Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 30 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 29

 

Ugwu sabia que a história do pastor Ambrose era implausível, que não havia ninguém de uma fundação estrangeira com uma mesa posta na final da rua São João, dando ovos cozidos e garrafas de água gelada a todos que passavam. Sabia, também, que não devia sair do compound; os avisos de Olanna ecoavam ainda em sua cabeça. Mas sentia tédio. Estava muito quente, e ele odiava o gosto de cinzas da água que ficava estocada num pote de barro, atrás da casa. Estava louco para tomar uma água, ou qualquer outra coisa gelada por eletricidade. E a história bem que poderia ser verdade; tudo era possível. Baby brincava com Adanna e ele podia pegar o atalho e voltar antes que ela notasse seu sumiço.

Acabara de virar a igreja de São João quando viu, mais adiante na rua, um grupo de homens parados em fila única, com as mãos na cabeça. Os dois soldados com eles eram muito altos e mantinham a arma apontada para a frente. Ugwu parou. O soldado armado começou a gritar alguma coisa e correu na sua direção. O coração de Ugwu deu um salto dentro do peito; olhou para o mato ao lado da rua, mas era ralo demais para escondê-lo. Olhou para trás, e a rua parecia vazia e interminável; não havia nada para protegê-lo da bala do soldado. Virou-se e correu para a igreja. Um padre idoso, vestido de branco, estava no topo da escada, diante da porta principal. Ugwu subiu rápido, aliviado, porque o soldado não ousaria entrar na igreja para pegá-lo. Quando tocou na porta, viu que estava trancada.

“Biko, padre, deixa eu entrar”, disse ele.

O padre balançou a cabeça. “Aqueles ali que foram recrutados também são filhos de Deus.”

“Por favor, por favor.” Ugwu deu um puxão na porta.

“As bênçãos de Deus irão com vocês”, disse o padre.

“Abre a porta!”, gritou Ugwu.

O padre balançou a cabeça e recuou.

O soldado avançou para a entrada da igreja. “Pare ou eu atiro!”

Ugwu parou, estatelado, a mente vazia.

“Sabe como eles me chamam?”, gritou o soldado. “Mata-e-Sai!” Era um homem alto demais para a calça esfarrapada que parava bem antes do começo das botas negras. Ele cuspiu no chão e puxou o braço de Ugwu. “Malditos civis! Venha comigo!”

Ugwu saiu aos tropeços. Atrás deles, o padre disse: “Deus abençoe Biafra”.

Ele não olhou para o rosto dos outros homens, ao se juntar à fila e erguer as mãos na cabeça. Estava sonhando; tinha de estar sonhando. Um cachorro latia em algum lugar ali perto. Mata-e-Sai gritou com um dos homens, enviesou a arma e atirou para o alto. Havia algumas mulheres aglomeradas a uma pequena distância deles e uma delas conversava com o parceiro de Mata-e-Sai. De início, falou em voz baixa, em tom de quem está implorando, depois ergueu a voz e começou a gesticular feito doida. “O senhor não está vendo que ele nem sabe falar direito? Ele é retardado. Como espera que ele carregue uma arma?”

Mata-e-Sai amarrou os homens em pares, as mãos atrás das costas e a corda bem esticada entre eles. O homem com quem Ugwu fora amarrado deu uma sacudida na corda, para ver se era forte mesmo, e Ugwu quase perdeu o equilíbrio.

“Ugwu!”

A voz tinha vindo do grupo de mulheres. Virou-se. A professora Muokelu estava olhando para ele, com ar chocado. Ele acenou para ela, de uma forma que esperava ter sido respeitosa, porque não podia se arriscar a falar. A professora saiu meio que correndo, meio que andando, pela rua e ele a viu sumir, frustrado e ao mesmo tempo inseguro sobre o que esperava que ela fizesse por ele.

“Preparem-se para marchar!”, gritou Mata-e-Sai. Ergueu a vista e viu um menino no fim da rua; correu até ele. O parceiro apontou a arma para a fila. “Se alguém fugir, eu atiro.”

Mata-e-Sai voltou com o rapaz andando na sua frente.

“Cala a boca!”, disse ele, enquanto amarrava as mãos do garoto nas costas. “Todo mundo andando! Nosso caminhão está na rua ao lado!”

Tinham acabado de começar a andar, num passo desengonçado, com Mata-e-Sai gritando “Lep! Ai!” quando Ugwu viu Olanna. Ela estava apressada, em pânico, usando a peruca, coisa que fazia muito pouco nos últimos tempos, porém mal colocada, porque estava torta na cabeça. Ela sorriu e fez um gesto para Mata-e-Sai, e ele gritou “Parem!”, antes de ir até ela. Eles conversaram de costas para os recrutados e, momentos depois, ele se virou e cortou a corda que atava as mãos de Ugwu.

“Ele já está servindo a nação. Nós só estamos interessados em civis ociosos”, disse ele ao colega, que acenou a cabeça.

A soltura de Ugwu o deixou zonzo. Esfregou os pulsos. Olanna não trocou uma palavra com ele, no caminho de volta para casa, e ele pressentiu sua fúria silenciosa só de ver a força com que ela destrancou e abriu a porta do quarto.

“Desculpe, mah”, disse ele.

“Você é tão burro que não merece a sorte que teve hoje”, disse ela. “Eu subornei aquele soldado com todo o dinheiro que eu tinha. Agora você vai ter de produzir aquilo que eu vou dar para a minha filha comer, entendeu bem?”

“Desculpe, mah”, disse ele de novo.

Olanna pouco falou com ele nos dias seguintes. Ela mesma fazia a comida de Baby, como se não confiasse mais nele. Respondia aos cumprimentos de Ugwu com acenos frios de cabeça. E ele acordava mais cedo ainda para ir buscar água, esfregava mais ainda o chão do quarto e, com isso, esperava ganhar a amizade dela de volta.

Por fim, ganhou-a com a ajuda de alguns lagartos assados. Foi na manhã em que ela e Baby estavam se aprontando para ir a Orlu, visitar Kainene. Passou um ambulante pelo compound com uma bandeja esmaltada coberta por jornal, segurando um lagarto assado num pauzinho e entoando: “Mme mme suya! Mme mme suya!”.

“Eu quero um, Mami Ola”, disse Baby.

“Essas coisas não fazem bem para você”, disse Olanna.

O pastor Ambrose voltou para seu quarto com um pacotinho embrulhado em jornal.

“O pastor comprou um”, disse Baby.

“Mas nós não vamos comprar.”

Baby começou a chorar. Olanna virou-se e olhou para Ugwu, irritada, e, de repente, estavam ambos sorrindo com a situação: Baby chorava porque não podia comer um lagarto.

“O que é que os lagartos comem, Baby?”, perguntou Ugwu.

Baby resmungou: “Formigas”.

“Se você comer um deles, todas as formigas que o lagarto comeu vão começar a passear dentro do seu estômago, e a mordê-la”, disse Ugwu, calmamente.

Baby fez uma careta. Olhou para ele por um tempo, como se decidindo se iria ou não acreditar em suas palavras, antes de enxugar as lágrimas.

 

No dia em que Olanna e Baby partiram para passar uma semana com Kainene, em Orlu, o Patrão voltou mais cedo do que o habitual e não foi ao Bar Tanzânia; Ugwu esperava que a ausência das duas o tivesse puxado para fora do fosso em que estava enterrado desde a morte da mãe. Ele sentou na varanda, escutando rádio. Ugwu levou um susto ao ver Alice parar, a caminho do banheiro. Havia presumido que o Patrão daria suas respostas distantes de sim-e-não e que ela voltaria para o piano. Mas eles conversaram em voz baixa, Ugwu não ouviu quase nada; de vez em quando, escutava uma risadinha dela. No dia seguinte, ela sentou ao lado do Patrão, no banco. E ficou por ali até todo mundo ter ido dormir. Alguns dias depois, Ugwu voltou do quintal e encontrou a varanda vazia, e a porta do quarto firmemente trancada. Sentiu um aperto no estômago; lembranças daqueles dias com Amala haviam lhe deixado na garganta um caroço difícil de engolir. Alice era diferente. Havia uma aura propositadamente infantil a sua volta, da qual Ugwu desconfiava. Dava para ver que ela não precisaria de feitiço de dibia nenhum para provocar o Patrão; conseguiria só com sua pele pálida e aquele seu jeito carente. Ugwu foi até as bananeiras, voltou e resolveu bater forte na porta. Estava decidido a fazê-los parar. Ouviu sons lá dentro. Bateu de novo. E de novo.

“Sim?” A voz do Patrão parecia abafada.

“Sou eu, sah. Eu queria perguntar se posso pegar o fogão a querosene, sah.” Depois que pegasse o fogareiro, fingiria ter esquecido a xícara de garri, ou o último pedacinho de cará, a concha. Estava disposto a fingir um ataque epiléptico, qualquer coisa para impedi-lo de continuar fazendo o que estava fazendo com aquela mulher. O Patrão levou uns bons minutos para abrir a porta. Estava sem óculos e os olhos pareciam inchados.

“Sah?”, disse Ugwu, olhando para trás. O quarto estava vazio. “Vai tudo bem, sah?”

“Claro que não vai tudo bem, seu energúmeno”, disse o Patrão, olhando para o par de chinelos no chão. Ele parecia perdido nos próprios pensamentos. Ugwu esperou. O Patrão soltou um suspiro. “O professor Ekwenugo e o Grupo de Ciências estavam indo colocar umas minas, passaram num buraco na estrada e as minas explodiram.”

“As minas explodiram?”

“Ekwenugo foi pelos ares. Está morto.”

Pelos ares ressoou nos ouvidos de Ugwu.

O Patrão se afastou. “Agora pega o fogão e sai.”

Ugwu entrou, apanhou o fogareiro do qual não precisava e pensou na unha comprida e afilada do professor Ekwenugo. Pelos ares. O professor Ekwenugo sempre fora a prova viva de que Biafra triunfaria, ele e suas histórias de mísseis, tanques e combustível feito de nada. Será que as partes do corpo do professor Ekwenugo ficaram calcinadas, como pedaços da madeira, ou será que daria para reconhecer o que era o quê? Será que haveria muitos fragmentos ressequidos, será que seria como amassar uma folha dessecada nas rajadas do harmatão? Pelos ares.

O Patrão saiu pouco depois para o Bar Tanzânia. Ugwu pôs o seu melhor par de calças e foi apressado até a casa de Eberechi. Parecia a coisa mais natural do mundo, a única coisa a fazer. Recusou-se a pensar no quanto Olanna ficaria brava se por acaso Mama Oji contasse que ele havia saído, ou qual seria a reação de Eberechi, se ela iria ignorá-lo, dar-lhe as boas-vindas ou gritar com ele. Precisava vê-la.

Ela estava sentada na varanda, sozinha, usando aquela saia justa que moldava tão bem seu traseiro, lembrava-se bem, mas o cabelo estava diferente, cortado num formato arredondado, sem as trancinhas de hábito.

“Ugwu!”, disse ela, surpresa, levantando-se.

“Você cortou o cabelo.”

“E por acaso alguém acha fio para trançar, sem falar em dinheiro para comprar?”

“Ficou bem.”

Ela deu de ombros.

“Eu devia ter vindo antes”, disse ele. Nunca deveria ter parado de falar com ela por causa de um oficial do exército que não conhecia. “Perdão. Gbaghalu.”

Olharam-se, ela estendeu o braço e beliscou a pele de seu pescoço. Ele deu um tapinha brincalhão, para tirar a mão dela, depois a segurou. Não soltou quando se sentaram na escada e então ela contou que a família que alugara a antiga casa do Patrão era má, que os rapazes da rua se escondiam no forro, quando os soldados do recrutamento apareciam, e que o último ataque aéreo abrira um buraco na parede deles, por onde entravam os ratos.

Por fim, Ugwu contou que o professor Ekwenugo morrera. “Lembra que eu falei sobre ele com você? O que fazia parte do Grupo de Ciências, o que construía coisas incríveis”, disse ele.

“Lembro sim”, disse ela. “Aquele que tinha uma unha comprida.”

“Ele cortou”, disse Ugwu, começando a chorar; suas lágrimas eram esparsas e faziam cócegas no rosto. Ela pôs a mão em seu ombro e ele ficou imóvel, para que ela não tirasse sua mão, para mantê-la onde estava. Havia algo novo nela, ou talvez sua percepção das coisas tivesse se renovado. Agora acreditava na existência de preciosidades.

“Você falou que ele cortou a unha comprida?”, perguntou ela.

“Cortou”, respondeu Ugwu. De repente, parecia uma boa coisa, ele ter cortado a unha; Ugwu não suportaria pensar naquela unha indo pelos ares.

“Eu preciso ir”, disse. “Antes que meu patrão volte.”

“Eu vou visitá-lo amanhã”, disse ela. “Conheço um atalho até lá.”

O Patrão não estava em casa quando Ugwu voltou. Mama Oji estava berrando “Que vergonha! Que vergonha!” para o marido, o pastor Ambrose rezava para que Deus borrifasse por toda a Grã-Bretanha a dinamite do Espírito Santo, e havia uma criança chorando. Aos poucos, um depois do outro, os ruídos foram cessando. Veio a escuridão. As lamparinas a óleo se apagaram. Ugwu ficou sentado na porta do quarto, esperando, até o Patrão aparecer, com um sorrisinho e os olhos congestionados.

“Meu bom homem”, disse ele.

“Bem-vindo, sah. Nno.” Ugwu levantou-se. O Patrão não estava muito firme nos pés, cambaleando de leve para a esquerda. Ugwu acorreu rápido, pôs um braço em volta dele e o ajudou. Tinham acabado de entrar quando o Patrão se dobrou em dois com um tranco violento e vomitou. O vômito espumante esparramou-se pelo chão. Um cheiro azedo encheu o quarto. O Patrão sentou-se na beira da cama. Ugwu foi buscar um pano e um pouco de água e, enquanto limpava, escutava a respiração desigual do Patrão.

“Não conte nada disso para a sua patroa”, disse o Patrão.

“Pois não, sah.”

 

Eberechi aparecia com frequência, e seu sorriso, as mãos que se encontravam ou um beliscão no pescoço tornaram-se alegrias indizíveis. Na tarde em que Ugwu a beijou pela primeira vez, Baby estava dormindo. Estavam dentro do quarto, sentados no banco, jogando whot biafrense; ela tinha acabado de dizer “Fim de jogo!” e baixado a última carta quando ele se debruçou e experimentou o gosto amargo da poeira atrás da orelha de Eberechi. Depois beijou seu pescoço, o queixo, os lábios; sob a pressão da língua dele, Eberechi abriu a boca e o calor que se desprendeu dali o deixou sem ação. Desceu a mão e pegou um de seus seios pequenos. Ela o empurrou. Desceu mais ainda a mão, beijou-a na boca e enfiou rápido a mão debaixo de sua saia.

“Deixa só eu ver”, disse ele, antes que ela pudesse impedi-lo. “Só ver.”

Ela se levantou. E não o empurrou, quando ele ergueu a saia e puxou a calcinha de algodão, com um pequeno rasgo na cintura, para olhar os grandes gomos arredondados de suas nádegas. Depois, Ugwu subiu a calcinha até a cintura e baixou a saia. Ele a amava. Queria dizer a ela que a amava.

“Estou indo”, disse ela, endireitando a blusa.

“E aquele seu amigo do exército?”

“Está num outro setor.”

“O que você fez com ele?”

Ela esfregou o dorso da mão na boca, como se quisesse limpar alguma coisa.

“Você fez alguma coisa com ele?”, perguntou Ugwu.

Ela foi para a porta, ainda calada.

“Você gosta dele”, disse Ugwu, sentindo-se desesperado.

“Gosto mais de você.”

Não tinha importância que ela continuasse vendo o soldado. O que importava era aquele mais, era quem ela preferia. Ele a puxou, mas ela se afastou.

“Você me mata”, disse, e riu. “Me deixe ir.”

“Eu vou com você até a metade do caminho.”

“Não precisa. Baby vai ficar sozinha.”

“Eu volto antes de ela acordar.”

Queria segurar a mão dela; mas, em vez disso, caminhava tão perto que de vez em quando os corpos se tocavam. Mas Ugwu não foi longe e logo fez meia-volta. Estava quase chegando em casa quando viu dois soldados junto de uma caminhonete, empunhando armas.

“Você! Pare onde está!”, disse um deles.

Ugwu começou a correr, até ouvir os tiros, tão ensurdecedores, tão alarmantemente perto, que caiu no chão e esperou a dor começar, certo de que fora atingido. Mas não houve dor nenhuma. Quando o soldado o alcançou, a primeira coisa que Ugwu viu foi um par de sapatos de lona, antes de olhar para cima, para o corpo rijo e a fisionomia zangada. Havia um rosário em seu pescoço. O cheiro de pólvora queimada saía de sua arma.

“Vamos, levante-se, seu maldito civil! Vá se juntar a eles, ali!”

Ugwu se ergueu, o soldado lhe deu um tapa na nuca e estilhaços de luz se acenderam em seus olhos; firmou bem os dedos do pé na areia, para se equilibrar, antes de seguir em frente e se juntar aos dois homens parados, com os braços no alto. Um deles era idoso, devia ter pelo menos uns sessenta e cinco anos, ao passo que o outro era um adolescente de quinze anos, talvez. Ugwu resmungou um “boa tarde” para o mais idoso e ficou ao lado dele, de braços erguidos.

“Entrem na caminhonete”, disse o segundo soldado. A barba grossa escondia boa parte do rosto.

“Se as coisas estão nesse pé, se estão recrutando homens da minha idade, então Biafra morreu”, disse o idoso, em voz baixa.

O segundo soldado o vigiava.

O primeiro gritou: “Cala essa boca nojenta, agadi!”, e deu um tabefe no homem.

“Pare com isso!”, disse o segundo soldado, virando-se para o homem. “Papa, vai.”

“Como?” Ele parecia meio incerto.

“Vai, gawa.”

O velho começou a se afastar, de início lentamente, sem muita certeza, a mão esfregando a bochecha que levara o tabefe; depois correndo, ainda inseguro. Ugwu o viu desaparecer na rua e desejou poder dar um salto, pegar na mão dele e ser impelido de volta à liberdade.

“Entrem na caminhonete!”, disse o primeiro soldado. Era como se tivesse ficado com raiva pelo fato de o velho ter ido embora, como se não responsabilizasse o colega por isso e sim os recrutados. Empurrou o adolescente e Ugwu. O adolescente caiu e rapidamente se pôs de pé, antes de subirem na traseira. Não havia bancos; velhos sacos de ráfia, chicotes e garrafas vazias estavam espalhados pelo chão enferrujado. Ugwu ficou espantado de ver um menino lá dentro, cantarolando uma música e bebendo de uma velha garrafa de cerveja. Ugwu sentiu o cheiro azedo do gim local ao se acomodar ao lado do garoto e pensou que talvez não fosse um menino e sim alguém que não tinha crescido.

“Eu sou High-Tec”, disse ele, e o cheiro de gim vagabundo ficou mais forte.

“Eu sou Ugwu.” Ugwu olhou para a camisa enorme, para o short esfarrapado, as botas, a boina. Era de fato um menino. Não devia ter mais que treze anos. Porém o desdém seco do olhar o fazia parecer muito mais velho que o adolescente todo encolhido sentado a sua frente.

“Gi kwanu? Como é que você chama?”, perguntou High-Tec ao rapaz.

Ele soluçava. Parecia conhecido, talvez fosse um dos rapazes da vizinhança que iam buscar água no poço, antes do amanhecer. Ugwu sentiu pena dele, e ao mesmo tempo raiva, porque aquele choro transformava o desespero da situação em algo inexorável. Eles tinham de fato sido recrutados. E seriam de fato enviados para o front de guerra sem treino nenhum.

“Então você não é um homem?”, perguntou High-Tec ao adolescente. “I bu nwanyi? Então por que se comporta feito mulher?”

O adolescente estava com a mão apertada nos olhos, enquanto chorava. A risadinha de High-Tec transformou-se em risada zombeteira. “Este aqui não quer lutar pela nossa causa!”

Ugwu não disse nada. A risada de High-Tec e o cheiro de gim o deixavam nauseado.

“Eu saio em reiconzar michon”, declarou ele, falando em inglês pela primeira vez. Ugwu queria corrigir a pronúncia de missão de reconhecimento, dizer a ele que o certo era reconnaissance mission; o garoto certamente se beneficiaria com umas aulas de Olanna.

“Nosso batalhão é feito de engenheiros de campo e nós só usamos ogbunigwes poderosas.” High-Tec calou-se e arrotou, como se esperasse aplauso dos ouvintes. O adolescente continuou chorando. Ugwu ouvia com a fisionomia impassível. Desconfiava que seria importante ganhar o respeito de High-Tec, e só conseguiria isso se não mostrasse um pingo do medo que lhe corroía o peito.

“Sou eu que detecto onde está o inimigo. Eu me aproximo o suficiente, trepo em árvores, descubro a localização exata deles e aí nosso comandante usa minhas informações para estabelecer de onde nossa operação vai partir.” High-Tec olhava Ugwu, e Ugwu mantinha a fisionomia indiferente. “No meu último batalhão, eu fingia que era um órfão e me infiltrava no campo inimigo. Eles me deram esse nome de High-Tec porque meu primeiro comandante disse que eu sou melhor que qualquer espionagem de alta tecnologia.” Ele parecia ansioso para impressionar Ugwu. Ugwu estendeu as pernas.

“Aquela palavra que você chamou de rei-con-zar é reconnaissance”, disse ele.

High-Tec olhou uns instantes para ele, riu e ofereceu-lhe a garrafa, porém Ugwu chacoalhou a cabeça. High-Tec deu de ombros, tomou outro gole e se pôs a cantarolar “Biafra, Vença a Guerra”, batendo o pé no chão da caminhonete. O adolescente ainda chorava. O soldado que estava na direção fumava uma erva seca enrolada em papel, de cheiro penetrante, e o trajeto levou tanto tempo que Ugwu não conseguiu mais segurar sua vontade de urinar.

“Por favor, eu preciso mijar!”, gritou ele.

O soldado parou a caminhonete e apontou a arma. “Desça e mije. Se correr, eu atiro.”

Foi esse mesmo soldado que, quando chegaram ao campo de treinamento, um antigo grupo escolar, com os prédios cobertos por folhas de palmeira, raspou o cabelo de Ugwu com um pedaço de caco de vidro. O jeito rude da raspagem deixou o couro cabeludo de Ugwu sensível, e todo cheio de pequenos cortes. As esteiras e os colchões nas salas de aula pululavam de percevejos nocivos. Os soldados magrinhos — sem botas, sem farda, sem meio sol amarelo pregado na manga — chutaram, estapearam e zombaram de Ugwu durante os treinos físicos. A marcha deixou os braços de Ugwu rígidos. Os treinos com obstáculos deixaram suas panturrilhas latejando. Os exercícios de subir em cordas deixaram suas palmas sangrando. O embrulhinho de garri que fazia fila para receber, a sopa rala servida uma vez por dia de uma bacia de metal, o deixavam com fome. E a crueldade casual desse novo mundo em que não tinha voz provocou um enorme coágulo de medo dentro dele.

 

Uma família de passarinhos fizera ninho no telhado da classe. Pela manhã, o trinado deles era interrompido pelo silvo do apito do comandante, uma voz gritando “Caiam, caiam!”, a correria e o rastejar de homens e garotos. De tarde, o sol drenava as energias e a boa vontade, e os soldados brigavam, jogavam whot biafrense e falavam dos vândalos que tinham matado em operações anteriores. Quando um deles disse: “Nossa próxima operação vai acontecer logo!”, o medo de Ugwu se misturou à emoção de pensar que era um soldado lutando por Biafra. Se ao menos estivesse num batalhão de verdade, lutando com uma arma. Lembrou-se do professor Ekwenugo descrevendo uma ogbunigwe: “mina terrestre de alto impacto”. Como isso tinha soado glamoroso, a mina feita em Biafra, a chamada Bomba Ojukwu, essa maravilha que deixava os vândalos tão perplexos que, segundo se dizia, eles mandavam manadas de boi na frente, para entender como é que a ogbunigwe conseguia matar tanta gente. Mas, quando fez sua primeira sessão de treinos, viu o que de fato era: uma lata fosca cheia de pedaços de metal.

Gostaria de ter podido contar a Eberechi o quanto se decepcionara. Queria contar-lhe, também, sobre o comandante, o único que tinha farda completa, muito bem passada e engomada, que vivia dando ordens num rádio, e que, no dia em que o adolescente tentou fugir, durante um treinamento, deu-lhe uma surra e, quando o nariz do rapaz começou a sangrar, gritou: “Ponham ele trancado na sala da guarda!”. Ugwu lembrava-se mais ainda de Eberechi quando as mulheres da aldeia apareciam com garri, sopa rala e, muito de vez em quando, um arroz da vitória cozido com óleo de dendê e pouca coisa mais. Às vezes, mulheres mais jovens apareciam e entravam nos aposentos do comandante, de onde saíam com um sorrisinho acanhado. Os sentinelas sempre erguiam as barreiras para deixar as mulheres entrar, embora não precisassem, porque elas poderiam muito facilmente entrar pelo lado. Uma vez, Ugwu viu uma silhueta de nádegas redondas se requebrando, saindo do compound, e quis gritar Eberechi!, embora soubesse que não era ela. Foi enquanto procurava papel onde escrever o que fazia todos os dias, para depois contar a Eberechi, que encontrou o livro Narrativas de vida de Frederick Douglass, um escravo norte-americano: Escrito por ele mesmo, enfiado num cantinho estreito, atrás do quadro-negro. Na página de rosto, havia um carimbo em tinta azul dizendo propriedade do colégio público. Sentou-se no chão e leu. Terminou em dois dias e começou de novo, enrolando as palavras na língua, decorando algumas frases:

Mesmo que me custasse a vida, eu estava decidido a aprender a ler. Mantenha os negros

longe dos livros, mantenha-nos na ignorância, e seremos sempre escravos.

High-Tec gostava de sentar ao lado, enquanto Ugwu lia. Às vezes, cantarolava músicas de Biafra num tom enfadonhamente monótono, outras vezes falava disso e daquilo. Ugwu não prestava a menor atenção. Mas, numa tarde, as mulheres não foram levar comida, o dia passou e os homens reclamaram. High-Tec cutucou Ugwu durante a noite e estendeu-lhe uma lata de sardinhas. Ugwu agarrou-a. High-Tec riu. “Vamos ter que dividir”, disse ele, e Ugwu se perguntou como ele teria conseguido pegá-la, como um menino tão novo podia parecer tão adptavelmente no controle. Foram para os fundos do prédio e dividiram o peixe oleoso.

“Os vândalos comem bem, ô se comem”, disse High-Tec. “No último campo em que eu me infiltrei, em Nteje, as mulheres deles faziam sopa com pedaços enormes de carne. Chegaram a dar um pouco para os nossos soldados, quando pararam de lutar por uma semana, durante a Páscoa.”

“Eles pararam de lutar para celebrar a Páscoa?”, perguntou Ugwu.

High-Tec parecia contente por ter conseguido finalmente captar a atenção de Ugwu. “Pararam. Eles até jogaram cartas juntos e tomaram uísque. Às vezes, eles combinam não lutar, assim todo mundo descansa.” High-Tec deu uma olhada para Ugwu e riu. “Seu corte de cabelo está tão feio.”

Ugwu tocou nos tufos esparsos que o caco de vidro não cortara. “Está.”

“É porque eles rasparam a seco”, disse High-Tec. “Eu posso fazer melhor com uma lâmina e sabão.”

High-Tec apareceu com um pedaço de sabonete verde, ensaboou a cabeça de Ugwu e raspou-a com a lâmina até o couro cabeludo ficar lisinho ao toque. Mais tarde, quando High-Tec lhe disse: “Operação em dois dias”, num sussurro, Ugwu pensou nas pessoas que raspam a cabeça em sinal de luto. Raspar a cabeça como uma homenagem à morte. Deitou-se de barriga para cima no colchão fino e ficou escutando os sons feios de gente roncando em volta. Tinha provado seu valor perante os outros homens nos treinamentos, na maneira como escalava os obstáculos, como deslizava pela corda grosseira, mas não tinha feito amigos. Falava muito pouco. Não queria saber das histórias que tinham para contar. Para Ugwu, o melhor era não abrir o fardo que cada um carregava, não mexer lá dentro. Pensou na operação que viria, nos vândalos e na sua ogbunigwe, no corpo do professor Ekwenugo que fora pelos ares. Imaginou-se levantando no silêncio enluarado e correndo até chegar a seu quarto em Umuahia, onde cumprimentaria o Patrão e Olanna, e daria um abraço em Baby. Mas nem tentar ele iria, e sabia muito bem disso, porque uma parte dele queria estar ali.

Na trincheira, a terra parecia pão umedecido. Ugwu estava imóvel. Uma aranha subiu em seu braço, mas ele não a espantou com um tapa. A escuridão era absoluta, completa, e Ugwu imaginava as pernas peludas da aranha, sua surpresa ao não encontrar terra fria lá embaixo e sim carne humana e quente. De vez em quando a lua aparecia e as árvores frondosas mais adiante ficavam vagamente delineadas. Os vândalos estavam por ali, em algum lugar. Ugwu torcia para haver um pouco mais de luz; a lua tinha sido mais generosa antes, na hora em que enterrara a ogbunigwe a uns trinta metros dali. Agora, o escuro estava em toda parte. O cabo parecia frio em suas mãos. A seu lado, havia um soldado resmungando orações numa voz muito baixa, tão baixa que a impressão de Ugwu era de que ele cochichava em seu ouvido. “Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte.” Ugwu sacudiu fora a aranha e levantou-se quando os vândalos começaram o ataque. O pipocar dos tiros era espalhado, ora forte, ora fraco; a infantaria estava respondendo ao fogo dos vândalos de várias direções diferentes, e os vândalos, esses imundos criadores de gado, ficariam confusos, não teriam a menor idéia de que havia minas ogbunigwe à espera.

Ugwu pensou nos dedos de Eberechi puxando a pele de seu pescoço, a umidade da língua de Eberechi em sua boca. Os vândalos começaram o bombardeio. Houve primeiro o assobio de um morteiro no ar, depois a explosão do morteiro caindo, estilhaços quentes voando em volta. Um trecho de capim pegou fogo, as labaredas subiram e Ugwu viu um furão perto de algumas árvores, arqueado como uma tartaruga gigante. Só depois é que os viu: silhuetas agachadas, avançando, uma manada de homens. Estavam ao alcance, mas parecia cedo demais, ele esperava que fossem acontecer mais coisas antes que eles aparecessem, antes que ele detonasse sua ogbunigwe e ela explodisse numa chuva violenta de metais. Respirou fundo. Com cuidado, com firmeza, conectou o cabo à tomada que trazia nas mãos e a explosão imediata e potente o assustou, embora já esperasse aquilo. Por um breve momento, o medo se apoderou de suas entranhas. Talvez não tivesse calculado bem. Talvez tivessem escapado. Mas escutou alguém bem perto dele gritar: “Alvo!”. Essa palavra ficou reverberando em sua mente, enquanto todos esperavam longos minutos antes de sair da trincheira e ir até os corpos espalhados.

“Tirem a roupa! Peguem as calças e as camisas!”, alguém berrou.

“Só as botas e as armas!”, gritou outra voz. “Não temos tempo. Não temos tempo. Ngwa-ngwa! Os reforços deles estão a caminho!”

Ugwu curvou-se sobre um corpo magro. Arrancou as botas. Nos bolsos, achou uma noz-de-cola fria e sangue morno e grosso. O segundo corpo, bem perto, mexeu-se quando Ugwu tocou nele, de modo que recuou. Ouviu um resfolegar forçado, antes de o corpo ficar imóvel. Ugwu estremeceu. A seu lado, um soldado segurando alguns fuzis gritava.

“Vamos embora!”, disse Ugwu, limpando as mãos ensanguentadas na calça.

Os outros lhe deram tapas nas costas e o chamaram de “Destruidor de Alvos!”, na volta para o quartel-general para entregar os cabos. “Aprendeu isso com aquele livro que leu?”, brincaram os companheiros. O sucesso o fez perder um pouco o pé. Nos dias seguintes, meio flutuando, jogou whot biafrense, tomou gim, aguardando a operação seguinte. Deitado de bruços, esperou High-Tec enrolar um pouco de maconha, as folhas bem secas, num jornal velho, e eles fumaram juntos. Ugwu preferia os cigarros Mars; a maconha o deixava meio sem rumo, criava uma fina faixa de espaço entre suas pernas e seu quadril. Não se incomodaram em esconder o fumacê porque o comandante estava contente e o noticiário, repleto de esperanças, agora que Biafra tinha retomado o controle de Owerri. As regras amainaram; eles já podiam sair e ir até o bar, perto da rodovia.

“É uma bela caminhada”, disse alguém, e High-Tec, rindo, disse: “A gente confisca um carro e vai, lógico.”

Quando High-Tec ria, Ugwu se lembrava de que era um garoto. Só tinha treze anos. Caminhando entre nove homens, parecia incongruentemente pequeno. O ruído das sandálias de plástico ecoava na estrada silenciosa. Dois deles estavam descalços. Esperaram um tempo até verem um Fusca empoeirado aparecer, aí se espalharam e bloquearam a estrada. O carro parou e alguns deles esmurraram o capô.

“Saiam! Malditos civis!”

O homem na direção conservou o ar severo, como se decidido a não se deixar intimidar. A seu lado, a mulher começou a chorar e a implorar. “Por favor, nós vamos procurar nosso filho.”

Um dos soldados esmurrava violentamente o capô do carro. “Precisamos do carro para uma operação!”

“Por favor, por favor, estamos indo procurar nosso filho. Eles nos disseram que ele foi visto num centro de refugiados.” A mulher olhou para High-Tec por uns instantes, com o cenho franzido. Talvez estivesse pensando que ele podia ser seu filho.

“Estamos morrendo por vocês e vocês saem para passear de carro?”, disse um dos soldados, puxando a mulher para fora do carro. O marido saltou também, mas continuou ao lado do carro. Com a mão fechada em volta da chave.

“Isso é errado, senhores. Vocês não têm o direito de levar o carro. Eu tenho um passe. Eu trabalho para o governo.”

Um dos soldados lhe deu um murro. O homem cambaleou e o soldado deu outro murro, e mais outro, e vários mais, até que ele despencou no chão e a chave escorregou da mão.

“Agora basta!”, disse Ugwu.

Outro soldado tocou no pescoço e no pulso do homem, para se certificar de que continuava respirando. A mulher estava curvada sobre o marido, na hora em que os soldados se amontoaram no carro e foram para o bar.

 

A moça do bar os cumprimentou e disse que não havia cerveja.

“Tem certeza de que não tem cerveja? Por acaso está escondendo a cerveja, com medo de que a gente não pague?”, perguntou um dos soldados.

“Não. Não temos cerveja.” Ela era magra, de feições angulosas, e não sorria.

“Nós destruímos o inimigo!”, disse ele. “Agora queremos cerveja!”

“Ela já disse que não tem cerveja”, interveio Ugwu, irritado. O volume da voz do soldado o enervava; o mesmo homem que abandonara sua oghunigwe e saíra correndo, antes que os vândalos se aproximassem. “Deixa ela trazer kai-kai.”

Enquanto a garota servia o gim local em pequenos copos de metal, os soldados falavam dos oficiais nigerianos, de como pendurariam Danjuma, Adekunle e Gowon de cabeça para baixo, depois da vitória de Biafra. High-Tec começou a enrolar um cigarro de maconha. Ugwu teve a impressão de ter visto algo familiar no pedaço de papel que não fora enrolado, a palavra narrativas, mas não podia ser. Olhou de novo. “Que papel é esse?”, perguntou.

“É só a primeira página do seu livro.” High-Tec sorriu e passou o baseado para Ugwu.

Ugwu não pegou. “Você rasgou meu livro?”

“Só a primeira página. Meu papel acabou.”

A raiva tomou conta de Ugwu. Seu tapa foi rápido, poderoso, furioso, mas High-Tec evitou parte do impacto recuando no último segundo, e a mão de Ugwu apenas raspou em seu rosto. Ugwu levantou a mão de novo, porém os outros soldados o seguraram e o arrastaram para longe do garoto, dizendo que afinal de contas era apenas um livro e o aconselharam a tomar um pouco mais de gim.

“Desculpe”, resmungou High-Tec.

A cabeça de Ugwu doía. As coisas estavam mudando muito rápido. Ele não estava vivendo a vida; a vida é que o estava vivendo. Bebeu sem parar, vendo os outros soldados, bocas se abrindo e fechando em zombarias rançosas, bravatas cabotinas e lembranças exageradas. Não demorou para que o próprio bar e os bancos dispostos em volta de uma mesa se tornassem um borrão de cheiro azedo. A moça do bar trocava de garrafa, uma atrás da outra; Ugwu achou que o gim era feito no próprio quintal deles, um pouco à frente. Saiu para urinar e, depois, encostou numa árvore e respirou o ar fresco. Era como estar sentado nos fundos da casa em Nsukka, olhando para o limoeiro, para sua horta de ervas e para as plantas tão cuidadas de Jomo. Continuou ali um tempo, até ouvir berros vindos do bar. Talvez alguém tivesse vencido uma aposta qualquer. Eles o cansavam. A guerra o cansava. Quando finalmente voltou lá para dentro, parou na porta mesmo. A moça do bar estava deitada no chão, os panos enrolados na cintura, os ombros seguros por um soldado, as pernas esparramadas. Ela soluçava. “Por favor, por favor, biko.” A blusa ainda estava no lugar. Entre as pernas dela, High-Tec se movia. Seus movimentos eram espasmódicos, o traseiro pequeno mais escuro que as pernas. Os soldados aplaudiam.

“High-Tec, já basta! Descarregue e recue!”

High-Tec gemeu, antes de cair em cima dela. Um soldado o puxou para o lado e estava mexendo na própria calça quando alguém disse: “Não! O próximo vai ser o Destruidor de Alvos!”.

Ugwu recuou um pouco.

“Ujo abiala o! O Destruidor de Alvos está com medo!”

Ugwu deu de ombros e se aproximou. “Quem é que está com medo?”, disse com desdém. “É que eu gosto de comer antes dos outros, só isso.”

“A comida ainda está fresca!”

“Destruidor de Alvos, você não é homem? I bukwa nwoke?”

No chão, a moça não se mexia. Ugwu desceu a calça, surpreso com a rapidez de sua ereção. Ela estava seca e tensa quando entrou nela. Ugwu não olhou para o rosto dela, nem para o homem segurando seus ombros, nem para nada, enquanto se movia rapidamente e sentia seu próprio clímax, a onda de fluidos chegando: um desafogo de auto-repulsa. Abotoou a calça, enquanto alguns soldados aplaudiam. Por fim, olhou para a moça. Ela o fitou de volta com uma raiva mansa.

 

Houve mais operações. O medo de Ugwu às vezes o oprimia, o deixava imobilizado. Ele desembrulhava a mente do corpo, separava as duas coisas, enquanto ficava deitado na trincheira, comprimido contra a lama, refestelando-se com a proximidade, com a ligação com a lama. O cá-cá-cá dos tiros, os gritos dos homens, o cheiro da morte, as explosões acima e em volta dele, era tudo distante. Porém, de volta ao quartel, sua memória ficava nítida; lembrava-se do homem que havia posto as duas mãos na barriga aberta, como se para segurar os intestinos, de outro que resmungou alguma coisa sobre o filho, antes de enrijecer. Depois de cada operação, tudo parecia novo. Ugwu olhava para sua ração diária de garri maravilhado. Lia as páginas de seu livro várias e várias vezes. Tocava na própria pele e pensava na sua decomposição.

Uma tarde, o jipe do comandante entrou puxando uma cabra doente, de pernas amarradas. Tinha sido confiscada de um civil ocioso. Ela baliu humildemente e os soldados se reuniram em volta, animados com a idéia de comer carne. Dois deles mataram, fizeram uma fogueira e, quando a carne cortada em grandes pedaços ficou pronta, o comandante mandou que tudo fosse levado para seu alojamento. Ele passou longos minutos conferindo a carne na bacia, para ver se o animal estava completo: pernas, cabeça, os testículos. Bem mais tarde, duas mulheres da aldeia apareceram e foram levadas até o alojamento do comandante; bem mais tarde, quando saíram, os soldados atiraram pedras nelas. Ugwu sonhou que o comandante dera metade da cabra aos soldados e que eles tinham mastigado tudo e engolido os ossos.

Quando acordou, havia um rádio ligado em alto volume e High-Tec aos soluços. Umuahia tinha caído. A capital de Biafra estava perdida. Um soldado ergueu as mãos para o alto e disse: “Aquele bode, aquele bode foi mau presságio! Está tudo perdido! Temos de nos render!”. Os outros soldados estavam jururus. Nem mesmo o aviso do comandante, de que sabia de um plano secreto de contra-ataque para recuperar Umuahia, conseguiu levantar os ânimos. Porém o anúncio de que Sua Excelência faria uma visita foi um sucesso. Os soldados varreram o compound, lavaram suas roupas e alinharam-se em fila nos bancos, para lhe dar as boas-vindas. Quando o comboio de jipes e Pontiacs entrou no compound, todos se levantaram e fizeram continência.

A continência de Ugwu foi fraca porque estava preocupado com Olanna, o Patrão e Baby em Umuahia, porque não tinha interesse em Sua Excelência, porque não gostava do comandante. Não gostava de nenhum oficial, com seus sorrisos de superioridade e seu jeito de tratar os soldados feito ovelhas. Porém havia um capitão que ele admirava, um homem solitário e educado chamado Ohaeto. E foi assim que, quando Ugwu se viu ao lado do capitão Ohaeto, numa trincheira, resolveu impressioná-lo. A trincheira não estava úmida; havia mais formigas que aranhas. Ugwu sabia que os vândalos estavam perto pelo matraquear do tiroteio e pelas explosões dos morteiros. Porém não havia luz suficiente para ter certeza. E ele queria muito impressionar o capitão Ohaeto; se ao menos a luz não fosse tão pouca. Estava prestes a ligar o cabo à tomada quando alguma coisa passou assobiando por sua orelha e então, logo em seguida, uma dor aguda lhe queimou as costas. A seu lado, o capitão Ohaeto era uma pasta ensanguentada de carne. Depois Ugwu se sentiu erguido da trincheira, desamparadamente, desgraçadamente. E, ao aterrissar, foi a força do próprio peso, muito mais que a dor que acometeu todo o corpo, o que o silenciou.