Meio Sol Amarelo
Capítulo 2
Olanna meneava a cabeça ao ritmo da música High Life que tocava no rádio do carro. Estava com a mão sobre a coxa de Odenigbo; sempre que ele precisava mudar de marcha, ela erguia e depois punha a mão de volta, rindo quando ele a chamava de Afrodite perturbadora. Era divertido estar sentada ao lado dele, com as janelas abertas, respirando o ar empoeirado, ao som das batidas sonhadoras de Rex Lawson. Odenigbo tinha uma aula dali a duas horas, mas insistira em levá-la até o aeroporto de Enugu e, ainda que tivesse fingido discordar, ela queria que ele fosse. Enquanto rodavam pela estrada estreita que cortava Milliken Hill, com um penhasco profundo de um lado e uma encosta íngreme do outro, ela não disse que ele estava dirigindo depressa demais. Tampouco olhou para a placa na estrada, que dizia, em letras toscas, NÃO DIRIJA ENFURECIDO PARA NÃO SER O FALECIDO.
E não gostou quando viu a silhueta elegante dos aviões sobrevoando o aeroporto, preparando a aterrissagem. Odenigbo parou o carro diante da entrada em arcos. Os carregadores rodearam o carro e disseram: “Sah? Madame? Tem bagagem pra carregar?”, porém Olanna mal ouviu o que diziam porque ele a puxara para si.
“Mal posso esperar, nkem”, disse ele, com os lábios comprimidos nos dela. A boca de Odenigbo tinha gosto de geleia de laranja. Ela queria lhe dizer que também mal podia esperar para se mudar para Nsukka, mas ele já sabia disso e estava com a língua em sua boca; ela sentiu uma nova quentura no meio das pernas.
A buzina de um carro soou. Um carregador exclamou: “Olha, este lugar é só pra descarregar! Só pra descarregar!”.
Por fim, Odenigbo a soltou e saiu do carro para tirar a bagagem do porta-malas. Levou a mala até o balcão de embarque. “Faça uma boa viagem, ije orna”, disse ele.
“Dirija com cuidado”, disse ela.
E ficou vendo Odenigbo se afastar, um homem musculoso de calça esporte e camisa de manga curta que parecia engomada a ferro. Ele caminhava com uma confiança agressiva — tinha o andar de alguém que jamais pediria uma informação, de quem sempre teria certeza de chegar, de um jeito ou de outro. Depois que ele se foi, baixou a cabeça e cheirou-se. Logo de manhã, no impulso, passara umas gotas da colônia Old Spice dele, e não contara nada porque Odenigbo daria risada. Ele jamais entenderia aquela sua superstição de levar consigo um pouco de seu aroma. Era como se o perfume pudesse, ao menos por uns tempos, abafar as perguntas e fazer dela alguém mais parecida com ele, um pouco mais certa, um pouco menos duvidosa.
Virando-se para o atendente, escreveu seu nome num papel. “Boa tarde. Uma passagem só de ida para Lagos, por favor.”
“Ozobia?” O rosto bexiguento do rapaz iluminou-se com um vasto sorriso. “Filha do chefe Ozobia?”
“Sou.”
“Ah! Muito bem, madame. Vou pedir ao carregador que a leve até o saguão VIP.” E virou-se para o lado. “Ikenna! Onde foi parar esse inútil? Ikenna!”
Olanna abanou a cabeça e sorriu. “Não, não precisa.” E sorriu de novo, tranquilizadoramente, para deixar claro que não era culpa dele o fato de não querer ir para o saguão vip.
O saguão geral estava lotado. Olanna sentou-se em frente a três crianças com roupas surradas e sandálias, que riam de vez em quando, enquanto o pai lançava olhares severos para elas. Uma senhora, com uma fisionomia azeda e enrugada, a avó deles, estava mais perto de Olanna, agarrada à bolsa e cochichando sozinha. Olanna sentiu o cheiro de mofo dos panos que vestia; devia tê-los desenterrado de algum antigo baú só para a ocasião. Quando uma voz nítida anunciou a chegada de um vôo da Nigeria Airways, o pai deu um salto da cadeira e depois sentou de novo.
“O senhor deve estar esperando alguém”, disse Olanna, em ibo.
“Estou, nwanne m, meu irmão, que está vindo do exterior, depois de quatro anos estudando lá.” Seu dialeto de Owerri vinha carregado de um forte sotaque rural.
“Que bom!”, disse Olanna. Ela queria perguntar de onde o irmão estava vindo e o que tinha estudado, mas controlou-se. Ele talvez não soubesse.
A avó virou-se para ela. “Foi o primeiro do nosso povoado a ir para o exterior, e nossa gente preparou uma dança para ele. Os dançarinos vão se encontrar conosco em Ikeduru.” Ela sorriu, orgulhosa em mostrar os dentes marrons. Seu sotaque era ainda mais forte — difícil entender tudo que ela dizia. “As outras mulheres têm ciúmes, mas por acaso é culpa minha se os filhos delas não têm nada no cérebro e o meu ganhou a bolsa dos brancos?”
Chegou outro vôo e o pai disse: “Chere! Será o dele? É o dele!”.
As crianças se levantaram, o pai pediu que sentassem de novo e levantou-se ele próprio. A avó apertou a bolsa na barriga. Olanna viu o avião descer. Quando pousou e começou a taxiar na pista, a avó gritou e deixou cair a bolsa.
Olanna assustou-se. “O que foi? O que foi?”
“Mama!”, disse o pai.
“Por que aquilo não pára?”, perguntou a avó, com as duas mãos na cabeça, desesperada. “Chi m! Meu Deus! Vou ter problema. Para onde é que ele está levando o meu filho, agora? Vocês me enganaram, por acaso?”
“Mama, ele vai parar”, disse Olanna. “É isso que o avião faz quando aterrissa.” Apanhou a bolsa dela e, depois, pegou a mão cheia de calos. “Ele vai parar”, disse de novo.
Não soltou da avó até o avião parar e ela retirar a mão, enquanto resmungava alguma coisa sobre gente burra que não sabia fazer aviões direito. Olanna viu a família correr para o portão de desembarque. Minutos depois, enquanto ia para o portão de embarque, olhou várias vezes para trás, para ver se via o filho que vinha do exterior. Mas não viu nada.
O vôo foi turbulento. O homem sentado na poltrona ao lado comia noz-de-cola, fazendo muito barulho ao mastigar, e, quando se virou para puxar conversa, ela foi se encolhendo devagar até ficar prensada contra a parede do avião.
“Eu preciso dizer que você é muito linda”, disse ele.
Ela sorriu, agradeceu e manteve os olhos no jornal. Odenigbo iria achar graça, quando ela contasse, ele sempre ria dos admiradores dela, com sua confiança inquebrantável. Foi o que primeiro a atraiu para ele, naquele dia de junho, dois anos antes, em Ibadã — aquele tipo de dia chuvoso que se veste com a cor do poente ainda que seja meio-dia. Ela estava de férias, tinha chegado da Inglaterra. E seu caso com Mohammed era sério. De início, não reparou em Odenigbo, parado na sua frente, na fila da bilheteria do teatro universitário. Talvez nunca tivesse reparado nele, se não fosse por um homem branco de cabelos grisalhos, atrás dela, e um bilheteiro fazendo sinal para que passasse na frente de todo mundo. “Deixe que eu ajudo o senhor com isso”, disse, com aquele cômico sotaque de “branco” que as pessoas mais simples gostam de inventar.
Olanna se aborreceu, mas não muito, porque sabia que a fila andaria depressa de todo modo. Por isso se surpreendeu com a explosão de um homem que usava um traje safári marrom e segurava um livro: Odenigbo. Ele foi até o guichê, levou o branco de volta para a fila e, depois, gritou para o bilheteiro: “Seu energúmeno! Quer dizer que você vê um branco e já fica achando que ele é melhor que seu próprio povo? Você vai ter que pedir desculpas à fila toda! E é agora!”.
Olanna olhou bem para ele, para o arco das sobrancelhas por trás dos óculos, para os músculos do corpo, já pensando na melhor forma de se desvencilhar de Mohammed. Talvez soubesse desde o início que Odenigbo era diferente, ainda que ele não tivesse dito nada; só o corte de cabelo já dizia tudo, uma cabeleira e tanto, feito um halo. Mas havia também naquele homem um cuidado especial consigo; não era dos que usam o descuido para substanciar o radicalismo. Ela sorriu e disse “Muito bem!” quando ele passou por ela, sua maior ousadia até então, a primeira vez que exigia a atenção de um homem. Ele parou e se apresentou. “Eu me chamo Odenigbo.”
“Eu me chamo Olanna”, disse ela, e, mais tarde, contaria a ele que sentiu a magia estalando no ar; ele diria que, naquele momento, seu desejo foi tão intenso que a virilha doeu.
Quando finalmente sentiu aquele mesmo desejo, ficou acima de tudo espantada. Não sabia que o pênis de um homem podia apagar a memória, que era possível pairar num lugar onde não havia pensamentos nem lembranças, só sentimentos. Depois de dois anos, a intensidade não diminuíra, assim como não diminuíra seu espanto com as excentricidades autoconfiantes e a moralidade feroz de Odenigbo. Porém temia que essa força viesse do relacionamento espaçado que mantinham. Ela o via quando voltava para casa de férias; eles trocavam cartas; falavam ao telefone. Porém, agora que estava definitivamente na Nigéria, viveriam juntos, e ela não entendia como é que Odenigbo não demonstrava um pouco de incerteza. Ele tinha confiança demais.
Ela olhou para as nuvens do lado de fora da janela, densas massas brancas deslizando em volta, e pensou que eram, todas elas, criaturas muito frágeis.
Olanna não queria jantar com os pais, sobretudo porque eles haviam convidado o chefe Okonji. Porém a mãe foi até seu quarto para lhe pedir por favor que fosse; não era todos os dias que tinham oportunidade de receber o ministro das Finanças, e esse jantar era ainda mais importante por causa do contrato de construção que seu pai estava querendo. “Biko, vista alguma coisa bonita. Kainene também vai se vestir”, acrescentou a mãe, como se, ao mencionar a irmã gêmea, tudo ficasse legitimado.
No momento, Olanna alisava o guardanapo no colo, sorrindo para o garçom que punha um pratinho com metade de um abacate na sua frente. O uniforme branco estava tão engomado que a calça parecia ser de papelão.
“Obrigada, Maxwell”, disse ela.
“Às ordens, tia”, murmurou Maxwell, e foi em frente com a bandeja.
Olanna olhou em volta da mesa. Os pais estavam concentrados no chefe Okonji, balançando a cabeça animados, escutando uma história sobre um encontro recente dele com o primeiro-ministro Balewa. Kainene inspecionava seu prato com aquela sua expressão brejeira, como se estivesse zombando do abacate. Ninguém mais agradeceu Maxwell. Olanna gostaria que tivessem dito alguma coisa; algo tão simples de fazer, reconhecer o lado humano das pessoas que nos servem. Um dia até sugerira isso; o pai disse que pagava um bom salário aos empregados e a mãe disse que agradecer abriria espaço para que fossem malcriados, ao passo que Kainene, como sempre, não disse nada, e continuou com a mesma fisionomia entediada de sempre.
“Este é o melhor abacate que eu como em muitos anos”, disse o chefe Okonji.
“Veio de uma de nossas fazendas”, disse a mãe. “A que fica perto de Asaba.”
“Vou pedir ao garçom que separe alguns para o senhor levar”, disse o pai.
“Ótimo”, disse o chefe Okonji. “Olanna, espero que esteja gostando do seu. Você está aí, olhando para ele, como se o abacate pudesse morder.” Ele riu, uma gargalhada forçada, e seus pais imediatamente riram também.
“Está muito bom.” Olanna ergueu os olhos. Havia qualquer coisa de úmido no sorriso do chefe Okonji. Na semana anterior, quando ele enfiara o cartão de visitas em sua mão, no Ikoyi Club, ela havia ficado preocupada com aquele sorriso, porque parecia que o movimento dos lábios provocava ainda mais saliva que ameaçava transbordar queixo abaixo.
“Espero que tenha pensado em vir se juntar a nós no ministério, Olanna. Precisamos de cérebros de primeira ordem, como o seu”, continuou ele.
“Quantas pessoas recebem um convite pessoal do ministro das Finanças para trabalhar no ministério?”, disse a mãe, para ninguém em especial, com um sorriso iluminando o rosto oval e escuro que era mais que perfeito, tão simétrico que amigos a chamavam de Arte.
Olanna pôs a colher no prato. “Eu decidi ir para Nsukka. Vou partir em duas semanas.”
Ela viu a maneira como o pai comprimiu os lábios. A mãe deixou a mão suspensa no ar por alguns instantes, como se a notícia fosse trágica demais para que continuasse salpicando sal na comida. “Pensei que você ainda não tivesse decidido”, disse ela.
“Não posso adiar mais, caso contrário eles vão oferecer o cargo para outra pessoa”, disse Olanna.
“Nsukka? É isso mesmo? Você resolveu se mudar para Nsukka?”, perguntou o chefe Okonji.
“Exato. Eu me candidatei a uma vaga como professora do Departamento de Sociologia e consegui”, disse Olanna. Em geral, gostava de comer o abacate sem sal, mas estava sem gosto, agora, quase nauseante.
“Ah. Quer dizer então que vai nos deixar”, continuou o chefe Okonji. Seu rosto parecia ter derretido, dobrando-se sobre si mesmo. Mas ele se virou e perguntou, com falsa vivacidade: “E quanto a você, Kainene?”.
Kainene olhou o chefe Okonji bem nos olhos com aquela sua expressão neutra, tão vazia que era quase um ato de hostilidade. “E quanto a mim, é o que eu me pergunto.” Ergueu as sobrancelhas. “Eu também vou pôr meu recém-adquirido diploma em uso. Vou me mudar para Port Harcourt para administrar os negócios de papai por lá.”
Olanna gostaria de ainda ter aqueles lampejos, aqueles momentos em que sabia o que Kainene estava pensando. Quando faziam o primário, às vezes olhavam uma para a outra e riam, sem precisar dizer nada, porque estavam pensando na mesma coisa engraçada. Duvidava que Kainene ainda tivesse esses momentos, já que não falavam mais sobre isso. Aliás, não conversavam mais sobre coisa nenhuma.
“Quer dizer que Kainene vai administrar a fábrica de cimento?”, perguntou o chefe Okonji, virando-se para o pai.
“Ela vai controlar tudo que temos no leste, as fábricas e nossos novos investimentos em petróleo. Ela sempre teve um excelente olho para os negócios.”
“Quem disser que você levou a pior por ter filhas gêmeas está mentindo”, disse o chefe Okonji.
“Kainene não é só como um filho, ela é como dois filhos homens”, disse o pai. Olhou para Kainene e Kainene desviou o olhar, como se o orgulho no rosto dele não importasse, e Olanna mais que depressa voltou as atenções para seu prato, para que nenhum dos dois visse que ela estava observando. Era um prato elegante, verde-claro, da mesma cor do abacate.
“Por que vocês não vêm todos jantar lá em casa, neste fim de semana, o que acham?”, convidou o chefe Okonji. “Ao menos para experimentar a sopa de peixe com pimenta do meu cozinheiro. Ele é de Nembe; e sabe o que fazer com peixe fresco.”
Os pais riram com gosto. Olanna não sabia muito bem qual era a graça, mas era uma piada do ministro, de todo modo.
“A idéia me parece excelente”, disse o pai de Olanna.
“Vai ser muito bom nos reunirmos de novo, antes de Olanna partir para Nsukka”, disse a mãe.
Olanna sentiu uma irritação ligeira, uma sensação de formigamento na pele. “Eu adoraria ir, mas não vou estar aqui neste fim de semana.”
“Não vai estar aqui?”, perguntou o pai. Ela se perguntou se a expressão em seus olhos era um apelo desesperado. Perguntou-se, também, se por acaso os pais haviam prometido ao chefe Okonji, em troca do contrato, que ele poderia ter um caso com ela. Será que tinham feito a promessa com todas as letras ou apenas dado a entender?
“Já tenho planos de ir até Kano, ver tio Mbaezi e a família, e Mohammed também”, disse ela.
O pai espetou o garfo com força no abacate. “Entendo.”
Olanna tomou um gole de água e não respondeu.
Depois do jantar, foram tomar licor na sacada. Olanna gostava desse ritual e muitas vezes se afastava dos pais e convidados para ficar sozinha junto à grade, olhando as lâmpadas altas que iluminavam as trilhas, luzes tão fortes que a piscina parecia prateada e os hibiscos e as primaveras adquiriam uma pátina incandescente nos tons de rosa e vermelho. A primeira e única vez que Odenigbo a visitou em Lagos, eles tinham ficado na varanda, olhando a piscina, e Odenigbo atirara uma rolha para vê-la mergulhar na água. Tinha bebido muito conhaque e quando seu pai disse que a idéia de uma universidade em Nsukka era bobagem, que a Nigéria ainda não estava pronta para uma universidade nativa e que receber o apoio de uma universidade americana — em vez de uma universidade de verdade, da Grã-Bretanha — era pura tolice, a voz de Odenigbo se alterara. Olanna achava que ele iria perceber que o pai só queria atazanar e mostrar que não estava nem um pouco impressionado com o catedrático de Nsukka. Achava que Odenigbo não levaria em conta as palavras do pai. Mas sua voz foi ficando cada vez mais alta, ao discutir a necessidade de a universidade de Nsukka se ver livre da influência colonial, e de nada adiantaram as piscadas que ela deu porque ele não viu, quem sabe por haver pouca luz na varanda. Por fim, o telefone tocou e a conversa teve de terminar. A expressão nos olhos dos pais era de respeito relutante, Olanna percebeu logo, mas isso não os impediu de dizer que Odenigbo era louco e o homem errado para ela, um daqueles cabeças-duras da universidade que falavam sem parar, até dar dor de cabeça em todo mundo e ninguém entender do que estavam falando.
“Uma noite tão fresca”, disse o chefe Okonji, atrás dela. Olanna virou-se. Não sabia em que momento os pais e Kainene tinham ido para dentro.
“Pois é.”
Chefe Okonji parou na frente dela. Seu abadá era bordado com fios de ouro, em volta da gola. Ela olhou para o pescoço dele, viu os rolos de banha e imaginou-o remexendo neles, na hora do banho.
“E o que me diz de amanhã? Tem um coquetel no Hotel Ikoyi”, disse ele. “Queria que todos vocês conhecessem alguns expatriados. Eles estão à procura de terras e eu posso acertar para que comprem do seu pai por cinco ou seis vezes mais que o preço normal.”
“Amanhã eu tenho um trabalho beneficente com a Irmandade de São Vicente de Paula.”
Chefe Okonji aproximou-se um pouco mais dela. “Não consigo tirar você da cabeça”, falou, e uma nuvem de álcool assentou no rosto de Olanna.
“Não estou interessada, chefe.”
“Eu simplesmente não consigo tirar você da cabeça”, disse o chefe Okonji de novo. “Olhe só, você não precisa trabalhar no ministério. Posso nomeá-la para uma diretoria, a diretoria que você quiser, e posso mobiliar um apartamento onde você quiser.” E puxou-a para si. Por alguns instantes, Olanna não fez nada, o corpo frouxo ao lado dele. Estava acostumada com isso, com ser agarrada por homens embebidos em nuvens de direitos, recendendo a colônia, que presumiam, por serem poderosos e acharem-na bonita, que eles se pertenciam. Por fim, empurrou-o e sentiu uma náusea vaga ao perceber que suas mãos haviam afundado naquele peito mole. “Pare com isso, chefe.”
Ele estava de olhos fechados. “Eu amo você, acredite. Eu realmente amo você.”
Ela se desvencilhou do abraço e entrou. Os pais conversavam com vozes abafadas na sala. Parou para sentir o cheiro de umas flores já meio murchas, num vaso sobre a mesa lateral, perto da escada, ainda que soubesse que elas já tinham perdido o aroma, antes de subir. O quarto parecia estranho, os tons quentes da madeira, a mobília castanha, o carpete cor de vinho que acolchoava seus pés, a profusão de espaço que fazia Kainene chamar de apartamentos os quartos das duas. Um exemplar do Lagos Life continuava sobre a cama; Olanna apanhou o jornal e olhou para a foto dela e da mãe, na página cinco, as fisionomias satisfeitas e deslumbradas, num coquetel oferecido pelo alto comissariado britânico. A mãe a puxara para perto, quando um fotógrafo se aproximou; mais tarde, depois do flash, Olanna tinha chamado o fotógrafo e pedido a ele por favor para não publicar a foto. Ele havia olhado para ela de um jeito engraçado. Agora, percebia como sua idéia fora tola; claro que ele jamais entenderia o desconforto que ela sentia em partilhar do brilho que revestia a vida dos pais.
Estava na cama, lendo, quando a mãe bateu e entrou.
“Ah, você está lendo”, disse a mãe. Estava segurando alguns tecidos na mão. “O chefe acabou de ir embora. E disse para eu cumprimentá-la em seu nome.”
Olanna queria perguntar se eles tinham prometido alguma coisa ao chefe, mas sabia que jamais conseguiria formular a pergunta. “Que tecidos são esses?”
“O chefe mandou o motorista pegar no carro, pouco antes de ir embora. É a última palavra em rendas européias. Olha só. Muito lindas, i fukwa?” Olanna sentiu o tecido entre os dedos. “São muito lindas, sim.”
“Você viu a que ele estava usando hoje? Original! Ezigbo!” A mãe sentou-se na beirada da cama. “E você sabia que, segundo dizem, ele nunca usa o mesmo traje duas vezes? Dizem que dá para os criados, depois de usar uma vez.”
Olanna imaginou as caixas de madeira dos pobres criados incongruentemente recheadas de rendas, criados que ela tinha certeza não recebiam grande coisa de salário, de posse de caftãs e abadás que jamais usariam. Sentiu-se cansada. Conversar com a mãe era cansativo.
“Qual deles você quer, nne? Eu vou fazer uma saia longa e uma blusa, para você e Kainene.”
“Não, não se preocupe, mãe. Faça alguma coisa para você. Eu não vou ter muitas oportunidades de usar renda em Nsukka.”
A mãe passou o dedo pelo tampo do criado-mudo. “Essa empregada burra nunca limpa os móveis direito. Será que ela acha que eu pago salário para ela ficar brincando?”
Olanna largou o livro de lado. A mãe queria dizer algo, ela sabia, e o sorriso inabalável mais os gestos meticulosos eram o começo.
“E então, como vai Odenigbo?”, perguntou ela, por fim.
“Está ótimo.”
A mãe suspirou naquele seu jeito espalhafatoso, que significava que gostaria que Olanna pusesse a cabeça no lugar. “Você pensou bem nessa sua mudança para Nsukka? Muito bem mesmo?”
“Nunca tive tanta certeza quanto agora.”
“Mas você vai se sentir confortável, lá?” A mãe disse confortável com um ligeiro tremor nos ombros, e Olanna quase sorriu porque sabia que ela devia estar pensando na casa básica que a universidade dava a Odenigbo, com seus quartos severos, sua mobília simples, sem carpete no chão.
“Vou, claro que vou.”
“Você podia trabalhar aqui em Lagos e viajar nos fins de semana para vê-lo.”
“Eu não quero trabalhar em Lagos. Quero trabalhar na universidade e quero morar com ele.”
A mãe a olhou por alguns instantes, antes de se levantar e dizer “Boa noite, minha filha” em voz baixa, magoada.
Olanna encarava a porta. Estava acostumada com a desaprovação da mãe; afinal, quase todas as decisões importantes que tomara na vida tinham sofrido críticas por parte dela: quando optou por uma suspensão de duas semanas, em vez de pedir desculpas à professora de Heathgrove pela insistência com que afirmou que as aulas sobre a Pax Britannica eram contraditórias; quando se uniu ao Movimento Estudantil pela Independência, em Ibadã; quando se recusou a casar com o filho de Igwe Okagbue, e, depois, com o filho do chefe Okaro. Ainda assim, todas as vezes em que foi censurada, sentiu vontade de pedir desculpas, de compensá-la de alguma forma.
Estava quase dormindo quando Kainene bateu na porta. “Quer dizer então que você vai esparramar as pernas para aquele elefante em troca de um contrato para o papai?”, perguntou.
Olanna sentou-se na cama, espantada. Não se lembrava de quando fora a última vez que Kainene entrara em seu quarto.
“Fui praticamente puxada da varanda, tudo para deixar você sozinha com o nosso excelente ministro”, disse Kainene. “E ele vai mesmo dar o contrato para o papai?”
“Ele não disse. E também não é o caso de ele sair de mãos abanando. O papai vai lhe dar os dez por cento.”
“Os dez por cento são de praxe, de modo que qualquer ajuda extra contribui. Os outros concorrentes provavelmente não têm uma filha linda.” Kainene arrastou a palavra até que ela soasse grudenta, pegajosa: li-in-da. Estava folheando o Lagos Life, o robe de seda bem apertado em volta da cintura minúscula. “O bom de ser a filha feia é que ninguém usa a gente como isca sexual.”
“Eles não estão me usando como isca sexual.”
Kainene não respondeu nada, por um tempo; parecia concentrada num artigo do jornal. Depois ergueu os olhos. “Richard está indo para Nsukka também. Ele recebeu a bolsa e vai escrever o livro lá.”
“Que bom. O que significa que você vai passar uns tempos em Nsukka, certo?”
Kainene ignorou a pergunta. “Ele não conhece ninguém em Nsukka, por isso quem sabe você não gostaria de apresentá-lo a seu amante revolucionário?”
Olanna sorriu. Amante revolucionário. As coisas que Kainene conseguia dizer de cara limpa! “Eu apresento, sim.” Nunca tinha gostado de nenhum dos namorados de Kainene, assim como nunca gostara dos inúmeros brancos com quem ela saía, na Inglaterra. A presunção mal disfarçada, as falsas validações — tudo era motivo de irritação. No entanto, não reagira da mesma maneira com Richard Churchill quando Kainene o convidara para jantar. Talvez por Richard não mostrar aquela conhecida superioridade dos ingleses, que acham que entendem os africanos melhor que os africanos entendem a si mesmos; a verdade é que ele se apresentou com uma incerteza cativante — uma quase timidez. Ou talvez pela atitude impassível dos pais, que o ignoraram porque, afinal, ele não conhecia ninguém que valesse a pena ser conhecido.
“Acho que Richard vai gostar da casa de Odenigbo”, disse Olanna. “Aquilo fica igualzinho a uma agremiação política nos finais de tarde. De início ele só convidava africanos, porque a universidade está sempre tão cheia de estrangeiros e ele queria que os africanos tivessem a chance de socializar uns com os outros. No começo, cada um levava a sua própria bebida, mas agora ele pede uma contribuição de cada um e, toda semana, compra as bebidas e eles se reúnem na casa de...” Olanna parou no meio da frase. Kainene a encarava com dureza no olhar, como se ela tivesse quebrado a regra tácita entre as duas e estivesse querendo bater um papo.
Kainene virou-se para a porta. “Quando você parte para Kano?”
“Amanhã.” Olanna queria que Kainene ficasse, que ela sentasse na beira da cama, pusesse um travesseiro no colo, que elas ficassem fofocando e rindo noite adentro.
“Boa viagem, jee ofuma. Dê lembranças à tia, ao tio e a Arize.”
“Pode deixar”, disse Olanna, embora Kainene já tivesse saído e fechado a porta. Ficou escutando os passos da irmã no corredor acarpetado. Só agora, depois de terem voltado da Inglaterra, e vivendo na mesma casa de novo, é que Olanna percebia como tinham se tornado distantes. Kainene sempre fora uma criança retraída, depois uma adolescente enfezada, e muitas vezes desagradável, a filha que, por nunca ter tentado agradar aos pais, deixava a tarefa toda para Olanna. Mas tinham sido próximas, apesar dos pesares. Eram amigas. E ela se perguntava quando tudo mudara. Certamente antes de partirem para a Inglaterra, porque não tinham nem os mesmos amigos em Londres. Talvez tivesse sido na escola secundária de Heathgrove. Talvez até antes. Não acontecera nada de mais — nenhuma briga monumental, nenhum incidente significativo —, simplesmente foram se distanciando, mas agora era Kainene quem se ancorava firmemente num lugar distante, para que nunca mais os ventos as unissem.
Olanna optou por não ir de avião até Kano. Ela gostava de sentar à janela do trem para ver a densa mata passando, as planícies relvadas se abrindo, o gado balançando o rabo e sendo conduzido por nômades de peito nu. Quando chegou a Kano, mais uma vez ficou admirada de que fosse tão diferente de Lagos, de Nsukka, de sua cidade natal, Umunnachi, de que o Norte inteiro fosse tão diferente do Sul. Em Kano, a areia era fina, cinzenta, tostada pelo sol, nada parecida com a terra vermelha e grumosa de Umunnachi; as árvores eram raquíticas, ao contrário do verdor explosivo que se esparramava e lançava sombras na estrada para Umunnachi. Em Kano, eram quilômetros intermináveis de planície, que seduziam os olhos a espiar mais longe, até que a terra parecia se juntar ao céu branco-prateado.
Olanna tomou um táxi na estação de trem e pediu ao motorista para parar primeiro no mercado, para que pudesse cumprimentar tio Mbaezi.
Nas vielas estreitas do mercado, manobrou por entre garotinhos que levavam cargas pesadas na cabeça, mulheres pechinchando, vendedores berrando. Uma loja de discos tocava música High Life a todo volume e ela parou uns instantes para cantar Taxi driver junto com Bobby Benson, antes de seguir apressada para a barraca do tio. As prateleiras dele estavam forradas de baldes e utensílios domésticos.
“Omalicha!”, disse ele, quando a viu. Era assim que chamava a mãe de Olanna também — Formosa. “Andei pensando muito em você. E sabia que viria nos ver em breve.”
“Tio, boa tarde.”
Eles se abraçaram. Olanna descansou a cabeça em seu ombro; ele tinha cheiro de suor, de mercado a céu aberto, de utensílios guardados em prateleiras empoeiradas.
Era difícil imaginar tio Mbaezi e a mãe crescendo juntos, irmão e irmã. Não só porque o rosto claro dele não tinha nada da beleza da mãe, mas também porque ele era um homem da terra. Às vezes Olanna se perguntava se o admiraria tanto assim se ele não fosse tão diferente da mãe.
Sempre que Olanna aparecia, tio Mbaezi sentava com ela no quintal, depois do jantar, para lhe contar as últimas notícias da família: a filha solteira de uma prima que engravidara e que ele queria que fosse morar com eles, para evitar os comentários maliciosos do povo da aldeia, um sobrinho que morrera em Kano e as tentativas de achar um jeito barato de levar o corpo de volta para casa. Ou então eram coisas de política: o que a União Ibo estava organizando, protestos, discussões. A União se reunia em seu quintal. Olanna participara, algumas vezes, e ainda se lembrava da reunião em que homens e mulheres irritados reclamavam das escolas do Norte que não aceitavam crianças ibo. Tio Mbaezi havia se levantado e batido o pé. “Ndi be anyi! Meu povo! Nós construiremos nossa própria escola! É assim que vai ser!” Mas Olanna tinha ficado cismada, não ia ser fácil construir uma escola. Talvez fosse mais prático convencer o povo do Norte a aceitar crianças ibo.
No entanto, nesse momento, apenas poucos anos depois, lá estava ela, na avenida do Aeroporto, passando em frente à Escola da União Ibo. Era hora do recreio e o pátio estava cheio de alunos. Meninos, de times diferentes, jogavam futebol num mesmo campo, de modo que havia uma profusão de bolas voando; Olanna se perguntou como é que eles poderiam saber de qual time era cada bola. Grupos de meninas, mais perto da avenida, brincavam de oga e swell, batendo palmas ritmicamente enquanto pulavam, primeiro numa perna, depois na outra. Antes que o táxi parasse no compound comunitário de Sabon Gari, Olanna viu tia Ifeka sentada diante de seu quiosque, na beira da rua. Enxugando as mãos nos panos desbotados que vestia, ela abraçou a sobrinha, afastou-se um pouco para olhá-la, depois abraçou-a de novo. “A nossa Olanna!”
“Minha tia! Kedu?”
“Melhor ainda por ver você aqui.”
“Arize ainda não voltou da aula de costura?”
“Ela deve estar chegando.”
“Como ela está? O na-agakwa? E as costuras, como vão?”
“A casa está cheia de moldes que ela cortou.”
“E como vão Odinchezo e Ekene?”
“Continuam trabalhando. Vieram de visita na semana passada e perguntaram por você.”
“Como é que Maiduguri está tratando os dois? Os negócios aumentaram?”
“Nenhum dos dois me disse que está morrendo de fome.” Tia Ifeka sacudiu de leve os ombros. Olanna examinou aquele rosto banal e desejou, por um breve e culpado minuto, que fosse ela a sua mãe. De todo modo, tia Ifeka era praticamente a mãe delas, já que tinha sido em seus seios que Olanna e Kainene mamaram — os da mãe secaram logo depois que as gêmeas nasceram. Kainene costumava dizer que os seios da mãe não tinham secado coisa nenhuma, que a mãe dera as duas para a tia amamentar só para não ficar ela própria com os seios caídos.
“Vem, ada anyi”, disse tia Ifeka. “Vamos entrar.” E puxou-a para o interior das venezianas de madeira que encobriam as mercadorias bem arrumadas do quiosque, caixas de fósforos, gomas de mascar, balas, cigarros, detergentes; depois apanhou a valise de Olanna e foi na frente, atravessando o quintal. A casa, térrea e estreita, não era pintada. As roupas no varal estavam paradas, rígidas, como se dessecadas pelo sol abrasador da tarde. Velhos pneus de carro, aqueles com os quais as crianças brincavam, estavam empilhados debaixo dos galhos da kuka. Olanna sabia que aquela tranquila monotonia do quintal em breve se dissolveria, tão logo as crianças voltassem da escola. As famílias deixariam as portas abertas, varanda e cozinha se encheriam de vozes. A família de tio Mbaezi ocupava dois cômodos. No primeiro, onde sofás surrados eram empurrados para o canto, à noite, para abrir espaço às esteiras, Olanna desempacotou as coisas que levara para eles — pão, sapatos, frascos de creme —, enquanto tia Ifeka olhava para ela, com as mãos nas costas. “Que alguém possa lhe retribuir. Que alguém possa lhe retribuir.” Arize voltou para casa alguns instantes depois e Olanna fez o possível para plantar os pés bem firmes no chão, para não deixar o abraço animado da prima derrubá-la.
“Irmã! Você devia ter avisado que vinha! Ao menos a gente teria varrido melhor o quintal! Ah! Irmã! Am amak gi! Você está ótima! E tem histórias pra contar, que bom!”
Arize ria. Seu corpo gorducho, seus braços redondos, sacudiam enquanto ela ria. Olanna lhe deu um abraço apertado. Teve a sensação de que as coisas estavam todas em ordem, da maneira como deviam estar, e mesmo que de vez em quando despencassem, no fim tudo se arranjava de novo. Esse era o motivo de ela ter ido até Kano: essa paz cheia de lucidez. Quando os olhos de tia Ifeka começaram a dardejar pelo quintal, Olanna já sabia que estava procurando uma boa galinha. A tia sempre matava um frango, quando ela chegava, ainda que fosse a última ave ciscando no quintal, as penas marcadas com uma pincelada ou duas de tinta vermelha, para distinguir das galinhas dos vizinhos, que por sua vez tinham pedaços de pano amarrados nas asas, ou tintas de cor diferente. Olanna não reclamava mais da galinha, assim como também não reclamava que os tios dormissem em esteiras, ao lado dos inúmeros parentes que sempre pareciam estar por lá, deixando para ela a cama do casal.
Tia Ifeka caminhou como quem não quer nada até uma galinha marrom, agarrou-a rapidamente e entregou-a a Arize, para que fosse matar no quintal. Sentaram-se na porta da cozinha, enquanto Arize depenava a galinha e tia Ifeka soprava a palha do arroz. Havia um vizinho cozinhando milho e, vez por outra, quando a água borbulhava demais, o fogo assobiava. Crianças brincavam no quintal, erguendo poeira branca e gritando. Surgiu uma briga debaixo da kuka e Olanna ouviu a voz de uma criança gritar com a outra, em ibo: “A xota da sua mãe!”.
O sol tinha avermelhado no céu e começava a baixar quando tio Mbaezi chegou. Ele gritou para que Olanna fosse cumprimentar seu amigo Abdulmalik. Olanna já tinha visto esse hauçá uma vez; ele vendia sandálias no mercado, na barraca pegada à de seu tio, e ela comprara alguns pares para levar para a Inglaterra, mas no fim nem tinha usado porque era pleno inverno, lá.
“Nossa Olanna acabou de se formar. De se formar na Universidade de Londres! Isso não é para qualquer um!”, disse tio Mbaezi, orgulhoso.
“Muito bem”, disse Abdulmalik. Abrindo sua sacola, tirou lá de dentro um par de sandálias e entregou-as a Olanna, o rosto estreito pregueado num sorriso, os dentes enodoados de noz-de-cola, tabaco e coisas que Olanna não conhecia, manchados com vários tons de amarelo e marrom. Parecia que era ele que estava recebendo um presente; tinha a mesma fisionomia daqueles que se maravilham com a educação e têm a serena convicção de que ela jamais será sua.
Olanna pegou as sandálias com as duas mãos. “Obrigada, Abdulmalik. Muito obrigada.”
Abdulmalik apontou para as gordas vagens maduras da kuka e disse: “Vem até minha casa. Minha mulher cozinha sopa muito doce de kuka.”
“Eu vou sim, mas numa outra vez.”
Ele resmungou mais alguns parabéns, antes de sentar na varanda com tio Mbaezi, diante de uma bacia de cana-de-açúcar. Eles mordiam a casca verde e dura e chupavam a polpa branca sumarenta, falando hauçá e rindo. Cuspiam a cana chupada na poeira. Olanna sentou com eles por um tempo, mas falavam um hauçá muito rápido, muito difícil de acompanhar. Ela bem que gostaria de ser fluente em hauçá e ioruba, como o tio, a tia e os primos; trocaria de bom grado seu francês e seu latim por essas línguas.
Na cozinha, Arize cortava a galinha e tia Ifeka lavava o arroz. Olanna mostrou o presente de Abdulmalik e pôs as sandálias no pé; as tiras pregueadas, vermelhas, fizeram seu pé parecer mais esguio, mais feminino.
“Muito bonita”, disse tia Ifeka. “Eu vou agradecer a ele.”
Olanna sentou-se numa banqueta e, cuidadosamente, evitou olhar os ovos de barata, cápsulas negras e lisas, incrustados em todos os orifícios da mesa. Havia uma vizinha acendendo fogo num canto e, apesar das aberturas chanfradas no teto, a cozinha estava toda enfumaçada.
“Imakwa, tudo que a família dela come, todos os dias, é caldo de peixe”, disse Arize, franzindo os lábios na direção da vizinha. “Eu acho até que os coitados dos filhos dela nem sabem que gosto tem carne.” Arize atirou a cabeça para trás e riu.
Olanna deu uma olhada para a mulher. Ela era ijexá e não compreendia o ibo de Arize. “Talvez ela goste de caldo de peixe.”
“O di egwu! Que gosta, que nada! Você sabe a ninharia que custa isso?”Arize continuava rindo, quando se virou para a vizinha. “Ibiba, estou dizendo a minha irmã maior que a sua sopa sempre cheira que é uma delícia.” A mulher parou de soprar a lenha e sorriu, um sorriso sábio, e Olanna chegou a pensar que ela entendia ibo, mas preferia dar corda para as brincadeiras de Arize. Havia qualquer coisa em Arize que fazia as pessoas perdoarem suas travessuras.
“Quer dizer que está indo para Nsukka para se casar com Odenigbo, irmã?”, perguntou Arize.
“Casar, propriamente, não. Eu só quero ficar perto dele, e também quero dar aula.”
Os olhos redondos de Arize eram de espanto e de admiração. “Só mulheres que têm todo esse estudo feito você podem dizer uma coisa dessas, irmã. Se as pessoas como eu, que não têm estudo, esperarem muito mais, vamos todos acabar extintos.” Arize parou de falar uns instantes, enquanto tirava um ovo translucidamente pálido de dentro da galinha. “Eu quero um marido hoje, amanhã e sempre, e como quero! Minhas colegas todas já me deixaram e foram para a casa dos maridos.”
“Você ainda é jovem”, disse Olanna. “Devia se concentrar nas suas aulas de costura, por enquanto.”
“E é a costura que vai me dar um filho? Mesmo que eu tivesse conseguido passar no exame para poder continuar nos estudos, ainda assim eu ia querer ter um filho agora.”
“Para que tanta pressa, Ari?” Olanna gostaria de pôr o banco mais junto da porta, mais perto do ar fresco. Mas não queria que tia Ifeka, ou Arize, ou mesmo a vizinha, soubessem que a fumaça irritava seus olhos e sua garganta, ou que ovos de barata a deixavam nauseada. Ela queria parecer acostumada a isso tudo, a essa vida.
“Eu sei que você vai se casar com Odenigbo, irmã, mas, para ser franca, não sei se eu quero que você se case com um homem de Abba. Os homens de Abba são tão feios, kai! Se Mohammed fosse um ibo, claro que você ia se casar com ele. Nunca vi um homem mais bonito.”
“Odenigbo não é feio. A beleza vem em formas diversas”, disse Olanna. “Isso é o que os parentes do macaco feio, enwe, disseram para ele, para fazê-lo se sentir melhor: que a beleza vem em formas diversas.”
“Os homens de Abba não são feios”, interveio a tia. “Meu pessoal vem de lá, afinal de contas.”
“E seu pessoal não é meio parecido com o macaco?”, perguntou Arize. “Seu nome todo é Arizendikwunnem, não é? Você vem do pessoal da sua mãe. Então talvez você também se pareça um pouco com o macaco”, resmungou tia Ifeka.
Olanna riu. “Agora me diga, Ari, por que você está falando tanto em casamento? Por acaso viu alguém de quem você gostou? Ou será que eu devo procurar um dos irmãos de Mohammed para você?”
“Não, não!” Arize abanou a mão no ar, num falso horror. “Papai me mataria antes, se soubesse que eu cheguei a olhar para um hauçá.”
“Só se o seu pai matar um cadáver, porque eu acabo com você antes dele”, disse tia Ifeka, levantando-se com uma tigela de arroz limpo.
“Tem alguém, sim, irmã.” Arize aproximou-se de Olanna. “Só que eu não sei muito bem se ele está me notando ou não.”
“Por que você está cochichando?”, perguntou tia Ifeka.
“E eu estou falando com a senhora? Não é com a minha irmã maior que eu estou conversando?”, perguntou Arize para a mãe. Mas ergueu a voz, ao continuar a conversa. “O nome dele é Nnakwanze, e ele é daqui de perto, de Ogidi. Trabalha na ferrovia. Mas nunca me disse nada. Não sei se ele está prestando atenção em mim o bastante.”
“Se ele não está prestando atenção em você o bastante é porque tem algo de errado com a vista dele”, disse tia Ifeka.
“Alguém já viu uma mulher como esta? Por que eu não posso conversar em paz com a minha irmã maior?” Arize girou os olhos, mas era óbvio que estava satisfeita e que, muito provavelmente, usara essa oportunidade para contar à mãe sobre Nnakwanze.
Nessa noite, deitada na cama dos tios, Olanna viu Arize através da cortina fina, pendurada numa corda presa a pregos na parede. A corda não estava bem puxada e a cortina afundava no meio. Seguiu os movimentos da respiração da prima e perguntou-se como teria sido, para Arize e seus irmãos, Odinchezo e Ekene, ser criada assim, vendo os pais pela cortina, ouvindo sons que, para uma criança, podiam sugerir uma dor estranha, com os quadris do pai se movimentando e os braços da mãe agarrados a ele. Ela nunca ouvira os pais fazendo amor, nem nunca tinha visto o menor indício disso. Crescera separada por corredores que iam ficando mais compridos e mais espessamente acarpetados a cada mudança. Quando se mudaram para a casa atual, com seus dez quartos, os pais optaram por quartos separados pela primeira vez. “Eu preciso do armário inteiro e vai ser bom receber a visita do seu pai!”, tinha dito a mãe. Porém aquela risada juvenil não soara real aos ouvidos de Olanna. A artificialidade do relacionamento dos pais sempre lhe parecia mais dura, mais vergonhosa, quando estava em Kano.
A janela acima dela estava aberta, o ar parado e denso com os cheiros do esgoto atrás da casa, onde as pessoas esvaziavam suas comadres. Logo mais, escutou o zunzum abafado dos limpadores noturnos da cloaca, que recolhiam os dejetos; adormeceu escutando as pás raspando no chão, enquanto os homens trabalhavam protegidos pela escuridão.
Os mendigos parados nos portões da casa da família de Mohammed não se mexeram quando viram Olanna. Permaneceram sentados no chão, encostados nos muros de barro que cercavam a casa. As moscas pousavam sobre eles aos montes e, por um momento, os puídos caftãs brancos pareciam ter sido salpicados de tinta escura. Olanna queria lhes dar um dinheiro, mas concluiu que era melhor não. Se fosse homem, eles a teriam chamado, esticado os pratinhos de esmolas, e as moscas sairiam voando deles em grandes nuvens.
Um dos guardas a reconheceu e abriu os portões. “Bem-vinda, madame.”
“Obrigada, Sule. Como está você?”
“A senhora lembra o meu nome, madame!” Ele sorriu. “Obrigado, madame. Estou muito bem, madame.”
“E a sua família?”
“Todos bem, madame, por vontade de Alá.”
“Seu patrão já voltou dos Estados Unidos?”
“Voltou, madame. Por favor, entre. Eu vou mandar alguém chamar o Patrão.”
O carro esporte vermelho de Mohammed estava estacionado em frente ao amplo pátio de areia, mas o que chamou a atenção de Olanna foi a casa — a graciosa simplicidade de seu teto achatado. Sentou-se na varanda.
“A melhor das surpresas!”
Ela ergueu os olhos e lá estava Mohammed, num caftã branco, sorrindo para ela. Seus lábios tinham uma curva sensual, lábios que ela beijara tantas vezes, quando passava a maior parte dos fins de semana em Kano, comendo arroz com os dedos, na casa dele, vendo Mohammed jogar pólo no Flying Club, lendo a péssima poesia que ele dedicava a ela.
“Você está com um ótimo aspecto”, disse ela, enquanto se abraçavam. “Eu não sabia direito se você já tinha voltado dos Estados Unidos.”
“Eu tinha planos de ir até Lagos para visitá-la.” Mohammed recuou para vê-la melhor. Havia um viés na posição da cabeça, um estreitamento dos olhos que significavam que ele ainda nutria esperanças.
“Eu vou me mudar para Nsukka”, disse ela.
“Quer dizer então que vai se tornar uma intelectual e casar-se com o catedrático?”
“Ninguém falou nada a respeito de casamento. E como vai a Janet? Ou será que é Jane? Eu misturo as suas mulheres americanas.”
Mohammed ergueu uma sobrancelha. Ela não pôde evitar admirar sua pele cor de caramelo. Costumava provocá-lo, dizendo que ele era mais lindo que ela.
“O que você fez no cabelo?”, perguntou Mohammed. “Não fica bem em você. É assim que seu professor quer você, igualzinha a uma camponesa?” Olanna tocou nos cabelos recém-trançados com um fio negro. “Foi minha tia que fez. Eu gostei.”
“Pois eu não. Prefiro as suas perucas.” Mohammed se aproximou e abraçou-a de novo. Quando sentiu os braços dele se retesando em volta de seu corpo, afastou-o.
“Você não quer me deixar dar um beijo em você.”
“Não”, disse ela, ainda que ele não tivesse feito uma pergunta. “Você não quer me contar sobre a sua Janet-Jane.”
“Jane. Quer dizer que isso significa que não vou mais vê-la depois que se mudar para Nsukka?”
“Claro que vamos nos ver.”
“Eu já sei que aquele seu professor é doido, de modo que para Nsukka eu não vou.” Mohammed riu. Seu corpo alto e magro, e seus dedos afilados, falavam de fragilidade, de suavidade. “Quer um refrigerante? Ou vinho?”
“Você tem álcool nesta casa? Alguém deveria informar o seu tio”, brincou Olanna.
Mohammed tocou uma sineta e pediu ao criado que trouxesse bebidas. Depois, sentou-se esfregando pensativamente o polegar e o indicador. “As vezes, sinto que minha vida não está indo a parte alguma. Eu viajo, dirijo carros importados e as mulheres me seguem. Mas tem alguma coisa fora do lugar, alguma coisa faltando. Sabe o que quero dizer?” Olanna o observava; sabia onde iria parar o papo. No entanto, quando ele disse: “Eu gostaria que nada tivesse mudado”, ela se sentiu comovida e elogiada.
“Você acaba achando uma boa mulher”, disse, sem muita convicção. “Besteira”, disse ele, e, enquanto tomavam goles de Coca, sentados lado a lado, ela se lembrou da inacreditável dor no rosto de Mohammed, que só fizera aprofundar-se quando disse que teria que terminar tudo imediatamente para não ser infiel. Olanna esperava resistência, sabia o quanto era amada, mas chocou-se quando ele lhe disse para ir em frente, para dormir com Odenigbo, contanto que não o deixasse — o mesmo Mohammed que tantas vezes brincava que tinha vindo de uma linhagem de santos guerreiros, os próprios avatares da pia masculinidade. Talvez por isso, seu afeto por ele sempre se veria mesclado de gratidão, uma gratidão egoísta. Ele poderia ter dificultado bem mais o rompimento; poderia tê-la deixado com muito mais culpa.
Ela pôs o copo na mesa. “Vamos dar uma volta. Eu detesto quando venho visitar Kano e só vejo o horrível cimento com zinco de Sabon Gari. Quero ver aquela antiga estátua de barro e dar uma volta pelas belas muralhas da cidade.”
“Às vezes você é igualzinha aos brancos, do jeito como ficam boquiabertos com coisas de todo dia.”
“Sou?”
“É brincadeira. Como é que você vai aprender a não levar tudo tão a sério morando com aquele professor maluco?” Mohammed levantou-se. “Vamos, você tem que entrar para cumprimentar minha mãe.”
Ao atravessarem o pequeno portão nos fundos e cruzarem o pátio que levava aos aposentos da mãe de Mohammed, Olanna lembrou-se da trepidação que costumava sentir quando ia até lá. A área das visitas continuava a mesma, com paredes coloridas com ouro, grossos tapetes persas, desenhos geométricos entalhados no forro. A mãe dele também parecia a mesma, com o anel no nariz e as echarpes de seda em volta da cabeça. Era requintadíssima, de um jeito que fazia Olanna imaginar se, no fim das contas, não seria um desconforto vestir-se tão bem todos os dias e continuar fechada em casa. No entanto, ela não tinha mais a expressão reservada de antes, não falava mais com tanta formalidade, com os olhos focados em algum ponto entre o rosto de Olanna e o painel esculpido à mão. Levantou-se, foi até Olanna e abraçou-a.
“Você está ótima, minha cara. Não deixe o sol acabar com essa sua pele tão linda.”
“Na gode. Obrigada, Hajia”, disse Olanna, perguntando-se se era possível às pessoas ligar e desligar afeições, atar e desatar emoções.
“Eu não sou mais a ibo com quem você queria se casar e que iria manchar sua linhagem com o sangue dos infiéis”, disse Olanna, enquanto entravam no Porsche vermelho de Mohammed. “De modo que agora eu me tornei amiga.”
“Eu teria casado com você de qualquer jeito e ela sabia muito bem. As preferências dela não tinham a menor importância.”
“Talvez não no começo, mas e depois? Quando já estivéssemos casados há uns dez anos?”
“Seus pais sentiram a mesma coisa.” Mohammed virou-se para olhá-la. “Por que está trazendo isso à baila agora?” Havia qualquer coisa de indizivelmente triste em seus olhos. Ou talvez fosse imaginação de Olanna. Talvez quisesse enxergá-lo triste ao pensar que nunca se casariam. Não queria se casar com ele, mas mesmo assim gostava de mencionar coisas que nunca tinham feito e jamais fariam.
“Desculpe”, disse ela.
“Não há por que se desculpar.” Mohammed estendeu o braço e pegou sua mão. O carro fez um ruído rascante ao passar pelos portões. “Tem muita poeira no escapamento. Esses carros não foram feitos para rodar por aqui.”
“Você devia comprar um Peugeot bem resistente.”
“Pois é, devia.”
Olanna olhou os mendigos, amontoados em volta dos muros do palácio, com os corpos e os pires de esmola cobertos de moscas. O ar exalava o cheiro das folhas acre-apimentadas do azedaraque.
“Eu não sou como os brancos”, disse ela, baixinho.
Mohammed olhou para Olanna. “Claro que não. Você é nacionalista e patriota, e logo vai estar casada com seu freedom fighter.”
Olanna perguntou-se se aquela leveza de Mohammed ocultava uma ironia mais pesada. Sua mão continuava presa na dele e ela também sentia curiosidade de saber se ele estava tendo dificuldade em dirigir com uma só.
Num sábado de vento, Olanna mudou-se para Nsukka e, no dia seguinte, Odenigbo partiu para um congresso de matemática na Universidade de Ibadã. Ele não teria ido se o congresso não tivesse como foco o trabalho de seu mentor, o matemático negro norte-americano David Blackwell.
“Ele é o maior matemático vivo do mundo. Por que você não vem comigo, nkem? É só por uma semana.”
Olanna disse não; queria ter a chance de se acomodar, enquanto ele não estivesse por perto, de fazer as pazes com seus medos, na sua ausência. A primeira coisa que fez, depois que ele viajou, foi jogar fora as flores de plástico brancas e vermelhas que ficavam na mesa de centro.
Ugwu ficou horrorizado. “Mas, mah, elas ainda estavam boas.”
Ela o levou até os lírios africanos e as rosas nos canteiros regados havia pouco por Jomo, e pediu-lhe que cortasse algumas flores. Mostrou quanta água pôr num vaso. Ugwu olhava as flores e sacudia a cabeça, como se não pudesse acreditar na tolice cometida. “Mas elas vão morrer, mah. As outras não morriam.”
“Pois é, mas estas são melhores, fa makali”, disse Olanna.
“Melhores como, mah?” Ele sempre respondia em inglês ao ibo que ela usava, como se achasse o ibo que ela usava com ele uma ofensa da qual tinha de se defender insistentemente, falando inglês.
“Elas são mais bonitas”, disse Olanna, percebendo que não sabia explicar por que flores frescas eram melhores que as de plástico. Mais tarde, quando viu as flores de plástico num armário da cozinha, não ficou surpresa. Ugwu tinha salvado as flores, da mesma forma como salvava embalagens velhas de açúcar, rolhas, até mesmo casca de cará. Isso se ligava ao fato de nunca ter tido o suficiente, ela sabia disso, da incapacidade de jogar qualquer coisa fora, até mesmo as inúteis. Assim, quando estava na cozinha com ele, falava sobre a necessidade de guardar apenas o que fosse útil, e torcia para que ele não lhe perguntasse em que sentido as flores frescas eram úteis. Pediu a ele que limpasse a despensa e forrasse as prateleiras com jornal velho, e, enquanto ele trabalhava, ficou por perto, perguntando coisas sobre sua família. Era difícil imaginá-los porque, com seu vocabulário limitado, Ugwu descrevia todo mundo como “very good”. Foram juntos ao mercado e, depois de terem adquirido os itens domésticos, ela comprou um pente e uma camisa para ele. Ensinou-o a fazer arroz frito com pimentão verde e cenoura em cubinhos, pediu para ele não cozinhar o feijão até virar um pudim, para não usar muito óleo, para não economizar demais no sal. Embora tivesse notado o fedor de suor quando o conheceu, Olanna esperou alguns dias até lhe dar um talco aromático para passar nas axilas e pediu para ele usar duas tampas de Dettol na água do banho. Ele pareceu satisfeito quando cheirou o pó e ela se perguntou se ele acabaria percebendo que era um cheiro feminino. Também teve curiosidade de saber o que ele pensava de fato a seu respeito. Havia um óbvio afeto, mas também uma interrogação silenciosa em seu olhar, como se a estivesse medindo em relação a alguma coisa. E ela receava sair perdendo.
Ugwu só começou a falar ibo com ela no dia em que estavam rearrumando as fotos na parede. Uma lagartixa saiu esbaforida de trás da moldura de madeira de uma foto de Odenigbo, vestido com a beca de formatura, e Ugwu gritou: “Egbukwala! Não a mate!”.
“O que você disse?” Ela se virou para olhá-lo da cadeira onde estava empoleirada.
“Se matar a lagartixa, vai ficar com dor de barriga”, disse ele. Ela achou seu dialeto opi engraçado, o jeito como ele parecia cuspir fora as palavras.
“Claro que não vou matar ninguém. Agora vamos pôr a foto na parede.”
“Pois não, mah”, disse ele, e começou então a contar a Olanna, em ibo, sobre o dia em que a irmã Anulika tivera uma baita dor de barriga depois de matar uma lagartixa.
Olanna já se sentia menos visita, na casa, quando Odenigbo voltou; ele a puxou com força, beijou-a, apertou-a.
“Você devia comer antes”, disse ela.
“Eu sei o que eu quero comer.”
Ela riu. Sentia-se ridiculamente feliz.
“O que houve por aqui?”, perguntou Odenigbo, olhando em volta da sala. “Todos os livros estão nas estantes?”
“Seus livros mais antigos estão no outro quarto. Eu preciso de espaço.”
“Ezi okwu? Você se mudou de fato para cá, não é?”, Odenigbo ria.
“Vá tomar um banho”, disse ela.
“E que cheiro de flor era aquele no pobre do meu bom homem?”
“Eu dei um talco perfumado para ele. Você não reparou no fedor?”
“Esse é o cheiro de quem mora em aldeia. Eu costumava ter esse mesmo cheiro, até sair de Abba para cursar o ensino médio. Mas essas são coisas que você não sabe.” Seu tom era de sutil provocação. Mas as mãos não eram assim tão sutis. Estavam desabotoando a blusa, liberando seu seio do sutiã. Olanna não sabia ao certo quanto tempo se passara, mas estava enroscada na cama com Odenigbo, quente e nua, quando Ugwu bateu para dizer que eles tinham visita.
“Eles não poderiam ir embora?”, murmurou ela.
“Venha, nkem”, disse Odenigbo. “Mal posso esperar para eles conhecerem você.”
“Vamos ficar aqui só um pouquinho mais.” Ela passou a mão nos pêlos encaracolados de seu peito, mas Odenigbo lhe deu um beijo e levantou da cama para procurar a cueca.
Olanna vestiu-se com relutância e saiu rumo à sala.
“Meus amigos, meus amigos”, anunciou Odenigbo, com um floreio exagerado, “finalmente, aqui está Olanna.”
A mulher que estava ligando o toca-discos virou-se e pegou a mão de Olanna. “Como vai você?”, perguntou. Sua cabeça estava envolta num colorido turbante laranja.
“Estou bem”, disse Olanna. “Você deve ser Lara Adebayo.”
“Isso mesmo”, disse a srta. Adebayo. “Ele não contou que você era irracionalmente bonita.”
Olanna recuou, confusa por alguns instantes. “Vou tomar seu comentário como um elogio.”
“E que sotaque inglês mais correto”, sussurrou a srta. Adebayo, dando um sorriso de pena antes de se virar de volta para o toca-discos. Tinha um corpo compacto, as costas retas, que pareciam ainda mais retas dentro do vestido reto cor-de-laranja; era o corpo de uma interrogadora que ninguém ousava interrogar de volta.
“Eu sou Okeoma”, disse um homem com uma vasta cabeleira desgrenhada. “Eu achava que a namorada do Odenigbo fosse um ser humano; ele nunca disse que você era uma sereia.”
Olanna riu, agradecida pelo calor das palavras de Okeoma, e pela forma como ele segurou sua mão por mais tempo do que deveria. O dr. Patel olhou-a com timidez e disse: “Muito bom poder conhecê-la finalmente”, e o professor Ezeka cumprimentou-a com um aperto de mão, depois meneou desdenhoso a cabeça, quando ela disse que seu diploma era de sociologia e não de uma das ciências exatas.
Depois que Ugwu serviu as bebidas, Olanna viu Odenigbo erguer o copo até os lábios e tudo em que conseguiu pensar foi que aqueles lábios, minutos antes, estavam colados no bico de seu seio. Sem que ninguém notasse, mexeu-se para que a parte de dentro do braço roçasse o seio, e fechou os olhos ao sentir as pontadas da dor deliciosa. Às vezes, Odenigbo mordia forte demais. Ela queria que as visitas se fossem.
“E por acaso aquele grande pensador que foi Hegel não chamou a África de terra da infância?”, perguntou o professor Ezeka, num tom afetado.
“Então talvez aquela gente que põe cartazes nos cinemas de Mombaça dizendo CRIANÇAS E AFRICANOS NÃO ENTRAM tenha lido Hegel”, disse o dr. Patel, dando uma risadinha.
“Ninguém pode levar Hegel a sério. Você já leu com atenção o que ele escreve? Ele é muito, muito engraçado. Porém Hume, Voltaire e Locke sentiam o mesmo em relação à África”, disse Odenigbo. “A grandeza depende de onde você vem. Me faz pensar na resposta dos israelenses a quem perguntaram o que tinham achado do julgamento recente de Eichmann, e um deles disse que não entendia como alguém podia ter visto grandeza nos nazistas, em qualquer época, agora ou antes. Mas eles viram, não foi? E ainda vêem!” Odenigbo fez um gesto com a mão, a palma para cima, e Olanna se lembrou daquela mão agarrando sua cintura.
“O que as pessoas não vêem é o seguinte: se a Europa tivesse cuidado mais da África, o Holocausto dos judeus não teria ocorrido”, disse Odenigbo. “Em suma, a Guerra não teria acontecido.”
“O que quer dizer com isso?”, perguntou a srta. Adebayo. E ergueu o copo até os lábios.
“Como pode me perguntar o que eu quero dizer com isso? É evidente, começando pelos hererós.” Odenigbo se mexia na poltrona, a voz alterada, e Olanna sentiu curiosidade de saber se ele lembrava de como tinham sido escandalosos, os dois, e do que ele dissera, depois, rindo: “Se a gente continuar assim, à noite, é bem provável que o pobre do Ugwu acorde”.
“Lá vem você de novo, Odenigbo”, disse a srta. Adebayo. “Está dizendo que, se os brancos não tivessem dizimado os hererós, o Holocausto judeu não teria acontecido? Eu não vejo ligação nenhuma entre os dois!”
“Você não vê?”, perguntou Odenigbo. “Pois eles começaram os estudos sobre raças com os hererós e terminaram com os judeus. Claro que há uma ligação!”
“Seu argumento não é lógico, seu sofista”, disse a srta. Adebayo, e, como se para encerrar a conversa, tomou o que havia no copo de um gole só.
“No entanto a Guerra foi uma coisa ruim que também foi boa, como diz o povo”, interveio Okeoma. “O irmão do meu pai lutou na Birmânia e voltou com uma pergunta muito controvertida: por que ninguém nunca disse que o branco não é imortal?”
Todos riram. Havia algo de habitual, ali, como se já tivessem tido versões diferentes dessa mesma conversa tantas vezes que até sabiam quando rir. Olanna riu também e sentiu, por alguns momentos, que sua risada soava diferente, mais estridente que a deles.
Nas semanas seguintes, depois que começou a dar aulas em um curso de introdução à sociologia, depois de ter se filiado ao clube dos professores e jogado algumas partidas de tênis, depois de ter levado Ugwu ao mercado, dado caminhadas com Odenigbo e se unido à Irmandade de São Vicente de Paula, na igreja de São Pedro, Olanna começou lentamente a se acostumar com os amigos de Odenigbo. Ele a amolava, dizendo que estavam recebendo mais visitas que antes, agora que ela estava ali, que tanto Okeoma quanto Patel estavam se apaixonando por ela, porque Okeoma vivia querendo recitar poemas nos quais as deusas eram indiscutivelmente caracterizadas como ela, e o dr. Patel contava histórias demais sobre seus tempos em Makerere, onde sempre desempenhava o papel do perfeito intelectual cavalheiresco.
Olanna gostava do dr. Patel, mas eram de Okeoma as visitas que mais apreciava. Os cabelos desgrenhados, as roupas amarfanhadas e sua poesia dramática a deixavam à vontade. E reparou, logo de início, que eram as opiniões dele as que Odenigbo mais respeitava, quando dizia “A voz de nossa geração!”, como se acreditasse nisso de fato. Ela ainda não tinha muita certeza de como interpretar a rouca arrogância do professor Ezeka, sua certeza de que sabia mais que todo mundo, embora preferisse dizer pouco. Também não sabia bem o que pensar de Lara Adebayo. Teria sido mais fácil se ela mostrasse algum ciúme, mas era como se não considerasse Olanna uma rival à altura, com seu jeito pouco intelectualizado, seu rostinho bonito demais e aquele sotaque inglês, imitação do opressor. Olanna percebeu então que falava mais quando Lara Adebayo estava presente, que dava opiniões a torto e a direito, querendo impressionar — Nkrumah de fato queria governar a África inteira, era arrogância dos Estados Unidos insistir para que os soviéticos tirassem seus mísseis de Cuba, se os deles continuavam na Turquia, Sharpeville era apenas mais um exemplo dramático das centenas de negros mortos todos os dias pelo governo da África do Sul — porém tinha a sensação de que havia uma certa falta de originalidade em suas idéias. E desconfiava que Lara Adebayo sabia disso; era sempre quando Olanna estava falando que apanhava um jornal, ou se servia de mais bebida, ou ia ao banheiro. Por fim, Olanna desistiu. Jamais gostaria da srta. Adebayo e a srta. Adebayo jamais imaginaria a possibilidade de gostar dela. Talvez soubesse, só de olhar, que Olanna sentia medo, que estava insegura, que não era uma pessoa com paciência para lidar com as próprias dúvidas. Ela não era como Odenigbo. Ou como a própria Lara Adebayo, que podia olhar alguém bem nos olhos e dizer, com a maior calma do mundo, você é irracionalmente bonita, que podia usar uma expressão como esta: irracionalmente bonita.
Ainda assim, deitada na cama ao lado de Odenigbo, as pernas entrelaçadas nas dele, muitas vezes pensava que sua vida em Nsukka estava envolta num acolchoado de penas macias, mesmo nos dias em que ele se trancava durante horas no escritório. Sempre que ele sugeria que se casassem, ela dizia não. Estavam felizes demais, ainda que imprecisamente, e ela queria conservar esse elo; temia que o casamento achatasse tudo numa parceria prosaica.