Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 37 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 36

 

Richard andou até o pomar e foi até o lugar onde costumava sentar para olhar o mar. Sua laranjeira predileta se fora. Muitas das árvores haviam sido derrubadas e o pomar agora tinha trechos de grama cultivada. Olhou para o ponto onde Kainene queimara seu manuscrito e lembrou-se de que, dias antes, em Nsukka, não sentira nada, absolutamente nada, vendo Harrison cavar o jardim sem parar. “Desculpe, sah. Eu enterro o mãoscrito aqui, eu sei que enterro aqui.”

A casa de Kainene fora pintada de um verde desmaiado; a buganvília que coroava a varanda tinha sido derrubada. Richard deu a volta até a porta da frente, tocou a campainha e imaginou Kainene saindo e dizendo que estava tudo bem com ela, que simplesmente resolvera passar um tempo sozinha. A mulher que apareceu tinha tênues marcas tribais no rosto, duas linhas em cada face. Ela abriu só uma fresta da porta. “Pois não?”

“Boa tarde”, disse Richard. “Meu nome é Richard Churchill. Sou o noivo de Kainene Ozobia.”

“Sim?”

“Eu vivia nesta casa. Esta casa é de Kainene.”

O rosto da mulher enrijeceu. “Isto era propriedade abandonada. Agora é minha casa.” E começou a fechar a porta.

“Por favor, espere”, disse Richard. “Eu gostaria de pegar nossas fotos, por favor. Será que posso ficar com algumas fotos de Kainene? As que estão no álbum, na estante do escritório?”

A mulher assobiou. “Eu tenho um cachorro feroz e se você não for embora agora, eu ponho ele atrás de você.”

“Por favor, só as fotos.”

A mulher assobiou de novo. De algum lugar, lá dentro, Richard escutou um cachorro grunhir. Virou-se lentamente e foi embora. Enquanto dirigia, as janelas abertas, o cheiro do mar no nariz, pensou nas muitas vezes em que Kainene o tinha conduzido por aquela mesma estrada solitária. Na cidade, passou por uma mulher alta, mas ela tinha a pele clara demais para ser Kainene. Demorara para ir até Port Harcourt porque queria primeiro encontrá-la, para irem juntos visitar a casa, verem juntos o que tinham perdido. Ela tentaria recuperá-la, ele tinha certeza, escreveria petições, iria a juízo, contaria para todo mundo que o governo federal tinha roubado sua casa, naquele seu jeito destemido. Da mesma forma que impedira que aquele soldado apanhasse mais ainda. Era a última lembrança total que tinha dela, e a mente fazia edições a seu bel-prazer — às vezes os panos amarfanhados de sono que trazia na cintura eram salpicados de ouro, outras vezes, de vermelho.

Mas não teria voltado àquela casa se a mãe de Kainene não tivesse pedido.

“Vá até a casa, Richard, por favor vá dar uma olhada.” A voz ao telefone era um fiapo. Durante as primeiras conversas, depois que o casal voltou de Londres, ela parecia tão diferente, tão cheia de certeza.

“Kainene deve ter ficado ferida em algum lugar. Precisamos espalhar isso. E temos de fazer isso rápido, para poder transferi-la para um hospital melhor. Quando ela ficar boa, vou lhe perguntar o que ela acha que podemos fazer a respeito daquela ovelha ioruba que achávamos que era um amigo. Imagine o sujeito nos obrigando a comprar nossa própria casa. Imagine forjar documentos de propriedade e tudo o mais e dizer que devíamos agradecer por ele não estar pedindo muito; e, além disso, levou a mobília. O pai de Kainene morre de medo de dizer qualquer coisa. Ficou agradecido porque manteve uma casa que já era sua. Kainene jamais toleraria uma coisa dessas.”

Ela agora estava diferente. Era como se, com o passar do tempo, tivesse se esvaziado da fé. Apenas vá e dê uma olhada na casa. Não falava mais em coisas específicas, definitivas. Madu estava com eles, em Lagos, agora que fora solto de sua longa detenção no presídio Alagbon; agora que fora demitido do exército nigeriano; agora que recebera cinquenta libras por todo o dinheiro que tinha antes e durante a guerra. Foi Madu quem obteve a notícia de que uma mulher alta, magra e instruída fora encontrada vagando em Onitsha. Richard foi com Olanna para Onitsha e a mãe encontrou com eles na cidade, mas a mulher não era Kainene. Richard tinha tamanha certeza de que seria Kainene — ela estava com amnésia, esquecera sua identidade, tudo fazia sentido —, que, quando olhou nos olhos da estranha, pela primeira vez sentiu ódio profundo de uma pessoa que nem conhecia.

Pensava nisso indo para Umuahia, onde pretendia visitar o centro de deslocados de guerra. O prédio estava vazio. Ali perto, uma cratera de bomba continuava escancarada, sem conserto. Teve de rodar um pouco antes de achar o endereço que Ugwu lhe dera. A mulher de idade que ele cumprimentou parecia totalmente indiferente, como se fosse usual um branco falando ibo aparecer na sua porta e perguntar por uma parente. Isso deixou Richard surpreso; estava acostumado com pessoas reparando, se maravilhando com um branco falando ibo. Ela lhe trouxe um banquinho. Contou-lhe que era irmã do pai de Eberechi e, assim que ela lhe contou o que tinha acontecido com Eberechi, Richard tomou a decisão de não contar a Ugwu. Jamais contaria a Ugwu. A tia de Eberechi tinha um lenço branco na cabeça e panos encardidos em volta do peito, e falava tão baixinho que Richard tinha de pedir para ela repetir. Ela olhou para ele uns momentos antes de lhe dizer, de novo, que Eberechi tinha sido morta num ataque, que isso acontecera no dia em que Umuahia caíra, e que, poucos dias depois, o irmão de Eberechi, que servia o exército, voltou, são e salvo. Richard não sabia por quê, mas contou à mulher sobre Kainene.

“Minha mulher saiu para fazer um ataque afia, alguns dias antes de a guerra terminar, e nunca mais a vimos.”

A mulher deu de ombros. “Um dia você vai ficar sabendo.”

Richard pensava nessas palavras, a caminho de Lagos, no dia seguinte, e se convenceu ainda mais de que não devia dizer a Ugwu que Eberechi tinha morrido. Um dia, Ugwu saberia. Por enquanto, não iria estraçalhar seu sonho.

Chovia quando chegou a Lagos. No rádio do carro, o discurso de Gowon era transmitido mais uma vez: Sem vencedores e sem vencidos. Jornaleiros ambulantes circulavam entre os carros, com o jornal dentro de sacos plásticos. Ele não lia mais jornais porque todos que abria pareciam ter o anúncio que os pais de Kainene haviam mandado publicar, com uma foto dela tirada na piscina, sob a manchete desaparecida. Era deprimente, tão deprimente quanto tia Elizabeth lhe dizendo para “ser forte”, com a voz trêmula ao telefone, como se houvesse alguma coisa que ela sabia e ele não. Richard não precisava ser forte para nada. E Kainene não estava desaparecida; estava só dando um tempo, antes de voltar para casa.

A mãe dela o abraçou. “Você tem comido, Richard?”, perguntou, com um tom carinhoso, familiar, do mesmo jeito que uma mãe falaria com um filho que não estivesse se cuidando direito. Ela o segurou bem perto, apoiando-se nele para entrar na sala esparsamente mobiliada, e ele teve a sensação agradável e incômoda de que de alguma forma ela achava estar se segurando em Kainene ao segurá-lo.

O pai de Kainene estava sentado com Madu e dois outros homens de Umunnachi. Richard apertou a mão de todos e sentou-se. Tomavam cerveja, falando sobre o decreto de indianização e sobre funcionários públicos sem emprego. Conversavam em voz baixa, como se nem dentro de casa fosse bastante seguro. Richard levantou-se e foi até o antigo quarto de Kainene, mas não restava mais nada dela. As paredes estavam crivadas de pregos; talvez o ocupante ioruba tivesse pendurado várias fotos.

O cozido que foi servido ao almoço tinha pitu demais; Kainene não teria gostado, teria se inclinado para ele para lhe dizer isso. Depois do almoço, Richard e Madu foram sentar na varanda. A chuva havia parado e as folhas pareciam mais verdes.

“Os estrangeiros dizem que houve um milhão de mortos”, disse Madu. “Não pode ser verdade.”

Richard aguardou. Não sabia muito bem se queria entrar numa daquelas conversas que quase todo biafrense travava agora, passando grãos de culpa para os outros e besuntando a própria cara com o valor que nunca tiveram. Queria se lembrar de como ele e Kainene tinham ficado ali, olhando para baixo, para a piscina prateada.

“Não pode ser só um milhão.” Madu deu um gole na cerveja. “Vai voltar para a Inglaterra?”

A pergunta o irritou. “Não.”

“Vai ficar em Nsukka?”

“Vou. Entrei para o novo Instituto de Estudos Africanos.”

“Está escrevendo alguma coisa?”

“Não.”

Madu pôs o copo de cerveja na mesinha; gotículas de água se acumulavam sobre ele como minúsculos pedregulhos transparentes. “Não entendo como nós não pudemos descobrir nada sobre Kainene, não entendo mesmo”, disse ele.

Richard não gostou do som de nós, não sabia quem Madu incluía ali. Levantou-se, atravessou a varanda e olhou para a piscina seca; o chão era feito de uma pedra esbranquiçada e polida, visível através do tênue lençol de água da chuva. Virou-se para Madu. “Você a ama, não é?”

“Claro que eu a amo.”

“Alguma vez tocou nela?”

A risada de Madu foi curta e áspera.

“Alguma vez tocou nela?”, Richard perguntou de novo, e Madu de repente era o responsável pelo desaparecimento de Kainene. “Alguma vez tocou nela?”

Madu levantou-se, Richard esticou-se e agarrou seu braço. Volte aqui, ele queria dizer, volte aqui e me diga se alguma vez botou essa mão preta imunda nela. Madu se desvencilhou da mão de Richard. Richard o esbofeteou e sentiu a mão começar a latejar.

“Seu idiota”, disse Madu, surpreso, ligeiramente fora de prumo.

Richard viu o braço de Madu erguer-se, viu o movimento rápido e borrado de um murro por vir. O soco veio direto no nariz, a dor explodiu pelo rosto e seu corpo pareceu muito leve ao cair no chão. Quando tocou no nariz, viu sangue nos dedos.

“Seu idiota”, repetiu Madu.

Richard não conseguia se levantar. Tirou o lenço do bolso; as mãos tremiam e um pouco de sangue pingara na camisa. Madu observou-o alguns momentos, depois se agachou, pegou o rosto de Richard entre as duas mãos largas e examinou bem de perto o nariz. Richard sentiu o cheiro de pitu no hálito dele.

“Não quebrei seu nariz”, disse Madu, endireitando o corpo.

Richard apalpou o nariz. A escuridão desceu sobre ele e, quando ela sumisse, sabia que nunca mais veria Kainene, que sua vida seria sempre como um quarto iluminado à vela; veria as coisas apenas em sombras, apenas em semilampejos.