Modern Love
Ora, ele parecia um pai. Era só um jantar, certo?
ORA, ELE PARECIA UM PAI.
ERA SÓ UM JANTAR, CERTO?
ABBY SHER
H AVIA UM PROFESSOR CHAMADO ANDREW QUE ESTUDAVA inteligência artificial. Ele era muito bonito, de um jeito bem professoral. Usava suéteres cinza de gola alta e cheirava a pós-barba mentolada e a livros velhos. Tinha cinquenta e cinco anos e se divorciara recentemente pela segunda vez. Ele era meu pai.
Ele não era meu pai de verdade. Meu pai morreu quando eu tinha onze anos. Mas Andrew era bonito como meu pai. Assobiava como meu pai. Tinha costeletas com alguns toques grisalhos, como meu pai. E era a única pessoa além do meu pai que me chamava pelo meu nome todo, Abigail. Que significa alegria de pai. As pessoas costumam me chamar só de Abby.
A primeira vez que vi Andrew foi em uma reunião de equipe. Nem sei bem por que estava naquela reunião. Eu trabalhava para o laboratório de pesquisa da universidade como “especialista de conteúdo”. Meu trabalho era, na maior parte do tempo, copiar documentos sobre estudos a respeito da atividade do cérebro. Nos meus dias mais ocupados, eu organizava e grampeava.
Durante a reunião, vi Andrew se recostar na cadeira. Os olhos dele eram de um cinza escuro, como o suéter. Ele estava mordendo o lábio inferior e escutando com atenção. Parecia um menino e um homem adulto ao mesmo tempo. Andrew levantou os olhos e me pegou encarando-o. E sorriu.
No dia seguinte, eu o vi perto da copiadora. Ele estava voltando para a sala que ocupava. A porta estava aberta e ouvi música clássica tocando baixinho lá dentro, porque ele era professor. A luz que escapava pela porta era aconchegante e ouvi a voz de Andrew acompanhando baixinho o som do violino. Queria uma razão para entrar, para ver a mesa, os livros dele. Talvez ele tivesse um vaso de planta? Fotos do passado emolduradas.
Mais tarde naquela semana, eu o vi na cafeteria que ficava no subsolo do prédio do nosso escritório. Estava com uma xícara de café grande nas mãos grandes. Eu disse oi.
Ele respondeu:
— Abigail, certo?
— Isso.
Ficamos só nos encarando. Ele pareceu prestes a se afastar, então falei:
— Ah, uau! Você gosta de café? Eu também gosto.
Ele riu. Tinha uma risada baixa. Os dentes com uma aparência forte.
Não demorou muito e eu usava o tempo todo aquela copiadora perto da sala de Andrew. Na maior parte das vezes, eu não tinha nada para copiar, por isso tirava cópias da minha carteira de motorista, e então cópia da cópia. Quando chegava na quinta cópia, meu rosto na foto do documento estava reduzido a dois olhos espiando por uma nevasca.
Um dia, enquanto eu estava parada perto da porta dele, copiando a minha mão, Andrew saiu da sala e parou ao meu lado.
— Gosta de pato? — perguntou.
— Hummm, pato. Quem não gosta de pato?
— Então, gostaria de jantar comigo um dia desses?
Combinamos para a terça-feira seguinte.
Na terça-feira à tarde, entrei na sala de Andrew quando ele não estava e anotei o meu endereço em um pedaço de papel. Deixei perto da agenda dele. Bilhetes são fofinhos quando você ainda usa aparelho nos dentes e acabou de descobrir o brilho labial e os rapazes. Mas é bem diferente quando estamos deixando o bilhete em cima de uma mesa de mogno, perto de um cinzeiro e de um peso de papel de vidro. Dobrei bem o bilhete e escrevi “Andrew” na frente. Então, me certifiquei de que o corredor estava vazio antes de sair da sala dele.
Eu estava morando com a minha melhor amiga, Tami. Morávamos em cima de uma lanchonete que ficava aberta a noite toda e tínhamos planos de escrever juntas o roteiro de um filme. Supostamente deveríamos contar tudo uma à outra. É o que as melhores amigas fazem. Mas eu não queria contar a Tami sobre Andrew. Achei que havia alguma coisa feia naquilo.
Eu tinha comentado vagamente com ela sobre uma conversa interessante com um professor mais velho no trabalho que estudava robôs. Tami disse que ele parecia legal. Então contei a ela que eu talvez saísse para jantar com ele em algum momento. Tami disse que parecia meio sinistro. Então, quando voltei para casa do trabalho na terça-feira, tentei me trocar e sair antes que ela chegasse em casa.
Vesti minha calça azul de tecido aveludado e escolhi um suéter cor de casca de ovo que ficava solto no corpo. Meu pai não chegou a ver meu corpo desenvolvido. No verão em que ele morreu, eu ainda estava confusa e constrangida por causa dos recentes tufos de pelos e do cheiro forte nas minhas axilas. Agora, fiquei olhando para o meu reflexo no espelho. A coisa toda não fazia muito mais sentido para mim aos vinte e um anos.
A porta foi aberta quando eu estava aplicando sombra nos olhos.
— Consegui trazer todos os doces que sobraram — anunciou Tami. Ela trabalhava em um café. Provavelmente seria aquele o cenário do nosso filme, por isso pensávamos no trabalho dela como um lugar de pesquisa. Tami olhou para mim. — O que está fazendo, Abby?
— Eu lhe disse. Vou jantar com aquele cara, o professor.
— Você disse que talvez saísse com ele em algum momento. Não disse que ia sair.
— Não é nada demais.
— É um encontro.
— Não é, não.
— Então por que você está usando sombra nos olhos?
— Estou começando um novo hábito.
— É um encontro, Abby.
— Não é um encontro. Hoje é noite de terça-feira.
A voz dela agora saiu mais alta e mais aguda:
— Ele é trinta anos mais velho do que você. Poderia ser seu pai.
Respondi em um tom ainda mais alto.
— Para com isso! A gente só vai sair para comer pato.
Andrew me pegou no Saab azul-marinho dele. Tinha assentos de couro que ficavam aquecidos no inverno. Ele perguntou se eu estava aquecida e respondi que sim. Ele desviou de todos os buracos e fez uma série de curvas, apenas com a palma de uma das mãos apoiada no volante. Paramos em um semáforo. Ele se virou e olhou para mim. Fingi espirrar para evitar o contato visual.
— Você está sensacional — comentou Andrew, a voz acima da música clássica que tocava. Ele deu uma palmadinha no meu joelho. Não importava que fosse terça-feira à noite. Aquilo era um encontro.
Chegamos ao prédio de Andrew e entramos no elevador. Havia espelhos por todos os lados, e acabei abaixando os olhos para meus pés. Andrew morava no décimo quarto andar, em um apartamento lindo, com tulipas em vasos altos e transparentes, e as luzes da cidade piscando do outro lado das janelas. Tudo estava ligado, mas as luzes eram baixas, a música dos violinos também era baixa e havia ainda o som do pato chiando no forno. As tulipas cuidavam da própria vida, enquanto Andrew e eu nos conhecíamos melhor.
Eu me sentei em cima de uma das bancadas de mármore, como aquelas garotas bonitinhas dos seriados. Andrew me entregou um biscoito salgado com queijo brie. Ele levou o biscoito aos meus lábios e se inclinou tão próximo que prendi a respiração. Não queria que ele chegasse tão perto, então eu mesma enfiei o biscoito na boca e disse:
— Hummm. Então, o que vamos comer além do pato? — Migalhas do biscoito escaparam da minha boca.
Andrew riu.
— Você vai ver.
Ele me deu um beijo rápido no pescoço, e voltou a mexer alguma coisa em uma panela.
Pegamos copos finos com vinho branco gelado e continuei sentada em cima da bancada enquanto Andrew cozinhava. Fiquei observando a nuca dele, no ponto onde os cabelos escuros davam lugar à pele rosada. Ele se virou e me deu o molho de mel com laranja para provar. Seus olhos estavam fixos na minha boca quando meus lábios cobriram a colher, e nesse momento eu soube que estávamos ali por motivos completamente diferentes. Jurei para mim mesma que iria jantar, então pediria para Andrew me levar de volta para casa.
Comemos o pato com brócolis no vapor e um risoto cremoso que desmanchava na minha língua. Conversamos sobre inteligência artificial e sobre o papel do padrão de reconhecimento na educação básica. Quando eu me levantei para tirar a mesa, o chão vacilou sob meus pés. Eu me concentrei em andar com muito cuidado até a pia e comecei a lavar os pratos. Aquela sempre foi uma tarefa minha em casa. Mas Andrew fechou a torneira e me perguntou se eu queria sobremesa.
Ele tinha uma máquina de espresso e disse que queria se exibir. Falei que tomaria um cappuccino e pedi licença para ir ao banheiro.
Olhei para a garota no espelho e disse:
— Calma. Eu vou pra casa.
Então, ouvi Andrew chamar:
— Vem cá! Quero que escute esse CD.
Ele não estava fazendo café nenhum. Estava no quarto, deitado na cama. Tinha tirado os sapatos e usava meias de velho, estampadas com minúsculos tacos de golfe. Andrew estava olhando para o teto e ouvindo alguma coisa muito triste no aparelho de som. Parecia um violoncelo chorando.
— Schumann escreveu essa peça para a esposa, antes de enlouquecer — contou. Então, estendeu a mão.
Fiquei parada na porta.
— Preciso ir para casa, agora.
— Mesmo?
— Sim.
— Prometo que vou levar você para casa — disse ele. — Escute só essa peça.
Ele esperou que eu pegasse a mão dele. Eu peguei.
Deitei na cama ao lado dele, que passou o braço ao meu redor. Ficamos meio de conchinha. Andrew tinha um edredom cinza. Ele era acolhedor como um edredom cinza. Era o meu pai. E ficamos ouvindo a peça musical que Schumann tinha escrito para a esposa. A coisa toda. Amei estar congelada naquele momento, com o hálito de Andrew roçando a minha orelha, ainda doce do vinho, da laranja e do mel. Fiquei olhando para a janela dele, para as luzes da ACM do centro da cidade e tentei ouvir apenas aquele gemido do violoncelo, ver só a luz e a escuridão do céu noturno.
Quando a música parou, Andrew sussurrou contra os meus cabelos:
— O que você quer fazer agora?
Eu queria que ele me abraçasse e que contasse todos os rostos na lua. Ou que me contasse a história de quando eu aprendi a usar hashis quando comemos sopa de noodles no Rockfeller Center. Fechei os olhos e o imaginei sentado em sua poltrona marrom confortável, a barriga quase encostando nos joelhos. Ouvi o bum-squidada-bum-squidada de sua banda de jazz de um homem só.
Mas aquele momento já tinha acontecido, dez anos antes. E Andrew não tinha a barriga do meu pai e não cheirava a cebolas de coquetel e antiácido. Eu não era a garotinha dele e aquela não era a minha casa.
Eu tinha vinte e um anos. Não era uma garotinha de jeito nenhum.
Então, falei:
— Por favor, me leve pra casa, agora.
Senti Andrew suspirar, rolar para o lado e pousar os pés no chão.
— Tudo bem — disse ele.
Andrew se levantou e desligou o som. Não havia mais nada a dizer.
E assim ele me levou para casa.
Abby Sher é escritora e artista performática e mora com a família em Maplewood, em Nova Jersey. Seu livro seguinte, Miss You Love You Hate You Bye, foi lançado em fevereiro de 2020. Esse relato foi publicado em janeiro de 2006.