Modern Love

Daniel Jones · Capítulo 31 de 47

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Modern Love

Adolescência, sem mapa

ADOLESCÊNCIA, SEM

 

MAPA

CLAIRE SCOVELL LAZEBNIK

 

— P ELO MENOS ELE É BONITO — DIGO PARA O MEU marido, sempre que surge o assunto dos futuros namoros do meu filho mais velho. E ele é bonito, o nosso filho, com seus olhos azuis, cabelos ondulados, ombros largos e sorriso caloroso. Ele também tem uma voz profunda (ele se esforça para isso), e é muito gentil. É difícil acreditar que as garotas não irão se apaixonar por ele. E talvez se apaixonem.

Mas ele também tem autismo. Quando está cansado, ou doente, ele esquece as palavras ou as usa de forma incorreta — com frequência ele precisa fazer um esforço enorme só para manter uma conversa. É como se o meu filho não tivesse um idioma nativo e basicamente precisasse decorar o nosso idioma, palavra por palavra.

Agora ele está tentando aprender os nossos hábitos. É possível vê-lo observando ansioso os outros garotos, em busca de dicas e lições, de sinais que ele possas seguir no mundo do adolescente médio. É um mundo do qual ele está desesperado para fazer parte. Ele se veste como eles, adota seus gestos, copia suas grosserias, e até se encharca como eles de desodorante Axe para o corpo todo.

Se estiver no meio de um grupo de adolescentes e eles rirem, meu filho vai rir também, só que um segundo mais tarde e alto demais. Ele sabe que precisa rir para se encaixar no grupo — aprendeu observando. O que meu filho parece não aprender é o que torna as piadas engraçadas e por que todo mundo entende menos ele.

Por um longo tempo, nosso filho foi um menininho com autismo, o que era um determinado tipo de desafio. Agora que ele é um adolescente com autismo — e um adolescente que repara nas garotas —, estamos encarando um desafio completamente diferente.

— Ei, mãe? — me chama ele, quando estamos saindo de uma loja. — Aquela garota é gostosa.

Ele acha que está sussurrando, mas na verdade não está, porque tem problemas com a modulação da voz e também em ouvir como soa a própria voz. A salva-vidas de biquíni, na praia, também é “gostosa”. Assim como a Jessica Alba, cuja foto meu filho imprimiu e colou com todo cuidado no fichário, perto da foto da Keira Knightley.

O termo gostosa deve ter sido uma imitação dos amigos falando, mas sua apreciação por meninas magras com seios grandes parece genuína, como nos demos conta quando descobrimos que ele tinha começado a usar a internet do modo como outros garotos provavelmente só usam quando acham que ninguém está vendo.

Colocamos filtros no navegador da internet, e o pai se sentou com ele para estabelecer algumas regras básicas. Espere até estar apaixonado para fazer sexo. Sempre use preservativo. Esconda a pornografia onde sua mãe não vá encontrar. Ele vai se lembrar de tudo isso porque são regras, e ele é muito bom em se lembrar de regras.

O que vai ser difícil é a outra parte, a emocional.

Sei que meu filho quer encontrar uma garota e se apaixonar. Às vezes, as pessoas dizem que pessoas com autismo são incapazes de amar. Isso é um absurdo. Meu filho ama profundamente. Ele só não se comunica bem. Os instintos a que recorremos quando nos apaixonamos (ser capaz de intuir o que a outra pessoa está pensando, ter consciência de uma súbita conexão, antecipar o desejo da outra pessoa), não são naturais para ele.

Quero que as garotas que meu filho conhecer saibam que, só porque ele fala de um jeito meio estranho e às vezes tem dificuldade de entender o que elas estão dizendo, não significa que ele não seria um ótimo namorado. Quero que elas vejam como o coração dele é bom, como ele jamais as manipularia ou as magoaria, como ele seria grato, gentil e leal. Mas quantas garotas serão capazes de ir além da frustração em relação às deficiências dele para apreciar esse outro lado?

Eu teria sido capaz?

E, de qualquer modo, essas coisas não podem ser forçadas, não importa quanto alguém tenha bom coração.

No último ano, meu filho fez amizade com uma menina que conheceu em uma aula de treinamento de habilidades sociais. Ela era o que nós, no mundo das necessidades especiais, descrevemos como “de baixo funcionamento”. A menina frequentava uma escola para alunos com necessidades especiais, mas mesmo lá se sentia objeto de ridicularização e abuso. Eu nunca soube se os relatos dela de insultos e crueldades eram acurados, mas ouvi meu filho conversando com ela ao telefone, oferecendo seu apoio incondicional.

— Que horror! — bradava ele, depois de ouvir por algum tempo. — Não deviam fazer isso.

Eu o escutava e pensava: “Que mulher não iria querer um homem que a confortasse assim, que estivesse disposto a ouvir e acreditar nela, e que estivesse sempre ao seu lado?” Isso me dava esperança.

Mas, no fim, ele terminou com ela, se é que “terminar” é o termo certo para o fim que eles tiveram. A litania de reclamações da menina acabou entediando meu filho. E, com toda sinceridade, ela não era nem um pouco “gostosa”. Embora meu filho nunca tenha mencionado isso, desconfio que também possa ter sido um fator que influenciou a sua decisão.

Desde então, as únicas garotas que ele convidou para sair estavam no outro extremo do espectro, e todas recusaram gentilmente — na maior parte, até onde eu sei.

Mas ele mira alto. Recentemente, meu filho chamou para sair uma menina que já estava saindo com o astro de atletismo de todo o colégio, um rapaz do oitavo ano, o capitão dos times de beisebol e de basquete. Quando eu sugeri que talvez uma garota como ela estivesse fora do seu alcance, meu filho apenas pareceu confuso. As complexidades sociais da popularidade que separavam os alunos de uma escola em populares e solitários não significavam nada para ele, porque eram conceitos implícitos, não quantificados. A maior parte de nós percebe essas coisas instintivamente. Ele não é capaz.

Obviamente, eu poderia ter me deixado arrasar por essas rejeições, especialmente se ele ficasse arrasado. Mas até agora, meu filho não parece se importar — essa é uma vantagem da falta de noção emocional sua. Mas meu filho ainda é novo, e nenhum dos seus amigos está namorando de verdade, assim, ele provavelmente ainda não se sente tão deslocado. No entanto, me preocupo que as garotas continuem a rejeitá-lo quando ele estiver no ensino médio, e depois na universidade, quando os outros garotos vão começar a formar pares com sucesso. E se ele começar a ter dúvidas se alguém um dia irá amá-lo?

Eu descobri que é possível ensinar um filho a conversar educadamente (faça perguntas, escute com atenção as repostas, então faça mais perguntas), a ser um bom anfitrião (ofereça algo para beber, sugira atividades e escolha uma das atividades que o seu convidado disser que gosta), a agradar os professores (seja pontual, comporte-se bem na aula). Mas como ensiná-lo a se apaixonar por alguém que também o ame? Que regras se pode estabelecer para fazer o coração de alguém saltar quando o vir?

Quando o autismo do nosso filho foi diagnosticado, ele tinha dois anos e meio e não havia um prognóstico claro. Nem sabíamos se ele chegaria a aprender a falar. Mas encontramos pessoas talentosas para trabalhar com ele, que se desenvolveu — lentamente a princípio, então mais rápido. Quando nosso filho se formou no ensino fundamental, não tinha qualquer problema comportamental ou acadêmico discernível.

As pessoas nos parabenizaram. Nosso filho tinha emergido. Alguém encontrou com nossos filhos em uma festa e um amigo mencionou que um deles tinha autismo.

— Qual? — perguntou a pessoa, sinceramente espantada, e ainda achou que fosse a criança errada.

Mas isso, a distância. De perto, fica mais claro que nosso filho se distingue e tem uma deficiência, fundamental e permanentemente. E é de perto que vivem os relacionamentos. De perto é que acontece o amor e tudo o que o envolve. E o sexo? Bem, não é preciso nem dizer.

Isso leva ao que talvez seja a pergunta mais assustadora: o que vai acontecer quando uma garota finalmente disser sim? Um ano ou dois atrás, isso não significaria nada mais do que uma espécie de esplêndida tarde de brincadeiras. Mas eu já ouvi os garotos da turma dele flertando, e já há uma forte entonação sexual. O corpo do meu filho está amadurecendo e, fisicamente, mesmo que não psicologicamente, ele não é mais um menino.

Assim como ele aprendeu a nossa linguagem e os nossos costumes com uma boa dose de trabalho duro e memorização, logo vai ter que aprender como navegar no mundo do sexo. Mas como? Pela imitação e observação? Pelas regras que ensinarmos a ele? Não. Os mesmos garotos que ele observou e imitou para ganhar outras habilidades sociais também vão estar tateando no escuro, atrás de portas fechadas. E nesse jogo em particular eu não vejo o pai dele ou eu dando dicas da beira do campo. Ele realmente vai ter que encontrar o próprio caminho.

Por outro lado, eu o vi enfrentar desafios similares de formas que nunca poderia ter imaginado. Me disseram, por exemplo, que crianças com autismo não conseguem ser empáticas porque são incapazes de perceber e se conectar com o sofrimento de outra pessoa. Ele pode aprender que deve dizer “Isso é terrível!” quando alguém reclama com ele de uma injustiça. Mas a habilidade de notar e reagir às nuances das emoções e humores de outras pessoas supostamente não está em seu repertório. E é verdade que quando meu filho era mais novo eu podia me acabar de chorar na frente dele (algo que infelizmente eu fazia com muita frequência naquela época), e ele simplesmente continuava a brincar, ignorando as minhas emoções.

No entanto, não faz muito tempo, quando eu preparava um lanche na cozinha para todos os meus filhos, que estavam sentados diante da mesa, fazendo o dever de casa, algo naquela situação me fez lembrar da minha mãe, que morrera recentemente, e comecei a chorar baixinho.

Meus três filhos mais novos não perceberam. Mas meu filho levantou a cabeça e perguntou:

— O que foi, mãe? Você está bem? — E foi até mim para me abraçar. Eu literalmente sorri em meio às lágrimas.

De algum modo, ele aprendeu alguma coisa que disseram que não poderia ser ensinada. Vou assumir isso como um bom sinal.

Claire Scovell LaZebnik mora em Los Angeles e é autora de Things I Should Have Known. Este relato foi publicado em outubro de 2005.