais rodopiando em sua cabeça. “Fiquei tão preocupada quando Port Harcourt caiu. Mandei recados.”

“Recebi a carta que você mandou para Madu.” Kainene rearrumou as alças da bolsa. “Você disse que estava dando aula. Ainda dá? É a sua contribuição para a nobre mobilização para a vitória?”

“A escola virou um centro de refugiados. Às vezes dou algumas aulas para as crianças aqui mesmo.”

“E como vai o seu marido revolucionário?”

“Continua trabalhando no Diretório dos Efetivos.”

“Você não tem uma foto do casamento?”

“Houve um ataque aéreo durante a recepção. O fotógrafo deixou a máquina cair.”

Kainene acenou a cabeça, como se não houvesse necessidade de sentir pena. Abriu a bolsa. “Vim para lhe dar isto. Mamãe mandou através de um jornalista britânico.”

Olanna segurou o envelope na mão, sem saber se devia ou não abrir na frente de Kainene.

“Também trouxe dois vestidos para Baby”, disse Kainene, com um gesto para o saco que tinha posto no chão. “Uma mulher que voltou de São Tomé tinha umas roupas infantis excelentes para vender.”

“Você comprou roupa para Baby?”

“Mas que chocante. E já está na hora de a mocinha começar a ser chamada de Chiamaka. Essa história de Baby é meio cansativa.”

Olanna riu.

Pensar que sua irmã estava sentada ali do lado, que sua irmã fora visitá-la, que sua irmã tinha levado roupas para sua filha. “Quer tomar uma água? É tudo que temos.”

“Não, estou bem.” Kainene levantou-se e foi até a parede, onde o colchão estava apoiado, depois voltou e sentou de novo. “Você não conheceu um empregado meu chamado Ikejide, conheceu?”

“Não foi o que Maxwell trouxe da aldeia dele?”

“Foi.” Kainene levantou-se outra vez. “Ele morreu em Port Harcourt. Estavam atirando bombas sobre nós, e um estilhaço cortou a cabeça dele, decepou a cabeça inteira, e o corpo continuou correndo. O corpo continuou correndo, e não tinha cabeça.”

“Deus.”

“Eu vi.”

Olanna levantou-se, foi sentar junto da irmã, no banco, e abraçou-a. Kainene tinha o cheiro de casa. Não disseram nada durante vários minutos.

“Pensei em trocar o dinheiro para você”, disse Kainene. “Mas pode fazer isso num banco, e depois depositar, não pode?”

“Você não viu as crateras de bombas em volta do banco? O meu dinheiro agora fica debaixo do meu colchão.”

“Então fique de olho nas baratas. A vida está dura para elas também, hoje em dia.” Kainene encostou-se em Olanna e, logo depois, como se tivesse se lembrado de algo, levantou-se e alisou o vestido; Olarma sentiu a lenta tristeza de perder alguém que ainda estava presente.

“Meu Deus, eu não tinha me dado conta das horas”, disse Kainene.

“Você vem me visitar de novo?”

Houve uma pausa, antes de Kainene dizer: “Eu passo o dia todo no centro de refugiados. Quem sabe você podia ir me ver.” Procurou por um papel dentro da bolsa e anotou o endereço de casa.

“Então eu vou. Vou na próxima quarta-feira.”

“E vai dirigindo?”

“Não. Por causa dos soldados. E porque não temos gasolina suficiente.”

“Dê um alô para o seu revolucionário por mim.” Kainene entrou no carro e ligou o motor.

“Suas placas são diferentes, agora”, disse Olanna, olhando para o VIG impresso antes dos números.

“Paguei um dinheiro a mais para ter meu patriotismo estampado nas placas. Vigilância!” Kainene ergueu as sobrancelhas e uma das mãos, antes de acelerar. Olanna viu o Peugeot 404 desaparecer na estrada e ficou ali um tempo, como se tivesse engolido uma fatia esfuziante de luz.

 

Na quarta-feira, Olanna chegou cedo. Harrison abriu a porta e ficou olhando, tão surpreso que parecia ter esquecido sua costumeira reverência. “Madame, bom dia! Faz tempo, já!”

Olanna sentou-se num dos dois sofás que havia na sala nua e luminosa, com suas janelas abertas de par em par. Havia um rádio ligado em algum lugar lá dentro, e, quando ouviu passos se aproximando, forçou a boca a relaxar, sem saber ao certo o que diria a Richard. Mas era Kainene, num vestido preto amassado, segurando a peruca na mão.

“Ejima m”, disse ela, abraçando Olanna. Foi um abraço apertado, os corpos das duas calorosamente perto um do outro. “Eu estava torcendo para que você viesse, assim podemos ir juntas ao centro de pesquisa, antes de ir para o centro de refugiados. Quer comer um pouco de arroz? Eu não tinha percebido quanto tempo fazia que eu não comia arroz até o pessoal da ajuda me dar um pouco, na semana passada.”

“Não, agora não.” Olanna queria continuar abraçada à irmã por muito mais tempo, cheirar aquele aroma familiar de casa.

“Eu estava ouvindo a rádio nigeriana. Lagos diz que os soldados chineses estão lutando do nosso lado e Kaduna diz que todas as mulheres ibos merecem ser estupradas”, disse Kainene. “A imaginação deles me impressiona.”

“Eu nunca ouço.”

“Pois eu ouço muito mais as rádios de Lagos e Kaduna do que a Rádio Biafra. É preciso manter os inimigos sempre perto.”

Harrison entrou e fez uma mesura. “Madame? Estou trazendo drinques?”

“Do jeito como ele fala, parece que temos uma adega colossal nesta casa inacabada no meio do nada”, resmungou Kainene, penteando a peruca com os dedos.

“Madame?”

“Não, Harrison, não traga nada agora. Vamos sair. Lembre-se, almoço para duas pessoas.”

“Sim, madame.”

Olanna se perguntou onde estaria Richard.

“Harrison é o camponês mais pretensioso que já vi na vida”, disse Kainene, já a caminho do carro. “Eu sei que você não gosta da palavra camponês.”

“Não.”

“Mas é o que ele é, sabia?”

“Somos todos camponeses.”

“Somos, é? Isso é o tipo de coisa que Richard diria.”

A garganta de Olanna pareceu ressecar no mesmo instante.

Kainene deu uma olhada para ela. “Richard saiu bem cedinho, hoje. Ele vai ao Gabão, visitar um centro que cuida de pacientes de kwashiorkor, na próxima semana, e disse que precisava providenciar algumas coisas. Mas acho que saiu assim tão cedo porque ficou sem graça, sem saber como seria rever você.”

“Ah.” Olanna franziu a boca.

Kainene dirigia com uma confiança descuidada, passou por buracos na estrada, por palmeiras sem folhagem, e por um soldado magro que puxava um bode mais magro ainda.

“Você alguma vez já sonhou com aquela cabeça de criança que viu numa cabaça?”, perguntou.

Olanna olhou pela janela, lembrando as linhas entrecruzadas da cabaça, a inexpressividade branca dos olhos da criança. “Eu nunca me lembro dos meus sonhos.”

“O vovô costumava dizer, sobre as dificuldades que havia enfrentado na vida: ‘Não me matou, só me fez mais sábio’. O gburo m egbu, o mee ka m malu ife.”

“Eu lembro.”

“Há certas coisas que são tão imperdoáveis que tornam outras facilmente desculpáveis”, disse Kainene.

Houve um silêncio. Dentro de Olanna, alguma coisa calcificada saltou de volta à vida.

“Sabe do que estou falando?”, perguntou Kainene.

“Sei.”

No centro de pesquisa, Kainene estacionou debaixo de uma árvore e Olanna esperou no carro. Voltou apressada momentos depois. “O homem com quem eu quero falar não está”, disse ela, e ligou o carro. Olanna não disse mais nada até chegarem ao centro de refugiados. Era uma escola primária antes da guerra. Os prédios pareciam descorados e quase toda a tinta branca com que foram pintados descascara. Alguns refugiados do lado de fora pararam para olhar para Olanna e dizer nno a Kainene. Um padre jovem e esbelto, numa sotaina desbotada, se aproximou do carro.

“Padre Mareei, minha irmã gêmea Olanna”, disse Kainene.

O padre se surpreendeu. “Bem-vinda”, disse, acrescentando em seguida, desnecessariamente: “Vocês não são idênticas”.

Ficaram à sombra de um tulipeiro-da-áfrica, enquanto o padre contava a Kainene que o saco de pitu fora entregue, que a Cruz Vermelha de fato suspendera os vôos de auxílio, que Inatimi tinha aparecido um pouco mais cedo com alguém da Organização dos Freedom Fighters de Biafra e que dissera que voltaria depois. Olanna viu Kainene falando. Não escutou muita coisa porque estava pensando em como era inabalável a confiança dela.

“Vamos dar uma volta em tudo”, disse Kainene para Olanna, depois que o padre Mareei se foi. “Sempre começo com o bunker.” Kainene lhe mostrou o abrigo antiaéreo, um buraco cavado de forma rudimentar e coberto por troncos, antes de começar a andar na direção do prédio do outro lado do compound. “Agora, ao Ponto Sem Volta.”

Olanna seguiu a irmã. O cheiro a pegou já na primeira porta. Foi direto do nariz para o estômago e revirou o cará cozido que comera no café-da-manhã.

Kainene observava a irmã. “Você não precisa entrar.”

“Mas eu quero”, disse Olanna, porque achava que devia. Mas não queria. Não sabia o que era aquele cheiro, mas ele ia aumentando, quase podia enxergá-lo, uma nuvem suja e marrom. Sentia-se tonta. Entraram na primeira sala de aula. Havia uma dúzia de pessoas deitadas em catres de bambu, em esteiras, no chão. Nenhuma estendia a mão para espantar as moscas gordas que pousavam. O único movimento que Olanna viu foi o de uma criança sentada na porta: ela cruzava e descruzava os braços. Seus ossos estavam claramente delineados e a pele grudada de uma forma que não seria possível se tivesse alguma carne por baixo da pele. Kainene vistoriou a sala rapidamente e virou-se para a porta. Lá fora, Olanna respirou fundo. Na segunda sala de aula, era como se o próprio ar estivesse se tornando sujo; Olanna sentiu vontade de tapar o nariz, para evitar que o ar de fora se misturasse ao ar de dentro. Viu uma mãe sentada no chão, com dois filhos deitados do lado. Olanna não saberia dizer quantos anos eles tinham. Estavam nus; as bolas retesadas da barriga não caberiam numa camisa. As nádegas e o peito estavam caídos, eram pregas de pele enrugada. Na cabeça, chumaços de cabelo avermelhado. Os olhos de Olanna encontraram os da mãe, que olhava fixamente para ela; desviou a vista. Espantou uma mosca do rosto, pensando em como pareciam saudáveis, as moscas, como pareciam vivas, vibrantes.

“Essa mulher está morta. Temos que removê-la daqui”, disse Kainene.

“Não!”, deixou escapar Olanna, porque aquela mulher de olhar fixo não podia estar morta. Porém Kainene estava falando de uma outra, deitada de bruços no chão, com um bebê muito magro agarrado a suas costas. Kainene foi até ela e pegou o bebê. Saiu e gritou: “Padre! Padre! Mais um enterro”, depois sentou na escada, segurando a criança. O bebê deveria ter chorado. Kainene estava tentando forçar um comprimido de levedura, de cor cinzenta, na boca da criança.

“O que é isso?”, perguntou Olanna.

“Tabletes de proteína. Vou lhe dar alguns para você dar a Chiamaka. Eles têm um gosto horroroso. Finalmente consegui que a Cruz Vermelha me fornecesse um lote, na semana passada. Não temos o suficiente, claro, de modo que guardo só para as crianças. Mesmo que eu desse isso aos adultos, para a maior parte não faria diferença. Mas talvez faça para este bebê. Talvez.”

“Por dia, quantos morrem?”, perguntou Olanna.

Kainene olhou para o bebê. “A mãe dele veio de algum lugar que foi tomado logo no começo. Eles já tinham passado por cinco centros de refugiados antes de vir para cá.”

“Por dia, quantos morrem?”, insistiu Olanna. Mas Kainene não respondeu. O bebê finalmente abriu a boca para dar um pequeno berro e Kainene forçou o tablete para dentro. Olanna viu o padre Mareei e outro homem, um pegando pelos pulsos, outro pelos tornozelos, levarem a mulher morta para os fundos do prédio.

“Às vezes, eu odeio eles todos”, disse Kainene.

“Os vândalos.”

“Não, eles.” Kainene apontou para a sala de aula. “Eu os detesto por morrerem.”

Kainene levou o bebê para dentro e deu-o para outra mulher, parente da falecida, cujo corpo esquelético tremia; como estava com os olhos secos, Olanna levou alguns momentos para perceber que chorava, com a criança apertada contra os seios secos.

Mais tarde, enquanto caminhavam de volta para o carro, Kainene pegou na mão de Olanna.