Meio Sol Amarelo

Chimamanda Ngozi Adichie · Capítulo 38 de 39

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Meio Sol Amarelo

Capítulo 37

 

Os momentos de sólida esperança de Olanna, quando tinha certeza de que Kainene voltaria, eram seguidos por estirões de intensa dor, e, então, um ressurgimento da fé a fazia cantarolar baixinho, até a próxima escorregada ladeira abaixo, que a deixava amarfanhada no chão, chorando sem parar. A srta. Adebayo visitava e dizia alguma coisa sobre dor, alguma coisa simpática e superficial. A dor era a celebração do amor, aqueles que sentiam dor verdadeira tinham sorte de ter amado. Porém não era dor o que Olanna sentia, era algo muito maior que dor. Era mais estranho que a dor. Ela não sabia onde estava a irmã. Não sabia. Enfurecia-se consigo mesma por não ter acordado cedo no dia em que Kainene saiu para negociar em território inimigo, por não saber o que ela usava nessa manhã, por não ter ido com ela e por ter confiado na capacidade de Inatimi de saber aonde estava levando sua irmã. Enfurecia-se com o mundo quando tomava um ônibus ou sentava ao lado de Odenigbo ou de Richard para ir procurar Kainene em hospitais lotados e em prédios empoeirados, e não encontrava nada.

Quando viu seus pais pela primeira vez, depois, o pai disse: “Ola m”, meu ouro, e ela gostaria que ele não tivesse dito nada, porque era como se não tivesse mais brilho.

“Eu nem sequer vi Kainene no dia em que ela partiu. Quando acordei, ela já havia partido”, contou a eles.

“Anyi ga-achota ya, nós vamos encontrá-la”, disse a mãe.

“Nós vamos encontrá-la”, repetiu o pai.

“Exato, nós vamos encontrá-la”, disse Olanna também, e sentiu como se estivessem todos eles raspando as unhas desesperadas numa parede dura e escalavrada. Contavam uns aos outros histórias de pessoas que tinham sido encontradas, que haviam voltado para casa depois de meses perdidas. Não contavam as outras histórias, as de gente desaparecida e famílias enterrando caixões vazios.

Os dois soldados que apareceram e comeram seu arroz jollof a encheram de raiva. Deitada no chão da sala, rezou para que não encontrassem suas libras biafrenses. Depois que eles se foram, ela tirou as notas dobradas do envelope escondido em seu sapato, saiu e acendeu um fósforo debaixo do limoeiro. Odenigbo olhava para ela. Com desaprovação, ela sabia — afinal ele mantinha sua bandeira dobrada dentro do bolso de uma calça.

“Você está queimando a memória”, disse-lhe ele.

“Não estou não.” Ela não iria fixar sua lembrança em coisas que estranhos podiam tirar dela, roubar. “Minha memória está aqui dentro.”

Passaram-se semanas e a água começou a correr de novo nas torneiras, as borboletas voltaram para o jardim e o cabelo de Baby ficou preto retinto outra vez. Caixas de livros chegaram para Odenigbo, vindas do exterior. Para um colega espoliado pela guerra, diziam os bilhetes, de admiradores de David Blackwell na irmandade dos matemáticos. Odenigbo passava os dias folheando os livros. “Olha só, eu tinha a primeira edição deste aqui”, dizia com frequência.

Edna enviava livros, roupas e chocolate. Olanna olhava para as fotos que ela mandava e via que Edna parecia estrangeira, uma mulher que morava em Boston e que tinha o cabelo prensado com óleo. Parecia fazer muito tempo que Edna tinha morado no apartamento ao lado, na avenida Elias, e parecia fazer mais tempo ainda desde os tempos em que a casa da rua Odim era o limite de sua vida. Quando dava longas caminhadas pelo campus, passando pelas quadras de tênis e pela Praça da Liberdade, pensava na rapidez da partida e como era lento o regresso.

Sua conta bancária em Lagos tinha desaparecido. Não existia mais. Era como ser despido à força; alguém passara a mão em todas as suas roupas e a deixara tremendo, nua, no frio. Porém ela via um bom sinal nisso. Como tinha perdido todas as suas economias, não poderia perder também a irmã; os guardiões do destino não eram assim tão maus.

“Por que tia Kainene ainda está no ataque afia?”, perguntava Baby com frequência, com um olhar firme de suspeita.

“Pare de me fazer essa pergunta, menina!”, dizia Olanna. Mas também via um sinal nas perguntas de Baby, embora ainda não pudesse decifrar o significado. Odenigbo lhe disse para parar de ver sinal em tudo. Ela ficou brava com ele por ter discordado quanto aos sinais, mas depois se sentiu grata, porque isso significava que Odenigbo não acreditava que houvesse acontecido alguma coisa que tornasse seu desacordo inadequado.

Quando vieram uns parentes de Umunnachi e sugeriram que ela consultasse um dibia, Olanna pediu a seu tio Osita para ir. Ela lhe deu uma garrafa de uísque e dinheiro para comprar um bode para o oráculo. Foi até o rio Níger para atirar na água uma foto de Kainene. Foi até a casa de Kainene em Orlu e deu a volta nela três vezes. E esperou a semana que o dibia estipulara, mas Kainene não voltou.

“Talvez eu tenha feito alguma coisa errada”, disse a Odenigbo. Eles estavam no escritório. O chão estava cheio de pedaços de folhas enegrecidas, tiradas dos livros que não tinham chegado a queimar de todo.

“A guerra acabou, mas a fome não, nkem. Esse dibia devia estar simplesmente louco para comer um cabrito. Você não pode acreditar nele.”

“Mas eu acredito. Acredito em tudo. Acredito em qualquer coisa que traga minha irmã para casa.” Levantou-se e foi até a janela.

“A gente volta de novo”, disse ela.

“O quê?”

“Nosso povo diz que todos nós reencarnamos, não diz?”, perguntou ela. “Uwa m, uwa ozo. Quando eu voltar, na próxima vida, Kainene será minha irmã.”

Ela havia começado a chorar de mansinho. Odenigbo a abraçou.

8. O Livro: O Mundo Estava Calado Quando Nós Morremos

Por último, Ugwu põe a dedicatória: Para meu bom homem, o Patrão.