Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 16 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 15

 

Ugwu saltou e deu a volta para abrir o porta-malas. Pôs o saco de peixe seco em cima de uma sacola maior, de garri, acomodou os dois na cabeça e seguiu o Patrão pelos degraus trincados até a entrada do prédio sombrio, que funcionava como escritório sindical da cidade. Ovoko foi recebê-los. “Leve os mantimentos até a loja”, disse ele a Ugwu, apontando, como se Ugwu não soubesse o que fazer, ele, que já fora levar comida aos refugiados tantas vezes. A loja estava vazia, exceto por um pequeno saco de arroz num canto — cheio de gorgulho.

“Como vão as coisas? A na-emekwa?”, perguntou o Patrão.

Ovoko esfregou as mãos. Ele tinha aquela fisionomia lúgubre dos que simplesmente se recusam a ser consolados. “Ninguém está doando muita coisa, no momento. E esse pessoal não pára de aparecer, me pedindo comida, e depois trabalho. Você sabe como é, eles vieram do Norte sem nada. Nada.”

“Eu sei que eles vieram sem nada, meu amigo! Não me venha dar aulas.” O Patrão estava irritado.

Ovoko recuou. “Só estou dizendo que a situação é séria. No início, os moradores vinham correndo doar comida, mas agora se esqueceram do assunto. Vai ser um desastre, se a gente entrar em guerra.”

“Nós não vamos entrar em guerra.”

“Então por que Gowon continua com o bloqueio contra nós?”

O Patrão ignorou a pergunta e virou-se para partir. Ugwu foi atrás.

“Claro que as pessoas ainda estão doando comida. Aquele lambisgóia deve é levar a comida que estão doando para casa”, disse o Patrão, ligando o carro.

“Pois é, sah”, concordou Ugwu. “Até a barriga dele é grande.”

“Aquele energúmeno do Gowon prometeu uma quantia irrisória, insignificante, para mais de dois milhões de refugiados. Será que ele acha que foram galinhas que morreram e que os parentes sobreviventes dessas galinhas é que estão voltando?”

“Não, sah.” Ugwu olhava pela janela. Sentia-se triste por ter ido doar garri e peixe a pessoas que podiam se alimentar sozinhas no Norte, e por ouvir o Patrão dizer, semana após semana, as mesmas coisas. Estendeu a mão e endireitou o cordão pendurado no espelhinho retrovisor. O objeto preso ali era de plástico, um meio sol amarelo pintado sobre fundo preto.

Mais tarde, sentado nos degraus que iam dar no quintal, lendo As aventuras do sr. Pickwick e parando várias vezes para pensar e ver as finas folhas de milho balançando ao vento, não se surpreendeu quando ouviu a voz alterada do Patrão na sala de estar. O Patrão sempre ficava mal-humorado em dias assim.

“E o que você me diz dos nossos colegas em Ibadã, Zaria e Lagos? Alguém por acaso toca no assunto? Eles não abriram a boca enquanto os expatriados brancos incentivavam os revoltosos a matar o povo ibo. Você seria uma delas, se não estivesse na terra dos ibos! Quanta compaixão você consegue ter por eles?”, gritou o Patrão.

“Não ouse dizer que eu não tenho compaixão! Dizer que eu não acho que a secessão é a única maneira de se obter segurança não significa que eu não tenho compaixão!” Era a voz da srta. Adebayo.

“Por acaso seus primos morreram? Seu tio morreu? Você vai voltar para os seus parentes em Lagos, na semana que vem, e ninguém irá perturbá-la por ser ioruba. E não é o seu próprio povo que está matando os ibos em Lagos? Não foi um grupo de chefes iorubas que foi até o Norte agradecer aos emires por terem poupado os iorubas? Então o que está querendo dizer? Como a sua opinião pode ser relevante?”

“Você me insulta, Odenigbo.”

“A verdade agora se tomou um insulto.”

Fez-se um silêncio, e, depois, o rangido da porta da frente, sendo aberta e fechada de chofre. A srta. Adebayo se fora. Ugwu ergueu-se quando ouviu a voz de Olanna gritar: “Isso é inaceitável, Odenigbo! Você tem de pedir desculpas a ela!”.

Estava assustado de ouvi-la nesse tom alterado, porque era muito raro Olanna erguer a voz, e também porque a última vez fora durante aquelas fragmentadas semanas, antes do nascimento de Baby, quando o sr. Richard parou de fazer visitas e tudo dava a impressão de estar prestes a afundar e morrer. Durante alguns momentos, Ugwu não escutou nem um som — talvez Olanna também tivesse saído — e em seguida ouviu Okeoma lendo. Ugwu conhecia o poema: “Se o sol se recusa a nascer, nós o faremos nascer”. Na primeira leitura que Okeoma fez, no mesmo dia em que o jornal Renaissance passou a se chamar Sol de Biafra, Ugwu ouvira e se sentira estimulado pela poesia, sobretudo pelo verso que virou seu predileto: “Potes de barro queimados no zelo, que vão refrescar nossos pés enquanto escalamos”. Agora, porém, sentia tristeza. Gostaria de ver de volta os dias em que Okeoma recitava poemas sobre gente com brotoeja na bunda porque defecava em balde importado, os dias em que a srta. Adebayo e o Patrão berravam, mas a noitada não terminava com saídas bruscas, os dias em que ainda servia sopa de pimenta. Agora, só servia noz-de-cola.

Okeoma saiu um pouco depois e Ugwu escutou a voz alterada de Olanna de novo. “Você precisa, Odenigbo. Você lhe deve um pedido de desculpa!”

“Não se trata de saber se eu devo ou não um pedido de desculpa a ela. É uma questão de saber se eu disse a verdade ou não”, respondeu o Patrão. Olanna disse qualquer coisa que Ugwu não escutou e, depois, a voz do Patrão, num tom mais calmo. “Certo, nkem, eu peço.”

Olanna entrou na cozinha. “Nós vamos sair”, disse ela. “Venha trancar a porta.”

“Pois não, mah.”

Depois que eles saíram no carro do Patrão, Ugwu ouviu uma batida na porta do fundo e foi ver quem era.

“Chinyere”, disse ele, espantado. Ela nunca aparecia assim tão cedo, e nunca na casa principal.

“Eu, minha patroa e as crianças vamos partir amanhã de manhã para o povoado. Eu vim lhe dizer adeus. Ka o di.”

Ugwu nunca tinha ouvido Chinyere falar tanto. Não sabia bem o que dizer. Eles se olharam por um tempo.

“Boa viagem”, disse ele. E ficou vendo a moça passar por baixo da cerca que separava o terreno das duas casas. Nunca mais ela surgiria à noite em sua porta, nunca mais deitaria e abriria as pernas em silêncio; pelo menos, não por um bom tempo. Ugwu sentiu um peso esmagando sua cabeça. As mudanças avançavam contra ele, pesavam em cima dele, e não havia nada que pudesse fazer para arrefecer seu ritmo.

Sentou-se e ficou olhando para a capa das Aventuras do sr. Pickwick. Havia uma serena quietude no quintal, no balanço suave da mangueira e no cheiro de vinho dos cajus maduros. Isso tudo disfarçava o que via em volta. Cada vez menos convidados na casa, e, à noite, as ruas do campus fantasmagóricas, cobertas pela luz perolada do silêncio e do vazio. A Eastern Shop fechara. A patroa de Chinyere era apenas uma das muitas famílias que estavam indo embora; os empregados compravam imensos caixotes de comida no mercado e os carros saíam com o porta-malas lá embaixo, tão pesada era a carga. Porém Olanna e o Patrão não haviam feito uma única mala. Diziam que a guerra não iria acontecer e que as pessoas estavam apenas entrando em pânico. Ugwu sabia que as famílias tinham sido informadas de que poderiam levar as mulheres e as crianças para suas cidades natais, mas que os homens não poderiam sair, porque, se saíssem, era sinal de que estavam entrando em pânico, e não havia por que sentir pânico. “Motivo nenhum para alarme”, era o que o Patrão vivia repetindo. “Motivo nenhum para alarme.” O professor Uzomaka, que vivia na casa em frente à do doutor Okeke, fora impedido de atravessar os portões da universidade por três vezes, pelas milícias. Eles o deixaram passar no terceiro dia, depois de ter jurado que voltaria, que só estava levando a família de volta para a aldeia deles, porque a mulher estava muito assustada.

“Ugwuanyi!”

Ugwu ergueu os olhos e viu a tia vindo em sua direção, pelo jardim da frente. Levantou-se.

“Tia! Bem-vinda.”

“Eu estava batendo na porta da frente.”

“Desculpe. Eu não ouvi.”

“Você está sozinho em casa? Cadê seu patrão?”

“Eles saíram. E levaram Baby junto.” Ugwu examinou o rosto dela. “Tia, está tudo bem?”

Ela sorriu. “Tudo bem, o di mma. Trago um recado do seu pai. Eles vão fazer a cerimônia de levar-o-vinho para Anulika no próximo sábado.”

“Próximo sábado?”

“É melhor fazer já, antes que venha a guerra, se é que a guerra vem.”

“É verdade.” Ugwu desviou a vista e olhou para o limoeiro. “Quer dizer então que Anulika vai se casar mesmo.”

“Você por acaso achou que iria se casar com a própria irmã?”

“Deus me livre.”

A tia esticou a mão e beliscou o braço de Ugwu. “Olha só pra você, um homem, já. Daqui a uns anos, será a sua vez.”

Ugwu sorriu. “A senhora e a minha mãe vão encontrar a pessoa certa, quando chegar a hora, tia”, disse ele, com falso decoro. Não havia por que dizer a ela que Olanna já o avisara de que ele faria faculdade, depois de terminar o colegial. Ele não se casaria até ficar igual ao Patrão, até ter gastado muitos anos lendo livros.

“Eu já vou indo”, disse a tia.

“Não quer um pouco de água?”

“Não posso ficar. Ngwanu, deixa estar. Cumprimente seu patrão por mim e dê o recado para ele.”

Antes mesmo de a tia ir embora, Ugwu já se imaginou chegando em casa, para a cerimônia. Dessa vez, finalmente, abraçaria o corpo nu e flexível de Nnesinachi. A cabana do tio Eze era um bom lugar para isso, ou quem sabe o calmo matagal na beira do regato, contanto que as crianças pequenas não aparecessem para incomodar. Esperava que ela não fosse tão silenciosa como Chinyere; esperava que ela fizesse os mesmos sons que ouvia de Olanna quando encostava a orelha na porta do quarto.

Aquela noite, enquanto cozinhava o jantar, uma voz muito calma no rádio anunciou que a Nigéria iria empreender uma série de ações para impor ordem aos rebeldes de Biafra.

* * *

Ugwu estava na cozinha junto com Olanna, descascando cebolas e vendo o movimento dos ombros dela enquanto mexia a sopa no fogão. Cebolas sempre o faziam se sentir limpo, como se as lágrimas que arrancavam dele tirassem todas as impurezas. Ouvia a voz de Baby na sala de estar, brincando com o Patrão. Não queria nenhum dos dois na cozinha, nesse momento. Destruiriam a mágica que sentia, o ardor adocicado das cebolas nos olhos, o brilho da pele de Olanna. Ela falava sobre os nortistas de Onitsha que haviam sido mortos durante os atos de retaliação. Ugwu gostava do jeito como atos de retaliação saía de sua boca.

“É tão errado”, disse ela. “Tão errado. Mas Sua Excelência lidou muito bem com isso; só Deus sabe quantos mais não teriam sido mortos se ele não tivesse ordenado aos soldados do Norte que voltassem ao Norte.”

“Ojukwu é um grande homem.”

“É, ele é sim, mas todos nós somos capazes de fazer as mesmas coisas uns contra os outros, no fundo.”

“Não, mah. Nós não somos como os hauçás. As mortes em retaliação aconteceram porque eles nos forçaram.” O seu mortes em retaliação tinha ficado bem perto do que ela dissera, Ugwu estava certo disso.

Olanna sacudiu a cabeça, mas continuou em silêncio por um tempo. “Depois da cerimônia de levar-o-vinho da sua irmã, nós vamos para Abba, passar um tempo lá, já que o campus ficou tão vazio”, disse ela, por fim. “Você pode ficar com a sua família, se quiser. A gente volta para pegar você; não devemos ficar fora mais que um mês, no máximo. Nossos soldados vão expulsar os nigerianos numa semana ou duas.”

“Eu vou com a senhora e o Patrão, mah.”

Olanna sorriu, como se quisesse que ele respondesse isso mesmo. “Esta sopa não engrossa de jeito nenhum”, resmungou ela. Depois lhe contou sobre a primeira vez que tinha feito uma sopa, quando bem jovem, e de como conseguira queimar o fundo da panela até um tom de roxo chamuscado, e ainda assim a sopa saíra bem gostosa. Ugwu estava tão enlevado com a voz de Olanna que não escutou o som — bum-bum-bum — que vinha de algum lugar distante e entrava pelas janelas, até que ela parou de mexer a sopa e ergueu a vista.

“O que foi isso?”, perguntou. “Você escutou, Ugwu? O que foi isso?”

Olanna deixou cair a concha e correu para a sala. Ugwu foi atrás. O Patrão estava junto à janela, segurando um exemplar dobrado do Sol de Biafra.

“O que foi isso?”, perguntou Olanna, puxando Baby para si. “Odenigbo!”

“Eles estão avançando”, disse o Patrão, em tom calmo. “Acho que devíamos sair hoje mesmo.”

Foi então que Ugwu escutou o escarcéu de uma buzina, na frente da casa. De repente, teve medo de ir até a porta, até mesmo de ir até a janela espiar.

O Patrão abriu a porta. O Morris Minor verde havia parado tão apressadamente que um dos pneus estava fora da trilha, esmagando os lírios que ladeavam a grama; quando o homem saiu do carro, Ugwu ficou chocado de ver que usava apenas camiseta e calça. E ainda por cima estava de chinelo de usar no banheiro!

“Saiam já! Os soldados federais entraram em Nsukka! Nós temos de sair agora! Agora mesmo! Estou passando em todas as casas ainda ocupadas. Saiam agora!”

Foi só depois de ele ter dado o recado, voltado às pressas para o carro e saído, buzinando sem parar, que Ugwu reconheceu quem era: Vincent Ikenna, o diretor administrativo da universidade. Tinha aparecido algumas vezes. Gostava de tomar cerveja misturada com Fanta.

“Junte algumas coisas, nkem”, disse o Patrão. “Vou ver como está a água do radiador. Ugwu, tranque tudo, rápido! Não se esqueça do Alojamento dos Criados.”

“Gini? Que coisas?”, perguntou Olanna. “O que eu levo?”

Baby começou a chorar. E, de novo, veio o barulho, bum-bum-bum, mais perto e mais alto.

“Não vai ser por muito tempo, a gente volta logo. Leve só algumas coisas, roupas.” O Patrão fez um gesto vago, antes de pegar as chaves do carro da estante.

“Eu ainda estou cozinhando”, disse Olanna.

“Põe no carro”, disse o Patrão.

Olanna parecia atordoada; embrulhou o caldeirão num pano de prato e levou-o para o carro. Ugwu corria de um lado a outro, jogando coisas em sacolas: roupas para Baby, brinquedos, biscoitos tirados da geladeira, as suas roupas, as roupas do Patrão, os panos e os vestidos de Olanna. Bem que gostaria de saber o que levar. Bem que gostaria que o barulho não estivesse cada vez mais perto. Jogou tudo no banco de trás e correu para dentro, para trancar as portas e fechar as venezianas. O Patrão buzinava lá fora. Ele parou no meio da sala, sentindo-se tonto. Precisava urinar. Correu até a cozinha e desligou o fogão. O Patrão gritava seu nome. Ele pegou os álbuns de fotos da estante, os três álbuns que Olanna havia montado com tanto cuidado, e correu para o carro. Mal tinha sentado no banco e o Patrão arrancou. As ruas do campus estavam fantasmagóricas; mudas e vazias.

Nos portões, soldados biafrenses acenavam para os carros passarem. Eles pareciam elegantes, em suas fardas cáqui, as botas brilhando, meio sol amarelo costurado na manga. Ugwu queria ser um deles. O Patrão acenou e falou: “Muito bem!”.

A poeira pairava por toda parte, como um cobertor marrom transparente. A estrada principal estava lotada; mulheres com caixotes na cabeça e bebês amarrados nas costas, crianças descalças levando fardos de roupas, carás ou caixotes, homens arrastando bicicletas. Ugwu perguntou-se por que levavam lamparinas de querosene acesas, se ainda não estava escuro. Viu uma criança pequena tropeçar e cair, e a mãe curvar-se para levantá-la; lembrou-se de casa, dos primos pequenos, dos pais e de Anulika. Eles estavam seguros. Não teriam de sair correndo porque o povoado deles era distante demais. O que significava apenas que não veria Anulika se casar, e que não ficaria abraçado a Nnesinachi, como planejara. Mas voltaria logo. A guerra iria durar tempo suficiente para que o exército biafrense liquidasse os nigerianos para todo o sempre. Ele ainda sentiria a doçura de Nnesinachi, ainda afagaria aquela carne macia.

O Patrão dirigia devagar, por causa da multidão e dos bloqueios na estrada, porém mais lento ainda quando chegaram a Milliken Hill. O caminhão na frente deles tinha uma frase no pára-choque que dizia NINGUÉM SABE O DIA DE AMANHÃ. Enquanto o veículo acelerava para subir uma ladeira íngreme, um rapaz saltou e foi correndo do lado, com um bloco de madeira na mão, pronto para jogá-lo atrás do pneu traseiro se o caminhão começasse a voltar.

Quando finalmente chegaram a Abba, anoitecia, o vidro do pára-brisa estava coberto de pó ocre e Baby dormia.