Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 23 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 22

 

 

A diarréia de Ugwu veio com dores e cólicas. Não melhorou depois que mastigou os comprimidos azedos que havia no armário do Patrão, nem depois das folhas amargas que Jomo lhe deu; o desarranjo não tinha nada a ver com o que ele comia, porque as corridas repentinas ao Alojamento dos Criados aconteciam com qualquer coisa que ingerisse. A diarréia era resultado de sua inquietação. O medo do Patrão o deixava inquieto.

Desde que Mama trouxera a notícia da gravidez de Amala, o Patrão andava tropeçando em tudo, como se os óculos estivessem embaçados, pedia o chá em voz baixa e mandava Ugwu dizer às visitas que havia saído, muito embora o carro continuasse na garagem. Às vezes, ficava olhando o vazio. E ouvia música High Life com frequência. Falava de Olanna o tempo todo. “Vamos deixar para resolver isso quando a patroa voltar”, ou “Sua patroa prefere isso no corredor”, e Ugwu respondia: “Pois não, sah”, embora soubesse que o Patrão não iria se dar ao trabalho de dizer essas coisas se Olanna fosse de fato voltar.

A diarréia de Ugwu piorou quando Mama apareceu junto com Amala para fazer uma visita. Ele observou cuidadosamente a moça; ela não parecia grávida, continuava magra e de barriga lisa, e ele torcia para que o remédio não tivesse tido efeito. Mas Mama lhe havia dito, enquanto descascava os inhames quentes: “Quando este bebê nascer, eu terei alguém para me fazer companhia e as outras mulheres não poderão mais me chamar de mãe de um filho impotente”.

Amala estava sentada na sala. A gravidez elevara seu status, de modo que agora podia sentar-se preguiçosamente para ouvir o rádio, não era mais a criada de Mama e sim a mulher que daria à luz o neto de Mama. Ugwu observava da porta da cozinha. Era bom que não tivesse escolhido a poltrona do Patrão, nem o pufe predileto de Olanna, porque ele teria pedido para ela se levantar imediatamente. Sentada com os joelhos bem fechados, tinha os olhos focados na pilha de jornais sobre a mesa de centro e o rosto sem expressão nenhuma. Era tão errado que uma pessoa comum com um vestidinho ordinário e um lenço de algodão na testa estivesse no meio de tudo aquilo. Ela não era nem bonita nem feia; era igual a tantas outras jovens que já vira na sua aldeia, passando rumo ao ribeirão todas as manhãs. Não havia nada que a realçasse. Olhando para Amala, de repente Ugwu sentiu raiva. Sua raiva, porém, não era dirigida a Amala, e sim a Olanna. Ela não devia ter fugido da própria casa só porque o feitiço de Mama havia empurrado o Patrão para os braços dessa mocinha vulgar. Devia ter ficado e mostrado a Amala e a Mama quem é que mandava ali.

Os dias eram sufocantes e repetitivos, Mama fazendo suas sopas de cheiro forte que comia sozinha, porque o Patrão ficava na rua até tarde, Amala sentia náuseas e Ugwu estava com diarreia. Porém ela não parecia se importar; cantarolou, cozinhou, limpou e depois que, finalmente, aprendeu a acender o fogão, disse muito satisfeita: “Um dia vou ter meu próprio fogão; meu neto vai comprar um para mim”. E riu.

Por fim, depois de mais de uma semana, Mama resolveu voltar para o povoado e disse que deixaria Amala com o Patrão. “Não percebeu como ela está mal?”, perguntou. “Meus inimigos querem prejudicar a gravidez dela, não querem alguém levando o nome da família, mas nós vamos derrotar todo mundo.”

“A senhora tem que levá-la junto”, disse o Patrão. Passava da meia-noite. Mama tinha ficado acordada até o Patrão voltar, e Ugwu estava na cozinha, meio dormindo, esperando para trancar a casa.

“Você não me escutou dizer que ela está passando mal?”, perguntou Mama. “É melhor para ela ficar aqui.”

“Ela vai ver o médico, mas a senhora tem que levá-la daqui.”

“Você está recusando seu filho e não Amala”, disse Mama.

“A senhora tem que levá-la daqui”, repetiu o Patrão. “Olanna pode voltar a qualquer momento e as coisas não vão dar certo se Amala estiver aqui.”

“Seu próprio filho”, disse Mama, sacudindo a cabeça tristemente, mas não discutiu mais. “Vou embora amanhã porque tenho de comparecer a uma reunião da umuada. No final da semana, eu volto para pegá-la.”

Na tarde em que Mama partiu, Ugwu encontrou Amala na horta, agachada no chão, com os joelhos cerrados, os braços em volta das pernas. Estava comendo pimenta.

“Isso é bom?”, perguntou Ugwu. Talvez fosse uma mulher-espírito e tivesse aparecido para executar rituais junto com sua companheira ogbanje.

Amala não disse nada por alguns momentos; falava tão pouco que sua voz sempre surpreendia Ugwu por sua estridência e infantilidade. “Pimenta pode tirar gravidez”, disse ela.

“O quê?”

“Se a gente comer bastante pimenta vermelha, ela tira a gravidez.” Estava enrodilhada na lama, feito um animal patético, mastigando devagar a pimenta, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

“Pimenta não faz isso”, falou Ugwu. Entretanto bem que torcia para que ela tivesse razão, para que as pimentas fossem de fato abortivas e sua vida voltasse a ser como era antes: Olanna e o Patrão juntos, em segurança.

“Se a gente comer bastante, dá certo”, insistiu a moça, erguendo o braço para apanhar outra.

Ugwu não queria que ela acabasse com as pimentas que ele cultivara com tamanho cuidado para seus ensopados, mas se ela estivesse certa a respeito do efeito, talvez valesse a pena deixá-la em paz. O rosto de Amala estava escorregadio com a mistura de lágrimas e muco, e, de vez em quando, ela abria a boca e punha a língua queimada de pimenta para fora, ofegando feito um cachorro. Ele queria perguntar a ela por que tinha aceitado fazer aquilo, se não queria ter um filho. Afinal, ela fora sozinha ao quarto do Patrão, e devia saber dos planos de Mama. Mas não perguntou nada; não queria a amizade dela. Virou-se e voltou para dentro.

* * *

Dias depois de Amala ter ido embora, Olanna fez uma visita. Sentou-se empinada no sofá, as pernas cruzadas como um convidado distante, e recusou o chin-chin que Ugwu levou num pires.

“Leva de volta para a cozinha”, disse ela a Ugwu, ao mesmo tempo que o Patrão dizia: “Deixa aí na mesa”.

Ugwu ficou indeciso, segurando o pires.

“Então leva de volta para a cozinha!”, falou o Patrão, com aspereza, como se Ugwu fosse de alguma forma o responsável pela tensão que tomara conta da sala. Ugwu não fechou a porta da cozinha, para escutar o que diziam, mas poderia muito bem fer fechado, porque a voz alterada de Olanna era bastante audível. “Foi você e não sua mãe. Aconteceu porque você deixou que acontecesse! E agora você precisa assumir a responsabilidade!”

Ugwu assustou-se de ver que aquela voz tão macia podia se transformar em algo feroz.

“Eu não sou um homem namorador, e você sabe muito bem disso. Isso não teria acontecido se a minha mãe não tivesse dado uma mão!” Teria sido melhor se Patrão tivesse baixado a voz; devia saber que mendigo não berra.

“E a sua mãe tirou seu pênis da calça e enfiou em Amala, também?”, perguntou Olanna.

Ugwu sentiu um súbito ronco tumultuado na barriga e correu para o banheiro do Alojamento dos Criados. Quando saiu, viu Olanna ao lado do limoeiro. Buscou na expressão dela uma dica para saber como terminara a conversa, se é que terminara; e por que ela estava ali fora. Mas não conseguiu ver nada em seu rosto. Havia linhas bem marcadas em volta da boca e uma confiança tranquila na sua postura, usando uma peruca nova que a fazia parecer mais alta.

“A senhora quer alguma coisa, mah?”, perguntou ele.

Ela deu uns passos e foi até as anaras. “Estas plantas estão muito bem. Você usou fertilizante?”

“Usei, mah. Do Jomo.”

“E nas pimentas?”

“Também, mah.”

Ela se virou.

“Eu tenho um tio que tem um negócio no Norte, mah. As pessoas têm ciúme dele por estar indo bem. Um dia, lavou as roupas e, quando recolheu do varal, para levar para dentro, viu que alguém havia cortado um pedaço da manga de uma camisa.”

Olanna o observava; havia alguma coisa na fisionomia dela que o fez perceber que não teria paciência suficiente para ouvir muito mais tempo.

“A pessoa que cortou o pedaço da manga usou para fazer feitiço maligno, só que não funcionou porque meu tio queimou a camisa na hora. Naquele dia, havia muita mosca perto da cabana dele.”

“Do que é que você está falando, me diga?”, perguntou Olanna, em inglês. Como falava inglês muito pouco com ele, a frase pareceu fria, distante.

“Mama usou feitiço maligno no meu Patrão, mah. Eu vi moscas na cozinha. Eu a vi pondo alguma coisa na comida dele. Depois eu a vi esfregando algo no corpo de Amala; e eu sei que foi o feitiço que ela usou para tentar o Patrão.”

“Besteira”, disse Olanna. A palavra saiu como um silvo, besteira, e o estômago de Ugwu apertou-se. Ela estava diferente; a pele e as roupas estavam mais crispadas. Curvou-se e espantou um pulgão que havia pousado no vestido, antes de se afastar. Porém não deu a volta na casa e na garagem do Patrão, para ir até o seu carro, parado na frente. Em vez disso, entrou de novo. Ele foi atrás. Da cozinha escutou a voz dela vindo do escritório, gritando uma longa enfiada de palavras que ele não conseguiu nem quis entender. Em seguida, silêncio. Depois a porta do quarto, abrindo e fechando. Ugwu esperou um pouco, antes de cruzar o corredor pé ante pé para encostar a orelha na porta. Ela parecia diferente. Ugwu estava acostumado a seus gemidos roucos, mas o que ouvia agora era um som arfado de ah-ah-ah, como se ela estivesse se preparando para explodir, como se o Patrão a estivesse agradando e ao mesmo irritando, e ela aguardasse para ver quanto prazer poderia tirar, antes de dar vazão à raiva. Ainda assim, a esperança ressurgiu no coração de Ugwu. Faria um arroz jollof perfeito para o jantar de reconciliação.

Mais tarde, ao ouvir o carro dela dar a partida e ver os faróis brilhantes perto do arbusto das flores brancas, achou que ela estava indo pegar algumas coisas suas no apartamento. Pôs dois pratos na mesa, mas não serviu a comida porque queria manter tudo quentinho na panela.

O Patrão entrou na cozinha. “Você pretende comer sozinho, hoje, meu bom homem?”

“Estou esperando a patroa.”

“Sirva a minha comida, osiso!”

“Pois não, sah. Será que a patroa vai voltar logo, sah?”

“Sirva a minha comida!”, repetiu o Patrão.