Meio Sol Amarelo
Capítulo 16
Richard ficou surpreso quando ouviu o anúncio de que o governo federal havia declarado uma série de ações para impor ordem aos rebeldes. Kainene achou normal.
“É o petróleo”, disse ela. “Eles nunca dariam tudo de mão beijada, com o petróleo que nós temos. Mas a guerra será breve. Madu diz que Ojukwu tem grandes planos. Ele sugeriu que eu doasse uma quantia em divisas externas para o gabinete de guerra, assim, quando tudo isso terminar, posso conseguir o contrato que quiser.”
Richard olhava fixo para ela. Kainene não parecia entender que ele não compreendia a guerra, curta ou não.
“Acho melhor você trazer suas coisas aqui para Port Harcourt, até a gente botar os nigerianos para fora”, disse Kainene. Estava folheando um jornal, balançando a cabeça ao som de um disco dos Beatles e fazendo com que parecesse normal uma guerra ser o resultado inevitável dos acontecimentos, e que a mudança de Richard para Orlu fosse simplesmente o que tinha de ser.
“Claro”, disse ele.
O motorista dela o levou. As barreiras de controle tinham se espalhado, pneus e tábuas cheias de pregos postas no leito da estrada, homens e mulheres de camisa cáqui, com uma postura impenetrável e disciplinada, ao lado. As primeiras foram fáceis de passar. “Aonde estão indo?”, perguntavam e, depois, faziam sinal para que seguissem em frente. Porém, perto de Enugu, os defensores civis haviam bloqueado a estrada com troncos de árvore e tambores enferrujados. O motorista parou.
“Volte! Volte!” Um homem espiou pela janela; segurava um longo pedaço de madeira entalhado cuidadosamente, para parecer um rifle. “Volte!”
“Boa tarde”, disse Richard. “Eu trabalho na universidade de Nsukka e estou indo para lá. Meu empregado ficou em casa. Tenho de pegar meu manuscrito e alguns itens pessoais.”
“Volte, sah. Nós vamos expulsar os vândalos bem rápido.”
“Mas meu manuscrito, meus papéis e meu empregado estão lá. Olha só, eu não peguei nada. Eu não sabia.”
“Volte, sah. Essa é a ordem que recebemos. Não é seguro. Mas logo, assim que a gente expulsar os vândalos, o senhor pode voltar.”
“Mas será que não deu para entender?” Richard debruçou-se mais para a frente.
Os olhos do homem se estreitaram, enquanto o grande olho pintado em sua camisa, sob a palavra VIGILÂNCIA, deu a impressão de aumentar. “Tem certeza de que não é um agente do governo nigeriano? Foram vocês brancos que permitiram que Gowon matasse mulheres e crianças inocentes.”
“Abu m onye Biafra”, disse Richard.
O homem riu e Richard não poderia jurar se tinha sido uma risada de prazer ou de desprazer. “Olha aí, um branco dizendo que é biafrense! Onde foi que aprendeu a falar nossa língua?”
“Com a minha mulher.”
“Certo, sah. Não se preocupe com as suas coisas em Nsukka. As estradas estarão limpas em poucos dias.”
O motorista fez marcha a ré e, ao retomar o caminho de volta, Richard não parava de olhar para trás, para a estrada bloqueada, até que não viu mais coisa alguma. Pensou na facilidade com que aquelas palavras em ibo haviam saído de sua boca. “Eu sou biafrense.” Não sabia por quê, mas torcia para o que motorista não contasse a Kainene o que ele dissera. Esperava também que não contasse que ele tinha chamado Kainene de “sua mulher”.
Susan ligou alguns dias depois. Era manhã alta e Kainene estava numa de suas fábricas.
“Eu não sabia que você tinha o número daqui”, disse Richard. Susan riu.
“Fiquei sabendo que Nsukka foi evacuada e sabia que você estaria com ela. E então, como vai? Tudo bem com você?”
“Tudo.”
“Você não teve problemas para sair de Nsukka, teve?”, perguntou Susan. “Está bem mesmo?”
“Estou bem, sim.” Ficou comovido com a preocupação dela.
“Certo. E quais são seus planos?”
“Vou ficar por aqui, por enquanto.”
“Não é seguro, Richard. Eu não fico aqui nem mais uma semana. Essa gente nunca trava uma guerra civilizada, já reparou? E todo mundo dizendo que é uma guerra civil.” Susan calou-se uns momentos. “Liguei para o British Council em Enugu e não acreditei quando soube que o pessoal lá continua indo jogar pólo aquático e a organizar coquetéis no Hotel Presidential! Tem uma guerra acontecendo.”
“Mas vai acabar rápido.”
“Que acabar rápido, que nada! Nigel está partindo daqui a dois dias. Não vai acabar rápido coisa nenhuma; essa guerra vai se arrastar durante anos e anos. Veja o que houve no Congo. Essa gente não tem noção de paz. Preferem lutar até o último homem...”
Richard desligou enquanto Susan ainda falava, surpreso consigo mesmo pela falta de educação. Havia uma parte, nele, que gostaria de poder ajudá-la, de atirar no lixo as garrafas de bebida do seu armário, de limpar a paranóia que deixara cicatrizes em sua vida. Talvez fosse bom que estivesse indo embora. Richard esperava que encontrasse a felicidade com Nigel ou qualquer outro homem. Ainda estava ocupado, pensando em Susan, torcendo para que ela não ligasse de novo e, ao mesmo tempo, esperando que ligasse, quando Kainene chegou. Ela o beijou no rosto, nos lábios, no queixo. “Você passou o dia preocupado com o Harrison e com o Nos tempos dos vasos de cordas?”, perguntou.
“Claro que não”, disse ele, embora ambos soubessem que era mentira.
“Vai dar tudo certo para o Harrison. Ele já deve ter feito as malas e ido para o povoado dele.”
“É, ele já deve ter ido.”
“Muito provavelmente, levou o manuscrito junto.”
“Verdade.” Richard lembrou-se de como Kainene destruíra seu primeiro manuscrito, O cesto de mãos, de como ela o levara ao pomar, até uma pilha de papéis incinerados, debaixo de sua árvore predileta, com o rosto o tempo todo impenetrável; e também de como, depois disso, ele não tinha sentido nem vergonha nem raiva, apenas esperança.
“Houve outra passeata na cidade, hoje, pelo menos umas mil pessoas, e vários carros cobertos por folhas verdes”, disse ela. “Eu gostaria que eles fossem fazer isso no campo, em vez de ficar bloqueando as ruas principais. Eu já doei dinheiro e não vou ficar parada debaixo do sol quente só para dar mais uma mãozinha à ambição de Ojukwu.”
“É tudo por uma causa, Kainene, não por um homem.”
“Pois sim, a causa da extorsão obediente. Você sabia que os motoristas de táxi não cobram mais dos militares? Eles se ofendem quando algum se oferece para pagar a tarifa. Madu diz que aparecem bandos de mulheres nos quartéis, a cada poucos dias, vindas de tudo quanto é povoado atrasado, e que chegam com cestos de cará, banana-da-terra e fruta para os soldados. Uma gente que não tem nem para si.”
“Não é extorsão. É pela causa.”
“Pela causa uma ova.” Kainene abanou a cabeça, mas parecia estar achando graça naquilo. “Madu me contou hoje que o exército não tem nada, absolutamente nada. Eles achavam que Ojukwu tinha armas estocadas em algum lugar, tendo em vista o jeito como ele fala. ‘Poder nenhum na África Negra pode nos derrotar!’ Aí Madu e alguns outros militares que serviam no Norte foram dizer a ele que o nosso exército não tem armas, não tem como mobilizar as tropas, e que os homens estão tendo que treinar com armas de pau, tenha a santa paciência! Queriam que ele distribuísse os estoques de armamentos. Mas ele se virou e disse que estavam fazendo um complô para derrubá-lo. Pelo visto, ele não tem arma nenhuma e planeja derrotar a Nigéria com os punhos.” Ela ergueu o punho fechado e sorriu. “Mas no fundo eu o acho atraente demais; só aquela barba.”
Richard não disse nada. Perguntou-se, por um instante muito breve, se deveria deixar crescer a barba.