Meio Sol Amarelo
Capítulo 10
Ugwu pôs a mesa para o almoço. “Está servido, sah”, disse ele, embora soubesse que o Patrão não iria nem tocar na sopa de okro e que continuaria a andar de um lado a outro da sala, com o rádio ligado em volume alto, como vinha fazendo desde que a srta. Adebayo saíra, cerca de uma hora atrás. Ela tinha batido com tamanha força na porta que Ugwu ficou preocupado com o vidro, e, depois, quando foi abri-la, a srta. Adebayo o empurrou, perguntando: “Cadê seu patrão? Cadê seu patrão?”.
“Eu vou chamá-lo, mah”, mas a srta. Adebayo já estava lá adiante, indo para o escritório. Ele ouviu quando ela disse: “Estamos com problemas no Norte”, e a boca de Ugwu secou na hora, porque a srta. Adebayo não era uma alarmista e, o que quer que estivesse acontecendo no Norte, tinha de ser sério, e Olanna estava em Kano.
Desde o segundo golpe, algumas semanas antes, quando soldados ibos morreram, ele tinha feito o possível para entender o que estava acontecendo, lia os jornais com mais cuidado, escutava com mais atenção as palavras do Patrão e de seus convidados. As conversas não terminavam mais com risadas tranquilizadoras, e a sala parecia estar sempre toldada de incertezas, de um conhecimento inconcluso, como se todo mundo soubesse que haveria alguma coisa, no entanto não soubesse o quê. Nenhum deles jamais teria imaginado que isso iria acontecer, que o locutor da rádio ENBC de Enugu estaria anunciando agora, enquanto Ugwu alisava a toalha de mesa: “Já está confirmada a notícia de que cerca de quinhentos ibos foram mortos em Maiduguri”.
“Que asneira!”, gritou o Patrão. “Você ouviu isso? Você ouviu isso?”
“Ouvi, sah”, disse Ugwu. Esperava que o barulho não fosse acordar Baby, que fazia a sesta.
“Impossível!”, disse o Patrão.
“Sah, a sua sopa”, disse Ugwu.
“Quinhentas pessoas mortas. Não pode ser! Não é verdade.”
Ugwu levou o prato para a cozinha e pôs na geladeira. O cheiro dos temperos lhe dava náusea, assim como a visão da sopa, ou de qualquer comida. Mas Baby acordaria logo mais e ele tinha que preparar seu jantar. Pegou um saco de batatas da despensa e sentou-se, olhando para elas e se lembrando de dois dias antes, quando Olanna partira para Kano, para buscar tia Arize, o cabelo trançado puxando sua testa até a pele ficar com um brilho sedoso. Baby entrou na cozinha. “Ugwu.”
“I tetago? Você está acordada?”, perguntou ele, antes de abraçá-la. Perguntava-se se o Patrão teria visto a filha passar pela sala. “Você sonhou com os franguinhos bebês?”
Baby riu e as covinhas afundaram bem no fundo das bochechas. “Sonhei!”
“E você falou com eles?”
“Falei!”
“E o que eles disseram?”
Baby não deu a resposta de hábito. Soltou do pescoço de Ugwu e agachou-se no chão. “Onde está Mami Ola?”
“Mami Ola vai voltar logo.” Ugwu examinou a lâmina da faca. “Agora, me ajude com as cascas. Ponha tudo na lata de lixo e, quando Mami Ola voltar, a gente diz para ela que você me ajudou a cozinhar.”
Depois de Ugwu ter posto as batatas para cozinhar, deu um banho na menina, empoou seu corpo com talco Pears e pegou sua camisola rosa. Era a que Olanna adorava, a que, segundo ela, deixava Baby parecendo uma boneca. Porém Baby disse: “Eu quero o pijama”, e Ugwu ficou inseguro, sem saber qual é que Olanna amava, a camisola ou o pijama.
Escutou uma batida na porta da frente. O Patrão saiu correndo do escritório. Ugwu saiu em disparada e agarrou a maçaneta antes; não largou, para poder ser a pessoa a abrir a porta, embora soubesse que não podia ser Olanna. Ela tinha a própria chave.
“E Obiozo?”, perguntou o Patrão, olhando para os dois homens parados na porta. “Obiozo?”
Quando Ugwu viu os olhos vazios dos dois, as roupas imundas, soube na hora que deveria tirar Baby dali, protegê-la. Levou a comida dela para o quarto, pôs na mesinha de brinquedo, e disse que ela podia fingir que estava comendo com Jill, dos quadrinhos de Jack and Jill, que vinham com o Renaissance. Parado na porta que dava para o corredor, Ugwu deu uma espiada na sala. Um deles falava, enquanto o outro bebia de uma garrafa de água, sem se preocupar com o copo na mesa.
“Nós encontramos um caminhoneiro que concordou em nos trazer”, disse o homem, e Ugwu viu na hora que era um conterrâneo do Patrão; o dialeto de Abba era pesado e cada f soava como um v.
“O que houve?”, perguntou o Patrão.
O homem colocou a garrafa de água sobre a mesa e disse baixinho: “Eles estão matando a gente feito formiga. Ouviu bem o que eu disse? Formiga”.
“Nossos olhos já viram coisas demais, anyi afujugo anya”, disse Obiozo. “Eu vi uma família inteira, o pai, a mãe e os três filhos, mortos na estrada. Largados ali.”
“E Kano? O que está acontecendo em Kano?”, perguntou o Patrão.
“Começou em Kano”, disse o homem.
Obiozo estava falando, dizendo alguma coisa sobre urubus e cadáveres jogados do lado de fora dos muros da cidade, porém Ugwu não escutou mais nada. Começou em Kano continuava ressoando em sua cabeça. Não queria arrumar o quarto de hóspedes, pegar
lençóis limpos, aquecer a sopa e preparar garri* para eles. Queria que se fossem imediatamente. Ou, se não fossem partir, que fechassem aquelas suas bocas imundas. Queria que o locutor de rádio também fizesse silêncio, mas ele não fazia. Repetiram as notícias das mortes em Maiduguri até Ugwu ter vontade de atirar o rádio pela janela, e, na tarde seguinte, depois que os homens se foram, uma voz solene, na rádio ENBC de Enugu, recontou testemunhos de pessoas do Norte: professores estraçalhados em Zaria, uma igreja católica inteirinha incendiada em Sokoto, uma grávida aberta ao meio em Kano. O locutor parou uns momentos. “Alguns de nós estão começando a voltar. Os que tiveram sorte estão voltando. As estações ferroviárias estão lotadas com nossa gente. Se você tem um pouco de chá e pão sobrando, por favor, leve até a estação. Ajude um irmão necessitado.”
O Patrão saltou do sofá. “Vá, Ugwu. Pegue chá, pão e vá até a estação de trem.”
“Pois não, sah”, disse Ugwu. Antes de fazer o chá, fritou algumas bananas para o almoço de Baby. “Eu pus o almoço de Baby no forno, sah.”
Não tinha certeza se o Patrão ouvira e, ao sair, ficou preocupado, pensando que Baby podia sentir fome e o pai não sabia que tinha banana frita no forno. Obrigou-se a continuar preocupado até chegar à estação. Esteiras e panos imundos estavam espalhados por toda a plataforma, com gente amontoada em cima, homens, mulheres e crianças chorando, comendo pão e cuidando das feridas. Os ambulantes andavam em volta, com as bandejas na cabeça. Ugwu não queria entrar naquele bazar esfarrapado, mas muniu-se de coragem e foi na direção de um homem sentado no chão, com um trapo manchado de vermelho em volta da cabeça. As moscas zumbiam por todos os lados.
“Quer um pouco de pão?”, perguntou Ugwu.
“Quero, meu irmão. Dalu. Obrigado.”
Ugwu não olhou para ver que profundidade tinha a ferida de faca na cabeça. Serviu o chá e estendeu o pão. Não se lembraria desse homem no dia seguinte porque não queria lembrar.
“Quer um pouco de pão?”, perguntou Ugwu a outro homem ali perto, sentado todo curvado. “I choro pão?”
O homem virou-se. Ugwu recuou e quase deixou cair a garrafa térmica. O olho direito dele se fora, e, em seu lugar, havia uma polpa vermelho-suculenta.
“Foram os soldados que nos salvaram”, dizia o primeiro homem, como se sentisse que era dever dele contar sua história em troca do pão que comia, embebido no chá. “Eles nos disseram para correr para o quartel. Aqueles doidos estavam correndo atrás de nós como se fôssemos bodes fugidos, mas, assim que atravessamos os portões do quartel, ficamos seguros.”
Um trem caindo aos pedaços entrou na estação, tão cheio que havia pessoas viajando do lado de fora, agarradas em barras de metal. Ugwu viu gente cansada, empoeirada e ensanguentada saltando, mas não se adiantou para ajudá-las. Não conseguia suportar a idéia de que Olanna fosse um dos derrotados se arrastando pela plataforma, ao mesmo tempo que não aceitava a idéia de que não fosse, de que tivesse ficado para trás, em algum lugar no Norte. Ficou ali até o trem esvaziar. Olanna não saltou. Deu o resto do pão ao homem sem olho, depois se virou e correu. Só parou quando entrou na Odim e passou o arbusto de flores brancas.
* Garri ou gari é tapioca. [N.T.]